![]() |
Imagem do Google |
(Jean Carlos Gonçalves)*
1 - Da varanda da saudade
Contemplo a recordação
Da minha infância feliz
Lá na Mata do Japão.
2 - Desta selva de concreto
Que enclausurado me vejo
Remonto às minhas raízes
Com nostalgia no peito.
3 - Sei que esse sentimento
Não se trata de trama inédita
Quem nunca foi um Gonçalves Dias?
Quem nunca cantou sua terra?
4 - Humano é quem alimenta
Um laço de afetividade
Em relação ao seu velho Torrão
Matriz de sua ancestralidade.
5 - Cada um consigo carrega
A lembrança que arrepia
Mas a substância que o sangue acelera
Se converte em melancolia.
6 - Por não mais pisar o solo sagrado
Que lhe nutriu um dia
Nem mergulhar nas águas límpidas
Onde sua alma renascia.
7 - Meu DEUS, onde estão agora,
Os imponentes bem-te-vis?
Que majestosamente orquestravam
A sinfônica da floresta feliz?
8 - Daqui não os ouço mais
Nem miro a velha palmeira
Onde o pica-pau com altivez
Penetrava seu bico na madeira.
9 - Só o pesar da tristeza
De quem não mais reverencia
O alegre rebuliço da Mata
Ou Ipê que na primavera floria.
10 - Aqui pareço mais a cigarra
Emitindo som estridente
Um peixinho fora do riacho
A fogo-pagô murmurando incessantemente.
11 - Mas no pulsar do peito, o desejo
De regressar à Terrinha um dia
Recuperar o brilho nos olhos
Personificar novamente a alegria.
12 - Tal qual o sabiá
Que as manhãs contagia
Encantando as deleitosas fêmeas
Afugentando os rivais com ousadia.
13 - Ou a destreza das jaçanãs delirantes
Que desfilam nas lagoas sombrias
Flutuando sobre gélidas águas
E predadores frustrando com maestria.
14 - Do mesmo modo que fazia
Ante represálias de meus pais
Em fins de tarde fugia
Mangueiras subia, adentrava bananais.
15 - É o que nutre a esperança
Alenta o meu coração
Encarnar os dons da floresta
Da minha Mata do Japão.
16 - Para meus campos avistar
Meus babaçuais contemplar
Aos pares testemunhar
E às musas poemas declamar.
17 - Os medos que vivenciei
As lembranças que me agarrei
As dores que superei
As forças que arranquei.
18 - Para novamente feliz evocar
Com a mais sublime paixão
A nota de alegre música
E fincar os pés no bendito chão.
19 - Assim nunca mais sofrerei
A angústia da desilusão
O temor de exilado ficar
Da minha amada Mata do Japão!!!
PS. Escrevi quando estava na Capital.
Bateu uma saudade de casa!
(*) (Jean
Carlos Gonçalves) é professor, poeta, pesquisador e historiador.