segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Ainda Fotografias para o Álbum da Cidade

Fotos by Carlos Magno
           Tenho publicado algumas fotografias da cidade vista do alto do campanário da igreja de São Sebastião, em Presidente Dutra, para compor o álbum da cidade. Estas imagens são muito vistas neste blog, invariavelmente por alguns conterrâneos que residem fora há muito tempo. Mesmo para mim, que vez por outra vou até lá para matar as saudades da terrinha e dos amigos e parentes, elas possuem um valor importante, vez que mostra os progressos alcançados por ela. Esta primeira, retratada em um ângulo que nos permitem ver a sua parte sul, e parte do leste, vendo-se ao fundo a praça Biné Soares e, mais ao longe, os bairros mais afastados do Campo D'anta, e os bairros de Fátima e São José, se não estou enganado.


Fotos by Carlos Magno

          A segunda fotografia retrata a região oeste, vendo-se ao fundo o Cemitério Velho e, ao lado dele o antigo estádio de futebol "Adrian Berrospi Trinidad". Neste velho campo de futebol, antes pertencente ao município e levava o nome do ex-prefeito 'Honorato Gomes de Gouveia', assisti grande pelejas entre o velho e querido Central, que vinha a ser a seleção do município, por não termos outro time na cidade, e as seleções das cidades vizinhas. Observa-se ainda que a cidade cresceu muito neste sentido, estendo-se até aonde a lente da objetiva pode captar a imagem.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Piracuruca e a Barragem



             José Pedro Araújo
           Aproximávamo-nos do final dos anos oitenta quando a cidade de Piracuruca, situada no norte do Piauí, foi acordada com a notícia de que, enfim, a prometida barragem no rio Piracuruca iria ter seu início. Antes disso, para alegria de muitos, e a tristeza e preocupação de alguns, já tivera início o trabalho preliminar de desapropriação dos imóveis que seriam abrangidos pelo perímetro molhado da dita construção hídrica.
Alegria para aqueles que embarcavam na propaganda oficial de que seria instalado na região um perímetro irrigado de mais ou menos 8.000 hectares, para a produção de alimentos, mas, e também, para cultivo de frutas para exportação. E em meio a estes otimistas, estavam os endinheirados que logo visualizaram a possibilidade da construção de uma bela chácara de recreio às margens do portentoso lago que se formaria à montante.
A tristeza, essa ficava na conta das dezenas de pequenos proprietários que viam seus imóveis serem expropriados pelo governo por preços vergonhosamente baixos, como sempre acontece quando os pequenos estão na frente, ‘atrapalhando’, algum empreendimento governamental. Para alguns destes, o problema seria ainda muito maior. Como o trabalho de levantamento planialtimétrico da área a ser alagada foi mal conduzindo, alguns desses imóveis, que se dizia ter apenas uma parte afetada, ficou completamente sob a água. A parte indenizada, entretanto, foi apenas aquela que os técnicos diziam que seria atingida pelas águas que se se juntariam no grande lago, e não todo o imóvel. Pior para estes. Viram o restante das suas terras virar uma grande fazenda submersa.
            Mas, como desgraça pouca é bobagem, aquelas pequenas sobras de terra beira-água, e que deveriam ficar com os seus verdadeiros proprietários, logo sofreram o assédio de alguns espertalhões que alegavam serem aquelas terras do governo, uma vez que devidamente indenizadas. E instalavam no local uma pequena chácara para o deleite da família e dos amigos, pouco importando as reclamações dos espoliados.
            Em meio ao segundo grupo, aquele dos preocupados com a construção da barragem, estavam alguns que não tinham terra nenhuma desapropriada, mas que se preocupavam com a construção de uma barragem daquele porte tão próxima da cidade. Fizeram para estes também ouvidos moucos. Eu me coloquei no meio destes, e até alertei em algumas reuniões de que participei, como representante do órgão estadual de terras, que a construção de uma barragem tão próxima da cidade trazia sempre um risco, um grande e preocupante risco. Nesses momentos recebia uma resposta ‘técnica’, de algum profissional da engenharia ou não, de que a barragem seguiria padrões de segurança internacional, não havendo a menor possibilidade de um desastre. Teimoso que sou, alegava que qualquer obra feita pelo homem, por mais segura que possa parecer, sempre poderá ser suplantada pelas forças da natureza algum dia. Não quis afirmar, para não ser chamado de leviano, que a maioria das grandes obras de engenharia vinha sempre cercada de nebulosas transações: a propina corria solta. E isso terminava por afetar a qualidade do material empregado, e dos cuidados relativos ao empreendimento, por fim. Assim, era preciso reduzir custos para honrar os compromissos assumidos com os contratantes. Não sei se isso também aconteceu com a construção das barragens no nosso estado. Não tenho como afirmar isto. Mas, ficou uma última preocupação a me acompanhar por estes longos anos: o governo é sempre muito negligente no acompanhamento e monitoramento de suas obras depois de construídas. Daí, o que espera?
                Naquele tempo, a barragem construída no rio Piracuruca passou a ocupar o segundo lugar no estado, em relação ao seu volume hídrico. Ficava atrás apenas do grande lago da usina de Boa Esperança, no Parnaíba. Formou-se um portentoso lençol d’água com 250.000.000 m³, uma massa d’água de poder avassalador, caso venha a se soltar do lugar em que está aprisionada. Dista, em linha reta, 4.155 metros da cidade. Pouco mais de 4,0 quilômetros de distância. Em caso de um desastre, o paredão formado pela água tomaria uma velocidade de cerca de 50 km por hora. E assim, em menos de 5 minutos atingiria as primeiras casas da cidade. O rio Piracuruca, como se sabe, passa a poucos passos da Praça da Matriz de Nossa Senhora do Carmo, e secciona a cidade quase ao meio. Com o agravante de a cidade ser muito plana. O desastre seria monumental, pois não se teria tempo para uma retirada em massa.
Para os medrosos como eu, no dizer de alguns, é coisa para se voltar a pensar, e pensar com enorme preocupação quando vemos acontecer tragédias como a ocorrida recentemente em Mariana, Minas Gerais.  
            Para ficarmos apenas aqui por perto, tivemos em 27.05.2009, a tragédia de Algodões que, com o seu rompimento, ceifou a vida de 9 pessoas, e a de milhares de animais, e aniquilou centenas de pequenas fazendolas. Os desabrigados, no que pese já terem decorrido mais de 6 anos, ainda esperam por justiça. Estão até hoje desnorteados, com suas vidas completamente destruídas. E olha que aquela barragem possuía apenas 1/5 (um quinto) do volume de água da barragem do Piracuruca, 50.000.000 m³. E também não havia nenhuma cidade a jusante do lago formado. Ao contrário da do Piracuruca.  O Piracuruca ainda encontra pela frente a cidade de São José do Divino e depois cai no rio Jacaraí para chegar ao Longá. Daí em diante passa ao largo de Caxingó e depois vai desaguar no Parnaíba logo abaixo. Como aumentará enormemente o volume de água do Parnaíba até chegar à cidade de Parnaíba, não se sabe o que pode ocorrer com a população daquela cidade. O certo é que no caminho até lá já terá deixado uma obra destrutiva monumental.
            Através de depoimentos de pessoas atingidas pelas águas que escaparam da barragem de Algodões, soube-se que a água formou um paredão de mais de seis metros de altura e caiu sobre tudo com o peso e a força de milhares de toneladas, arrastando e destruindo tudo que havia pela frente. A tragédia poderia ter sido evitada se houvesse um monitoramento efetivo daquela barragem. Mas a alegada falta de recursos financeiro, a desídia, a imperícia, a despreocupação com a possibilidades de tragédias que somente atinge pessoas de baixo poder aquisitivo, ou pobres para ser mais exato, faz com que os órgãos de fiscalização façam pouco caso dos problemas que poderão causar essas barragens em caso de colapso. Em Algodões, mesmo com a barragem já demonstrando estar em situação de altíssimo risco, houve um esforço grandioso da parte das autoridades para as vítimas ficarem no lugar em que estavam. Deu no que deu.
            Uma monografia apresentada pelos pós-graduandos Norma Felicidade Lopes da Silva e Juliano Costa Gonçalves, em 2006, publicada na Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, sob o título “A Convivência com Riscos Relacionados às Barragens no Semiárido Nordestino”, traça um perfil tenebroso sobre os riscos apresentados pela construção de barragens no nordeste brasileiro para a acumulação de água sob a alegação de diminuir os problemas das comunidades afetadas pelas secas cíclicas que atingem a região. Logo no início do documento, na sua apresentação, os construtores do importante documento dizem que “O texto procura mostrar que a barragem pode constituir um outro desastre, ao mesmo tempo que não impede que secas e cheias ocorram, a vulnerabilidade da população”. Em seguida, depois de alertar para a falta de empenho e monitoramento das autoridades e instituições na fiscalização e correção de possíveis erros de concepção ou uso de material impróprio, alertam que “Mais de 12 mil pessoas morreram no século XX por barragens colapsadas”. Concluem a sua peroração dizendo que “A intocabilidade dos fazedores de barragens requereria ser revista no interior do discurso das lideranças políticas que têm na domesticação das águas um apelo central para preservar seu eleitorado”.
            Recentemente um deputado estadual piauiense, alertado pelo problema ocorrido no Rio Doce, em Minas Gerais, aprovou requerimento à Assembleia Legislativa Estadual pedindo ao IDEPI e ao DNOCS, responsáveis pelas barragens aqui no estado, que fizesse um monitoramento completo da situação de todas elas. Logo após o colapso da barragem de Algodões, no município de Cocal/PI, o Engenheiro civil Manoel Coelho Soares Filho, chefe do Departamento de Recursos Hídricos da Universidade Federal do Piauí, em entrevista, afirmou que “falta de manutenção é um dos problemas de barragens”. E em resposta a indagação sobre a possibilidade de uma barragem se romper, afirmou que “o perigo existe, mas um acidente proporcional ao que ocorreu com Algodões I pode ser evitado”. E concluiu: “no Brasil já houve rompimentos em reservatórios em Minas Gerais e na Paraíba, por exemplo. Toda obra tem um desgaste natural, é preciso um monitoramento constantes dessas áreas. Com água não se brinca, porque a intensidade e a força dela podem ser muito maiores que o esperado”.  
            Quando cuidamos do problema da barragem do rio Piracuruca, não temos por objetivo provocar uma histeria coletiva na população, mas tão somente alertar as autoridades para um problema real, que pode ocorrer caso não se tomem as precauções que são obrigatórias em casos como esses. Quem não conhece a falta de empenho dos nossos órgãos e dos nossos gestores para cumprir com as suas responsabilidades mais comezinhas. Depois vem a público falar em acidente natural, que um conjunto de fatores contribuiu para o desastre. O que falta em relação às nossas barragens é um sistema de monitoramento eficiente e efetivo. Em Piracuruca não existe, por exemplo, um sistema de alarme para ser utilizado em razão de algum colapso ou possibilidade de ocorrência de um.  E é um sistema simples e barato de ser instalado. Notem: depois do colapso de Algodões I, afirmou-se que a barragem do Piracuruca corria riscos. E agora, como estamos? Passados 25 anos da construção da barragem, não se implantaram projetos de irrigação, não houve a perenização do rio Piracuruca, que nunca esteve com suas águas tão baixas. A barragem serve atualmente aos sítios e chácaras de recreio.
            Fechemos a porta antes que ela seja arrombada! Logo chegará a temporada das chuvas. Vamos acreditar nas previsões climáticas ou vamos adotar as providências que a prudência requer?
           

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Os Sebos Resistem

 Inglaterra, século XIX - Carroça com livros usados


Em setembro de 2014 fiz uma viagem com um grupo de amigos para Curitiba. Bela cidade sulista que encanta pelo clima, pelo verde, pelos parques, pela gente bonita, enfim, pela preocupação que os administradores locais têm demonstrado por sua gente. Admirado pela última parte do período? Pois, só posso fazer justiça a quem administra uma cidade em que os serviços públicos parecem funcionar a contento, ou na qual os nativos possuem tantos parques espalhados por ela para praticar esportes ou simplesmente admirar o luxuriante verde das suas árvores.

Mas, voltemos ao assunto que o título acima nos remete: os Sebos. Nessa mesma viagem fiquei alojado em um bom hotel no centro da cidade que tinha algo que melhorava ainda mais a sua localização: um grande e bem organizado Sebo bem na sua frente. Pelo menos para mim, isso foi de uma alegria sem par. Para os outros colegas de viagem, mais preocupados em conhecer os pontos de maior atração da cidade ou da região, talvez nem tanto. E para aquelas pessoas que viajam mais com o propósito de fazer compras, ai a resposta fica mais fácil: não devem ter visto as vitrines parcamente iluminadas do grande Sebo. Pois ele atraiu o meu olhar logo na chegada, ainda de dentro do ônibus que me levou do aeroporto até ali.

Investi algumas horas da minha estadia na cidade compulsando os velhos livros, lendo suas orelhas, admirando-lhes o estado de conservação. E trouxe de lá alguns quilos a mais na minha bagagem. E enquanto isso, a maior parte do nosso grupo devassava a cidade em busca dos shoppings centers. A mim me bastava aquele espaço circunspecto, quase na penumbra. Mas, infelizmente, tinha que acompanhar a minha companheira em outras andanças.

Outro dia, li em um dos belos textos publicados pelo maranhense Josué Montello no qual ele falava que as livrarias do centro do Rio de Janeiro, entre elas os chamados Sebos, estavam desaparecendo. Algumas com mais de um século de existência, estabelecidas na Rua do Ouvidor ou na São José, era ponto de encontro das principais estrelas da literatura nacional, desde a maior e mais reluzente delas, Machado de Assis.

Tenho lido e visto em programas de TV direcionados à literatura, que o preço dos aluguéis tem contribuído para o fechamento de muitas livrarias Brasil afora, mas, e principalmente, os Sebos. Em excelente matéria publicada no Blog da Folha Universitária, há também referência a este problema, e nela o proprietário do Sebo Berinjela, Daniel Chomski, livreiro desde 1994, relata que “presenciou o fechamento de pelos dez sebos nos últimos cinco anos”. É grave, porque Sebo é cultura, e cultura a preços baixíssimos. Um livro que custa por volta de 40 ou 50 reais nas livrarias pode valer apenas 10 reais nos Sebos. Ou até menos, dependendo da paciência do garimpeiro. Nessa mesma matéria está dito que o Sebo apareceu por volta do século XVI, e neles os pesquisadores adquiriam papiros ou documentos para dar suporte aos seus trabalhos.

O nome, Sebo, surgiu ainda em passado remoto, período em que não existia ainda a luz elétrica. E por esta razão, e também por ficarem em locais apertados e escuros, usavam-se velas para ler os textos antes da sua aquisição. E assim, aqueles mais concentrados na leitura, deixava a cera derretida das velas pingar sobre as páginas dos livros, dai adveio o nome.

Tenho adquirido alguns bons livros que hoje se encontram fora do catálogo das livrarias. Alguns muito baratos, outros nem tanto. Mas todos de altíssimo valor para mim. Nas minhas garimpagens encontrei relíquias de valor inestimável, como o antiquíssimo A General Description of The State of Piauí, do Dr. José Antônio de Sampaio, fundador da fábrica de laticínios instalada no interior do município de Oeiras, hoje Campinas do Piauí, ainda em finais do século XIX. O livro, por ser raro, e também por possuir encadernação luxuosa, custou-me caro, naturalmente. Sua encadernação é de 1905, e nele o insigne e desabusado engenheiro traça um comparativo entre as terras das fazendas estaduais com as da Argentina ou da Austrália, com evidentes vantagens para as nossas. Mas, tenho adquirido também obras importantes por preços irrisórios, para alívio das minhas combalidas finanças.

Tenho um jovem amigo, residente em São Luís, que além do papel de editor e proprietário de uma excelente livraria, denominada Resistência Cultural, também comercializa livros raros, que estão fora do catálogo. Reduto dos aficionados por literatura, a Resistência Cultural faz opção pelos melhores livros e pelos grandes autores. (www.resistenciacultural.com.br – Av. dos Holandeses, 2 – Calhau).

Mas não só de problemas vive esse tipo de comércio. Eles têm se reinventado e adotado novas estratégias para superar os ventos adversos. E assim apareceram alguns portais na internet para ampliar as vendas para outros mercados. Como a Estante Virtual(www.estantevirtual.com.br) que congrega mais de 1.400 sebos espalhados por esse imenso Brasil. O criador da ideia baseou-se na sua dificuldade para encontrar alguns títulos para utilizar na elaboração da sua monografia de conclusão de um mestrado, e dai nasceu um grande negócio.

Mas, nada se compara ao prazer da garimpagem manual dentro do ambiente de uma velha e penumbrosa livraria. Que os novos tempos não afaste de nós o prazer da convivência com as coisas simples e que só elevam o nosso espírito, como é o adentrar em um Sebo com bom estoque. Vida eterna aos Sebos!



sexta-feira, 20 de novembro de 2015

A Localização da Fazenda Bitorocara

Igreja de Santo Antonio antes da demolição

Nova igreja de Santo Antonio



Elmar Carvalho
Poeta, contista, cronista, crítico cultural, historiador, membro da Academia Piauiense de Letras e juiz aposentado.

Recentemente a Diocese de Campo Maior comemorou os 300 anos da Paróquia de Santo Antônio do Surubim. Houve missa concelebrada, com a presença de vários bispos e apresentação da Orquestra Sinfônica de Teresina, sob a regência do maestro Aurélio Melo. No ensejo da efeméride foi lançado o livro “Da matriz vejo a cidade”, da autoria de Natália Oliveira, que ainda não me foi possível adquirir.  

A primeira igreja de Santo Antônio foi construída por Bernardo de Carvalho e Aguiar a pedido do padre Tomé de Carvalho, seu sobrinho, que foi o primeiro vigário da Mocha (Oeiras) por várias décadas, tendo construído a vetusta igreja de Nossa Senhora da Vitória, hoje catedral, que se encontra bem conservada e mantendo quase toda sua arquitetura original. Bernardo também contribuiu para a construção deste templo, inclusive lhe tendo doado uma rica e bela custódia, em ouro maciço e cravejada de pedras preciosas, que ainda hoje faz parte do patrimônio da Diocese oeirense.

Lamentavelmente a velha igreja de Santo Antônio do Surubim, em estilo colonial, batizada em 12.11.1712, foi demolida em 1944, conforme consta no livro Enlaces de família, do historiador e genealogista Valdemir Miranda de Castro.

Em virtude das festas comemorativas dos três séculos da Paróquia e de haver sido requentada a discussão sobre onde ficava a Fazenda Bitorocara, que a meu haver já estava definitivamente superada, com as pesquisas do padre Cláudio Melo, tanto em Belém do Pará como em Portugal, julgo oportuno transcrever nesta crônica diarística o terceiro capítulo de meu livro “Bernardo de Carvalho, o Fundador de Bitorocara”, 2ª edição digital (revista, melhorada e ampliada, em virtude de novos livros e documentos a que tive acesso, após sua primeira e única edição impressa), disponível no site amazon.com.br:

Todos os maiores historiadores do Piauí afirmam haver existido a fazenda Bitorocara e o seu fundador, Bernardo de Carvalho e Aguiar, a começar pelo mais antigo, o padre Miguel de Carvalho, em sua Descrição do Sertão do Piauí, datada de 2 de março de 1697. O padre Cláudio Melo considera esse documento como um dos mais importantes para os estudiosos de História do Piauí, e que deveria ser de manuseio constante. Quase todos admitem que essa propriedade ficava situada em Campo Maior. Como exceção ou voz discordante, um ou outro admite haver dúvida a esse respeito.

O próprio Pe. Cláudio Melo, no prefácio ao livro Descrição do Sertão do Piauí (Comentários e notas do Pe. Cláudio Melo), após advertir que o relatório do Pe. Miguel de Carvalho exigia acurada leitura, com “reflexão e análise prudente e comparada”, em sua proverbial franqueza e honestidade intelectual, aconselhou:

“Não se arrisquem a conclusões precipitadas. Historiador de alta respeitabilidade, como Odilon Nunes, concluiu que Bitorocara era Piracuruca, quando na verdade é Campo Maior [grifo meu]. Eu mesmo há dois ou três anos escrevi um artigo para ‘Cadernos de Teresina’ que, por sorte, não foi publicado (chegou com atraso). Hoje eu não subscreveria tudo que ali afirmei.”

Todavia, o próprio Odilon Nunes, segundo afirma João Gabriel Baptista em seu livro Mapa Geohistóricos, pág. 41, teria sido pessoalmente convencido por Cláudio Melo de que efetivamente o rio Piracuruca não era o Bitorocara. E ele João Gabriel confessa também ter se convencido de que a razão estava com Melo.

Espancando qualquer dúvida que possa existir sobre a localização de Bitorocara, no livro acima citado, o padre Cláudio, um dos maiores historiadores de nosso estado, afirma, a meu ver de forma categórica e peremptória:

“De início, eu supunha que o riacho Bitorocara era o Surubim, em razão de a Fazenda Bitorocara ser a atual cidade de Campo Maior. A descoberta em Portugal da sesmaria de Dâmaso Pinheiro de Carvalho, nas cabeceiras do riacho Cobras, me fez ver que Cobras é o Surubim. Bitorocara, portanto, ou seria o Longá ou o Jenipapo. Surgiu para mim um impasse: a fazenda Serra fica no Longá e o Jatobá no Jenipapo. Como os limites da fazenda Serra não atingiam o Jenipapo, mas os limites da fazenda Jatobá podiam chegar até o Longá, concluí, por fim, que Bitorocara seria o Longá. A fazenda Bitorocara se expandia pelos três rios, e ela estava na confluência deles.”

Para chegar a essa conclusão, pelo que se depreende de seu conselho (ou advertência), acima transcrito, o notável historiador piauiense leu e releu várias vezes e em profundidade o relatório da lavra de Pe. Miguel, com certeza cotejando-o com os vários documentos que consultou em Portugal e no Piauí, muitos deles transcritos no livro Bernardo de Carvalho, de sua autoria.

O padre Miguel, em seu relatório, indicava os rios em que as fazendas por ele referidas se situavam, preservando dessa forma a sua localização. As fazendas, na época, eram muito extensas. Ele situava três no riacho Bitorocara (Longá): a primeira, de nome Serra, ficava nas cabeceiras; a segunda, Bitorocara, se lhe seguia, e “a terceira e última deste riacho se chama o Jatobá”. Evidentemente a fazenda Jatobá ficava na margem direita do Jenipapo, que desemboca no Longá, podendo ter prosseguimento pela margem direita deste rio, uma vez que, na expressão de padre Cláudio, “a fazenda Bitorocara se expandia pelos três rios, e ela estava na confluência deles”. A linha de raciocínio do historiador obedece à lógica, e não a uma simples ilação tirada do nada, e, portanto, não merece reparo.

Como é sabido por todos, a antiga igreja de Santo Antônio do Surubim foi construída por Bernardo de Carvalho e Aguiar a pedido de seu sobrinho, o Pe. Tomé de Carvalho. Quase sempre (e não conheço exceção) as igrejas eram erigidas pelos fazendeiros nas proximidades da casa-grande ou residência, sempre que possível sobre uma colina ou outeiro, em terras de sua propriedade ou posse. Essa era a praxe na história do Piauí, ainda hoje observada. Quem iria construir uma ermida ou igreja distante de sua casa e fora de sua propriedade? Considerando-se que a fazenda Bitorocara (antigo nome do rio Longá) ficava na margem desse rio é lógico concluir-se que ela ficava nas proximidades da igreja construída por seu proprietário nas imediações do rio Cobras, hoje Surubim.

Sobre isso vejamos o que diz o historiador e genealogista Valdemir de Castro Miranda, em seu trabalho intitulado “Sobre as origens de Campo Maior”, publicado no blog poetaelmar.blogspot.com.br, em 04.09.2015:

Campo Maior tem sua origem ligada à figura do mestre de campo Bernardo de Carvalho e Aguiar, fundador da Fazenda Bitorocara no ano de 1695, na confluência dos rios Longá com o Surubim. Por volta de 1706, o Pe. Thomé de Carvalho e Silva fez desobriga na região, fundando ali um curato. Mais tarde, com a ajuda de Bernardo de Carvalho e Aguiar, construiu a Igreja de Santo Antonio, batizada a 12.11.1712, com a instalação da Freguesia de Santo Antonio do Surubim ou Longá, a segunda do Piauí e ainda ligada ao Bispado de Pernambuco. O procedimento para a instalação da nova Freguesia, foi o mesmo adotado pelo Pe. Miguel de Carvalho quando da instalação da Freguesia da Mocha, reuniu os moradores da região para definir o local da edificação do templo. Não contando com a ajuda dos arrendatários das fazendas da região, mas com o cel. Bernardo de Carvalho e Aguiar que construiu a capela a suas custas, conforme consta em carta do Pe. Thomé de Carvalho e Silva, Vigário confirmado na Matriz de Nossa Senhora da Vitória do Piauí de Cima em toda ela Vigário da Vara, pelo ilustríssimo Sr. Dom Manuel Álvares da Costa, Bispo de Pernambuco e do Conselho de Sua Majestade, que Deus guarde:

“Certifico que sendo esta minha Freguesia muito dilatada pelas grandes distâncias, principalmente a ribeira dos Longases, aonde não podia desobrigar a tempo de acudir com os Sacramentos nas necessidades dos meus fregueses residentes nela, pelos muitos rios que tem em meio para esta minha igreja, requeri ao Sr. Bispo de Pernambuco, mandasse fazer Igreja curada na dita ribeira dos Longases, por assim convir ao serviço de Deus, Nosso Senhor, ao que deu logo cumprimento. O dito Sr. Bispo mandou-me ordem para a poder fazer e, indo a esta parte, convoquei os principais moradores e, tomando-lhes os seus votos na parte que havia de erigir a nova Capela, que por invocação tem o nome do Glorioso Santo Antônio, lhe não achei possibilidade pra fazerem, dando várias desculpas pelos poucos escravos que tinham, e estando ocupados em fazendas que tinham os seus donos na Bahia as não podiam desamparar. Nestes termos, me vali do Coronel Bernardo de Carvalho que, com pronta vontade, buscou um carapina a quem pagou, e foi pessoalmente com seus escravos ajuntar as madeiras e os mais materiais, trabalhando o dito com grande zelo. E, com efeito, fez a capela à sua custa, tanto de escravos como gastos, farinha e dinheiro. E o acho com ânimo de gastar nela cabedal. Outrossim se me ofereceu com o gado que necessitasse para a nova ereção desta Matriz de Nossa Senhora da Vitória, e me prometeu 200$000 (duzentos mil reis) para uma Custódia para a dita Matriz e que se custasse mais o daria”.
(MELO, Pe. Cláudio. Fé e Civilização, 1991, p. 47-8).


[Não obstante sua meridional clareza, acho importante frisar: no documento acima transcrito o padre Tomé de Carvalho declara que para a construção da igreja sob a invocação do Glorioso Santo Antônio fez reunião com os principais moradores do lugar, mas que nenhum quis ou pôde ajudá-lo; que nestes termos se valeu “do Coronel Bernardo de Carvalho que, com pronta vontade, buscou um carapina a quem pagou, e foi pessoalmente com seus escravos ajuntar as madeiras e os mais materiais, trabalhando o dito com grande zelo. E, com efeito, fez a capela à sua custa”. Essa afirmativa, por si só, demonstra que o templo ficava perto da sede da fazenda ou da residência de Bernardo.]

    Recentemente uma voz discordante afirma que a Fazenda Bitorocara ficava, aproximadamente, onde hoje estão situados os municípios de São Bernardo – MA, Luzilândia e Campo Largo, os dois últimos no Piauí. O imóvel ficava em ambos os lados do rio Parnaíba. O defensor dessa hipótese parte do pressuposto de que o Arraial Velho e Bitorocara seriam termos sinônimos, e se fundamenta no fato de que Miguel de Carvalho e Aguiar, filho do Senhor de Bitorocara, teria herdado a sesmaria de Arraial Velho de seu pai, conforme documento existente em Belém do Pará, cuja propriedade em favor de Miguel foi confirmada em 1739. Essa informação é verídica e está devidamente documentada. Só um louco ou mistificador a negaria. Aliás, essa notícia é antiga, e já está inserida no livro Cronologia Histórica do Estado do Piauí, da autoria de F. A. Pereira da Costa, cuja primeira edição data de 1909.

Contudo a hipótese de que Bitorocara ficava no rio Parnaíba, na altura de São Bernardo, Campo Largo e Luzilândia, não pode prosperar, e muito menos se estabelecer como verdade, pelos motivos que passarei a expor de forma sintética.

Primeiro, Arraial (velho ou não) nunca foi e não é sinônimo de Bitorocara. É apenas um topônimo genérico, e que designa vários locais do Brasil, e mesmo do Piauí. Assim, no nosso estado existiram vários arraiais, entre os quais cito o que deu origem a Jerumenha, o dos aroases, o dos paulistas, o de Nossa Senhora da Conceição, o dos Ávilas, o que originou a atual cidade e município de Arraial e, evidentemente, o arraial que se formou no entorno da Fazenda Bitorocara e da igreja de Santo Antônio do Surubim, nela situada, etc.

O certo é que o Arraial Velho que deu origem à cidade de São Bernardo (MA) não é e nem poderia ser o arraial velho que formou a cidade de Campo Maior.

Por outro lado, em termos cronológico e documental, Bitorocara jamais poderia se referir ao Arraial Velho do rio Parnaíba, uma vez que o documento a este referente data de 1739, enquanto a referência à fazenda Bitorocara, feita pelo padre Miguel de Carvalho é datada de 1697, conforme seu relatório, publicado sob o título de Descrição do Sertão do Piauí.

Ademais, o seu autor, Miguel de Carvalho, em sua desobriga, que relatou nesse documento, percorreu apenas as terras que ele entendia como pertencentes à freguesia de Nossa Senhora da Vitória, conforme explicitou o padre Cláudio Melo em seus comentários (v. bibliografia): “Outras porções do território piauiense também eram habitadas, mas ficaram excluídas desta Descrição; é o caso dos sertões do Parnaguá (que ficariam na jurisdição de outra freguesia a ser instalada) é o caso do baixo Longá, Piracuruca e litoral que já estavam assistidos pelos Filhos de Santo Inácio, na Ibiapaba.”

Ora, se o padre Miguel de Carvalho sequer percorreu todo o território do atual estado do Piauí, com muito mais razão não poderia ter ido até os atuais municípios de Brejo e de São Bernardo, no Maranhão (em cuja região veio a ser situado o Arraial Velho), que pertenciam a outra jurisdição eclesiástica. Consequentemente, a fazenda Bitorocara a que ele se referiu em seu relatório ficava mesmo no rio Longá, perto de onde fica a atual cidade de Campo Maior.

Em consequência o arraial militar, ou arraial ou ainda arraial velho referente a Campo Maior, que se formou no entorno ou perto da Igreja de Santo Antônio do Surubim, não pode, em hipótese nenhuma, ser confundido com o Arraial Velho maranhense, localizado perto do Parnaíba. Mesmo porque Bernardo de Carvalho e Aguiar, último mestre de campo das Conquistas do Piauí e do Maranhão só se mudou para a atual cidade de São Bernardo, da qual é considerado fundador, em 1721, quando deixou o seu cargo.

A fazenda Bitorocara, portanto, ante tudo o que expusemos, ficava na confluência dos rios Longá, Surubim e Jenipapo, o que, admitamos, era estratégico, uma vez que haveria suprimento de água para consumo humano e do gado, e para a formação de pastagem, além de que seriam evitados problemas com eventuais confrontantes, porquanto os limites ficariam bem estabelecidos por esses cursos d’ água.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Poucas, Pouquíssimas Lembranças de 1964



                Já afirmei que não fui fulminado – aqui estou para provar -, nem muito menos arrebatado, pelo movimento de 1964. Aliás, pouco me lembro dos acontecimentos daquele 31 de março que incendiou as principais cidades desse imenso Brasil, com o som metálico das lagartas dos tanques retinindo nos paralelepípedos das ruas, enquanto o barulho das botas em ritmo marcial acelerado se elevava e encobria os discursos inflamados dos poucos que se meteram a contestar a marcha verde-oliva que tomava conta do país. No meu cantinho isolado do Maranhão, fiquei longe de tudo, até mesmo das noticias radiofônicas que cruzavam nervosas os céus e pousavam em alguns poucos rádios espalhados pelo sertão. Estava mais interessado em rolar o Dial do velho ABC – A voz de ouro da minha casa, e parar em alguma estação que veiculava uma música da moda. Nada de noticias sobre política. Nem mesmo de esporte, naquele tempo. Estava pouco ligando para os dois assuntos. Alienado? Melhor dizer que o menino de 10 anos estava mais preocupado com outras coisas mais bonitas.

                Meu pai, vereador nessa época, passou a receber visitas de amigos e correligionários, muitos nervosos e, tão por fora quanto eu, que só queriam saber se o acontecido era bom ou ruim para o país e, de resto, para o velho e isolado Curador. Não prestei muito atenção ao que diziam, só me lembro do nervosismo de alguns com as noticias que chegavam até lá. Nas ruas, o grosso da população levava a vida como se nada de anormal estivesse acontecendo, tão distante estavam dos problemas do país, e mais preocupados com o preço do arroz, do feijão e da carne que por aqueles dias andava muito alterado na feira da cidadezinha. No colégio onde estudava, nadica de nada ouvi sobre política. Tudo estava como “dantes no quartel de Abrantes”. Nenhum cochicho, nenhum gesto de satisfação ou insatisfação por parte do corpo docente também.

                Escrevo isto neste momento, devido aos novos tempos que estamos atravessando, com a política tomando o espaço quase todo dos noticiários. Até mesmo as redes sociais estão veiculando à larga noticias nervosas sobre a possibilidade de os militares tomarem conta do país outra vez, desapeando do poder a presidente do país e o seu vice. Tudo anda beirando a histeria, enquanto a turma da boquinha suga sem dó nem piedade as tetas dantes gordas da nação, aproveitando o tempo que lhes resta e o resto do leite que a vaca ainda carrega no úbere.  

                A bem da verdade, pouco mudou em cidades como a minha naquele tempo. Apenas nas capitais, em municípios considerados de segurança nacional e nas estâncias hidro-minerais houve alteração no status quo, uma vez que nessas, os prefeitos passaram a ser escolhidos pelo poder constituído. Nas corrutelas, os prefeitos e os vereadores permaneceram os mesmos, não houve alteração. E logo, todos eles já estavam rezando pela cartilha dos novos donos do poder. Tornaram-se revolucionários desde criancinhas. Político é um bicho com muitos recursos de sobrevivência, superando até mesmo o jumento, ultimo da espécie dos herbívoros a perecer em caso de grave crise no meio ambiente. 

                Nem mesmo quando se instalou na cidade um Batalhão de Engenharia do Exército – iam fazer a estrada de Presidente Dutra a Porto Franco – houve qualquer alteração na situação vigente. Ninguém reclamou de falta de liberdade, nem um só cristão foi para as ruas defender o Presidente deposto pelo pessoal da caserna. Tudo permanecia calmo como água de cacimba.

Alguns dirão que não foi bem assim, esse mar de calmaria. Tivemos um deputado cassado, o primeiro eleito no nosso município. E também alguns representantes da classe política foram levados à capital, coercitivamente, para prestarem algumas informações ao comando militar. Mas, esses assuntos tiveram mais a ver com a política rasteira que acontecia a época no município do que propriamente com questões relacionadas ao conflito esquerda X direita, tão em voga na época.

                A propósito disto, lembro que os militares do exército recém-instalado na cidade andaram fazendo suas rondas nas noites escuras do velho Curador. Mas o objetivo era unicamente o da segurança pública, e não propriamente de segurança nacional. E nessas ocasiões, para não perderem o hábito nem a viagem, andaram descendo a borracha em alguns apreciadores da noite. Principalmente naqueles que procuravam diversão nas casas de prostituição da cidade e, lá, depois de entornar todas, faziam-se de valentes e passavam a riscar o chão com suas amoladíssimas facas peixeira, ou até mesmo demonstravam a sua macheza disparando um tresoitão para o alto. Alguns desses valentões também não devem sentir saudades daquele tempo, uma vez que andaram levando boas e variadas bordoadas no lombo. E para aqueles que sentiram o peso da mão dos milicos mais de uma vez, por reincidência, a única saudade que ficou foi mesmo da humilde cidade, pois foram forçados a sumir de lá.

                Alguns anos depois, quando sai para estudar fora, tomei contato com o período mais duro do regime militar, inclusive quando fui fazer faculdade em Recife, uma das cidades mais resistentes ao regime instalado. Nas universidades de Pernambuco, em meio à estudantada, os partidos mantidos na clandestinidade iam buscar seus adeptos mais aguerridos. Pude sentir isso claramente quando já estava em idade mais avançada.