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Fonte: Cartão Postal de C. W. Marinho Sereno |
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José
Pedro Araújo(*)
Quando
criança, uma das coisas de maior predileção para mim era ir ao
Mercado Público do velho e querido Curador para apreciar toda aquela
muvuca, observar de olhos arregalados os gritos dos anunciantes em
busca de clientes. Coisa de nordestino nato. Tratava-se, naquela
época, de um espaço muito amplo para os padrões daquela pequena
cidade, local em que, aos sábados, verdureiras, agricultores e
pequenos pecuaristas traziam seus produtos para comercializar na
feira e os anunciava aos gritos. Isso acontecia somente aos sábados,
porquanto, nos demais dias da semana, o espaço ficava vazio e se
transformava em uma verdadeira praça.
Em
determinado período, um administrador mandou arborizar todo o
perímetro da praça com belos pés de Acácia que foram sombreando
o local à medida que foram crescendo e conferindo ao local um certo
charme e atração.
E
porque afirmei que somente em épocas passadas era um espaço muito
amplo para os padrões da cidade? Por duas razões. A primeira delas
é que os administradores do município foram permitindo
paulatinamente que algumas pessoas se apossassem da parte de baixo do
quadrilátero formado e construíssem alguns pequenos prédios.
Aquela parte era comumente utilizada pelos circos mambembes que
transitavam pela região, e até chegou a possuir um parque infantil
público muito atraente, lugar em que a criançada adorava desfrutar
dos aparelhos até então desconhecidos, como a gangorra e os
balanços com suas cadeirinhas móveis, por exemplo.
Depois,
no local foram sendo erguidas algumas construções definitivas, mas
ainda pequenas casas de tijolo cobertas de telhas. A princípio, com
a finalidade comercial, ocasião em que foram sendo instalados
pequenas vendas naqueles rústicos prédios. Depois, com o passar dos
anos, os pequenos pontos comerciais foram cedendo lugar a outros bem
maiores – alguns até com mais de um pavimento – e viraram também
a residência desses comerciantes.
Pronto,
foi-se embora o parquinho e cerca de um terço do grande largo do
mercado. Na parte que ficou, ainda relativamente ampla, os feirantes
foram se estabelecendo também por mais tempo, até que já estavam
todos os dias por lá, e não somente aos sábados. Já não era
possível transitar pela praça em busca dos pequenos pontos
comerciais onde muita gente ia atrás de bolo frito, do bolo
chapéu-de-couro - esta uma das delícias da cidade que ainda me
encanta e aguça o paladar -, e até mesmo da famosa panelada que
atraia uma enormidade de aficionados.
Um
festival de barracas de todos os feitios e tamanhos foi tomando conta
do espaço, transformando o local em um labirinto tão complicado
quanto aquele do Minotauro da lenda grega. Ficou uma coisa feia de se
ver. Não se respeitou um padrão para as barracas, transformando a
feira em um espaço público bem bagunçado mesmo. Enquanto isso
acontecia, as árvores que sombreavam o lugar foram sendo cortadas
até que não restou mais nenhuma. As desconjuntadas barracas de lona
acabaram transformado aquele espaço em uma favela triste e
esquálida. E isso bem no centro da cidade. Vielas estreitas passaram
a ser o local de trânsito das pessoas que andavam por ali em busca
de algum produto para ajudar na feitura das refeições da família.
E o que era um local em que os agricultores da região
comercializavam o milho verde, o feijão, o arroz, a farinha,
pequenos animais e aves, entre tantos outros produtos da terra, foi
sendo ocupado por comerciantes profissionais, os chamados
atravessadores.
Se
há ainda no local alguém que comercialize algum produto cultivado
por si mesmo em chácaras e fazendolas do município, eu desconheço.
E isso me leva a lamentar que não haja na cidade um espaço
definido para que produtores rurais, criadores e horticultores possam
vender o produto cultivado e colhido com as suas próprias mãos. E
isso é de importância vital e até mesmo um estímulo sem tamanho
para as pessoas que vivem ou pretendem viver de uma atividade assim.
Pelo que eu sei também, a maior parte das frutas, cereais e verduras
consumidas na cidade são obtidos nas Ceasas de Teresina ou de São
Luís, que por sua vez são cultivados nos perímetros irrigados de
Pernambuco ou na Serra cearense. Para aquelas famílias que trabalham
e produzem em suas chacarinhas, ou até mesmo no seu quintal
diminuto, onde o cheiro verde, o pimentão, o alface, além de
diversas outras olerícolas colhidos poderiam render uma renda extra
para as famílias da região, não há um espaço público
apropriado.
A
propósito disto, em Piracuruca, no Piauí, cidade um pouco menor do
que a nossa, a prefeitura do município destinou um espaço simples
para os produtores rurais do município realizarem a comercialização
dos seus produtos extraídos do campo. Coisa simples, com banheiros
públicos e uma estrutura mínima que deu abrigo àqueles produtores
que vão ali colocar seus produtos à disposição dos consumidores.
E a coisa foi tão bem recebida que virou um grande negócio. Certa
vez, fui ao local para me encontrar com um dos produtores que vão
ali todas as semanas, sempre às segundas-feiras – este é o dia da
Pedra, como o espaço é chamado – e lá tomei conhecimento de
toda a importância que aquele espaço conferia à comunidade.
Verduras, farinha, feijão, arroz, milho, pequenos animais e até
gado, são comercializados pelos próprios produtores que têm ali um
espaço digno para expor o que produzem. Os animais ficavam
aprisionados nos próprios veículos de transporte – caminhões,
caminhonetes, e até pequenas caçambas -, facilitando a escolha pela
clientela e o transporte dos mesmos para entrega. A Feira da Pedra
virou um grande negócio em que quem precisa de um frango para o
almoço da família, ou mesmo de um cabrito, um suíno, e até de um
boi, corre para lá às segundas-feiras e escolhe o que melhor se
adequa ao seu orçamento e gosto. Feirantes da Ceasa de Teresina
levam seus caminhões para lá todas as semanas e voltam com eles
abarrotados de animais vivos para serem comercializados na capital.
Mas,
voltando à feira do Curador, devo acrescentar que as barracas de
lona foram sendo substituídas aos poucos por outras cobertas de
telha, e até mesmo pequenos prédios já foram erguidos no espaço
destinado à velha feira. Pontos comerciais como uma farmácia, algo
difícil de se ver em qualquer feira do mundo inteiro, foi implantado
no espaço que já foi antes chamado de Praça do Mercado. E acho que
aquilo ali não tem mais volta. No início da administração do
atual prefeito, com o propósito de melhorar um pouco o local e dar
maior segurança aos feirantes, ele ainda tentou fazer algumas
mudanças no local. Quase deflagrou uma revolta popular das grandes,
uma guerra civil curadoense.
Devo
terminar este texto afirmando que não sou insensível aos
trabalhadores que retiram dali o sustento para suas famílias. Acho
apenas que o ambiente poderia ser melhorado e transformado em um
local bem mais agradável aonde as pessoas se sentiriam mais
confortáveis, tanto trabalhadores quando consumidores. O local
poderia ganhar pequenas lanchonetes ou restaurantes de comidas
típicas, e certamente melhoraria em muito a vida de seus fregueses
e, naturalmente, o faturamento dos comerciantes ali instalados.
Os
mercados centrais de muitas cidades são hoje ponto de atração para
turistas de todos os tipos e gostos, e as pessoas que lá trabalham
passaram a ganhar muito mais com o crescente aumento dos clientes. E
a visão daquele ambiente público melhoraria muito também,
extinguindo-se aquele feio ambiente de favela.
Antes
que eu esqueça, como já afirmei em uma crônica passada, a Praça
do Mercado foi o primeiro campo de futebol da cidade. Lá, Teresita e
Santa Cruz, disputaram verdadeiras batalhas futebolísticas em busca
da vitória e da glória para seus atletas. Ó tempora! Ó mores!
(*)
José Pedro Araújo é engenheiro agrônomo, funcionário público federal aposentado,
historiador, cronista, romancista, e coordenador do blog Folhas
Avulsas.