domingo, 22 de fevereiro de 2026

Não posso amarrar o tempo no poste

 

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Luiz Thadeu Nunes e Silva(*)  

 

Sexta-feira, 20/02. Acordei sorumbático, com preguiça pelo corpo todo. Tenho resistência a sair da cama. O corpo pede calma, pede silêncio, pede sossego. Olho para a parede, o relógio me mostra o tempo seguindo seu curso.

“O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou três gerações da minha família", escreveu, com singeleza contumaz, o poeta de Alegrete, RS, Mário Quintana.

Não posso “amarrar o tempo no poste”, lembro o poeta cuiabano, Manoel de Barros, “o poeta das infâncias”.

“A infância não é um tempo, não é uma idade, uma coleção de memórias. A infância é quando ainda não é demasiado tarde. É quando estamos disponíveis para nos surpreendermos, para nos deixarmos encantar. Quase tudo se adquire nesse tempo em que aprendemos o próprio sentimento do Tempo”, cito o escritor moçambicano, Mia Couto, com quem tomei café da manhã, em uma manhã de abril de um ano que o tempo se encarregou de levar.

Os passarinhos veem me desejar feliz dia, ao cantarem na janela do quarto, no bebedouro que ali coloquei. Felizes não sabem o que são as horas.

Reluto um pouco mais em colocar-me em pé. O telefone toca, vejo um número que desconheço, não atendo. Quiçá fosse notícia boa. Provavelmente não seria. Passo o dia recebendo ligações de bancos, onde não tenho conta, muito menos dinheiro, e de operadoras de telefonia móvel. A tecnologia, que tanto otimiza a vida, também atrapalha.

Penso mais um pouco. Vejo que não tenho que terminar minhas tarefas em um só dia.

Que a vida está passando e absolutamente nada a impede.

Que tudo pode acabar num piscar de olhos.

Entendi que o material nunca foi importante.

O mais importante é o tempo que nos resta pela frente.

Se eu não estiver no trabalho, me substituem. Não tenho importância alguma.

Mas minha saúde emocional é insubstituível e importa.

Entendi que não preciso ajoelhar-me ao dar uma caminhada e ver a paisagem.

Entendi que a comida pode preencher o vazio do estômago, mas não o da alma.

Que eu tenho direito a desfrutar cada segundo o que eu tenho.

Que o dinheiro pode comprar viagens, mas não tempo. Sei quanto tenho de dinheiro, mas nunca saberei quanto tempo terei pela frente.

Que quando eu preciso de espaço, me retiro.

Que quando quero gritar, grito.

Que quando quero ficar na cama, fico.

Que quando eu quero dançar, eu danço.

E quando quero chorar, choro.

Aprendi a me ouvir atentamente e dar prioridade às minhas necessidades.

Desde que o faço, já meu café não sabe a pressa. Não bebo café frio.

O interfone toca, não posso mais ficar refastelado na cama; tenho que levantar.

Atendo, o porteiro ligou errado, pede desculpa. Agradeço, pois graças ao erro da ligação, consegui levantar e começar o dia. O tempo não espera por mim. Tenho muita coisa para resolver.

O tempo segue seu rumo. Tenho que engrenar para seguir o meu.

(*)

Luiz Thadeu Nunes e Silva é Engenheiro Agrônomo, jornalista, escritor e Globetrotter. É também autor do livro “Das muletas fiz asas”

Instagram: @luiz.thadeu

Facebook: Luiz Thadeu Silva

sábado, 14 de fevereiro de 2026

TIBÚRCIO - O Anjo Negro

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José Pedro Araújo (*)

- É isso mesmo que o senhor está ouvindo. Tô nessa vida por gosto e por desgosto. Por gosto porque gosto da minha profissão como gostaria de qualquer outra. Por desgosto, porque comecei ela para vingar a morte do meu pai. Hoje não sinto nem uma coisa, nem outra. Pra mim tanto faz matar um cachorro rabugento, como atirar num prefeito, por contrato. Aliás, quer saber? Talvez sinta mais pena do cachorro. Não sinto alegria, nem tristeza, somente um leve sentimento do dever cumprido.

- ...!

- Só fico aqui matutando como seria minha vida se meu pai não tivesse morrido daquela forma. Talvez ainda estivesse vivendo naquele pedaço de chão seco de caatinga, plantando, plantando, e pouco colhendo. No fundo, devo agradecer ao desinfeliz que acertou um tiro de lazarina nele. Usou um pé de panela em lugar de chumbo e quase arranca a cabeça lá dele. É isso, meu dotô. Fui forçado a procurar outra profissão. E me dei bem. O senhor não concorda? Hoje não importa pra mim se o inverno foi bom, se a mandioca pegou bem, ou se a seca devorou o meu roçado. Trabalho é o que não me falta. Faça bom inverno ou que não caia uma gota d’água no chão. 

- ...!

- É o que eu digo sempre: o sujeito pode ganhar dinheiro até mesmo na profissão de coveiro. É só inventar uma maneira de melhorar a vida dos que vão deixar lá seus defuntos. Hoje têm uns cemitérios tão arrumados que mais parece um jardim. E o pessoal ainda paga um bom dinheiro pra manter o lugar bem bonito. Todo mês. Especialista, dotô! Tem que ser especialista na profissão que você escolhe. Eu até posso dizer que sou um dotô também de tão especializado que sou. Nunca deixei um contratante meu em má situação. Pagamento feito, mercadoria entregue. Esse é um de meus lema. Por isso não me falta contrato.

- ...?

- Claro que pra chegar aonde cheguei, precisei abater muito pé-de-chinelo. Gentinha, tá compreendendo? Comecei assim, de baixo. Como todo mundo começa na vida, se não herdar. E no começo era dinheiro miúdo pelo contrato, couro de rato, merreca, que às vezes não dava pra chegar no fim do mês. Depois fui melhorando o meu prestígio, fazendo defunto de elite. Até mesmo uns políticos conhecidos passaram pela alça da mira do meu papo-amarelo. E quando você consegue cumprir bem um desses contratos, aí a fama aumenta muito. E fama aumentando, aumenta os ganhos da gente! Cheguei tão longe nesse meu negócio, que tive que abandonar o sertão do Seridó. Lá não tinha mais cliente pra mim. E eu não posso voltar atrás nos valores cobrados, senão todo mundo vai querer me pagar pouco, chorar miséria, essas coisas. Olha, apareceu até mulher querendo se livrar do marido e propondo me pagar com o apurado dela. Imagina! Não trabalho em consignação. Isso não! Não trabalho mais também só com meiúca. Metade no ato do contrato, metade depois do serviço terminado. Isso é pra principiante. Quero tudo na minha mão. Pois, como já sou muito famoso, não podem me ver na região onde o trabalho aconteceu. Tenho que desaparecer por uns tempos, aparecer rapidamente em outros lugares. Forjar o meu álibi. Não posso voltar pra cobrar a outra metade. Por isso todo mundo sabe que eu vivo disso, mas ninguém tem provas pra me botar na cadeia.

- ...?

Sou muito profissional. Nem pra irmão eu trabalho de graça. Aliás, o último que matei de graça foi por vingança. Foi o caso que já lhe contei; o caso do meu pai. Coisa de menino afobado. Hoje posso dizer que sou da paz. É! Um defensor da não violência. Prefiro os argumentos, seu dotô! Os argumentos, tá entendendo? Outro dia mesmo, caboclinho queria fazer fama comigo e andou me dando uns tabefes pra ver minha reação. Puxei o tresoitão somente pra botar ele pra correr dali. Mas, não acho certo matar por uma discussão à toa, um tabefezinho qualquer. Sou pela paz, como disse. Morte mesmo, só com contrato.

- ...?

- Não! Ninguém reluta mais. Quando vem alguém me procurar já tá ciente de só trabalho assim, dotô. Outra coisa que não admito é refazer o contrato. Contrato feito, temos que cumprir tudo direitinho. Você me paga, eu te dou um cadáver em troca. Simples assim. Ninguém pode voltar atrás.

- ...!

- Pense bem antes de fazer o contrato comigo. Dinheiro bateu no meu bolso é meu. Não devolvo. Por outro lado, sempre cumpri o acordo. Não pode dizer que se arrependeu, que não quer mais o defunto. Eu sempre faço o que o patrão me pagou pra fazer, dotô. Depois, já passei dias estudando o sujeito, zangando com ele, opilando o meu fígado. E depois de criar ódio pelo cabra, pode encomendar o paletó dele. Outro dia um político me contratou para mandar mais cedo um adversário dele pro andar de cima. Contrato firmado, dinheiro entregue, passei a fazer o meu ritual. Cuspi na foto do miserável, amassei, desamassei a bicha, passei noites sem dormir dado o ódio que comecei a sentir por ele. Aí veio o miserável do contratante e disse que não queria mais a morte do sujeito, que já tinham feito uma parceria muito vantajosa pra ele. Eu respondi que não tinha mais jeito. Podia ir se acostumando com a ideia que a coisa era questão de dias. Ora vê se pode! Não tem palavra não, cabra! Eu tenho. E por isso meu nome está limpo na praça. 

- ...?

- Prefiro no campo. Lá você fica tranquilo. Procuro uma boa posição atrás de um pau ou de uma pedra. É só fazer a coisa de modo a ninguém te ver. Na cidade isso é impossível. Sempre vai aparecer alguém pra te denunciar. Depois, fico ali esperando, tranquilo. Uma hora a caça passa na frente do meu trabuco. Também é mais fácil pra fugir do local. 

- ...?

- Não! Fico tranquilo, esperando. Aproveito pra cortar as unhas, pensar na vida. Planejar a fuga pra voltar logo pro meu canto aqui. Aqui é o meu escritório. Aqui recebo meus clientes. Tenho que voltar logo.

- ...?

- Tenho um lema sim! “Esse não morre mais!” Passou na frente do meu rifle, não vai ter outra chance pra morrer. Tô é fazendo favor pro cabra! Todo mundo vai morrer um dia mesmo! E a maioria das pessoas sofre que nem o diabo antes de partir dessa pra melhor. Uma vítima minha não sofre nadinha de nada. O pau quebrou, em segundos ele já está viajando pro além. Os outros, não! Sofrem dias, às vezes meses, gastando tudo o que tinha pra diminuir as dores. E depois morre do mesmo jeito! É por isso que me chamam de anjo negro. Me orgulho desse nome. Anjo, seu dotô. Me chamam de anjo. Então devem estar felizes com o meu trabalho. Se não, era fii da peste pra cá, incompetente pra lá! Essas coisas. Sou um anjo vingador, meu dotô! Já me disseram isso! Abro os caminhos pros meus clientes. Sou, com muita honra, Tibúrcio, o anjo negro. Aquele que foi enviado para te afastar das tristezas da vida. Morto não sente dor, não paga dívida. Pra que melhor, ingrato!

- ...?

- Não preciso me oferecer pra ninguém. Nem fazer propaganda preciso fazer. Cada contrato bem cumprido é que é a minha propaganda. E quem quiser me contratar, que venha até aqui! Olha lá aquele homem bem apessoado que acabou de dobrar na curva. Tá vindo atrás dos meus serviços. Pode ter certeza. Só dois tipos de gente passam por aqui: os clientes, ou algum incompetente que se perdeu no caminho. É! O pessoal que me contrata é gente de bem, bem-vestido, como aquele que vem lá. Pé rapado não tem dinheiro pra contratar um homem famoso como eu! Se aparecer outro tipo de gente por aqui, vai ter que se explicar direitinho pra mim.

- ...?

- Se tenho medo de ser alguém contratado pra me matar? Meu faro é meu guia, seu dotô! Por isso estou nessa lida há tanto tempo. Conheço um da minha classe de longe, e só pelo cheiro. Aquele lá é um molóide, monta mal, se segura na sela como se fosse cair a qualquer instante. Um da minha iguala tem que saber se comportar em cima de uma montaria. Se não, como vai conseguir escapar rapidamente?  Oi! de lá! Pode se chegar. Se sou Tibúrcio, o anjo negro? Pode apostar que sim! Por que o patrão aí quer saber?

- ...?

- Se tô disponível pra fazer um serviço? Uma coisa que nunca fiz foi tirar férias, meu dotô! No meu ramo temos que aproveitar o momento bom. E o preço é esse mesmo. Tá com o faz-me rir aí no alforje? Isso é bom! Deixe-me ver.

- ...!

- Mas o que é isso? Não! Não faça isso! ... Miserável! Como fui me deixar surpreender por um novato desengonçado desse? Só pode ser crime de vingança! Não precisava atirar na minha barriga, infeliz! Isso é morte dolorosa e demorada! Por isso deve ser crime de vingança! Crime por encomenda tem que ser rápido. É preciso levar notícia pro patrão que contratou o serviço. Mas que coisa! Morto por um amarelo desse! Meu primeiro e último erro. Peço perdão a todos os santos! Meu Padim Padre Cícero, me receba no seu reino no céu! Como dói essas pestes encravada aqui na minha barriga! Foi bala Dundum, senti a droga rasgando tudo. Dói e queima! Morrer de tiro de Rossi 22! A bala nem consegue me atravessar! Ô vida! Tá chorando por que, amarelo? Para de tremer, siô! É verdade, você acaba de matar o maior matador do agreste! Poder espalhar a história e se aproveitar da fama, chorão de uma figa!

- ...!?

- ...!

(*) 


José Pedro Araújo é engenheiro agrônomo, funcionário público federal aposentado, historiador, cronista, romancista, e coordenador do blog Folhas Avulsas.

 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A MORTE DAS ÁGUAS (ALGUNS COMENTÁRIOS)

 

Capa do Livro


                                                    Chico Acoram (*)

 

Em dezembro do ano passado, tive conhecimento, pelo Facebook, do novo livro de autoria do escritor José Pedro Araújo, publicado na Amazon, com o título A MORTE DAS ÁGUAS. Editada no formato e-book, a obra é um romance distribuído em emocionantes 14 capítulos e um epílogo, totalizando 374 páginas. De imediato, acessei o site amazon.com.br e, por apenas R$ 24,99, adquiri essa belíssima e importante obra da lavra do romancista, contista e cronista maranhense, nascido na cidade de Presidente Dutra (MA), mas residente em Teresina há vários anos, onde constituiu família, sendo casado com a piauiense Helena Araújo, pai de quatro filhos. É funcionário público federal aposentado (engenheiro agrônomo).

É autor do livro de história Viajando do Curador a Presidente Dutra e dos romances O Meu Inimigo Japonês, À Sombra da Casa Materna, O Herdeiro do Vento e Terra de Ninguém. Publicou ainda os contos O Relógio da Matriz e Negociando com a Morte. Atualmente, vem publicando em seu blog Folhas Avulsas belas crônicas de sua autoria e de outros cronistas do Piauí, do Maranhão e de outros estados. Aliás, José Pedro Araújo é o criador e coordenador desse conceituado blog.

A MORTE DAS ÁGUAS é um romance classificado como realismo brasileiro, notadamente inserido na literatura piauiense. O autor, influenciado por sua vivência como agrônomo e profundo conhecedor das disputadas terras da região sul do Piauí (MATOPIBA), narra, em terceira pessoa, com grande maestria — clareza, concisão, coesão e objetividade — as aventuras de um jovem piauiense bem-sucedido no Rio de Janeiro que, após vários anos, decide retornar à sua terra natal para cuidar da fazenda de seus falecidos avós maternos.

No desenrolar da história, o autor mostra, de forma fidedigna, os danos ambientais e os problemas sociais causados pela exploração gananciosa e equivocada das vastas áreas dos cerrados piauienses, sobretudo das terras localizadas nas nascentes do nosso maior caudal: o rio Parnaíba. Concomitantemente, desenvolve com bastante criatividade o enredo central do romance: a cobiça de um vilão que deseja tomar todas as terras herdadas pelo herói da narrativa, o Dr. Ricardo Melo.

Para tanto, o violento gerente da vizinha Fazenda Fênix — empresa multinacional do ramo da soja e de outros grãos —, acompanhado de seus capangas, invade a fazenda Monte Alegre, destruindo cercas, currais e casas de humildes moradores, atirando no gado e na casa-sede com armas de fogo de grosso calibre. Os ataques resultam na morte de animais e chegam, inclusive, a balear gravemente uma criança de seis anos, neto de Enoque, vaqueiro e capataz da fazenda. São cenas de horror que lembram antigos filmes de faroeste americano.

Filho único de uma professora primária, Ricardo Melo, personagem principal do romance, ainda criança morava com sua mãe em uma humilde casa situada na fictícia cidade de Chapada Grande, no extremo sul do estado do Piauí. Tornou-se órfão de pai aos três anos de idade. Nas férias e feriados prolongados, mãe e filho iam para a fazenda Monte Alegre, de propriedade dos avós maternos, localizada não muito distante da cidade. Nessa época, o avô dizia que, quando morresse, a fazenda seria administrada pelo neto.

Mãe e filho residiram nessa cidade até que o garoto concluiu o primeiro grau. Em seguida, mudaram-se para Teresina, visando ao prosseguimento dos estudos, matriculando-se Ricardo no Liceu Piauiense, onde concluiu o segundo grau. Depois, o jovem foi morar no Rio de Janeiro para realizar os estudos preparatórios para o vestibular. Conseguiu ingressar no curso de Ciências Econômicas de uma universidade federal e, após formado, especializou-se em comércio exterior.

Por mérito próprio, obteve colocação em uma empresa multinacional de aço laminado, chegando ao comando daquela indústria. Recebendo altos salários, o Dr. Ricardo conseguiu economizar bastante dinheiro, bem como multiplicá-lo por meio de investimentos realizados ao longo dos anos.

Sabia-se que o Dr. Ricardo, no Rio de Janeiro, era um atuante defensor da natureza e sempre se mostrava preocupado com as questões relativas ao meio ambiente, além de contribuir com recursos financeiros próprios para ONGs voltadas à defesa de um mundo melhor. Foi com esse perfil que retornou ao Piauí para cuidar das terras herdadas do avô. Sabia que havia tomado uma decisão difícil e que os desafios seriam enormes, mas desconhecia a dimensão dos perigos que enfrentaria no comando da fazenda Monte Alegre.

Entre outras personagens do romance, destacam-se o prefeito Uruçu e o delegado de polícia, senhor Visgueira, ambos corruptos e mancomunados com o terrível gerente da Fazenda Fênix, o holandês Mark Sorensen. Outra personagem curiosa é o traidor Albertino, filho do velho Enoque. Revoltado com seu patrão Ricardo, Albertino alia-se ao cangaceiro Honorato Gentil, responsável pelo trabalho sujo da Fênix.

Como aliados do Dr. Ricardo Melo, figuram: o velho Enoque, vaqueiro e capataz da fazenda Monte Alegre; o jovem e corajoso vereador Rodrigo Soares; o líder comunitário Zé Arcanjo; o professor e pesquisador Afonso, da Universidade Federal do Piauí; o amigo de infância Gut, mecânico e tratorista; o agrônomo Bruno Arns; dona Severina e Salomé, esposa e nora de Enoque — sendo Severina também responsável pelos cuidados da casa-sede; o jornalista Mário de Castro; e a jovem e bela jornalista Lara Drumond, namorada de Ricardo.

O protagonista do romance, Dr. Ricardo Melo, homem inteligente e perspicaz, passa a desconfiar da sanha e do recorrente desejo do estrangeiro Mark Sorensen em adquirir sua propriedade, sobretudo diante da existência de vastas extensões de terras disponíveis nas adjacências. “Por que justamente as minhas terras?”, questiona-se. Esse mistério o leitor só desvendará no final do livro. Trata-se de um romance fantástico e emocionante.

Um aspecto importante a ser observado na obra é o caráter metafórico do título A MORTE DAS ÁGUAS. Seu significado torna-se claro quando o autor, por meio das observações do Dr. Ricardo Melo, descreve com precisão a devastação das nascentes do rio Parnaíba, decorrente da exploração irracional e criminosa praticada por proprietários de terras da região.

Como agrônomo e ex-servidor do INCRA, José Pedro Araújo sugere, por intermédio das ideias revolucionárias do protagonista, ações voltadas à proteção desse importante manancial, o “Velho Monge”. Entre elas, destaca-se a criação de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural, além da explicitação das vantagens dessa iniciativa tanto para a natureza quanto para os moradores da região. O autor sugere, ainda, atividades como a exploração turística, que poderia constituir uma alternativa lucrativa, inclusive com a instalação de áreas para camping. Imagina também a criação do “Parque Natural das Araras”, que “poderia atrair gente de todas as partes do mundo para conhecer e apreciar o espetáculo produzido diariamente pelas araras-canindé e outros pássaros que voltariam a viver na região”.

Caro leitor, pelo que foi exposto acerca do protagonista de A MORTE DAS ÁGUAS, certamente se concluirá que o Dr. Ricardo é ousado e visionário; poder-se-ia até dizer: um Dom Quixote moderno. Como exemplo, Ricardo idealiza a implantação de um projeto particular de assentamento rural, cedendo parte de suas terras aos antigos moradores expulsos da localidade Lagoa de Dentro, vizinha à fazenda Monte Alegre. Para isso, precisaria convencer o senhor Zé Arcanjo, líder de uma comunidade formada por moradores de uma paupérrima rua de Chapada Grande, os mesmos que haviam sido expulsos pelos capangas da Fazenda Fênix. Entretanto, não anteciparei ao leitor se tal projeto foi ou não viabilizado.

Para concluir, entendo que A MORTE DAS ÁGUAS é um romance cujo objetivo principal é divulgar a real situação das nascentes do rio Parnaíba, no extremo sul do Piauí. Ou seja, mostrar a degradação das áreas de preservação onde se localizam as nascentes do maior e mais importante rio do estado. Em outras palavras, o autor busca alertar autoridades estaduais e federais, políticos, organizações de proteção ambiental e toda a sociedade piauiense para o fato de que a exploração irracional dos cerrados, especialmente das áreas de nascente do rio Parnaíba, implicará sérios danos ambientais, ameaçando, inclusive, a perenidade do rio Grande dos Tapuia.

Por outro lado, o autor — agrônomo e ex-servidor do INCRA — demonstra, por meio do protagonista Dr. Ricardo Melo, que é possível explorar racionalmente as terras dos cerrados piauienses e as áreas das nascentes do rio Parnaíba, mediante a implementação de ações públicas e privadas, tais como projetos de assentamento, regularização fundiária, políticas agrícolas, técnicas modernas de combate às pragas (sem uso de agrotóxicos) e outras práticas voltadas à preservação do meio ambiente.

Recomendo, portanto, a leitura deste excelente romance, A MORTE DAS ÁGUAS, de autoria do escritor José Pedro Araújo.

(*)

Chico Acoram, é funcionário público federal, contador, cronista e poeta cordelista.