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Ônibus Misto ou Horário - Foto meramente ilustrativa
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(Chico Acoram)*
Boca
da noite de um certo dia de verão do ano de 1959 ou meados de 1960.
Não lembro exatamente o ano. Talvez eu tivesse sete ou oito anos de
idade. Uma grande lamparina cheia de querosene estava acesa alumiando
preguiçosamente a sala principal da nossa casa, localizada na
confluência do rio Marataoã (margem esquerda) com um pequeno lago,
entre o bairro Boa Vista e a então localidade Pedrinhas, em
Barras-PI.
Minha mãe “engomava” com esmero algumas muda de roupas do meu
pai. Pacientemente, com uma das mãos, deslizava com delicadeza um
velho ferro de passar à brasa sobre o vestuário. De vez em quando,
me chamava para eu colocar um pouco mais de carvão e abanar aquele
rústico utensílio doméstico. Três dias antes meu pai, que estava
em Teresina em busca de meios de sustentação para a família,
enviou pelo Ajudante do “Carro do Cardoso” uma trouxa com suas
roupas sujas para que minha mãe providenciasse a lavagem, e as
devolvesse pelo mesmo portador o mais depressa possível. Depois de
passar a roupa, mamãe pegou todas as peças e as embalou, com
carinho, sobre um pedaço de pano, alinhavando as extremidades do
mesmo com uma grossa agulha. Em seguida me chamou:
-
Meu filho vá dormir, pois amanhã bem cedinho você irá até a
“Rua” levando esta encomenda para o Ajudante do “Carro do
Cardoso” entregar para seu pai em Teresina.
De
imediato, fui para o meu quarto. Deitei na minha rede pensando na
tarefa do dia seguinte. Meu irmão mais novo, ao lado, ressonava. Não
demorou muito, adormeci. Nessa noite, sonhei que viajava no “Horário”
com destino a Teresina. Estava radiante em viajar nesse veículo. No
sonho, meu pai me aguardava em Teresina onde me abraçou ternamente
quando cheguei.
Cabe
esclarecer que “Horário” é uma expressão regional dada aos
caminhões adaptados (em madeira) para transportar passageiros e
cargas, muito utilizados nos anos 40, 50 e até mesmo na década 60
do século passado, com características de ônibus. Segundo o
escritor barrense Antenor Rêgo Filho, em seu livro BARRAS, HISTÓRIAS
E SAUDADES, definiu com muita propriedade a expressão “Horário”:
“Era
um caminhão com dupla finalidade: transportava mercadorias e
passageiros. A cabine ou boleia era modificada, algumas formadas por
três ou quatro filas de banco que ocupavam a metade da carroceria do
caminhão e acomodavam 5 ou 6 passageiros cada uma. O restante da
carroceria destinava-se ao transporte da carga. Em outros, a
modificação era total, e ocupava-se toda a carroceria com bancos,
tudo isso construído em madeira. Sobre a coberta dos bancos existia
o toldo, onde eram colocadas as bagagens dos passageiros, levando de
tudo: porcos, galinhas, carneiros, bode, sacos de farinha, arroz,
frutas etc. Partindo de uma localidade, fazia o percurso, que se
chamava “Linha”, uma ou duas vezes por semana. O motorista era
figura de destaque, e gozava de muito prestígio. Trazia notícias,
recados, cartas, encomendas, jornais e revistas. As partidas eram
obrigatoriamente pela madrugada. Como sinal de partida, usava-se a
buzina do veículo. A primeira buzina significava que já estava nos
preparativos para a viagem, a segunda que já estava próxima a saída
e a terceira e última era a partida iminente. Este mesmo código
valia também para as paradas durante o percurso. A velocidade era
pequena, dado o tipo de estradas e potência dos motores dos
caminhões.”
Em
Barras do Marataoã havia um “Horário” que era chamado “Carro
do Cardoso” de propriedade do senhor Francisco Cardoso, mais
conhecido pela alcunha de Chico Cardoso. Fazia a linha Barras a
Teresina, com escala em José de Freitas. Partia de Barras
rigorosamente às seis horas, e retornava de Teresina às quinze
horas do mesmo dia.
Na
manhã seguinte, ainda ao alvorecer, estava eu a caminho do centro da
cidade levando aquela preciosa encomenda. A passarada cantava com
todo seu esplendor junto às matas das margens do rio e do lago.
Antes de eu sair, um último aviso de minha mãe:
- Cuidado com a roupa do seu pai. Não deixe cair no chão!
O percurso entre a nossa residência e o centro de Barras, cerca de
2,5 km, era percorrido, inicialmente, por um caminho arenoso até
chegar a Rua do Cedro (sem calçamento), no Bairro Boa Vista. Depois
de atravessar esse bairro, caminhei por um trecho de piçarra
poeirenta entre o já mencionado bairro e o final da Rua Grande,
atual Rua General Taumaturgo de Azevedo, próximo do comércio do
Mestre Aurélio. Subi a ladeira desta larga via, passando pela bela
praça Monsenhor Bozon, e logo em seguida, cheguei à praça da
igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, dobrando à esquerda
em direção a Rua Leônidas Melo onde estava localizada a Agência
do Chico Cardoso, vizinha ao “Bar do Chico Correia”.
Antes da primeira buzinada, eu já estava na Agência entregando a
encomenda ao Ajudante do “Carro do Cardoso”, ou seja, o dito
portador (que não lembro seu nome) para que a levasse para o meu pai
que se encontrava em Teresina.
No segundo apito, eu já estava escondido, na última fileira de
bancos do “Horário”, agachado, de cócoras, aguardando
ansiosamente a partida do veículo. Até aqui, estava tudo de acordo
com o plano que elaborei na minha mente durante o tempo em que eu
caminhava rumo à Agência do Cardoso. Coisas de menino traquino!
- Vou pegar é uma carona até ao Posto Fiscal! Pensei. E lá
chegando, desembarco do veículo, e retorno para minha casa,
tranquilamente! Assim, realizo meu sonho em andar de carro.
Eu sabia que em frente àquele Posto Fiscal havia uma grande e grossa
corrente de ferro comumente atada em dois troncos de madeira para
obrigar os carros (que chegavam ou partiam) a estacionarem para a
vistoria das mercadorias que transportavam. Meu plano era perfeito!
Na terceira e última buzinada, o “Horário” deu partida para
Teresina. Com o veículo em movimento, fiquei logo de pé, do lado
direito da última fileira de banco de passageiros, olhando
atentamente para frente daquele caminhão que trafegava lentamente
pela Rua Leônidas Melo em direção ao mencionado Posto Fiscal, que
distava cerca de 300 metros da velha ponte de madeira sobre o rio
Marataoã, construída em 1935. Eu estava muito feliz em andar pela
primeira vez no “Carro do Cardoso”, embora de forma clandestina.
Logo que aquele primitivo ônibus passou pela serraria do senhor
Edmar Rocha, olhei para o local do Posto Fiscal para verificar se a
corrente de ferro estava alevantada ou não. Para minha surpresa, a
corrente estava rente ao chão de piçarra daquela estrada (PI-113),
permitindo a livre passagem dos veículos. Nesse momento, o motorista
decidiu aumentar a velocidade do carro. Os tripulantes desconheciam
minha presença entre os passageiros. Entrei em pânico! “Vou bater
em Teresina! Minha mãe vai ficar preocupada com meu sumiço.
Certamente meu pai me dará uma boa “sova” por essa minha
traquinagem. E agora?” Lamentei-me, com arrependimento.
O carro desenvolvia uma velocidade um pouco acima de 20 km, e sem
pensar nas consequências do meu ato tresloucado, pulei, mortalmente,
em queda livre para o chão duro e áspero da estrada de piçarra.
Caí qual os mergulhadores que imergem nas águas com seus tanques de
ar nas costas. Apenas com uma diferença: a água é macia, e o chão
é duro! Alguns passageiros que presenciaram a cena gritaram para o
motorista:
- Pare! Um menino maluco pulou do carro!
O motorista meteu o pé no freio, levantando poeira e piçarra para
todos os lados. Foi um alvoroço geral. O Ajudante que conhecia meu
pai, olhando para trás, me reconheceu. Correu em minha direção
onde eu estava caído.
- É o menino do Chico Maroca! - gritou o Ajudante.
Antes que o auxiliar chegasse até a mim, fugi em desabalada
carreira, cambaleante, pela Rua Leônidas Melo até chegar na praça
da igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição. De lá, caminhando,
andei trôpego até chegar em minha casa. Estava ofegante, sentindo
muitas dores na região lombar. Felizmente, sem nenhuma costela
quebrada. Da tresloucada aventura, havia ganho apenas alguns riscos
de sangue nas costas.
Minha mãe, com olhar incisivo e perscrutador, logo após identificar
a minha lastimável situação, indagando-me com a autoridade de quem
não admitia mentiras:
- O que aconteceu contigo? Diz-me logo, menino?
Respondi-lhe que, quando estava retornando para casa, tropecei caindo
de costas em um barranco de piçarra do pontilhão que fica no trecho
entre o final da Rua Grande e o Riachinho. Obviamente, a mamãe não
acreditou muito naquela história, ficando um pouco desconfiada.
Entretanto, não me perguntou mais sobre o acontecido, preferindo
verificar cuidadosamente os estragos sofridos por mim.
Meu Anjo da Guarda amorteceu aquela mortal queda, amparando-me nos
seus braços. Um milagre! Comentei isso em minhas orações.
Não me recordo se meu pai retornou de Teresina no dia seguinte, ou
se foi no final daquela mesma semana. O fato é que ele soube pelo
Ajudante que eu tinha pulado do “Carro do Cardoso”, mas que não
sabia informar como eu havia ficado após a queda. Ficou preocupado e
muito triste com aquela notícia sobre o seu filho, o que fez com que
ele voltasse para casa antes do prazo previsto.
Chegando em casa, foi logo procurando por mim:
- Cadê o Carlos? Ele está bem? - indagou antes mesmo dos primeiros
cumprimentos.
- Ele está aqui por perto de casa, e está bem. Só que está com
uns pequenos arranhões nas costas. Dizendo ele que foi um tombo que
levou lá no pontilhão do Riachinho. Eu achei muito estranho o que
me contou – respondeu a minha mãe - Francisco, você soube de
alguma coisa?
Escutando a voz de minha mãe a me chamar da janela da nossa casa,
encerrei o delicioso banho nas águas do rio Marataoã. Não sabia,
até então, que meu pai havia retornado da viagem. Quando entrei em
casa, ainda bastante molhado, lá estava ele de braços abertos para
me abraçar, e, em seguida, apalpou minhas doridas costas, me
falando:
- Graças a Deus! Não quebrou nenhuma das tuas costelas. Até parece
que levou uma “pisa” com cipó de tamarindo? - estava muito feliz
com o meu estado físico com apenas alguns arranhões para se ocupar
de alguma admoestação mais severa.
Papai já havia contado para minha mãe tudo que o Ajudante lhe falou
em Teresina sobre aquela desastrada carona que peguei no “Carro do
Cardoso”.
No início do ano de 1961, meu pai decidiu levar a família para
residir em Teresina por necessidade de melhores condições de vida.
E eu descrevo essa viagem em uma das minhas primeiras crônicas que
escrevi no gênero.
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Chico Acoram é funcionário público federal, poeta cordelista e cronista, autor do Livro O Menino, o Rio e a Cidade.