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Luiz Thadeu Nunes e Silva(*)
Uma
coisa tem chamado minha atenção, está aumentando o número de
pessoas ansiosas ao meu redor. Amigos, familiares, vizinhos,
conhecidos, sempre alguém que tenta acelerar o tempo, - que segue
seu curso, impávido, sempre.
No
sábado levei o carro à oficina mecânica, para corrigir um barulho,
fruto da fadiga de material. Enquanto esperava o mecânico fazer seu
trabalho, duas jovens, acredito na faixa dos vinte anos, também
levaram seu veículo para uma inspeção. Chegaram falando alto,
perguntaram por alguém que pudessem atendê-las o mais rápido
possível, estavam apressadas. Como a atendente demorou, as duas
começaram a andar em círculos. Uma saiu, acendeu um cigarro, rosto
crispado, a murmurar algo. Em seguida, pela demora, entrou no carro,
onde a outra já estava, saíram em disparada. Jovens! Sempre
corridos, agitados, estressados, sem paciência. Têm muito a
aprender. Acredito que a paciência é um dos maiores ativos dos
tempos contemporâneos.
“A
ansiedade é uma reação normal do nosso corpo em relação a um
acontecimento futuro. Pode ocorrer, inclusive, por algo bom que está
para acontecer. A ansiedade é caracterizada por sensações físicas
de agitação, alerta, inquietação e pensamentos focados em
ameaças”. “Já o transtorno de ansiedade, ou seja, a ansiedade
patológica, tem o cérebro enganado”. “Ele
percebe o perigo onde não existe e não reconhece nossa capacidade
de enfrentamento. Nesses casos, a ansiedade torna-se um padrão, um
hábito tóxico de sensações, pensamentos negativos e
comportamentos de fuga que causam muito sofrimento, não permitindo
que a pessoa faça suas escolhas”. “Além disso, faz com que ela
se torne refém da ansiedade com prejuízos no trabalho, nos
relacionamentos e na saúde”, dizem os especialistas.
Em
recente matéria publicada, li que o Brasil figura como o país mais
ansioso do mundo no último grande mapeamento global dos transtornos
mentais, anterior à pandemia, sendo que nestes dois últimos anos a
situação só se agravou.
Conforme
o estudo, em 2020, “o Ministério da Saúde vem conduzindo uma
pesquisa para avaliar a saúde mental dos brasileiros” [...]. “Mais
de 17 mil pessoas, em todo o Brasil, participaram do estudo. O
resultado mais alarmante: 86,5% dos entrevistados estavam enquadrados
em algum tipo de ansiedade patológica”.
Todos
com pressa, todos atrasados, com compromissos, afazeres, urgências.
O
estudo mostra que “A ansiedade é uma reação defensiva usada para
manifestar a expectativa de sofrimento iminente. Ela possui
diferentes formas, sendo a mais comum a geral (transtorno de
ansiedade generalizada ou TAG), em que as preocupações se
multiplicam e o nervosismo impera. Apesar dos casos mais severos
estarem relacionados à expressão de variantes genéticas no
cérebro, a ansiedade é sobretudo um mal cultural, com
características locais, dentro de uma tradição de sofrimentos
mentais orientados ao futuro”.
Já
somos o povo que mais toma ansiolíticos no planeta. Estamos perdendo
o melhor da vida: viver o presente, aproveitar o agora. A angústia
nos cerca. A ansiedade nos mata. Vejo crianças de cinco anos
nervosas, irritadas, ansiosas, estressadas.
Há
tempos os estudiosos se debruçam sobre o tema. A ansiedade faz parte
existência humana, conhecida ao longo do tempo.
A
ansiedade é uma expressão mais mundana desse mesmo conjunto de
sentimentos ligados à falta de controle sobre o que pode acontecer.
Ela também é mais democrática e iminente, dando o tom às
expectativas imediatas dos brasileiros. Com a pandemia do
coronavírus, as redes sociais, e a disputa eleitoral no Brasil,
potencializou-a, tornando-a patológica.
Segundo o estudo, o Brasil ocupa o último lugar em confiança
interpessoal na América Latina, região em que a mesma atinge um dos
piores níveis do mundo (Latinobarómetro, 2020). Noventa e cinco por
cento dos brasileiros declaram que, “ao lidar com desconhecidos,
todo cuidado é pouco”.
Isto, tanto se relaciona à violência
generalizada, quanto a fenômenos mais sutis, ligados à
representação ética e empática do outro, que persistem mesmo
quando o risco à integridade física é afastado. A percepção
dominante no país é que desconhecidos representam perigo. Quanta
coisa mudou no Brasil, já fomos descritos com um “país cordial”.
Engana-se, quem assume que o mal-estar aflora, primariamente,
da falta de credibilidade institucional. A desconfiança soma-se a
outros fatores ansiogênicos, como o desemprego e a criminalidade. A
resultante surge como abertura diminuída à construção de laços
interpessoais no mundo físico, o que estimula os brasileiros de
todas as idades a se relacionarem mais pelas redes sociais, e os mais
jovens a fazê-lo também por meio de jogos online. Esse é um
fator-chave para a compreensão do nosso lugar de destaque mundial no
uso desses canais.
Ainda,
segundo o estudo, redes sociais e jogos aumentam o senso de conexão,
mitigando o isolamento social, ao mesmo tempo que reforçam
sentimentos negativos e minam as relações presenciais, ao
condicionar as pessoas a checarem o celular o tempo inteiro
("phubbing"). Um estudo recente mostrou que “uma semana
sem redes sociais leva a melhoras significativas no bem-estar,
reduzindo a ansiedade”. As redes não são intrinsecamente nocivas;
o problema é o seu uso imoderado. No período eleitoral me afastei
de alguns grupos de WhatsApp, por causa do acirramento de ofensas.
Desta forma preservei um pouco minha saúde metal. Acontece que o
ódio digital e as fake news atingiram níveis sem precedentes no
Brasil.
A
ansiedade diluída no ambiente social é a enzima que corrói a
empatia, criando as bases para que o ódio se propague entre as
fissuras que se formam. A polarização é causa próxima e não
última do mal-estar.
No
mundo hoje tão moderno, ou pós-moderno, involuímos. Desaprendemos
a viver de forma simples; tudo acelerado, corremos para que mesmos?
Estamos adoecendo, nos tornamos presas fáceis para a indústria
farmacêutica. Tudo é regulado por drogas, lícitas e/ou ilícitas.
Estamos nos tornando seres químicos. Precisamos de fármacos para
dormir, para estabilizar o humor, para desacelerar e administrar o
dia a dia. Nada mais funciona de forma natural.
Pobres homos sapiens; desvendamos muitos mistérios do
universo, já fomos à Lua, estamos a caminho de Marte, não
aprendemos a controlar a própria mente.
Cada gesto positivo orientado a um estranho reduz em um
pouquinho a animosidade geral. O retorno esperado é fenomenal:
Pessoas felizes dedicam mais tempo a falar com os outros e, quanto
mais diálogos têm, mais felizes elas se sentem. Ter hora para o
ócio, dividir a mesa de bar com os amigos é fundamental.
Foi
no bar, entre um chopp e outro que ouvi de um amigo sábio: “Triste
de quem fritar o juízo”. Ao que acrescentei, “Após frito,
lascou”. “Garçom, trás mais um chopp”.
(*)
Luiz Thadeu Nunes e Silva, Engenheiro Agrônomo, Palestrante,
cronista, escritor e viajante. Autor do livro “Das muletas fiz
asas”. O latino-americano mais viajado do mundo com mobilidade
reduzida, visitou 151 países em todos os continentes da terra.