segunda-feira, 27 de junho de 2016

A Família Sereno - Influência Política Que Se Mantêm.




                                                                                                     José Pedro de Araújo

          Como já afirmei em algumas oportunidades, o velho Curador foi fundado por gente com pouco dinheiro. Não surgiu, portanto, à sombra de uma grande fazenda ou de um expressivo empreendimento qualquer. A região foi desbravada por gente pobre, mas corajosa e destemida. Afinal, penetrar no âmago daquela floresta fechada e distante era coisa para quem tinha coragem e um grande objetivo na vida. No livro “Viajando do Curador a Presidente Dutra”, no qual tento contar a história da colonização da região do Japão, termo utilizado exatamente para definir um lugar distante de tudo, sobretudo da civilização, trato desse assunto com riqueza de detalhes. No geral, a população que chegava à região provinha de Pastos Bons, Barra do Corda, Caxias, ou, na sua maioria, dos estados nordestinos mais assolados pelas secas periódicas. Sem fortuna, geralmente arrastavam atrás de si uma família numerosa e passavam a residir em uma casa simples, despojada, no mais das vezes construídas por eles próprios.

          O censo de 1950 afirmava que quase 70% da população do Curador provinha de outras plagas, em geral do nordeste. Chegava muita gente por aqui, e como já afirmei também, seria impossível fazer justiça a todos aqueles que participaram ativamente da criação do município do Curador, seja por falta de dados confiáveis, seja, sobretudo, por se tratar de um trabalho hercúleo e que extrapola às minhas forças e à minha competência.

          Feita esta justificativa, passo a me referir a uma família que participa desde sempre e ativamente da vida política, administrativa e empresarial do município de Presidente Dutra: os Sereno.

Nelson Sereno (Acervo de Teresinha Sereno)
Na primeira bancada de vereadores saída das eleições de 25/12/1947, já aparecia o nome de Nelson Sereno. Filho de Pedro Sereno e Felisbela Félix Sereno, Nelson participou ativamente dos primeiros embates políticos travados para se conhecerem os mandatários do novo município. Mas a história política dele começaria anos antes quando foi nomeado interventor para dirigir os destinos do novo município criado. Houve intensa luta política travada entre os grupos que brigavam pela hegemonia política do novo município, ocasionando a substituição de Valdemir B. Falcão, primeiro interventor após a posse provisória do coletor Lúcio Bandeira, por Nelson Sereno. Este ficaria pouco tempo no poder e logo seus adversários conseguiriam recolocar Valdemir Falcão em seu lugar. Mas, Nelson voltaria a ocupar o cargo em nova reviravolta e ficaria lá até próximo às eleições para se conhecer o primeiro prefeito eleito do Curador, assim como os membros da primeira bancada para a câmara municipal. As disputas continuaram, entretanto, e o governo do estado, em vista do clima beligerante instalado próximo às eleições, convidou os dois lados da questão para uma conversa na capital. E dai surgiu um acordo para preservar a segurança da população no pleito que se avizinhava. Nelson Sereno, num gesto de grande dignidade, aceitou entregar o cargo ao governador para que ele nomeasse um interventor à sua escolha. Foi nomeado o Ten. Coronel Antenor Dias de Carvalho, uma das maiores autoridades policiais do estado naquela época. O militar deveria organizar as eleições do município para se conhecer o primeiro prefeito eleito. 

Depois de substituído no cargo de interventor municipal, Nelson Sereno continuou com suas atividades políticas, e anos mais tarde foi eleito vereador logo na primeira legislatura para a câmara municipal, como já enunciei acima. Elegeu-se também para a terceira legislatura, passando ainda a atuar decisivamente na administração de seu irmão Gerson Sereno à frente do município, quando assumiu o posto correspondente à secretaria de governo. Já nesse cargo, foi o principal mentor da criação da guarda municipal do município.

Viveu também a amarga experiência de ser cassado pelos seus confrades da câmara municipal na sua segunda participação como vereador, motivado, segundo o que registra os anais daquela casa, pela sua ausência em todas as reuniões da câmara naquele segundo mandato. Nelson ainda tentou manter-se no cargo que o povo havia lhe confiado alegando insegurança para participar das sessões, uma vez que temia pela sua integridade física; pela sua própria vida, enfim. Mas a alegação não foi aceita pelos outros edis. Nada que nos impressione hoje, afinal, vivíamos um período conturbado, em que a justiça, e a própria razão, estavam sendo constantemente sobrepujadas pela busca do poder de mando a qualquer custo.

No pouco tempo que permaneceu à frente do comando municipal, Nelson Sereno trabalharia junto ao interventor estadual para angariar recursos para o seu município, tendo conseguido importante vitória. No dia 09 de outubro daquele ano, Clodomir Cardoso baixaria o Decreto-Lei de nº 1.061, concedendo auxilio financeiro a diversos municípios, dentro os quais estava contemplado o Curador.

Ao abandonar a política, Nelson Sereno firmou-se como um dos principais empresários da região estabelecendo seu empório comercial na Rua Grande, principal artéria da cidade, local que ainda hoje serve como residência para a sua esposa e para alguns de seus filhos e netos. Foi, portanto, um cidadão que esteve presente ao longo de mais de cinquenta anos nas principais ações municipais, tanto no campo político, quanto no segmento empresarial, como grande empreendedor que era.

Gerson Sereno(Acervo de Terezinha Sereno)
Gerson Sereno, irmão de Nelson, ocupou o cargo de prefeito municipal depois da renúncia de Zeca Freitas, eleito juntamente com ele em uma eleição duríssima no qual tiveram como adversário Honorato Gomes de Gouvêia. O prefeito empossado em razão da renúncia do titular, contudo, não teria paz para administrar o município em decorrência das disputas políticas que em determinado momento conduziram a um desfecho violento. E nesse período de grande turbulência, os dois grupos políticos em disputa se cercaram por inúmeros homens armados, trazendo grande intranquilidade à população. O prefeito municipal criaria então a Guarda Municipal, que ao invés de apaziguar os ânimos, serviu para acirrar mais ainda os ânimos. Esse confronto, que fugia ao limpo e legítimo debate político, culminou com a morte do jovem Acioly Tomás de Barros, atingido por um tiro durante uma das escaramuças havidas entre os dois grupos antagônicos.

 Mesmo com tantos conflitos, o prefeito Gerson Sereno edificou obras de peso para a comunidade, e dentre as mais importantes de sua administração está a instalação da rede elétrica urbana após a aquisição de um grupo gerador e a implantação de 200 postes de aroeira nas principais ruas da cidade. Determinou ainda que o fornecimento de energia domiciliar para cerca de 90 famílias seria feito a expensas do próprio município. De graça, portanto. Na área da educação construiu o Grupo Escolar Dr. Murilo Braga, com 08 salas de aula, uma escola monumental para os padrões da época, além de mais outro colégio no povoado Calumbi. Foi responsável também pela construção do primeiro mercado municipal na sede do município, uma construção simples, sem paredes laterais, protegido por um teto como cobertura, sobre colunas de madeira de lei, e alguns Box individuais.

Pelo que se viu acima, Gerson precisou de muita coragem para tocar a vida administrativa da comunidade. Quando se pensava que tudo ia bem, a calma aparente, entretanto, seria quebrada mais uma vez no pobre município que tentava se organizar. Assim aconteceu quando, em clima de grande emoção, a Câmara Municipal se reuniu no dia 21 de janeiro de 1955 para apreciar e votar as contas do prefeito, relativas ao ano anterior. Atestando o clima de intranquilidade instalado, os vereadores desaprovaram as contas apresentadas, e, ato contínuo, e por proposição oral do vereador Zeca Belizário, decidiram iniciar a votação do afastamento do prefeito eleito, por alegada improbidade administrativa. Como a oposição contava com maioria na casa, o prefeito Gerson Sereno foi afastado do posto, tendo sido substituído pelo então presidente da Câmara Municipal, Sr. Ilídio Fialho de Souza, após lavrada Resolução por aquele sodalício.

O ato, que mais tarde seria considerado irregular pela justiça, fez com que o Sr. Ilídio Fialho ficasse no cargo de mandatário de 21 de janeiro de 1954 a 10 de abril de 1955, quando Gerson Sereno reassumiu o seu mandato acobertado por uma liminar. Voltava Gerson Sereno ao lugar que lhe pertencia por direito. E ficaria lá até o fim do seu mandato, encerrado pouco tempo depois deste último imbróglio. Perdeu, mais uma vez, parte considerável do seu mandato conferido pela soberana vontade do povo de Presidente Dutra, uma vez que, na qualidade de vice-prefeito eleito, ainda demorou a assumir o cargo vago em decorrência da renúncia do prefeito José de Freitas Barros, o Zeca Freitas. Essa situação será relatada em outra crônica.

Gerson Sereno, ou Janico, como era chamado carinhosamente pela população, desenvolveu intensa atividade comercial durante toda a sua vida, constituindo-se em um dos empresários mais importantes da região, e dedicou-se a ela até próximo do seu falecimento. Outro membro da família, Noveli Sereno, filho de Nelson, também ocupou o cargo de vereador no município por algum tempo.

Irene de Oliveira Soares
O município ainda contou com um Sereno na chefia da administração, a prefeita Irene Soares, viúva do ex-prefeito Remy Soares. Expoente desta família que participa ativamente dos embates políticos desde a época da criação do então município de Curador, Irene é sobrinha dos ex-administradores Nelson e Gerson Sereno, e embora tenha contado com a força do nome do ex-prefeito Remy Soares, traz consigo o DNA dos Sereno. Governou o município por dois mandatos sucessivos, de 2005 a 2008, e de 2009 a 2012, e deixou extensa folha de serviços prestados. Ainda atua fortemente na política municipal e tem seu nome ventilado para as próximas eleições, seja como candidata, seja como apoio importante para os candidatos da oposição.

Nelson e Gerson Sereno, que me lembre, possuíam outros irmãos que se dedicaram ao comércio, entre eles Celso e Apolônio, mas estes não enveredaram pelos caminhos da política.


quarta-feira, 22 de junho de 2016

A Família Léda e o Domínio dos Sertões




Família Leão Léda(Acervo F. Léda)



José Pedro Araújo

Pela importância histórica que o clã dos Léda tem na política local, peço licença aos meus dois ou três leitores para regredir um pouco na história e levantar a sua vida pregressa. Tudo isso porque a família objeto deste sucinto e despretensioso texto teve três representantes como principais mandatários do município: Ariston, Adilon e Antenor Léda. Ao mesmo tempo, interessa-nos saber um pouco mais sobre a origem dessa família, em razão das tensões políticas vividas desde os primórdios da nossa história.
Consta que a presença da família Léda no sul e centro sul do Maranhão se deu com a chegada do comerciante português Antônio Rodrigues de Miranda Léda à região. Ao casar-se com a jovem Leocádia, filha do comerciante paulista, radicado em Grajaú, Bento José Moreira, gerou a grande família Léda que se espalhou pelo Maranhão, além de outros estados brasileiros. Um dos filhos advindos dessa união foi Ana Léda, irmã do famoso Leão Léda, maior líder político de Porto da Chapada(como se chamava na época o município de Grajaú), chefe do partido liberal, que travou os maiores embates já registrados no sul do Maranhão, episódios que ficaram conhecidos para os historiadores como a “Questão do Grajaú”, ou a “Guerra do Léda”.
O sangue derramado nessas escaramuças políticas encharcou o chão do sul maranhense e escreveu uma página negra na nossa história. Entretanto, praticamente todos os historiadores marcam posição ao lado dos Léda, atribuindo a violência ao poder discricionário dos políticos assentados nos postos de comando na capital maranhense. Mas, isso é outra história, e não é nosso propósito tratar aqui nesse texto. 
Voltando ao nosso objetivo, trataremos sobre Ana Léda, matriarca nascida no apagar das luzes do século XIX, gerada da união de Antônio Léda com Leocádia Moreira. Ana casou-se com Laurindo Pires de Araújo, e gerou numerosa família, entre estes, Antônio Pires Léda, pai dos três irmãos que viriam, muito mais tarde, tomar assento na cadeira de prefeito de nossa terra.
A região central do Maranhão, na qual se situava o Curador, última fronteira desbravada pelos bandeirantes que partiram de Pastos Bons para se estabelecer no sul e centro sul do estado, era uma região de difícil acesso, protegida por inúmeras tribos guerreiras e por uma floresta densa e, por isso mesmo, de difícil acesso. E essas dificuldades se viam aumentadas de forma drástica pela ausência de um dreno fluvial, um rio perene, que permitisse acessá-la com maior facilidade. Todos esses impedimentos acobertavam uma região de solo fertilíssimo, com excelente índice pluviométrico, e estrategicamente situada entre os rios Itapecuru e Mearim. Foi essa região de terras excelentes, incultas e devolutas que atraiu os irmãos Léda.
Ariston Léda
Ariston Arruda Léda, o mais velho, situou-se na região de abrangência do Curador, distante da sua sede, Barra do Corda, mais de cem quilômetros. Não no maior povoado da região, o Curador, mas escolheu para sua morada outra povoação, conhecida como Tuntum.
O sangue dos Léda que corria pelas veias de Ariston, continha aditivos próprios da família, o que sempre empurrava seus membros em direção à política partidária.  E Ariston não se fez de rogado. Logo no primeiro embate eleitoral no recém-criado município do Curador, em 19 janeiro de 1948, apresentou o seu nome para concorrer naquele pleito contra Virgulino Cirilo de Sousa, cidadão residente no povoado do Curador. Começava ali um dos períodos mais conturbados da nossa história. Depois de uma campanha difícil, na apuração dos votos dos 800 eleitores que compareceram às urnas, em pleito presidido pelo juiz Raul Porciúncula, o resultado encontrado gerou profundo debate, e os apontavam para uma vitória do adversário de Ariston. Deste modo, o resultado final só foi conhecido depois de passar pelo crivo do Tribunal Regional Eleitoral do Maranhão, que reconheceu Ariston Léda como vencedor. Não me cabe aqui emitir juízo de valor sobre o resultado real daquele pleito, como também dos outros que lhe sucederam. O que, naquele tempo reinava entre nós o “vitorinismo”, nome atribuído ao espaço de tempo em que comandou a política estadual o pernambucano Vitorino de Brito Freire.
Ariston Léda era um político sagaz, articulado, e devotava a maior parte do seu tempo ao mister. Para isto, era apoiado por forças poderosas em São Luís, a começar pelo seu cunhado, José Martins Dourado, deputado estadual. E coube a ele instalação da estrutura física e administrativa para viabilizar o funcionamento do novo município. Naqueles tempos as verbas públicas destinadas aos municípios eram irrisórias, o que mostra o quão difícil foi o início da caminhada. Como não se tinha ainda o Fundo de Participação dos Municípios, o ICMS, ou mesmos os tais fundos constitucionais, os repasses do SUS ou do Fundeb, entre eles, vivia-se à espera da boa vontade dos governadores para se conseguir algum repasse de dinheiro. Paralelo a isto, Ariston ainda lutava para criar um município novo, retirando do território do Curador, o seu maior naco. Quase 70% do território passaria a fazer parte do novo município. Mas, como afirma o historiador, professor e articulista do blog Bate Tuntum, Jean Carlos Gonçalves, a propósito de um depoimento colhido de um cidadão que vivenciou os problemas da época: “Enquanto os Serenos e os Gomes de Gouvêia travavam o embate pelo controle do poder, Ariston contratou secretamente um topógrafo em São Luís para percorrer e traçar as linhas limítrofes do mapa que viria constituir no território de Tuntum”.
Ninguém reclamou, pelo que se saiba, desta violência, menos ainda o prefeito de Presidente Dutra na época, que era seu aliado. E o seguinte, seu irmão.
No pleito para eleger o seu sucessor, a temperatura política aumentou ainda mais, ocasião em que foi eleito o comerciante José de Freitas Barros, tendo como vice-prefeito o senhor Gerson Sereno. E pela oposição concorria o agro-pecuarista Honorato Gomes de Gouvêia, que abandonara o seu grupo político pouco antes. Ariston elegeu-se vereador e assumiu a presidência da câmara municipal na sua segunda legislatura, e ainda elegeu-se vereador mais uma vez, para a terceira legislatura da câmara. Mas, este mandato ele deixou sem terminar, pois concorreu e ganhou as eleições municipais para prefeito do novo município de Tuntum, desmembrado do Curador. O conturbado período administrativo de Zeca Freitas vai ser relatado em outra crônica sobre a família Sereno.
Adilon Léda
Adilon Arruda Léda foi o segundo membro da família a tomar assento na cadeira de prefeito municipal do agora município de Presidente Dutra. E o terceiro prefeito eleito por sufrágio popular. Esse foi um período relativamente tranquilo para os moldes que a política local ia tomando. E em sendo assim, Adir Léda, como era conhecido, teve tempo para se dedicar mais à administração do município.
A construção de escolas, especialmente nos povoados maiores, como Angical e São José dos Basílios foi uma das metas alcançadas pelo prefeito, que ainda deixou para a posteridade uma das suas obras mais importantes, o Açude Grande do Crioli do Joviniano. Essa obra se revestiu de grande importância para aquela região já densamente ocupada, mas que não tinha um só rio permanente, e que, por isso mesmo, padecia de enorme falta do produto no período de estiagem.
Quando menino, visto que meu pai tinha relações estreitas com aquele povoado, e possuía uma filial do seu comércio ali, observei, sobretudo aos sábados, que uma quantidade imensa de lavadeiras que se deslocavam em suas montarias dos inúmeros povoados circundantes, para lavar a roupa da família no Açude Grande. A sua longa parede, transformava-se num tapete de cores diversas, em razão das roupas estendidas para quarar ou secar ao sol naqueles dias. Também nesse período teve início à construção de Brasília, o que provocou grande êxodo de presidutrenses para lá.
Antenor Arruda Léda foi o terceiro dos irmãos Léda a assumir os destinos do município querido. A família já se encontrava em franco declínio político, e a política local já estava sob o domínio do grupo de Valeriano Américo.
Antenor Léda
Antenor Léda foi eleito em uma grande composição política firmada entre as facções situacionista e da oposição. E foi esta a única vez em que isto aconteceu. Antenor, mostrando a sua boa relação com os grupos que normalmente se digladiavam na política local, foi candidato único e, naturalmente, eleito. Seu governo teve um período mais curto, com vistas à adequação do novo calendário eleitoral.
Antenor era coletor estadual e teve como vice-prefeito, o empresário Nelson Barros Falcão, primo deste escriba. Foi também mais um dos irmãos Léda, o terceiro, a assumir os destinos do município. Diferentemente das eleições anteriores, como só tínhamos um candidato, foi naturalmente uma eleição tranquila, apenas para se cumprir tabela.
Mas, mal começou a sua administração, os problemas com o grupo dos Américo de Oliveira começaram a aparecer, culminando com o rompimento pouco tempo depois. Como o prefeito perdeu apoio de um grupo de vereadores, as escaramuças políticas voltaram ao padrão anterior. Mesmo assim, no que pese a perda da paz para administrar o município, Antenor Léda proporcionou a realização de grandes obras e viu surgir no seu tempo de prefeito grandes ganhos para a região. Como a chegada do Banco do Brasil e da agência do regional INPS, por exemplo.
Todavia, a sua administração ficou marcada para sempre pela instalação de linhas telefônicas na cidade, e pela implantação do novo sistema elétrico que cobria todo o dia, abolindo o velho sistema com postes de madeira e o fornecimento de energia apenas durante uma parte da noite. Atrevo-me a dizer que começou ali o florescimento do comércio na região. Por conta disso, já era possível se ter uma geladeira elétrica em casa, mudando também o velho hábito da se tomar água apenas resfriada, coletada em potes de barro e jarras. O velho ferro de engomar a carvão também foi esquecido. Começava um novo tempo para as famílias presidutrenses.  

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Os Américo de Oliveira - Uma Nova Alternativa de Poder




José Pedro Araújo
 
No período intermediário, entre os primórdios do Curador e os tempos mais recentes, contemporâneos, comandou politicamente o município o grupo familiar dos Américo de Oliveira. Mas, mesmo antes, quando os combates políticos começaram a se agigantar na escolha dos mandatários do município, lá já tinha um deles.  Originários do Piauí, mais precisamente da região de São Raimundo Nonato, de um povoado hoje pertencente ao município de Dom Inocêncio, esta família chegou às terras do Curador e fixou-se definitivamente na região. Corria o ano de 1927, ou um pouquinho depois, quando não passávamos de uma obscura Vila, posto que ainda pertencíamos territorialmente ao município de Barra do Corda.

Acostumado à vida dura que levava na sua terra natal, onde a falta de chuvas deixava o chão seco, esturricado, o chefe do clã familiar, Vicente Américo de Oliveira, encontrou no novo território todas as dificuldades de uma povoação que distava mais de cem quilômetros da sua sede. Nada, contudo, que lhe fosse mais difícil do que viver no semiárido piauiense. Sem estradas trafegáveis, a ligação com os demais municípios era feita no lombo de animais naquele tempo, inclusive o transporte de cargas. E foi essa profissão que o patriarca familiar adotou como forma de vida, passando a labutar como tropeiro. Trabalhador incansável, enquanto se recuperava das viagens longas e difíceis, o jovem pai de família explorava paralelamente as terras da fazenda Lagoa Grande, adquirida quando chegou à região, e aonde situou a imensa família.

Anos depois, com a instalação do novo município em junho de 1944, o dinâmico, e já bem situado Vicente Américo, candidatou-se às primeiras eleições legislativas do Curador. E teve êxito logo na primeira tentativa, passando a fazer parte, portanto, da sua primeira bancada. Foi vereador por sete mandatos consecutivos, encerrando a sua vida legislativa em 1972, já com idade bastante avançada. Enquanto isso, outro membro da família dava início à carreira política: Valeriano Américo de Oliveira. E se manteria ativo como uma das maiores lideranças políticas da região até os dias de hoje, quando já passa dos 90 anos de idade. É sobre esse membro ilustre da família que teceremos nossas considerações daqui para frente.


Valeriano Américo foi desde muito jovem um homem que viu suas possibilidades aparecerem longe do amanho da terra, como era praxe acontecer com o clã desde os seus primórdios, ainda quando exploravam a fazendinha da família no Povoado Moreira, situado no centro geográfico do hoje município de Dom Inocêncio, bem próximo ao estado da Bahia. Inteligente, articulado, logo abraçou a carreira jurídica, provisionando-se como advogado. Foi ainda juiz-substituto e tabelião, antes de assumir um cargo na receita federal, no qual trabalhou até a sua aposentadoria. Mas foi como político que Valeriano se destacou na vida pública. Vice-prefeito por duas vezes, já por esse tempo começou a organizar o seu próprio grupo político, posição que, aliás, o conduziria por duas vezes, e pessoalmente, ao comando político da municipalidade: a primeira delas em 1966, e a segunda em 1973. Mas, mostrando a sua força e carisma junto à população, ainda conseguiu eleger dois aliados, intercalando seus próprios mandatos: Antenor Arruda Leda e Lindomar Lucena de Lima. Antenor Leda, em uma ampla composição política com a oposição, caso raro até então, para um mandato tampão de aproximadamente três anos. E Lindomar Lucena, somente com a força política do seu grupo.


Com os ventos mudancistas que sopraram sobre o município, quando a oposição elegeu o seu primeiro prefeito depois de anos tentando, foi Valeriano Américo o candidato derrotado pelo furação eleitoral Remy Soares. Mas, como já afirmei anteriormente, Valeriano é um político habilidoso, estrategista dos mais competentes e por isso mesmo conseguiu se manter ativo e influente por todos esses anos. Seguindo aquela máxima que diz “se não te achas com força suficiente para derrotar o teu adversário, alia-te a ele”, aliou-se aos antigos adversários para vencer as eleições municipais de 1996. Sua esposa, Eleusina Carvalho de Oliveira, mulher ativa e que exerceu forte influência nos dois mandatos eletivos do marido, compôs a chapa oposicionista com o próprio Remy Soares, na condição de candidata a vice-prefeita. Venceram o candidato da situação, Joaquim Nunes Figueiredo, candidato apoiado pelo prefeito Jurandy Carvalho e por seu grupo político, também conhecido como Arapuás.

O destino mais uma vez pesou a sua mão sobre os políticos jovens do velho Curador, e num acidente tenebroso, levou o prefeito Remy Soares, situação que permitiu à vice-prefeita ascender ao posto maior na política municipal. Voltava ao topo o grupo do ex-prefeito Valeriano Américo. E de volta ao centro do jogo político, conduziu novamente as coisas da forma que mais sabe fazer: com habilidade e profundo conhecimento sobre o assunto. E nessa condição, deu mais uma guinada, passando a poiar o candidato apresentado pelo esquema político agora conduzido por Jurandy Carvalho e o grupo Arapuá, agora já sem o irmão Jean. Incluiu, todavia, na chapa que venceria o pleito, o amigo e protegido político, Wilson Oliveira Silva. Não deu outra. 

Hoje, no que pese afirmar que está aposentado da política, Valeriano Américo de Oliveira mantém-se no centro das grandes decisões políticas no município. Seu grupo político na verdade enfraqueceu, como é natural em política, em que o próprio tempo se encarrega de debilitar uns e fortalecer outros, ocasião em que surgem novas lideranças para ocupar os espaços deixados por aqueles que perderam forças. Recentemente, o jornalista Celso Nogueira publicou uma fotografia do velho líder transitando pelo Mercado Central da cidade, elegantemente vestido com um blazer bem vistoso, conversando tranquilamente com os feirantes como se nada de melhor tivesse para fazer. “Mais perguntando do que respondendo” como afirma o jornalista. Ele, na verdade, estava exercitando o que mais gosta de fazer: conversar com povão para sentir a temperatura política do momento. Ou seja, gosta de beber na própria fonte, e sentir, ao ar livre, os rumos que o vento está tomando.

Quando colhia material para o meu livro sobre Presidente Dutra, estive por diversas vezes na sua casa à procura de informações. Fui otimamente recebido, tratado daquele modo gentil com ele costuma se dirigir às pessoas. E foi ele um dos meus maiores incentivadores e informantes, fazendo-se presente, inclusive, no lançamento do livro na AABB. Fazia anos que não me colocava frente a frente com essa águia política que é Valeriano Américo de Oliveira. Gostei muito desse tete a tete, de sentir aqueles olhos calmos, perscrutadores, sobre mim, por trás daqueles óculos pesados. Pelo que senti, ele consegue ver algo que ninguém vê quando os fixa em alguém. Aprendeu, como ninguém, a investigar, e desnudar, a alma humana com um simples olhar.

Hoje, Valeriano Américo de Oliveira passa a maior parte do seu tempo em casa, em família, recebendo ainda muitas visitas, a maioria para conversar sobre política ou para tratar de alguma causa jurídica, pois ainda põe seus conhecimentos advocatícios em favor de algumas pessoas, em geral, sem cobrar honorários. E nessas causas, sobressai-se o defensor poderoso que sempre foi, advogado dos mais preparados, e duro na defesa de seus constituintes. 

Aos amigos que se se baterão no próximo pleito eleitoral que acontece antes que este ano tenha fim, um aviso: prestem bem atenção em qual palanque o decano da política presidutrense estará durante a campanha. O normal é que ele sempre esteja no palanque dos que vencerão.