quarta-feira, 14 de março de 2018

A HISTÓRIA DE PRESIDENTE DUTRA (Parte 4) – De onde viemos(1)?

Capa do Livro Viajando do Curador a P. Dutra




A HISTÓRIA DE PRESIDENTE DUTRA (Parte 4)

José Pedro Araújo

De onde viemos: Pastos Bons, Barra do Corda ou Caxias(1)? – Apesar de termos realizado demorada e cuidadosa pesquisa em documentos de época e em bibliografias sobre o assunto, persistiu uma tremenda dificuldade para se achar informações mais detalhadas que nos levassem a identificar, com precisão, quais os primeiros habitantes da vila de Curador, de onde vieram e como aqui chegaram. Identificá-los pelo nome correto será uma meta a ser perseguida por novos estudos, que doravante devem ser empreendidos.


Sendo este o último pedaço do território central a ser desbravado, em decorrência das dificuldades já realçadas em passagens anteriores, não nos oferecem muitos registros para a pesquisa. Depois, não se pode perder de vista que nos situamos no final do território em que as bandeiras encerraram seu desbravamento. A que partiu de Pastos Bons, parou onde situou o povoado denominado de Missão, mais tarde chamado de Barra do Corda. E a bandeira proveniente de Caxias chegou até Codó, ou em suas imediações. Somente muito mais tarde iriam conhecer a região que resultou no município de Dom Pedro, aqui do lado, onde também pararam.  Ficou esse miolo quase escondido e sem ser habitado. A conhecida região da mata, mais tarde também chamada de região do Japão, mostrava-se quase inacessível, uma barreira mesmo, para os boiadeiros que precisavam de campos mais limpos e  pastagem abundante para seus rebanhos.


Muito importante, todavia, é a informação de que o homem branco já havia transitado por aqui para se confrontar com os nativos, buscando aprisioná-los. Portanto, já conheciam a região desde fins do século XVIII, sendo pouco provável que alguém tenha se fixado com alguma fazenda de gado, como era de costume. É mais factível que tenham chegado até aqui apenas com o propósito de caçar os índios que habitavam essas terras, vendendo-os depois na praça de Caxias.

Portanto, essa é outra questão que merece ser analisada com muito cuidado, evitando-se cair em armadilhas que são muito comuns numa caminhada quase no escuro como é esta de se estabelecer o roteiro que nos levará a determinado lugar, sem que identifiquemos algumas marcas deixadas no trajeto pelos que nos antecederam. Com este raciocínio inicial, levantaremos algumas pistas, para finalmente apresentar uma resposta à pergunta acima.

 Presidente Dutra se encontra situada em uma região com vegetação luxuriante e de alto porte, o que dificultava a instalação de fazendas para a criação de gado. Como já afirmamos, os primeiros criadores preferiam as áreas com predominância da vegetação tipo parque, com grama baixa, que facilitasse o pastoreio do rebanho e necessitasse de pequeno investimento. O fato de precisarem de um lugar que exigisse apenas a construção de um curral rústico e de uma casa simples para seus vaqueiros possuía um significado muito importante para aqueles desbravadores que, via de regra, possuía parcos recursos econômicos para a instalação de tais empreendimentos. Não estava em seus planos, portanto, derrubar a mata fechada para plantar capim, e só depois alimentar os rebanhos, aumentando sobremaneira o investimento inicial necessário.

A distância que nos encontrávamos do litoral, e, por conseguinte, do porto marítimo mais próximo, além da ausência de rios ou estradas de acesso, também não nos favorecia quanto ao cultivo do algodão, da cana-de-açúcar ou do fumo, culturas de exportação francamente cultivadas na província.

Por último, temos o argumento de que o desbravador Manuel Rodrigues de Melo Uchôa procurou a maneira mais fácil e menos onerosa ao projetar a primeira estrada de ligação entre Barra do Corda e a capital da Província. Munido destes pensamentos, escolheu partir da nova povoação em direção à vila de Pedreiras, sempre margeando o rio Mearim, de onde poderia realizar o restante do percurso por água nas embarcações que partiam de lá para a capital. Ficamos, portanto, fora do traçado da estrada originalmente aberta, prova de que a mata imponente, somada às travessias dos rios Mearim, Cigana e Flores, também pesaram na sua decisão de escolha daquele trajeto.

Sendo assim, o argumento de que os primeiros habitantes brancos a chegar aqui talvez tenha partido de Barra do Corda não prospera. 

Portanto, a posição geográfica distante de onde passaram os primeiros tropeiros e boiadeiros saídos da vila de Barra do Corda para levar seus produtos até a capital do Estado, situação que perduraria até inicio do século XX, nos leva a deduzir que os primeiros colonizadores chegaram até aqui vindos de outro lado, e sem o conhecimento dos barra-cordenses.

Poderiam ter vindo de Caxias, conforme afirma Melatti, citado em texto anterior. Ou mesmo de Pastos Bons, fugindo dos inimigos após o fim da revolta conhecida com Balaiada, por volta de 1841. Como já afirmamos anteriormente, os “cabanos”, como eram conhecidos os conservadores que defendiam o método de governo adotado na época, e o imperador empreenderam verdadeira caçada aos “bem-te-vis”, seus adversários, no sangrento conflito que gerou tantas mortes. E os dois centros mais desenvolvidos na ocasião, palco de verdadeiras carnificinas, foram exatamente Caxias e Pastos Bons.

Encontramos também uma pista importante no trabalho do historiador Eloy Coelho Netto, denominado Geo-História do Maranhão, no qual ele faz referencia a um numeroso grupo de pessoas originárias de outros estados nordestinos que procuravam “asilo” em outras terras para fugirem da sanha perseguidora de seus inimigos políticos encastelados no poder. Assim, o historiador põe luzes sobre a questão ao relatar que:



[...] em 1829, é feita no médio Maranhão, entre as matas do Japão e do Nascimento, por nordestinos, vítimas de perseguições políticas, que vieram através de Pastos Bons, atravessaram o Alto Itapecuru e rumo adentro do território maranhense, num verdadeiro bandeirantismo, ficaram na região onde havia brejos e lagoas nos municípios, hoje, de Presidente Dutra, Dom Pedro, Gonçalves Dias, Tuntum, Graça Aranha e São Domingos”.



Reforçando a afirmativa acima, outra vez recorremos ao prof. Edgar Brandes, que, em pesquisa realizada em documentos de época, encontrou provas incontestáveis da presença de brancos em terras do Japão. Ele especifica, por exemplo, que o fundador da cidade de Barra do Corda, Manoel Rodrigues de Melo Uchôa, responsável pela cessão das terras na região, fazia suas anotações sobre os negócios realizados e depois as encaminhava para o Termo da Chapada(Grajaú) para registro no Livro de Notas do Cartório do 1º Ofício, isso já em 1861.

Existem muitos registros sobre a comercialização de terras nesse período. E entre outros nomes, Melo Uchoa relacionou Raimundo Gomes, a quem disse ser “originário das terras do Japão”. O professor Brandes só incorre em um equívoco, interpretando que o mesmo tenha vindo de Dom Pedro, ou da “Mata do Nascimento”, como relata no livro. Como é do conhecimento de todos, a região conhecida como “Japão”, engloba também os municípios de Presidente Dutra, Graça Aranha, São Domingos, e parte de Tuntum, e não somente o município de D. Pedro. Estaria aí um dos primeiros habitantes do lugar conhecido como Curador?

Outro lugar não muito distante de onde poderiam ter partido os primeiros devassadores era a florescente Vila de Urubu(Codó), um entreposto comercial importante por sua localização à beira do Itapecuru e que recebia uma leva constante de imigrantes nordestinos que fugiam das secas periódicas que assolavam seus estados de origem. Pode ser que a notícia de terras férteis e desocupadas os tenham feito penetrar cada vez mais no interior do Maranhão em busca desse espaço disponível. (A segunda parte da pergunta tentaremos responder na próxima semana).

segunda-feira, 12 de março de 2018

CRÔNICAS VIVIDAS - O VELHO E O RIO

Foto aleatória by Google




José Ribamar de Barros Nunes*

Hoje, li na mídia uma notícia que me comoveu. Um aposentado cuida há sessenta anos de uma nascente que fica embaixo da casa de sua família e vira um rio com cento e sessenta e quatro quilometro de extensão.
Luiz Fukmoto preservou um filete de água que se transforma no rio Pirapó que abastece a cidade de Maringá, de quatrocentos mil habitantes, uma das principais do norte do Paraná.
Fukmoto diz que os visitantes costumam compará-lo à história presente no livro “O velho e o mar” de Ernest Herminguey, em que o personagem principal luta para tirar um peixe do mar. Ressalta o descendente nipônico que sua luta é preservar uma nascente de água.
Lembrei-me de uma ilustre figura piauiense, o escritor Bugija Brito que lutou muito para preservar uma nascente de água no município de São Pedro do Piauí, chamada Riacho Fundo, que tem quarenta quilômetros e desagua no rio Parnaíba. Cercou-a e ameaçava os invasores que se atreviam.
Muitos estudiosos do tema se preocupam com o futuro da água e do planeta. Exemplos de pessoas como Fukmoto e Bugija Brito merecem  contados, admirados e seguidos.
Assim, talvez não falte o precioso líquido, o planeta e seu ilustre habitante se salvem...


*José Ribamar de Barros Nunes é Assessor Parlamentar e autor de Duzentas Crônicas Vividas

e-mail: rnpi13@hotmail.com

sexta-feira, 9 de março de 2018

LEMBRANÇAS DE OUTROS INVERNOS

HORIZONTINA - Propriedade da família Araújo



José Pedro Araújo

Quando o dia começa assim escuro, enfarruscado e com o sol totalmente encoberto por nuvens espessas de chuva, me vem a lembranças de invernos passados (assim conhecemos o período chuvoso no nordeste, único inverno que conhecemos), quando as chuvas caíam torrenciais, insistentes, sobre a minha terra. A água despejada à potes enchia rios e igarapés que transbordavam e se espraiavam sobre as várzeas e campos baixos. Às vezes passávamos dias com esse fenômeno benfazejo que traz de volta o verde para as matas ,a alegria aos pássaros, e a fartura aos lares nordestinos.
Quando as primeiras chuvas de dezembro molham a terra, o agricultor sai de casa, enxada no ombro, assobiando melodias alegres pelos caminhos agora húmidos e vão escavacar a terra e jogar a semente sobre o solo apetitoso e ávido por fazê-las engravidar e parir bons frutos. Dois meses depois desse começo esperançoso é época de colher os primeiros produtos: a melancia, o milho, o feijão verde, o melão ou o meluí - pequenos melões ovalados, casca branca e sabor inesquecível de roça nova. Depois virão o arroz e, finalmente, muitos meses depois, a mandioca.
Era nesse período intermediário que a garotada visitava as roças da família ou dos parentes, para um dia muito alegre no campo. Um costume, que acredito ter advindo dos indígenas que habitavam a região, era as pequenas choças encravadas no meio da roça, cercadas pelo milharal e pelo arrozal por todos os lados. Essas pequenas choupanas, de uso temporário, sem paredes e com teto coberto pela palma do babaçu, servem de abrigo para os agricultores durante o período em que a roça estiver em atividade.  Ali eles instalam a cozinha provisória (normalmente três pedras grandes e uma trempe sobre elas), penduram redes e constroem pequenos jiraus para servirem de armário ou de assento. E são de uma utilidade à toda prova, dada a alternância de chuvas fortes durante o dia, ou do sol que despeja seus raios inclementes sobre a terra, nem bem a chuva passa. Também servem de paiol para abrigar a colheita farta.
Quando era tempo de melancia ou de milho verde, costumávamos ir para a Preguiça, região onde os Barros tinham as suas propriedades, e ainda as têm. Apesar de muito próxima da cidade, os caminhos se transformavam em verdadeiro desafio para os transeuntes. A água abundante amolecia o barro visguento, enchia as várzeas e engordava os rios e riachos, transformando o curto trajeto em uma prova de resistência e coragem. Depois de superar os atoleiros vinha, em primeiro lugar, o Sucuruiú, um riacho que tomava uma largura muito grande e formava uma correnteza que assustava os visitantes de primeira viagem. Como não havia ponte, passávamos sobre uma pinguela de madeira, de um tronco só, comprida e escorregadia para pés enlameados.
Atravessado esse primeiro obstáculo, tínhamos mais desafios pela frente, pois em determinados trecho do caminho a água chegava à altura do peito, tínhamos que vadeá-la até chegarmos a terreno mais alto. Ai se chegava ao rio Preguiça. Ali a correnteza era mais forte e o processo de superá-lo o mesmo: por sobre uma pinguela de madeira roliça. As águas remansosas do rio impunham mais respeito e temor, mas quem o superasse estaria em breve degustando as melancias mais doces que se podem querer. Ou comer o milho verde mais saboroso de que eu me lembro de já ter saboreado. Milho sem agrotóxico; milho natural, não transgênico, igual ao que os primeiros habitantes consumiam, os índios. 
Saíamos pela roça dentro em busca das melancias mais saborosas, aplicando piparotes no fruto escolhido para sabermos se estava no ponto de consumo, e quando não a abríamos logo ali, colhíamos e levávamos para o rancho para comê-la solidariamente com outros. Apreciava ficar com a cascar para raspar e tomar o caldo saboroso que restava nela. Era uma festa. Enquanto isso, o milho estava assando sobre as brasas para ser consumido em seguida.
E no fogão improvisado, o almoço era preparado para logo mais, gostoso, cheiroso, imperdível. Este, depois de pronto, era arrumado em uma bacia grande da seguinte forma: primeiro uma camada de arroz, sobre ela o feijão, outra camada de arroz e, finalmente, a carne e o caldo era derramado em cima daquela montanha de comida. Nessa altura a fome tomava conta de todos nós, pois já havíamos tomado banho de rio e tramado todo o tipo de brincadeiras. Exercitáramos muito, enfim. E isso avultava a nossa fome.
Às vezes também a chuva vinha dar um toque especial e caía volumosa sobre o teto de palha, escorrendo ligeira e ciciante para o leito do Preguiça que ficava logo ali próximo. Dia frio, com chuva, parece que a fome aumenta. E nesses dias, ela reclama comida farta. Era o que tínhamos ali naquele piquenique improvisado na roça: comida gostosa e volumosa.
Como eu ia dizendo, alimento perfeitamente arrumado dentro da bacia era a hora de chamar a meninada para o banquete. Sentávamos em torno dela, mesmo no chão, cada um com uma colher na mão, e nos debruçávamos sobre a tarefa gostosa de desmanchar a arrumação que se tinha feito naquela bacia, de derrubar a montanha de comida. Mais um tempo e não restava nada no fundo do recipiente anteriormente arrumado com esmero. Alguns, normalmente os mais velhos, esticavam as redes e descansavam confortavelmente deitados, enquanto outros, normalmente a meninada, saia pela roça em busca do quê fazer. E assim passava o dia: comida, banho de rio, às vezes pescaria, brincadeiras, uma alegria só.
À tarde, antes da chuva das cinco horas, presença constante e com hora marcada, era a hora de retornar para casa. A mesma dificuldade da vinda, só que um pouco mais cansados. Mas valia a pena. Como valia. Caminhar por sob as árvores, mesmo pelo lamaçal, era gostoso demais. É essa recordação que me vem em dias em que a chuva começa logo muito cedo, e o dia fica com aquela cara de roça de melancia.