domingo, 28 de junho de 2026

PRESIDENTE DUTRA, 83 ANOS - UMA VIDA, MUITAS HISTÓRIAS

Foto gravura de Ângela Rego

 

José Pedro Araújo (*)

                Os 83 anos de história, que comemoramos agora, diz respeito apenas ao tempo decorrido desde a emancipação de Presidente Dutra do território barra-cordense, tempo em que começamos a nossa caminhada sozinho, desligando-nos completamente do nosso município mãe. De fato, a história de vida daquela pequena povoação batizada com o nome de Curador, vem de muito antes, desde quando um aventureiro construiu a sua cabana em meio àquela mata desconhecida, e logo passou a oferecer as suas “mezinhas” para o tratamento de alguns transeuntes portadores de moléstias adquiridas naquele sertão insalubre. Desde aqueles tempos, já teria decorrido muito mais do que um século. Talvez, prováveis cento e setenta e seis anos.

Desde o começo, aquele local, perdido no seio da floresta densa, passou a ser conhecido pelo apelido do velho pioneiro: Curador.  Não somente a região, mas também a lagoa às margens da qual o curandeiro estabeleceu a sua morada, e até mesmo o riacho piscoso que corria manso, logo próximo, todos foram batizados como o nome do primeiro habitante pelos indivíduos que por ali passavam. A lagoa então passou a ser conhecida como Lagoa do Curador; e o veio de água cristalina, como Riacho Curador. É assim que esses dois mananciais estão registrados nos mapas da época à qual estamos nos referindo. Mais à frente, em data imprecisa, os moradores locais passaram a se referir ao riacho Curador, como riacho Firmino, numa referência ao fundador do povoado que se formava próximo às nascentes do afluente do riacho Preguiça, logo ali perto. A Lagoa do Curador, permaneceu com o nome do Curandeiro que deu origem ao local. Quanto à povoação, anos depois, teve o seu nome alterado também, igual o que aconteceria com o designativo que primeiro batizara o citado riacho.

                Anos atrás, em uma monografia, o IBGE registrou que o Curador teria sido fundado por dois homens vindos desde o município de Codó, abrindo uma picada na mata até chegarem à região onde se situaria a povoação. Não sabemos de onde aquela instituição de pesquisa tirou essa informação, pois não nos deu conta de nenhum registro histórico que ateste essa versão da nossa história. Por sua vez, em um vídeo preparado com o uso da Inteligência Artificial (AI), que tomou conta da internet por esses dias, o seu criador envereda pelo mesmo caminho, mas cita o nome de três pessoas, e não duas, como sendo os fundadores da povoação: Antônio Baldoíno, Antônio Pereira Machado e Cazuza da Rocha. O resto da história continuava idêntica à apresentada pelo IBGE. Afirmava ela que esses três homens teriam partido de Caxias, no ano de 1884, José de Sousa Carvalhêdo e José de Sousa Albuquerque, etc e etc.  

Chamou-me a atenção o nome do primeiro individuo citado no vídeo recente, pois a denominação Baldoíno pertence à família de meu pai, e parece ser esta uma família única surgida no Piauí, mais precisamente na região de Floriano, tendo como seu precursor o senhor Baldoíno José de Barros, nascido no ano de 1852. Esse nome familiar é de descendência italiana. Estudando, pois, a sua linhagem familiar, vi que ele não possuía nenhum filho com o nome do indivíduo citado no vídeo. O vídeo também não traz qualquer informação sobre a fonte da qual eles retiraram essa informação, a nosso ver, sem qualificação. De qualquer forma, esse tipo de informação tem tumultuado a história do nosso município, fazendo com que muita gente a acredite como verdadeira.

                O que a história registra, de fato, é que em 1849 o coronel Diogo Lopes de Araújo Salles foi aquinhoado com algumas Datas de Sesmaria na região onde, no futuro, seria erguido o povoado do Curador. E que, entre essas Datas de terra, estaria a Data Santa Maria, local onde aquele desbravador situaria a sede das suas fazendas. Isso se deu trinta e cinco anos antes que esses cidadãos citados na monografia, e no vídeo acima citado, aparecessem na região. Mas é a história oral, tantas vezes citada pelos nossos pioneiros, quem nos diz qual indivíduo emprestou o seu nome ao aglomerado de casebres que daria origem ao Curador; que registra ainda que os escombros da humilde choupana do Curandeiro, o pioneiro, ainda chegou a ser identificado no local em que a sua morada foi erguida, nas margens da citada lagoa do Curador. Eu mesmo ouvi essa informação proferida pela minha vó materna, Maria José Nunes Barros, que acompanharia o soerguimento da vila desde o final do século XIX, quando veio habitar nela. D. Zezé, como era conhecida, que viveu até a idade de cem anos, tinha uma memória prodigiosa e se deleitava apreciando o progresso vivido pela cidade que praticamente viu nascer. Nessas ocasiões, para completar a sua informação, dizia-nos que existiam apenas vinte e sete casas quando ela chegou ao Curador, acompanhando a sua família. Todas edificadas com palhas de babaçu.

                O que aconteceu com o fundador da vila, o tal Curandeiro, ninguém sabe ao certo. Talvez tenha sido expulso da região pelo Coronel Diogo Salles quando aquele donatário veio estabelecer a sede das suas fazendas na região da Santa Maria, é o mais provável. Portanto, se querem dar o título de fundador a alguém, cuja biografia seja conhecida, e não ao nosso Curandeiro, que deem a primazia ao Coronel cearense, cuja história é bastante conhecida. Aliás, no nosso livro, “Viajando do Curador a Presidente Dutra – histórias, personalidades e fatos”, existem informações detalhadas sobre a verdadeira história da povoação conhecida anteriormente por Curador. Toda ela baseada em documentos de época. Entretanto, concordamos plenamente com uma parte do vídeo, aquela em que o seu autor afirma ter sido injusta a substituição do topônimo Curador, colocando em seu lugar, o do Presidente da República. Pois, de fato, o tal cidadão homenageado, Eurico Gaspar Dutra, que ocupava o cargo de Presidente da República quando tal mudança ocorreu, nunca pôs os pés no solo sagrado do nosso Curador.

                Agora, os tempos são outros. A cidade se desenvolveu e ganhou importância, e hoje é reconhecida como polo regional de desenvolvimento. Crescida e bem desenvolvida, conta hoje com cinco agências bancárias, três importantes hospitais, além de um avultado número de clínicas, médicas, odontológicas e de análise laboratorial, tendo se tornado também um importante polo regional de saúde. Nele também é possível encontrarmos vários educandários importantes, e até mesmo algumas faculdades, e o seu comércio é um dos mais importantes e pujantes de todo o interior maranhense.

                Presidente Dutra, aquele Curador de outrora, chegou ao seu octogésimo terceiro aniversário de emancipação política com pompas de cidade influente. Contudo, nunca nos esqueçamos de que foram pessoas simples, nordestinos detentores de orçamentos mirrados quem a ergueu e a povoou, às custas de muito suor e sofrimento. Aquela vila que recebeu o nome de Curador, não nasceu à sombra de uma casa-grande poderosa ou de um templo religioso influente. Nasceu, sim, do esforço de um povo destemido, e demorou muitas décadas para contar com a ajuda e o reconhecimento de governos situados na ilha de São Luís, sede do governo, situado a mais de trezentos e cinquenta quilômetros de distância. Esta viva na nossa memória ainda, que, devido à nossa localização geográfica, os nativos da ilha chamavam-na pejorativamente de Mata do Japão, em razão da sua distância e dificuldades de acesso.  Parabéns, Presidente Dutra!

(*) 

José Pedro de Araújo Filho é presidutrense, engenheiro agrônomo, autor do livro Viajando do Curador a Presidente Dutra – história, personalidades e fatos, e coordenador do blog Folhas Avulsas.     

 

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