quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

PE. CLÁUDIO MELO EM TRÊS TEMPOS




 Elmar Carvalho é poeta, prosador, historiador e membro da APL.

No sábado, dia 07/12/2019, foi lançada a Obra Reunida, da autoria do Padre Cláudio Melo (Campo Maior, 1932 – Teresina, 1998), sacerdote católico, professor universitário (UFPI) e notável historiador do Piauí, talvez o mais importante do período colonial. É quase a sua obra completa, pois ficaram de fora do monumental volume único, de mais de 850 páginas, apenas um ou dois livros e vários artigos esparsos, muitos dos quais tive a satisfação de lhe solicitar e publicar na revista Cadernos de Teresina, quando fui o presidente do Conselho Editorial da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, órgão da Prefeitura Municipal de Teresina. O livro faz parte da Coleção Centenário da Academia Piauiense de Letras, onde pode ser adquirido. Tive a subida honra de lhe fazer breve apresentação na solenidade de lançamento. Segue abaixo o prefácio que lhe fiz.



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Guardo com zelo e ciúme o pequeno e precioso livro Bernardo de Carvalho, da autoria do padre Cláudio Melo, meu conterrâneo, editado pela Universidade Federal do Piauí em 1988. É uma brochura simples, humilde, desguarnecida de enfeites e ilustrações, em que se percebem imperfeições tipográficas ao longo de suas 61 páginas. Na folha de rosto, em letra miúda, mas bem legível, vê-se a seguinte dedicatória, sem data: “Ao Elmar, com a estima do Pe. Cláudio”.

            Em 1993 assumi a presidência do Conselho Editorial da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, órgão da Prefeitura de Teresina, que homenageia o ilustre historiador e nosso também conterrâneo Joaquim Raimundo Ferreira Chaves. Desde então passei a solicitar matérias historiográficas ao Pe. Cláudio Melo. Disso tiro a conclusão de que travei amizade com ele a partir do final dos anos 80 ou começo dos 90. Na segunda edição de meu opúsculo Cromos de Campo Maior, encontra-se desvanecedora apresentação de sua lavra, datada de 7 de setembro de 1995.

            Recordo que quando ele me entregou o livro Bernardo de Carvalho, advertiu-me para que eu não o deixasse de ler e observou que o grande e último mestre de campo das Conquistas do Piauí e do Maranhão, fundador de cidades e igrejas, era a mais ilustre figura do Piauí colonial. Em seu livro constatei que ele fora “uma das mais gloriosas figuras de nossa História e o verdadeiro criador da unidade piauiense”, classificando-o como “herói das Conquistas e consolidador do Piauí”. Por conseguinte, lançou as bases administrativas e militares do que viria a ser a capitania, a província e o estado do Piauí.

            Sem dúvida nas suas inovadoras e percucientes pesquisas, o padre Cláudio contribuiu para tirar do injusto esquecimento o velho e heroico marechal de campo. Contudo, tempos depois, verifiquei que o próprio livro do ilustre historiador já estava caindo no olvido, em virtude de sua edição acanhada e de reduzida tiragem, a que não se seguiu nenhuma reedição. Por esse motivo e também por causa da iconoclastia e menoscabo que se cometeram contra o grande Bernardo, fundamentado nessa obra pioneira e nas de outros historiadores, publiquei em 2012 o livro Bernardo de Carvalho – o fundador de Bitorocara.

            Ao surgir uma obra que contrariava a tese de padre Cláudio, afirmando que a Fazenda Bitorocara, que dera origem a Campo Maior, não ficava situada no entorno dessa cidade, na confluência dos rios Surubim e Longá, reeditei o meu livro, em edição revista, melhorada e aumentada, pois tive acesso a novas obras e documentação. Foi uma bela edição da Editora da Universidade Federal do Piauí - EDUFPI, com a chancela da Academia Campomaiorense de Artes e Letras, em que tive o apoio das professoras Sílvia Melo e Jacqueline Dourado, na profícua gestão do reitor Arimatéia Dantas.

Acresci-lhe dois novos capítulos, um dos quais específico sobre a localização da velha fazenda de Bernardo, em que julgo haver demonstrado de forma peremptória e cabal, reforçando os argumentos de Cláudio Melo, que ela ficava mesmo nos arredores de onde hoje se ergue a imponente catedral de Santo Antônio do Surubim, cuja primeira igreja fora erguida por Bernardo, a pedido de seu parente, o padre Tomé de Carvalho.     

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A presente obra foi idealizada e organizada por Teresinha Queiroz, e contou com o apoio do conterrâneo Raimundo Nonato Monteiro de Santana, que conseguiu ajuda financeira da Prefeitura de Campo Maior para a sua digitação, na gestão de João Félix de Andrade Filho. Teresinha, além da notável obra de sua autoria, mormente no campo da história social, tem se empenhado em resgatar importantes obras de há muito esgotadas, entre as quais a de Clodoaldo Freitas, R. N. Monteiro de Santana e mais recentemente as coligidas neste tomo.

Não sendo possível, no momento, a publicação da obra completa de Pe. Cláudio Melo, por diferentes motivos, foi concebido o vertente volume único de seus mais significativos trabalhos, quais sejam: O mártir dos Tacarijus, O povoamento do Piauí, O último berço dos Tacarijus, Os construtores de nossa história, Os jesuítas no Piauí, Os primórdios de nossa história, Arquidiocese de Teresina, A Diocese de Parnaíba – 50 anos de história, A prioridade do norte no povoamento do Piauí, As sesmarias da Casa da Torre no Piauí, Bernardo de Carvalho, Caxias no tempo das Aldeias Altas e Fé e civilização. Foram mantidos os prefácios e apresentações de todos os originais.   

Desde que ingressei na Academia Piauiense de Letras, no ano de 2008, passei a reivindicar sua publicação. Na gestão do confrade Reginaldo Miranda e contando com a sua total anuência, tentei uma parceria com o Banco do Nordeste do Brasil, tendo feito algumas gestões nesse sentido, mas a excessiva exigência burocrática para a elaboração do projeto terminou inviabilizando esse objetivo.

O presidente Nelson Nery Costa, dando continuidade à Coleção Centenário, iniciada por Reginaldo Miranda, com vista à comemoração dos cem anos de nosso Sodalício, incluiu a vertente Obra Reunida de Pe. Cláudio Melo nessa importantíssima coleção de obras-primas da Literatura Piauiense. Como eu viesse “cobrando” com certa insistência a sua publicação, encarregou-me de lhe fazer a revisão.

Temi tão melindroso conquanto honroso encargo. Por isso, adotei alguns critérios para esse mister. Em transcrições, sobretudo de documentos, optei por não fazer a atualização ortográfica de vocábulos, exceto nos que já estão consagrados e dicionarizados. Contudo, mantive, como não poderia deixar de ser, as atualizações feitas pelo próprio autor, bem como não lhes substituí as palavras em desuso.

Na medida do possível, cotejei o material digitado com os originais que me foram entregues, para evitar erros de nomes de pessoas, de localidades e de datas. Todavia, julgo compreensível que alguma coisa possa ter fugido a esse cuidado.

Por outra parte, não foi possível localizar os originais de duas ou três obras, de modo que lhes fiz apenas uma revisão gramatical do material digitado, só lhes revendo o conteúdo em um ou dois casos de evidente equívoco historiográfico.

Deixo claro, portanto, que numa obra dessa dimensão e complexidade é quase impossível uma perfeita revisão, que talvez possa ser alcançada numa próxima edição, tendo esta como parâmetro.

3

Despojado de vaidade, embora tenha elaborado a biografia de ilustres personalidades da História do Piauí, Cláudio Melo nunca escreveu a sua própria, nem mesmo de forma sintética, nem tampouco, do meu conhecimento, concebeu obra autobiográfica, memorialística ou confessional.

Também desprovido de egoísmo, socializava as suas pesquisas, permitindo que outros historiadores utilizassem as suas anotações e registros, fruto do sacrifício de seu demorado labor em acervos sem conforto e muitas vezes remotos, de difícil acesso a piauienses. Estimulava os estudantes e pesquisadores a escreverem novas obras, inclusive contraditando-o, se fosse o caso, ou indo além do que ele alcançara desvendar. Todavia, sempre propugnava pela verdade, pelo apego ao conjunto de documentos, e não a meras ilações ou suposições, sem fundamento em fontes idôneas e aceitáveis.

Nasceu na cidade de Campo Maior, em 2 de março de 1932. Além de sacerdote e historiador, foi professor da Universidade Federal do Piauí. Doutor em Sociologia pela universidade romana de São Tomás de Aquino. Foi membro do Conselho Estadual de Cultura e do Conselho do Projeto Petrônio Portela. Exerceu a chefia do Patrimônio Artístico e Cultural do Piauí. Pertenceu à Academia Piauiense de Letras. Fora outras obras e artigos publicados em diversos periódicos (que dariam um belo volume), publicou os livros aqui enfeixados. Exerceu seu mister sacerdotal nos municípios de São Miguel do Tapuio, Campo Maior, São Pedro do Piauí e Teresina. Sobre os dois primeiros, escreveu importantes obras historiográficas, desde os seus primórdios.

Pe. Cláudio Melo é um historiador que prezava, sobretudo, a verdade e o contexto da época em que os fatos aconteceram, para não cometer injustiças e insolências com a figura histórica, ante eventuais anacronismos. Também não admitia certos modismos metodológicos e injustas iconoclastias. Assim, se insurgiu com altivez contra certos anacronismos, quando alguns afoitos “historiadores” detrataram e defenestraram importantes figuras históricas, sem levarem em conta a realidade, as leis, os costumes, as crenças, as crendices e as superstições da época em que essas pessoas viveram.

Em busca da verdade histórica sacrificou sua saúde, seu tempo e cabedais. Segundo se sabe, mergulhou em desgastantes consultas a documentos, numa época em que eles não eram disponibilizados na internet. Por conseguinte, os consultou em diferentes e longínquos arquivos e acervos, entre os quais os de Portugal, Belém – PA e São Luís do Maranhão, fora os existentes em diferentes cidades do Piauí, tanto públicos, como eclesiásticos e particulares.

De inteligência arguta, sua capacidade argumentativa era invejável. Contudo, suas conclusões não eram tiradas de meras suposições e hipóteses, mas do cotejo de vários documentos. Como suas pesquisas, leituras e releituras se prolongaram por vários anos, desenvolvia e aperfeiçoava suas teses e ilações em obras posteriores, daí a enorme importância dessa Obra Reunida, porquanto o leitor e pesquisador poderá observar o conjunto e o progresso do seu importante trabalho historiográfico.

Tornou-se, com o avançar de suas pesquisas e obras, um dos mais importantes historiadores de nosso estado, quiçá o mais ilustre de nossos primórdios e de nossa historiografia colonial. Lançou luzes sobre muitos fatos desconhecidos ou obscuros, sobre muitos dos quais pairavam dúvidas e controvérsias, trazendo novos esclarecimentos e reinterpretações, mas, como disse, fundamentado em documentos, cuja localização indicava, transcrevendo-os em muitos trechos de sua vasta obra ou em seus anexos. Por via de consequência, muitos intelectuais que lhe torceram o nariz, no início de sua brilhante jornada historiográfica, passaram a lhe acatar as teses e tiveram que se curvar ante os seus incontrastáveis argumentos.

O ilustre historiador não se preocupou em fazer um trabalho de mera divulgação (que também é importante), mas em trazer à luz da história fatos desconhecidos ou não perfeitamente desvendados de nosso passado mais remoto. Porfiou em esclarecer dúvidas, em desfazer equívocos e interpretações controvertidas. Portanto, foi à procura de documentos esconsos, ainda não manejados por nossos pesquisadores, que jaziam esquecidos em empoeirados e quase inacessíveis arquivos e acervos.

Com a publicação desta magnífica obra é feita justiça ao ilustre historiador Pe. Cláudio Melo, cujos livros se encontravam esgotados há mais de duas décadas. Tirou-se do esquecimento um dos maiores pesquisadores de nosso estado, ele que tirou do olvido os mais notáveis feitos e personalidades históricas do Piauí colonial.

Por conseguinte, a Coleção Centenário, nesta profícua gestão do presidente Nelson Nery Costa, atingiu um de seus muitos pontos áureos e culminantes.    

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

A ACADEMIA PIAUIENSE DE LETRAS E SUA OBRA MONUMENTAL

Capa do Livro do Centenário da APL.



José Pedro Araújo

Tenho a impressão (e quase a certeza), de quando os imortais Jônatas Batista, Celso Pinheiro, Lucídio Freitas, Antônio Chaves, Benedito Aurélio de Freitas (Baurélio Mangabeira), Édison Cunha, Fenelon Castelo Branco, Clodoaldo Freitas, Higino Cunha e João Pinheiro, posicionaram-se para a foto histórica, memorável, aí pelos idos de 1917, mais do que sentimento de vaidade por pertencerem à nata da inteligência piauiense, traziam na mente uma pergunta comum a todos eles e repleta de preocupações: o que fariam dali para a frente, logo que encerrassem-se as festividades de fundação do sodalício que criavam naquele instante? Depois que as notícias e as entrevistas para os jornais da época sumissem das mentes de seus concidadãos?
Se pensaram assim, estavam repletos de razão, afinal, como fazer diferente em uma terra em que mais da metade dos seus moradores não sabia rasurar o primeiro nome de batismo. Um estado em que as gráficas existentes mal davam conta de imprimir os blocos de notas fiscais do tesouro estadual e os poucos periódicos encarregados de socializar as notícias que iam pelo estado, pelo Brasil e pelo mundo? Como publicar algo em um estado com tantas deficiências assim? Como arrumar recursos para essas publicações?
As preocupações faziam sentido, mas a determinação daqueles homens era tão grande que nunca esmoreceram no que pese todas as dificuldades que teriam pela frente. E hoje, tenho também a impressão, ficariam eles felizes se pudessem observar o tamanho da obra encetada pela sua Academia ao completar o seu primeiro centenário de existência.
A Academia Piauiense de Letras, com sigla APL, órgão máximo das letras no Estado do Piauí (de acordo com a sua própria definição), tem trabalhado intensa e incessantemente para cumprir a sua missão de levar cultura aos mais distantes rincões do nosso território, quiçá do Brasil.
Em 1981, quando para Teresina retornei, uma das primeiras coisas que fiz foi ir à procura da APL para me inteirar de como poderia adquirir alguns livros publicados por ela. Já estava eu inteiramente contaminado pela necessidade de conduzir sempre um bom livro em minhas mãos a cada passo que dava. E fiquei surpreso e, ao mesmo tempo, animado com o que ouvi.  Seria possível, sim, informou-me a distinta senhora que me atendeu naquela tarde. Seria possível não somente adquiri alguns livros a preços módicos, mas, ao mesmo tempo, poderia ficar recendo trimestralmente as publicações da academia, e por um preço que me pareceu muito convidativo. E de fato o era. O valor cobrado era tão insignificante que não pensei duas vezes em me inscrever como assinante daquela casa de cultura.
Somente algum tempo depois, tomei conhecimento de que aquela senhora tão educada e convincente, era a própria esposa do presidente da casa. Tratava-se da senhora Delci Maria Tito. Era com esse nome que ela assinava os recibos relativos ao valor que deveria pagar sempre que seu enviado me procurava para entregar os três exemplares daquela remessa, e também para receber o pagamento pela assinatura. Não restam dúvidas de que as brochuras tinham um formato muito simples, quase artesanal. Agora mesmo tenho em minhas mãos três desses livros que guardo com o maior carinho em estantes da minha humilde biblioteca. Entre estes, “Curral de Serras”, romance que muito me encantou pela sua prosa regionalista e que explorava o linguajar do povo do sertão piauiense (“O senhor se sai com cada uma... E adota certas manias, que cobram dificuldade de uma pessoa entender. O fato é que fico desinquieta em noite de lua cheia, reparando o p’ra-lá-p’ra-cá das caminhadas de vosmecê, medindo e desmedindo o tamanho do chão do terreiro”).  Li de um só fôlego, tamanha foi a empatia com o livro, cuja capa singela, mas ao mesmo tempo muito bonita, era da autoria da própria Delci Tito, como pude constatar. Aquela admirável senhora era a secretária da academia, fazia um trabalho monumental para comercializar a sua produção literária, e ainda encontrava tempo para produzir as gravuras para as capas de alguns livros.
O segundo livro é a segunda edição do “Canto da Terra Mártires”, de Martins Vieira. Um soco no estômago que me levou às alturas com poemas como A Fome (Ó provação – a fome!... Ó caos tormentoso zumbido e doudejar de entranhas!... Timpanoso, o ventre constipado, o fígado disforme e aquela sonolência incrível que não dorme?).  Poema que atinge todos os nossos sentidos vitais com suas palavras de fogo, ardentes, fazendo-nos culpados até mesmo pelos erros que não cometemos, o que dirá das nossas próprias idiossincrasias.
Por fim, “Um Manicaca – Documento de uma época”, livro de autoria do eterno presidente da agremiação, Arimatéia Tito Filho, com capa também de Delci Tito. Livrinho interessante que mergulha de cabeça na obra de autoria de Abdias Neves; história ambientada em Teresina, e que retrata usos e costumes do final do século XIX, bem como os efeitos devastadores da chamada Grande Seca iniciada em 1877. No pequeno livro, A. Tito Filho se propõe a descrever a Teresina daquela época, seus usos e costumes, como já informamos, mas também os termos, as gírias mais em voga naquele tempo, além, é claro, de fazer uma descrição completa dos serviços públicos oferecidos à coletividade, como acontece quando trata, logo no primeiro capítulo sobre O Acendedor de Lampiões – “A primeira iluminação pública de Teresina verificou-se em 1867. Limitada à praça da Constituição (hoje Deodoro), onde se achavam o Palácio do Governo, a igreja matriz de N.S. do Amparo, e outros edifícios públicos. Sete combustores de querosene sobre colunas de madeira... O serviço tinha um arrematante, e competia a este contratar o acendedor dos lampiões, que, diariamente, realizava o trabalho, servindo-se de escada”). Todos os verbetes descritos por A. Tito Filho foram extraídos do romance de A. Neves.
Os três livros aqui descritos tinham ainda algo em comum: a responsabilidade de suas impressões era da COMEPI, a gráfica e editora do Estado, cuja qualidade, para os padrões de hoje, eram por demais sofríveis, apesar de já possuirmos gráficas e editoras no país que produziam com extrema qualidade.  A gráfica do estado não fazia colagens, mas sim grampeamento das páginas, e hoje esses grampos estão enferrujados oxidam e apodrecem as páginas dos livros editados.  Entretanto, com toda essa dificuldade, a APL produzia já seus livros, em pequenas tiragens, é bem verdade, e fazia a distribuição aos seus poucos leitores.
Antes desse período ao qual me refiro (início dos anos 80), na primeira metade da década de 70, o governo Alberto Silva, tendo como ideólogo do projeto A. Tito Filho (me parece), andou patrocinando a publicação de umas poucas dezenas de livros. E para isso formalizou contrato com a Editora Artenova, de propriedade do empresário piauiense, cuja sede ficava no Rio de Janeiro, Álvaro Pacheco. Foram relançadas obras da maior importância para a história e a literatura piauiense como, por exemplo, “Cronologia Histórica do Estado do Piauí, de F. A. Pereira da Costa; Roteiro do Piauí, de Carlos Eugênio Porto, e Introdução à Revolução de 1964, de Carlos Castelo Branco. Cito apenas esses três, entre duas dezenas de livros publicados, pelo menos. A qualidade da impressão e do papel já era bem melhor, contudo, o problema da colagem persistiu. Tive que mandar reencadernar todos os exemplares que possuo.
Para não me estender muito no texto, afirmo que anos depois apareceu o grande incentivador da cultura piauiense, poeta e principal cronista da terra ainda a respirar pelas ruas da cidade que tanto ama, professor Cinéas Santos e sua trupe. Criaram a editora Corisco. Com a força das suas ideias revolucionárias e a fé de um beato do saber, resgatou e publicou inúmeras obras que já haviam caído no esquecimento, além de outras de autores novos que começavam a despontar no horizonte das letras. Foi um feito grandioso, sem dúvidas. Já trabalhava com edições de excepcional qualidade. Pelo que sei, ainda está na faina com a sua Oficina da Palavra, e continua responsável por algumas publicações que dignificam a cultura da terra.
Mais recentemente tivemos a academia outra vez na vanguarda das publicações, trazendo ao sol excelentes edições em parceria com a Fundac e o Detran. Já fazia uso de ótima qualidade de impressão, além do costumeiro conteúdo, presidia a Casa, o piracuruquense Manfredi Cerqueira. A Fundação Monsenhor Chaves, por sua vez, também editou excelentes páginas da literatura piauiense, em especial expondo ao público coletâneas de autores consagrados como Odilon Nunes e Monsenhor Chaves, em edições volumosas e de ótimo acabamento.
Por fim, a própria Universidade Federal do Piauí, através da sua editora própria, tem nos presenteado com obras valiosíssimas de autores da terra que são um achado para quem sai à procura de livros que falam sobre a história, os costumes e o modo de vida dos piauienses de todos os quadrantes do nosso território. Melhoramos extraordinariamente nesse quesito. Hoje, podemos dizer que o parque gráfico que temos, mas, sobretudo as instituições voltadas para a cultura de um modo geral, têm feito um papel grandioso no campo das letras e das artes, se consideramos o que vai pelo país.
Contudo, é a Academia Piauiense de Letras, aquela que tem feito um trabalho ciclópico nesse campo. Não vejo ninguém nesse instante laborando nessa seara com tanto afinco e destemor. Obras há muito tempo longe dos catálogos foram ressuscitadas em edições primorosas e postas à disposição dos leitores em quantidades impressionantes. Esse trabalho que assombra até mesmo quem nos observa lá do sul-sudeste rico deste país, e ficam extasiados pela magnitude do seu tamanho, mas, em especial, pela qualidade literária e editorial dos livros lançados às centenas, deve ficar se perguntando como que de um estado tão pobre em recursos financeiro nasceu obra tão gigantesca. Afinal, são aproximadamente duas centenas de livros lançado desde 2012 quando o protejo do centenário da academia foi deflagrado. Coleção Centenário e Coleção Século XXI trazendo o que há de mais significativo já publicado no Estado. Começando o projeto na gestão do acadêmico Reginaldo Miranda, ganhou este musculatura com Nelson Nery e sua diretoria composta pelos arrojados Herculano Moraes, recentemente falecido, Zózimo Tavares, Elmar Carvalho, Humberto Guimarães, Wilson Brandão, e pela comissão editorial composta pelo já citado Reginaldo Miranda, Fonseca Neto e Divaneide Carvalho. Foram produzidos livros à mãos cheias.
Não há, de fato, explicação para tanto arrojo, para tanta dedicação, a não ser pela força de vontade e dedicação dos membros da APL. É como se esses homens se reunissem, aos sábados, não para tomar chá, mas para construir pontes sobre o mar de dificuldades que nos cerca. E acredito que seja isso mesmo. Afinal, não temos o hábito de tomar chá por estas brenhas mesmo. Aqui, nos reunimos para achar soluções para as nossas enormes carências e pô-las em prática em marcha acelerada. Somos um estado pequeno, talvez um dos mais pobres do país, mas não somos Lilliputianos. O exemplo acima prova que não.  
Pelo que parece, só temos concorrentes nesse campo na Edusp, editora da USP, cuja parceria com a Editora Itatiaia, lançou a Coleção Reconquista do Brasil; e na Editora do Senado Federal. Duas instituições que trabalham com dinheiro público nos seus orçamentos. Não consegui saber se alguma Academia de Letras de algum dos estados deste Brasil rivaliza com a nossa APL. No próximo dia 30.12, já serão 102 anos de um trabalho que muito nos orgulha!

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

DESLOCANDO PEDRAS E PLANTANDO FLORES




José Ribamar de Barros Nunes (*)

Fiz a escalada da montanha da vida, removendo pedras e plantando flores. Cora Coralina, mais famosa poetisa do Estado de Goiás, era excelente professora. Deixou-nos reflexiva literatura e verdadeira pérola literária acima transcrita.
Seu pensamento laboral, deslocando pedras e plantando flores nos caminhos da vida, repercute fortemente na alma dos leitores.
Agrada-me falar do dia-a-dia da vida, destacando sobretudo a escola da vida real, a qual não tem férias nem recesso. Todo santo dia, sem nenhuma exceção, ela nos fornece a chance de dar e receber liçõeszinhas ou liçõeszonas sobre os mais variados temas e atividades.
O eterno aprendiz contempla a realidade palpável e incontestável ao alcance de quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir. Não se trata de um momento literário ou romântico nem uma divulgação filosófica. Essa escolinha democrática forma muitíssimos doutores que ostentam mundo afora seu diploma valiosíssimo, mais importante que muitos outros expedidos por universidades...


(*) José Ribamar de Barros Nunes é Assessor Parlamentar Aposentado, cronista e autor de 313 Crônicas Seletas.