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Imagem extraída do Google |
Luiz Thadeu Nunes e Silva(*)
Eles
nunca tinham se visto. Ele a viu discretamente no balcão do
check-in.
Chamou sua atenção a elegância discreta dela. Ele prestou mais atenção quando ela ficou na sua frente, na fila do embarque.
Ele fixou o olhar nela, viu cada detalhe: o cabelo, a roupa, o contorno do corpo, o andar, os sapatos. Quando entrou na aeronave, ela estava sentada na poltrona do corredor.
Ela
levantou-se ao vê-lo se aproximar; ele sentaria na mesma fileira, na
janela.
Ao passar por ela, sentiu seu perfume, uma fragrância
forte, marcante. Isso despertou nele algo inesperado. Se ela chamava
sua atenção pela beleza e charme, o perfume aguçou o desejo de
tê-la em seus braços.
O
comandante anunciou o fim do abastecimento da aeronave; em seguida
levantariam voo.
Acomodada na poltrona, ela fechou os olhos, ele
pegou o notebook que retirou da mochila.
Ele sempre a olhava de soslaio, ela não notara seus olhares.
Com a aeronave nas alturas ela dormiu. Ele começou a escrever o parágrafo final do projeto que teria de enviar para a matriz.
Com as luzes da cabine apagadas, ele passou a observá-la melhor, sem se preocupar que alguém o visse.
Quem
será essa bela mulher? É casada? Tem filhos? É feliz? Que mulher
bonita, pensou.
Assim foi o voo todo, ele observando-a, ela
dormindo.
Novamente o comandante fez uso do microfone para informar que dentro de instantes aterrissariam no aeroporto internacional Governador André Franco Montoro, Guarulhos, SP.
Ela se acomodou na poltrona, ele observou-a um pouco mais, sabia que após a descida, provavelmente não se veriam mais.
Após
a aeronave taxiar pela pista, parou, e os passageiros começaram a se
arrumar para desembarcar.
Ela que faria apenas escala em
Guarulhos, tinha pouco tempo para retirar a mala de mão do
bagageiro, além de pegar a outra na esteira. Agora, era correr e
pegar o próximo voo para Barcelona.
A mala de mão engatou,
mesmo com todo jeito, não conseguiu tirá-la.
Ele vendo o
sufoco dela, perguntou se poderia ajudá-la. “Sim”, disse
baixinho.
Ele se aproximou, retirou a mala que teimava em não seguir viagem. Entrego a ela.
- Obrigado,
disse ela.
Ela seguiu em frente, apressada, para pegar a mala despachada. A mala não apareceu, o tempo passou, a ansiedade dela aumentou.
Olhou
mais uma vez para o relógio, fez algumas ligações do celular.
Ele
vi a cena, de longe, sem entender o que acontecia.
- O
quê houve? - Perguntou ele.
- Minha
mala que não chegou, tenho que seguir viagem, acho que vou perder o
voo.
- Se
puder ser útil, pode contar comigo.
- Obrigado.
- Moro
em SP, se você precisar de algo me diga, esse é o meu contato.
- Obrigado,
disse ela.
Ele
pegou a mala dele e foi para o estacionamento.
Ela foi até o guichê da companhia aérea para saber qual solução para o extravio da mala. Como faria, já que perdera o voo.
A
companhia aérea lhe ofereceu hotel, táxi e refeições até o
aparecimento da mala.
Ela pegou o táxi, foi para o hotel,
pegou o cartão dele, e ficou na dúvida, se ligava ou não para
aquele homem gentil e solícito que ela não conhecia.
Tomou um banho demorado, vestiu a mesma roupa, desceu para o
lobby do hotel, olhou ao seu entorno, viu à sua direita uma
cafeteria. Se encaminhou até lá, se acomodou, pediu um café, tirou
o cartão de dentro da bolsa. Pensou mais um pouco de era ousadia
ligar para um desconhecido.
Tomou um gole de café, resolveu ligar:
- Oi,
tudo bem? Sou a moça do avião. Tive um contratempo, vou permanecer
em SP até resolverem o imbróglio da mala. Você tem tempo para um
café.
- Claro,
me passa teu endereço, te ligo quando estiver chegando.
Tem
pessoas que se procuram. E, no momento certo, quando se encontram, as
almas dizem baixinho:
- Eu sabia que íamos nos encontrar.
(*) Luiz
Thadeu Nunes e Silva, Eng. Agrônomo, Palestrante, cronista e
viajante. Autor do livro “Das muletas fiz asas”. O
latino-americano mais viajado do mundo com mobilidade, visitou 151
países em todos os continentes.