quinta-feira, 30 de abril de 2015

Sinos da Minha Aldeia

Fotografia by Carlos Magno


O título acima tomei emprestado de um belo poema do Fernando Pessoa, cuja primeira estrofe descrevo abaixo:
Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

                Assim como o vate português, guardadas as devidas proporções, também me encantei com as badaladas dos sinos da Igreja de São de Sebastião. Sobretudo quando chamava os fieis para a missa dominical. Acionados de forma alternada, os sinos iam misturando os vários sons, formando bela algaravia sonora.
                Sempre tive, também, curiosidade em saber quando e onde eles foram feitos. Em recente viagem à minha querência, contatei com o vigário responsável pela paróquia para lhe pedir autorização para subir no alto da torre e fazer algumas fotos. Nessa empreitada, contei com a ajuda do Carlos Magno, amigo e interessado pelas coisas da terra. Precisávamos subir naquelas alturas e já não está mais entre as minhas possibilidades, um esforço daquela magnitude. Mas, além de fotos impressionantes, descobrimos mais algumas outras coisas importantes. Como, por exemplo, que os admiráveis sinos foram fabricados em 1955, na Itália. Mais precisamente em Milão. Com essas informações, fui às pesquisas. Coisa que sempre faço antes de começar uma crônica. E descobri coisas impressionantes sobre a Fundição Barigozzi, fabricante dos sinos da torre de São Sebastião do Curador.  
A fundição responsável pela fabricação dos nossos sinos foi criada em 1806, pela família Manfredini, e depois adquirida pela família Barigozzi. Atestando a sua importância, foi responsável pela confecção dos sinos de muitas igrejas históricas na Itália, algumas delas eu tive a felicidade de conhecer quando por lá passei. Alguns exemplos: no alto do campanário da histórica igreja Santa Maria del Fiori, Catedral de Florença, construída pelo incensado Giotto, batem sinos fabricados pela fundição Barigozzi. Do mesmo modo, somente para citar mais um exemplo da importância dessa fundição, após um colapso nos sinos da Igreja de San Marco em 1902, em Veneza, a fundição Fratelli Barigozzi foi chamada para substituí-los por outros. Também tive a felicidade de conhecer o Campanário de San Marco de perto. Muito de perto mesmo, pois subi no alto daquela torre para vislumbrar a bela paisagem de Veneza. Trata-se de um programa imperdível e que atrai uma quantidade muito grande de turistas. Daí se enfrentar filas imensas para conhecer a cidade construída sobre as águas, lá do alto.

Imagem da Fundição Fratelli Barigozzi

Outro trabalho importante da fundição já citada foi a fusão da estátua equestre de Garibaldi, na cidade de Verona, em 1886. Garibaldi, para quem não se recorda, teve influência decisiva na guerra farroupilha no Rio Grande do Sul, e aqui conheceu a mulher que o acompanharia na sua jornada revolucionária, Anita Garibaldi. E por também participar ativamente da reunificação da Itália, é chamado de “herói de dois mundos”.
                Um reparo: quando fui a Itália não sabia ainda que os sinos que tocam no alto do campanário da Igreja de São Sebastião, em Presidente Dutra, haviam sido fabricados pela mesma fundição que fez os icônicos carrilhões de San Marco e Santa Maria del Fiori. Pena. Teria tido muito mais prazer em conhecer tudo aquilo.
                A Fundição Fratelli Barigozzi encerrou as suas atividades em 1975. É hoje parte da história.
               

domingo, 26 de abril de 2015

Enfim, o pijama!


          Já disseram que a vida é uma escola. E termina por ser. Mesmo. Nascemos, aprendemos de tudo um pouco para podermos sobreviver nesse mundo de meu Deus. A mamar, nosso alimento primeiro; a andar, para não nos comportarmos como os primatas; a falar, para nos comunicarmos em um idioma falado pelos nossos; aprendemos, aprendemos, aprendemos… sobre tudo, enfim. Certo dia, recebemos um canudo de uma universidade qualquer e, achamos que estamos prontos para a vida. Ledo engano. A aprendizagem continua pelo resto dela. Até que recebamos o chamado definitivo.
          Comigo aconteceu assim também. Aprendi o trivial para sobreviver, aprendi uma profissão para ganhar o sustento. Escolhi uma mulher para seguir comigo a longa caminhada e, desta escolha, apareceram alguns rebentos para engrossar a comitiva e tornar a viagem mais doce e amena. Enfim, estava completo o grupo. Completo, eu disse? Que nada. Começou a entrar gente nova na família. Os sobrinhos, os filhos dos amigos, as noras, os netos. Acho que a comitiva nunca vai parar de aumentar. É certo que alguns vão ficar pelo caminho. Acredito até mesmo que serei o primeiro a deixar o grupo. Assim espero.
          Bom, quando comecei o texto não queria falar de chegadas e partidas. Queria falar que, após trinta e seis anos de prestação de serviços, enfim chegou a hora de pegar o meu boné e me separar dos colegas de trabalho. Sempre sonhei com esse dia. Queria não mais cumprir horário, prestar contas a ninguém, nunca mais ser cobrado por ninguém. Leria compulsivamente todos os livros que sempre quis ler, mas não encontrava tempo.
          Estou preocupado. Afinal, diariamente chegam centenas de novos e bons livros nas livrarias. Acho que sempre ficarei com aquele sentimento de que preciso de mais tempo para por a leitura em dia.
          Ainda não me desvinculei também completamente da rotina do trabalho. Pelo menos espiritualmente. Às vezes sonho com os preparativos de uma viagem a trabalho. Outras noites, sonho que se não me apressar chegarei tarde ao serviço. Ai acontece aquele estresse habitual. O fato é que ainda estou umbilicalmente unido com a rotina que construí durante trinta e seis anos.
          Aposentados têm suas regalias, dizem todos. Têm uma porção de leis a protegê-lo. Tem até lugar especial para estacionar, grande vantagem em uma cidade que está cada vez mais difícil encontrar uma vaga para deixar o carro. Tem também lugar especial em todas as filas que temos que enfrentar para viver comunitariamente. Mas, sabem, não consegui ainda usufruir dessas benesses. Tenho vergonha de chegar a um lugar e ir passando à frente de todo mundo que já se achava ali há muito tempo. E quando minha mulher reclama que eu não estou usando das minhas prerrogativas de sessentão, respondo inflamado: enquanto tiver força nas pernas não tomarei o lugar de ninguém nas filas!
          Acho que ainda não me aposentei. Mentalmente, pelo menos. E espero que isso ainda demore a acontecer. Porquanto, assim, sinto-me com forças nas pernas…

* Texto originalmente publicado no site Palavrasprabeber (www.palavrasprabeber.com.br)

quarta-feira, 22 de abril de 2015

A morte do mamulengo



                                                         (José Pedro Araújo)
 
            Analisando de forma dramática, Presidente Dutra é uma cidade onde a tragédia vez por outra atinge dolorosamente a sua população. O que chama mais atenção é que o número de acontecimentos eivados desse componente de cunho involuntário é muito grande se comparado com municípios do mesmo porte do nosso. Assim, a quantidade de casos violentos que têm atingido as famílias presidutrenses, deixando um rastro de dor que termina atingindo toda a comunidade, solidariamente, é espantosa.

            Alerto que o objeto da presente recordação, é não permitir que fatos que tanto abalaram nosso povo escapem-nos da memória ou vá conosco quando daqui tivermos partido, caindo para sempre no anonimato.

            Dito isto, passamos a noticiar uma tragédia que ficou conhecido como “O caso do mamulengo”. Mamulengo é aquele boneco usado por artistas, especialmente ventríloquos, para contar estórias do quotidiano de forma romanceada, divertindo adultos e crianças com o seu jeito engraçado de representar. Esses artistas, normalmente, fazem parte de uma trupe de saltimbancos, artistas circenses que saem pelo mundo a mostrar a sua arte de bem representar em troca de alguns trocados. Apresentam-se em salões, teatros, circos, ou mesmo em pequenos espaços públicos, de acordo com o tamanho e a importância do grupo, utilizando uma pequena cortina, e por trás dela, ficam os verdadeiros artistas manejando os bonecos com as mãos e emitindo suas falas. Trata-se de um espetáculo muito bonito, que encanta plateias, e de um modo muito especial, as crianças. Quem não se lembra do boneco Cassimiro-Coco, aquele pequeno pretinho sapeca da nossa infância?

Mas, vamos ao caso a que nos propomos. 
Certa época apareceu na cidade um grupo relativamente grande desses artistas mambembes para fazer algumas apresentações. Cidade com poucas atrações artísticas, logo o grupo ganhou a admiração dos nativos pela competência e beleza do espetáculo apresentado. Seu líder, o artista de maior performance, ganhou logo status de grande ídolo em meio a molecada. Era casa cheia toda noite. E enquanto o público responde ao chamamento desses pequenos grupos teatrais, gerando-lhe renda em troca de espetáculo, eles vão ficando mais um pouco, pois não têm prazo marcado para chegar ou sair de uma cidade. Quem determina isso é o público.Ou a falta dele.

Foi o que aconteceu com o grupo a que nos referimos.  Como ainda contavam com bilheteria completa, foram dilatando a sua presença entre nós. Acontece que, igualmente às histórias que eles contavam de heróis e heroínas, mas também de invejosos, malfeitores e traidores, no grupo também existia um indivíduo que incorporava a história do mau caráter clássico. Ele logo mostraria a sua cara.

Planejando o deslocamento para a próxima cidade, o proprietário e principal artista do grupo foi a Dom Pedro, cidade vizinha, escolher o local onde eles se apresentariam quando lá chegassem. Na viagem, levou consigo outro artista que lhe era da mais perfeita confiança.

Cumprida a missão na parte da tarde, resolveram retornar para Presidente Dutra a tempo de apresentar o espetáculo da noite. Mas, somente um dos homens retornou à cidade: o empregado. 
Quando perguntado pelo líder do grupo, respondeu o moço que ele o incumbiu de voltar mais cedo para organizar a apresentação da noite, uma vez que ainda tinha algumas coisas a fazer na cidade vizinha.

Mas a noite chegou, e nada do homem voltar. Já no auge da preocupação, um pequeno grupo resolveu ir a Dom Pedro para verificar o que de fato havia acontecido com o chefe, pois ele jamais faltava a seus espetáculos.

Ainda no caminho entre as duas cidades, em um baixão escuro, de árvores muito altas, avistaram um grupo de pessoas com lamparinas nas mãos observando alguma coisa. Aproximaram-se cautelosamente de onde o grupo se encontrava e logo tomaram ciência de que eram moradores da região e que estavam ali porque alguns cachorros haviam encontrado um corpo semienterrado de uma pessoa, sem a cabeça. Preocupados com a notícia, logo pediram para ver o corpo que se encontrava ainda fora da estrada, no mesmo local onde fora encontrado. Não tardaram a se deparar com a cena dantesca. E mesmo achando parecido com o corpo do homem que procuravam, não tiveram certeza naquele instante porque o mesmo estava sem a cabeça, além de se encontrar completamente nu.

Estavam naquele impasse, quando os cachorros que haviam identificado o corpo latiram mais uma vez a pouco mais de cinquenta metros de onde eles se encontravam. Haviam achado a cabeça enterrada sob um cupinzeiro. Não havia mais dúvidas sobre a quem pertencia aquele corpo. O desespero caiu sobre o grupo.

Para a polícia, o primeiro suspeito do crime é a última pessoa com quem a vítima foi vista conversando. E nesse caso, a suspeita recaiu sobre o próprio companheiro de viagem do operador de mamulengo. Não foi difícil para eles provarem que o assassino era de fato o rapaz. Depois de alguns apertos, ele confessou que sempre invejara seu chefe e há muito vinha planejando sua morte para poder ficar com a companhia de bonecos. Naquele dia, naquele lugar sombrio, vislumbrara o momento ideal. O único problema foi que como não possuía uma ferramenta para cavar o chão duro, abriu a cova com as próprias mãos, deixando-a muita rasa. Resolveu então decepar a cabeça da vítima e retirar suas roupas para evitar seu reconhecimento, caso fosse encontrado.

Mas não contava com o faro dos cachorros que viviam em local muito próximo dali.

No local da tragédia alguma alma boa erigiu um madeiro tosco para testemunhar que naquele lugar a inveja havia feito mais uma vítima. Andar por ali à noite era amedrontador. Aquele baixão escuro e lúgubre, entremeado por palmeiras babaçu e árvores muito altas, provocava medo em muita gente que tinha que por ali passar.


segunda-feira, 20 de abril de 2015

Água - a fonte vai secar?





Há dias venho pensando em escrever algo sobre esse bem de valor tão significativo para todos nós. Mas escrever o quê, se quase tudo já foi dito sobre ela. Água, aliás, é uma coisa tão comum na vida das pessoas que ao nascermos já temos o nosso primeiro contato com ela. E depois passamos o resto das nossas vidas mantendo uma relação estreita e diária com esse elemento natural. De mais a mais, somos praticamente todo composto por água, uma vez que 70% do nosso corpo é feito desse liquido essencial.
                Então, por que damos tão pouca importância à preservação desta riqueza que é limitante à própria vida? Se tanto o ser humano, ou mesmo animais irracionais, e as plantas, alimentícias ou não, dependem 100% dela para sobreviver, por que tanto descaso?
                Nasci no limite da região nordestina, na confluência entre o nordeste sem chuvas e o norte úmido e chuvoso. Presenciei invernos tenebrosos com chuvas torrenciais que levavam dias caindo sem parar. E talvez, por conta disso, não soubesse identificar a importância de uma boa chuva em regiões como a do semiárido nordestino. Isso só fui saber quando comecei a viajar para essa região, por obrigações relativas ao meu trabalho. Foi um choque muito grande, o que senti. A luta diária das famílias em busca de uma pequena quantidade de água para fazer face às suas necessidades mais elementares causou em mim um profundo sentimento do tipo “eu era feliz e não sabia”.
                Certo dia, ouvi de um pequeno agricultor da caatinga a frase: “a água é o sangue da terra”. E justificou depois dizendo que sem ela nenhuma planta subsistiria. 
                A natureza foi pródiga com o Brasil, costumamos ouvir. Aqui não temos terremotos, maremotos, e a água é abundante, nunca vai nos faltar. É bom pararmos com isso. É certo que temos uma rede hidráulica espetacular, mas essa fica concentrada em algumas regiões, como o Norte, em especial, o Centro-Oeste e o Sul. No Nordeste já não temos tantos rios caudalosos assim. Mais. Em grande parte desta região brasileira não temos rios perenes. A luta diária, por conseguinte, de parcela considerável da população brasileira por água é uma constatação. A figura dos caminhões pipa e dos jegues com suas ancoretas de água no lombo é presença constante nos jornais televisivos mal a temporada de chuvas vai embora.
                Agora o assunto tomou grande importância. Estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais entraram na luta pela economia de água. Choveu pouco nas nascentes dos rios que abastecem as nossas maiores metrópoles, dizem. Somente isso? Será que não faltou um pouco de responsabilidade, de parte a parte, na preservação desse bem tão importante e vital? Mas ninguém quer assumir a culpa pelo erro. Nem gestores, nem muito menos os consumidores que desperdiçam centenas de litros do precioso liquido lavando calçadas ou limpando seus vistosos e potentes veículos automotor.
Mas um culpado, pelo menos, já encontramos. A agricultura. Essa desperdiça água demais em irrigação. Mas foi na frase de um técnico da Embrapa que encontrei a resposta mais acertada para essa acusação: “A água que entra na cidade vira lixo e poluição. Na agricultura, quando entra poluída, sai potável”. Mais ou menos assim, eu diria. Não totalmente assim.
                O certo mesmo é que o brasileiro não se deu conta ainda que a água é um bem finito, como tudo o que a natureza nos propicia. Não temos a cultura de preservar os nossos mananciais e muito menos sabemos economizar aquilo que nos chega confortavelmente pelas torneiras. Mas o tempo do desperdício já passou. Já imaginaram a logísticas que será necessária para se abastecer uma população de cerca de 20 milhões de pessoas, somente na grande São Paulo! Haja carro pipa, burro aguadeiro ou outra forma qualquer de transporte de água. Seria contraproducente viver na Paulicéia desvairada nessas condições. Jamais atenderíamos a população total dessa região. E se somarmos as outras metrópoles... Nem seria bom pensar.
                A história nos dá conta de que civilizações hegemônicas em épocas passadas foram completamente dizimadas em razão da falta de água. Historiadores andam descobrindo civilizações monumentais que foram varridas completamente da face da terra em razão de alterações climáticas. É o caso da Civilização do Vale do Indo, que habitou extensa região da Índia Moderna e do Paquistão ai por volta de 3300 a 1300 A.C. Tinham na agricultura, na caça e na coleta de frutos, o seu principal sustentáculo. Desapareceu quando o regime das monções se alterou e os rios já não fertilizavam a terra em decorrência da falta de enchentes. Aqui na América, os antigos Puebloans habitavam vasta região entre os EUA e o México entre 1.200 A.C. a 1.150 D.C.  Historiadores atestam que essa civilização hoje desaparecida tinha grande preocupação com o meio ambiente e praticava uma agricultura muito desenvolvida para a época. Desapareceu quando a água começou a rarear na região por eles ocupada.
                A história relata ainda que a primeira guerra provocada pela posse de um manancial hídrico se deu entre os Sumérios(Iraque moderno), por volta de 2.500 A. C. E que o fato se deu quando o rei da cidade-estado de Lagash desviou o curso do rio Eufrates, deixando a população da outra cidade-estado, Umma, sem água.
                Nos tempos atuais a água tem sido alvo de disputa entre nações e entre povos de uma mesma nação. O “novo petróleo”, como já é chamada, tem aumentado o clima beligerante entre nações de todas as regiões do planeta. Acredita-se, por exemplo, que a China invadiu e se apropriou do Tibete para ter completo controle sobre as águas das geleiras do Himalaia, que abastecem todos os rios da região. A África, região em permanente clima de confrontação entre povos e etnias, o tema água, ou mais propriamente a falta dela, tem levado muitas nações ao conflito armado. Desde 1963, o Sudão e o Sudão do Sul tem travado uma guerra fratricida pelo controle da água, provocando a morte de milhões de pessoas.
                Por aqui, logo teremos também os nossos problemas em razão da escassez desse produto tão necessário. Recentemente os estado de São Paulo e Rio de Janeiro travaram na justiça uma verdadeira guerra pela utilização das águas do rio Paraíba do Sul. Os cariocas temem que os paulistas possam comprometer o abastecimento da população de seu estado ao promover a captação de um grande volume de água daquele manancial. Tudo isso se dá porque não fizeram o dever de casa. A cidade de São Paulo, por exemplo, é cortada por dois extensos e caudalosos rios: o Tietê e o Pinheiros. Suas águas, entretanto, não podem ser utilizadas porque perderam a sua potabilidade. Estes dois rios hoje são esgotos a céu aberto.
O que dizer de um povo que emporcalha a sua principal riqueza? Cito São Paulo apenas porque é o estado que atualmente passa pelos piores problemas decorrentes da falta de água. Mas, aqui mesmo em nosso meio também temos alarmante exemplo da falta de gestão da água.  O rio Poti já possui alto grau de poluição das suas águas e elas não se prestam mais ao consumo humano. E o Parnaíba, segundo maior rio nordestino em importância? Este, agoniza há anos sem que as autoridades façam nada para reverter a sua situação de moribundo prestes a expirar. Aqui o agravante é enorme. A maior parte da população do estado BEBE diretamente da água desse rio.
                Pobre de um povo que não cuida dos seus próprios interesses. Logo estaremos chorando o leite derramado, ou mais propriamente, a água desperdiçada.
Para lição de casa: reduza em cinco minutos o tempo de banho; mantenha fechada a torneira enquanto escova os dentes; faça o mesmo com o chuveiro, enquanto se ensaboa; repita isso ao ensaboar pratos e talheres; use água de um balde ao lavar o carro; use regadores ao molhar as plantas do jardim; e, principalmente, dê uma destinação correta ao lixo que você produz. Somente com esses pequenos gestos estaremos contribuindo enormemente com a preservação e conservação da nossa água e, também, da nossa espécie.  

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Com a cama ao relento




                Certa vez tive que por em prática a minha formação de profissional da agronomia em um lugar extremamente adverso. Havia sido enviado para as caatingas de São João do Piauí para vistoriar um imóvel rural com o propósito de desapropriá-lo por interesse social. Para quem não sabe, o município em questão fica situado no centro da região que menos chove no Estado. Lá chegando, deparei-me com um numeroso grupo de famílias acampadas e arranchadas em minúsculas casinhas de pau-a-pique, que mais pareciam coisa de criança. As pessoas haviam construído esses casebres próximos a um barreiro com água tão avermelhada que mais parecia um tanque de Fanta laranja. E as casas eram tão pequenas, talvez medissem três metros largura por três de comprimento. Lembrava uma cidade em miniatura. A altura da cumeeira não passava de um metro e sessenta centímetros e, por conta disso, o portal de entrada era tão baixo que tínhamos que nos dobrar para entrar para o interior delas.

                Dentre os muitos fatos inusitados que iriamos presenciar ali, um nos chamou mais a atenção. As camas de casal estavam todas armadas do lado de fora das casinhas, na parte referente ao seu pequeno quintal. Indagado o porquê daquilo, recebemos como resposta: “a cama não cabia na casa. E depois, como não chove mesmo por aqui, não vimos problema em montá-las do lado de fora”. Apesar de já está na lida há tanto tempo, trabalhado em regiões tão distintas e presenciado situações tão surpreendentes, aquele trabalho seria um divisor de água na minha vida profissional. Foi a partir dele que passei a me digladiar com duas situações tão comum no nosso mister: a variante técnica e o componente social do trabalho.

                Passamos dois dias visitando todo o imóvel para levantar as suas características de solo, umidade, pedregosidade, vegetação, declividade, enfim, para identificar se naquele imóvel seria possível assentarem-se famílias de maneira sustentável economicamente. As condições que encontramos não foram boas. Diria mais: assentar cerca de quarenta e cinco famílias em um imóvel sem as menores condições edafoclimáticas para o seu estabelecimento e desenvolvimento, seria o mesmo que condená-los à pobreza eterna, à miséria total. No terceiro dia, cedo da manhã, reunimos a comunidade sob a sombra de uma figueira secular, e passamos a discorrer sobre o resultado das nossas percepções. Poderíamos ter simplesmente retornado para casa e enviado o resultado oficialmente ao sindicato. Mas a expressão de profunda esperança que vi naqueles semblantes me fez retornar para a comunidade naquele dia para tentar uma saída para o que parecia ser o impasse das suas vidas. E antes de informá-los do resultado técnicos da nossa vistoria, ponderei que talvez fosse necessário procurarmos outra área para tentarmos assentá-los. Instalou-se um pandemônio. Mulheres choravam, homens levavam as mãos à cabeça em desespero, crianças se perguntavam o que acontecia. Ninguém, entretanto, acreditava no que tinham ouvido. Não era a resposta que esperavam.

                Nesse instante, uma senhora de meia idade, corpo murcho, rosto encovado pela eterna necessidade, pediu para dizer algumas palavras. E o que ouvi dela, através de palavras simples, mas certeiras, abalou a minha convicção de técnico. “O senhor deve de ter visto uma reportagem no Fantástico anos atrás sobre algumas famílias nordestinas que estavam sobrevivendo comendo ratos. Pois eles falavam de nós. Atravessávamos mais um período de seca e a única escapatória nossa era caçar rabudos na caatinga para nos alimentarmos. Ano passado não havia mais rabudos para caçarmos. E para não morrermos de fome viemos parar na beira desse açude público. Aqui pelo menos temos água para beber, e a estrada que passa aqui do lado facilita a nossa vida. Aproveitamos as pessoas que por aqui passam para trocar alguma coisa, vender outras. Assim vamos vivendo. Moço, isso aqui é o paraíso para nós. Do inferno nós já viemos. Só precisamos de uma pequena ajuda do governo para mostrar o nosso valor”.

                Passamos o resto da manhã tentando encontrar uma saída salomônica para aquele caso. Fui conduzido a algumas pequenas roças e vi como aquelas famílias empregava toda a sua força e conhecimento de práticas agrícolas para o semiárido, e muita, muita esperança era ali utilizada para conseguir retirar o sustento daquela terra pouco dadivosa.  Como agrônomo, tecnicamente, portanto, meu parecer deveria ser pela não desapropriação do imóvel. Ao mesmo tempo, havia um problema social a ser resolvido. Vi naquela comunidade, além de esperança nas ações governamentais, muita força de vontade.

E resolvi apostar naquela gente. Mesmo pondo em cheque a minha reputação como técnico. E não foram poucos os colegas que me censuraram pelo que eu havia feito. Junto aos meus superiores hierárquicos, em Brasília, tive que me desdobrar para justificar o que eu havia feito.

                Felizmente consegui fundamentar bem a minha decisão e mostrei que nenhum dos problemas existentes naquele imóvel era de fato limitação definitiva, e que através da aplicação de algumas técnicas e algum investimento governamental, poderiam perfeitamente ser sanados. O projeto foi criado e as famílias assentadas, conforme propus.

                Cerca de três ou quatro anos depois, estando em São João do Piauí novamente, para participar de um encontro com prefeitos da região, resolvi aproveitar o período livre da tarde para fazer uma visita àquela comunidade. Precisava saber como estavam se arrumando.

Ao subir o último morro antes de chegar ao assentamento, deparei-me com uma visão muito bonita da vila, com suas casas bem enfileiras e pintadas de branco. Quase não acreditei no que via. Paramos o carro em frente a uma farmácia, ao lado de um pequeno mercado, sob a velha figueira de anos antes. Logo fui cercado por um grande número de moradores que ao me reconhecer logo quiseram saber o que eu estava achando daquilo tudo. Fizeram questão de me mostrar várias residências, as mobílias novas, aparelhos como TV e geladeira, e muito mais. Estavam felizes com a minha admiração.

Estávamos no campo visitando algumas roças com promessa de boa colheita quando alguém começou a rir ao relembrar a minha surpresa com as camas dos casais arrumadas do lado de fora da casa.  Agora não seria mais preciso, disse. Com o crédito habitação haviam construído as melhores casas que eu pude ver em nossos assentamentos.

Fiz bem em não me deixar levar pelo meu lado tecnicista, apenas. Afinal, já tinha visto tantos projetos com água em abundância e solos férteis serem levados ao fracasso. Fiz bem em apostar na força da esperança e da organização daquele grupo de famílias.