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Convento em obras - foto pertencente ao acervo das irmãs Capuchinhas |
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José
Pedro Araújo(*)
Desde
os primórdios da ocupação da região a leste da capital,
fortemente obstaculizada pelas suas imensas dificuldades de acesso,
ficou este trato de terras conhecida como Matas do Japão no mais
profundo adormecimento. A parcela do território situada entre o
Itapecuru e o Mearim, ainda permaneceria muito tempo em total
isolamento. Sem caminhos conhecidos, passava-se ao largo das terras
da mesopotâmia maranhense, usando-se as estradas líquidas que os
rios ofereciam para se chegar a Barra do Corda ou Picos (Colinas),
sempre ficando o centro geográfico da região no esquecimento.
Tempos
depois, sempre contornando a região do Japão, os desbravadores
chegaram até as margens do Tocantins, e então resolveram rasgar as
escuras matas do centro, riscando a primeira estrada que passaram a
denominar de Central do Maranhão, para encurtar o caminho e
transportar as boiadas que vinham da região tocantina até a
capital. Foi assim que nos descobriram.
E
pouco tempo depois de viabilizado este acesso, os capuchinhos
lombardos chegaram por aqui também. Desde então, sempre estiveram
envolvidos com a educação dos povos da região.
A
propósito disto, a presença dos religiosos de barbas longas é
identificada no Maranhão a partir de quando caravelas francesas
aportaram em Upaon-Açu em 1612, na bela ilha de São Luís, como
hoje é conhecida. Naquelas naus comandadas por Daniel de La Touche,
pequenas embarcações de madeira que mal se mantinham flutuando à
flor das águas do bravio oceano atlântico, já vinham embarcados
alguns monges capuchinhos que, daquela vez, possuíam cidadania
francesa. Essa parte da história é contada aos maranhenses desde as
primeiras aulas de história do ensino fundamental. Afinal, foram
eles os fundadores da cidade de São Luís do Maranhão.
Quase
três séculos depois daquela aventura que duraria até 1615, os
frades capuchinhos voltaram ao Maranhão. Corria o ano de 1893,
quando religiosos italianos da região da Lombardia tiveram permissão
para se instalarem no Maranhão. Vinham eles imbuídos do propósito
de levar a palavra de Cristo aos indígenas da região, era este o
plano inicial. Chegaram, depois da longa travessia, e instalaram a
sua base de operações no Convento do Carmo, em plena praça João
Lisboa. E lá permanecem até hoje. Entretanto, como na grande ilha
dos Tremembé não havia mais índios residindo, posto já terem
migrado para o interior do estado maranhense, partiram os capuchinhos
para a região ocupada por eles, no alto Mearim e foram fazer
história por lá também.
Capitaneados
por frei Carlo de San Martino Olearo, instalaram-se aqueles homens
determinados naquele rincão desolado, distante da capital, e ali
lançaram as bases do que viria a ser a Prelazia de São José do
Grajaú. Relata a história dessa aventura, que a pequena igreja
católica de Barra do Corda estava sem pároco por aquele tempo,
reflexo da enorme dificuldade encontrada pela igreja de suprir as
necessidades de frades, sobretudo em lugares remotos como aquele, e
foi lá que eles se instalaram a princípio.
Mas
aqueles padres barbadinhos estavam preocupados não somente com a
doutrinação cristã, como também com a tarefa de levar a educação
formal aos índios e, de igual modo, às crianças de toda a região
central do estado que permaneciam no mais terrível obscurantismo.
Desde então, os religiosos da ordem criaram escolas, a princípio em
Barra do Corda, depois no Alto Alegre, povoado situado entre as
localidades de Barra do Corda e Grajaú, em meio a inúmeras tribos
indígenas, e depois em toda a região.
A
página final da história deste internato do Alto Alegre foi escrita
com um banho de sangue sem precedentes na nossa história, ocasião
em que foram trucidados vários religiosos e religiosas capuchinhos,
além de dezenas de estudantes internos. Esta parte da história já
foi contada aqui no blog em dois textos publicados anteriormente (O
Massacre do Alto Alegre e O Massacre do Alto Alegre – a infeliz
Perpetinha). Esse fatídico fato se deu logo no início do trabalho
dos capuchinhos lombardos na região, e se deu no dia 13 de março de
1901, um domingo que era para ser festivo, quando um dos frades, do
púlpito, levava a palava de Deus aos assistentes naquele dia. Foi
escrita naquele dia escolhido pelos cristãos para o descanso e a
celebração de suas missas a página mais triste da história da
religião cristã nestes trópicos.
Nada
disto, entretanto, fez arrefecer a determinação dos lombardos de
levarem até aos confins do sertão, a palavra de Deus e o
conhecimento das letras aos moradores daqueles rincões. Contudo,
redirecionaram por um tempo as suas ações e passaram a realizar
suas ações a não indígenas situados nas povoações esparsas
situadas muito distante da sua base, atingindo pontos situados no
seio da mata quase intransponível. Foi deste modo, que eles,
montados a cavalo, chegaram ao nosso Curador, pequena vila que
engatinhava rumo ao futuro e se ressentia da falta de ministros
cristãos e de educadores entre os seus moradores. Isso aconteceu
anos depois do massacre do Alto Alegre. E quando os capuchinhos
chegaram em terras do Curador, até já contávamos com alguns
mestres-escola que praticavam seus ensinamentos entre as crianças,
ocupando parte das dependências das suas próprias residências para
ministrar suas aulas.
Contudo,
foram os capuchinhos que criaram as primeiras escolas formais em
nossa povoação. Duas escolas. A Escola Paroquial São Bento e o
Educandário São Francisco de Assis, estabelecimentos educacionais
inauguradas no início do ano de 1948. A ordem para a aquisição dos
imóveis e a fundação dos colégios, partiu do Prelado, Don
Emiliano Lonati. A primeira delas, para receber crianças do sexo
masculino, e a segunda para as meninas, e, eventualmente, alguns
meninos internos, segundo nos informa a professora Maria de Jesus
Jardim em depoimento colhido pelo historiador Elyellson Batista de
Morais, publicado na sua monografia Presidente Dutra-MA – Um
Capítulo da História do Maranhão. A propósito disto, a
informação de que meninos também estudavam nesta última escola, o
Educandário São Francisco de Assis, inclusive em regime de
internato, foi uma surpresa para nós que até então acreditávamos
que somente crianças do sexo feminino frequentavam aquele
estabelecimento.
A
professora Jesus Jardim afirmou ainda, com grande conhecimento de
causa, que era ela a pessoa responsável pela orientação e
fiscalização dos meninos que lá estudavam em regime de internato.
Esclareceu, ainda, que os garotos dormiam em um amplo salão, e que
as meninas instalavam-se em outro, tudo sobre severa fiscalização
das freiras e suas assistentes. Afirmou, por fim, que no interior do
imóvel havia uma capela montada sob os auspícios de São Francisco.
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Antiga sede do Educandário S. Francisco de Assis (F. IBGE)
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Já
no seu início, o colégio era administrado pelas religiosas
pertencentes à Ordem Terceira dos Capuchinhos de Gênova, enviadas
pela ordem para se responsabilizarem pelas tarefas relativas ao campo
educacional. E, por fim, Jesus Jardim reforçou suas informações
identificando os nomes daquelas religiosas, as primeiras a chegarem à
região: diretora, irmã Maria Helvécia; e as demais, professoras
irmã Fidélia, irmã Benta e irmã Crescência. Com uma memória
privilegiada de fazer inveja, a dita professora concluiu suas
informações afirmando que as freiras haviam chegado à cidade em
uma tarde de domingo e que haviam sido recebidas com grande festa
pela população. Fizeram elas o último trecho da jornada, montadas
em animais de sela desde a vila de D. Pedro, depois de partirem de
trem de São Luís até Codó, e dali até D. Pedro, que então se
chamava Mata do Nascimento, sobre a carroceria de um velho caminhão.
Pequeno
para tanta procura, uma vez que o colégio passou a atender a toda a
região da Mata do Japão, entendeu logo o Prelado D. Emiliano Lonati
que precisavam de um espaço maior para a missão, e foi então que
adquiriram o imóvel que se situava no próprio largo de São
Sebastião, local bastante amplo onde funcionava um antigo “engenho
de algodão”, e utilizado também como residência pelo seu
proprietário. Esta informação quem nos dá é frei Metódio de
Nembro, e foi colhida do seu livro “São José de Grajaú –
Primeira Prelazia do Maranhão”.
A
propósito disto, naquele local já havia residido, alguns anos
antes, o meu avô Diolindo Luiz de Barros com a família. Conversando
com a minha mãe a respeito daquele importante lugar, disse-me ela
que tinha muitas recordações da casa simples em que residiam, e do
grande largo em frente a ela, que continham dois pés de tamarindo
que produziam agradável sombra, e que era local de suas
brincadeiras, quase em frente da sua residência. Naquele espaço foi
dado início à construção de um novo prédio para acolher o
Educandário São Francisco de Assis. Antes, contudo, aproveitaram os
novos proprietários a estrutura já existente da usina de
beneficiamento de algodão e da residência, realizaram algumas
reformas, tudo sob o comando do pároco local, frei Renato de
Volgrana, e instalaram provisoriamente o colégio.
A
inauguração das novas instalações se deu no início do ano de
1952, três anos depois e após intenso trabalho dificultado pelas
condições financeiras precárias da ordem.
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Imagem atual do Convento(foto de Carlos Magno)
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E
para ilustrar as dificuldades enfrentadas para se construir tão
monumental obra, recorremos novamente ao depoimento da professora
Maria de Jesus Jardim, tomado pelo historiador Elyellson Batista,
como já afirmamos. No seu depoimento, encontramos a informação de
que a execução do projeto do novo prédio do convento foi feito
quase todo em regime de mutirão, e que as pessoas da comunidade
transportavam material para a construção desde a distante Lagoa de
Pedra com enormes dificuldades. Parecia já ser esta uma atividade
corriqueira dos membros da comunidade. Na emblemática fotografia em
que registra o mesmo largo, e que retrata instantâneos da
reconstrução da Capela de São Bento anos antes deste fato, em
1928, aparece a figura do frei Heliodoro de Inzago à frente de um
numeroso grupo de moradores locais. Na fotografia está registrada
também a presença de muitos moradores portando tijolos e pedras
sobre a cabeça, mostrando que aquele povo estava profundamente
envolvido na reconstrução do pequeno templo religioso. O mesmo se
deu quando precisaram deles para o início da construção do
monumental prédio do convento. Estavam presentes, unidos e
operantes.
Em
recente crônica em
que
relatei
a
passagem do Senador Vitorino Freire e do Governador Archer pelo
município em
1949,
publicada neste espaço, discorri sobre a
visita feita
por
eles ao
Educandário São Francisco de
Assis,
situado ainda
no
canto baixo do Largo de São Sebastião, local onde hoje funciona a
regional da Agência Estadual de Defesa Agropecuária do
Maranhão-Aged. Alí
afirmei
que,
naquela
ocasião,
sensibilizado
com os problemas orçamentários vivenciados pela ordem capuchinha e
nas suas
dificuldades para levantar fundos para a construção do futuro
Convento onde deveria funcionar o colégio e o internato, Vitorino
Freire havia
se
comprometido
em
mover
gestões
junto ao governo federal com
o propósito de
alavancar recursos financeiros
para a obra. E que,
de fato, algum tempo depois, conseguiu com o Presidente da República,
Eurico Dutra, a doação de quarenta mil cruzeiros para ajudar na
construção daquele estabelecimento de ensino.
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Interior do Convento(foto do autor)
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Três
anos depois, estava pronta uma das mais belas obras existentes no
município, com sua arquitetura tendendo para o greco-romano, ou
lombardo evoluído, como chegou a afirmar frei Metódio, já
relacionado nesta crônica. Dói não poder afirmar, e fazer justiça
aqui, quem foi o arquiteto da obra, quem trabalhou na sua ereção,
pedreiros, ajudantes de pedreiro, carpinteiros, toda uma gama de
profissionais oriundos da região. O fato é que eles puseram de pé
uma das obras da engenharia e arquitetura mais emblemáticas de todo
o interior maranhense. Seu piso de ladrilhos hidráulicos sempre
tiveram em mim, e ainda tem, um admirador perpétuo. Este belo
edifício com seus arcos na parte interna, foi transformado em
internado e concedeu abrigo a centenas de jovens de toda a região. E
sob o seu teto aquelas meninas-moças adormeceram e sonharam um
futuro alvissareiro, antes tão distante do seu radar. Quantas delas
saíram dali normalistas para depois transmitirem os ensinamentos
aprendidos para outras pessoas. Ginásio, normal pedagógico,
oficinas de costura, salas de música, e até mesmo uma livraria,
funcionou ali, por falta de algo similar na pequena cidade. E
funcionou muito bem assim até início dos anos setenta, e até que
novas ideias e decisões dos administradores da ordem determinasse o
seu fechamento.
Muitos
anos depois, após permanecer de portas cerradas para uma cidade
sequiosa de estabelecimentos do seu porte, a monumental obra do
convento das irmãs, como o conhecíamos, reabriu suas portas e nela
passou a funcionar o Colégio da Sagrada Família. A paróquia,
proprietária do patrimônio, já estava sob a orientação da nova
Diocese de Grajaú, não mais sob a direção de seus aguerridos
benfeitores capuchinhos. A vice-província capuchinha havia deixado a
administração da paróquia em 22/11/1984, para empreender novos
projetos religiosos depois de quase um século de incansável
trabalho catequético e educacional. No prédio do antigo Convento
das Irmãs Terceira Capuchinhas, hoje abriga-se hoje também a FAP –
Faculdade Presidente Dutra, que oferece os cursos superiores de
bacharelado em Direito e bacharelado em Enfermagem. E segue,
portanto, o convento das irmãs capuchinas, desempenhando o seu
mister com louvor na formação de cidadãos e cidadãs operosos, mas
agora somente no campo educacional.
(*)
José Pedro Araújo é engenheiro agrônomo, funcionário público federal aposentado,
historiador, cronista, romancista, e coordenador do blog Folhas
Avulsas.