quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Viajando pelo rio Itapecuru em 1905.

 

Vapor navegando as águas do rio Itapecuru (imagem do Google)

Nesta segunda parte continuaremos a navegar pelas águas do rio Itapecuru com o piauiense Dr. Araújo Costa, advogado e político radicado em São Luís do Maranhão, em uma viagem empreendida por ele entre São Luís e Caxias, lá pelo ano de 1905. Iniciaremos, agora, o primeiro capítulo do diário saído da sua própria pena, no qual aquele viajante notícia suas percepções e sentimentos a respeito da viagem que ele empreendeu por aquele icônico e deslumbrante rio.

IMPRESSÕES DE VIAGEM (Parte 2)

Carlos Augusto de Araújo Costa (*)

Dia 20 - Acordei as 5 horas da manhã. O vapor amanheceu cheio de ramos verdes, devido ao contato constante com os arbustos e arvoredos marginais. Dir-se-ia o convés um campo aberto em que travaram luta hercúlea dois nédios touros. À meia noite o barco não podia ser bem governado, metendo muitas vezes a proa pela ribanceira. Seu governo transformava-se em uma verdadeira ditadura, e não científica, sem ofensa à sua pilotagem.

                Meu ilustre companheiro, Coronel Aristides de Lobão, houve por bem mudar a sua rede do local em que a tinha colocado. E andou muito acertado, porque podia ser atirado ao rio, sendo ele infenso a esses banhos noturnos.

Tudo neste dia, correu às mil maravilhas, descontando apenas o que se deu com as vacas do Coronel Luiz Rego, que não nos forneceram bastante leite. Fiz-lhe, por isto, as minhas reclamações, dizendo que ou essas vacas davam leite ou, na minha qualidade de advogado, moveria contra uma ação de despejo, no intuito de removê-las do vapor para uma das barcas.

No lugar Maracajá, onde o vapor recebeu lenha, fui à terra, passando justamente com o Aristides, alguns instantes com um camponês jovial, que nos deu ovos e café. Bom homem! Soube que ele é irmão do professor de Coroatá, e, como tal, é afeiçoado à situação dominante do Estado. Além da afeição particular, mais esta ligação política.

Dia 21 – O “Carlos Coelho” encalhou às três horas da madrugada, já em Coroatá, se bem que fora do ancoradouro.  

Às 4 horas, passei do meu dormitório para o camarote do 2º maquinista, que o cedeu mui generosamente. Ali dormi até às 6 horas, aquecido pelo calor da máquina que lhe fica próxima.

Tomei muito leite, pois as vacas corrigiram o erro da véspera. E ai delas se assim não fosse!

Desembarquei-me às 8 horas a fim de percorrer a vila. A bem da verdade devo declarar que ela me causou má impressão, mesmo inferior ao que esperava.

O primeiro ponto de partida que tomo, para o ajuizar de um povoado, é a sua edificação. Se há prédios em construção ou pelo menos de há pouco construídos, entendo que o lugar é bafejado pelo sopro da fortuna ou tende a se desenvolver. Se o contrário disto se dá, é porque é decadente ou estacionário.

Ora, o Coroatá que é uma vila assaz grande, se me afigurou antes um vasto organismo desarticulado, começando a diluição de seus membros. Tudo ali é maldisposto, sem ordem, sem simetria. Não tem edificações novas, nem projetos de construção, mas, ao contrário, prédios em ruína e na sua totalidade mal-acabados. As casas são de palha em sua maior parte, no perímetro como no centro da vila, e, não raro, separadas umas das outras por meio de cercas de estacas que traem o mal gosto de seus habitantes. E tão feias que parecem desafiar a falta de educação artística dos mais rudes habitantes da selva. Disseram-me, entretanto, que o lugar é de muita vida e bastante movimento comercial.

Contesto-o em absoluto, pois, não pode haver causa eficiente de progresso, sem que este se manifeste como fenômeno imediato. E se o município é demasiado fértil, como dizem os munícipes, e eu creio, sua força natural criadora é qual tesouro que, muito escondido, nenhuma utilidade tem para o bem geral da agremiação.

Tirassem-lhe essas grossas artérias do progresso – o rio Itapecuru – e a vila desapareceria. Isso mesmo disse eu a alguns dos seus maiorais que, como era de se esperar, combateram a minha opinião. Não sou tão teimoso que a outrance queira fazê-la desaparecer. Estimo mesmo estar em erro e que a verdade esteja com eles.

Percorrendo a vila, fui ter primeiramente ao telegrafo, de onde segui até a casa do meu particular amigo Tenente Coronel Antonio Napoleão da Silva Sodré, um bom e honrado mestiço, de quem fui advogado em um processo crime.

Devo acrescentar que este Napoleão, não sei de por influência do nome, é bastante belicoso. Tanto assim, que diversas vezes tem sido processado, sendo uma vez recolhido à prisão.

Daí vem, talvez, a sua popularidade, pois o público em geral, máxime entre os povos da raça latina, inclina as suas simpatias em favor dos que adquirem a coroa do martírio, se este não indica perversão moral.

O Tenente Coronel recebeu-me com a fidalguia generosa de um grande coração agradecido, embora um tanto contrariado por não lhe terem comunicado a minha partida, missão que confiara a um amigo.

Almocei em sua companhia, tendo antes tomado um banho de água fria, que me agradou imenso.

Só depois do meio-dia voltei ao vapor, que então já estava desencalhado. Trouxe para bordo, alguma provisão de fumo e charutos. O fumo dado e bom, os charutos comprados e ruins. Se não fosse desatenção com o vendedor, que é pessoa qualificada, lhes devolveria de presente ao chegar amanhã ao Codó.

Ao jantar, o Paulo Amaral, juiz de direito do Mirador, e bom discípulo de Economia, deu-nos vinho de mesa. Por isso, resolvemos fazer-lhe uma manifestação de apreço, que só não se efetuou por força maior superveniente. Amanhã haveremos de realizá-la. Como orador aclamado, já tenho engatilhado o meu improviso.

Dia 22 - Acordei tarde. A bordo, ainda não tinha dormido tão bem.

      Em Setuba, o vapor tomou lenha, demorando quase uma hora. É o serviço mais aborrecido nestas viagens. Se fosse possível viajar aqui sem esse combustível, jurava de mim para mim mesmo que uma vez por outra estaria embarcado.

Visto nos aproximarmos de Caxias, pedi ao comandante Carlos Gonçalves que me cedesse o seu camarote, para aí copiar as minhas notas, e remetê-las ao Antonio Lobo, na capital. O requerimento foi deferido e, por isto, porei mais tarde mãos à obra, pouco importando que o orador popular dê às minhas impressões boa ou má cotação. Se as reputar mal, usarei do direito de legítima defesa: darei a Carteira de um neurastênico ao meu boçal vaqueiro do Piauí.

É preciso que essa gente se convença de que um advogado merece todo o respeito e acatamento. Não se deve menoscabar da prosa, mesmo desalinhavada, de um discípulo de Papiniano.

Passamos em Monte Alegre, outrora Urubu, nome que lhe fica mais adequado. Saltei. Em pouco minutos percorri a maior parte do lugarejo, e voltei correndo para bordo, devido ao apito do vapor, quando mais precisava estar em terra. É preciso acabar-se com o apito dos vapores.

Almoçamos logo depois e a fartar. Até então não tinha comido tão bem e com tão devorador apetite.

Por ocasião do almoço devíamos efetuar a homenagem ao Paulo, devendo eu deitar falação quando a refeição terminasse. A orquestra viria em seguida.

Para isso, pedi vinho, mas o juiz do Mirador declarou que não servia de pato, que não pagaria o vinho, e retirou-se da mesa. Pregou-me talvez, uma lição de mestre, obrigando a sair da minha pobre bolsa o vinho que pedi. Sinto da minha parte. Em condições tais, não vale a pena tributar homenagem.

Ficamos encalhados no Gentio, perto do Codó. O vapor martelava sobre as margens do estreito Itapecuru em pancadas ciclópicas. Era luta do homem contra a natureza, esta coartando-lhe os movimentos, aquele batendo-se pela liberdade da locomoção. Por fim, o primeiro como soe acontecer ao espírito de liberdade que sempre quer voar, voar, saiu vitorioso do porfiado combate, fazendo a nave deslizar sobre as águas.

Mas, isto custou bastante. Os secos aqui são perigosos e vem uns sobre os outros.  Como quer que seja, à meia noite o vapor tomava o porto, embora desesperançado o comandante de apressar a saída, por quanto uma das barcas fora invadida pela água, havendo, por isto necessidade de protesto para ressalva de direitos.

(*) Araújo Costa, piauiense, advogado, jornalista, ex-presidente da Câmara de Vereadores de São Luís, foi também um dos participantes da Junta Governativa Provisória, que governou o Maranhão por volta do ano 1922.

 


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