sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Viajando pelo rio Itapecuru em 1905 - Parte 4).

 

Vapor típico navegando na mesma época sobre as águas do rio Itapecuru

IMPRESSÕES DE VIAGEM (Parte 4)

Carlos Augusto de Araújo Costa (*)

 

A quarta parte deste diário se inicia quando o vapor se aproxima da cidade de Caxias, ponto final da viagem iniciada em São Luís do Maranhão. Em seguida, o viajante discorre sobre a recepção da sua população, e depois discorre sobre o que achou da cidade, fazendo observações sobre seus locais mais atraentes. Voltamos a relembrar, que são relatos emitidos no ano de 1905 a respeito de uma cidade que já se tornara, naquela época, o centro mais importante e desenvolvido de todo o interior maranhense.

Dia 25 – Oitavo dia de viagem! Correram-me agradavelmente as primeiras horas do dia, não me causando nenhum mal o banho frio que tomei pela manhã. Alguns achavam que este banho seria uma temeridade, podendo prejudicar-me a saúde. Dei-lhes, porém ouvido de mercador. Não sou muito amigo da medicina, ponho sempre à margem os seus preceitos, e devido a isto tenho vivido muito bem, sem gastar dinheiro com médico e botica.

                Sendo o último dia de viagem no “Carlos Coelho”, chamei a contas o empregado de bordo que talvez deva ser chamado de caixeiro de bordo do Carlos Gonçalves. Soube então que o Paulo Amaral, negou-se peremptoriamente a pagar o vinho que em seu nome pedi para fazer-lhe a manifestação de apreço. Tive que pagá-lo, mas declaro desde já que fica sem efeito quaisquer referências lisonjeiras que por ventura lhe tenha feito. E vou escrever ao Antonio Lobo para que as retire das minhas primeiras notas que lhe enviei.

                Adquiri importantes conhecimentos sobre a individualidade do falecido Monsenhor João Tolentino Guedelha Mourão, notável sacerdote e político que faleceu há pouco na Bahia, deixando uma vaga na representação maranhense. Como já disse, vinha no vapor a família, também homem público e muito estimado entre nós. D. Eufrasina, sua sogra, era a irmã mais velha do falecido sacerdote e, por isso, bem no caso de saber onde ele nasceu.

Um primo do padre, cearense, e creio que residente em Fortaleza, combatendo a opinião da imprensa carioca, que o dava natural do Maranhão, afirmou ter ele nascido no sítio Buracos, no município do Ipu. Ficou esta sendo a opinião corrente. O Ceará ficou com a glória de servir-lhe de berço. Engano manifesto!

Disse-me a sogra do Aristides que, entre os irmãos, apenas ela nascera no sítio da fazenda Buraco, no município do Ipu, e que Monsenhor Mourão nascera na fazenda Gruta, município de Principe Imperial, da então Província do Piauí, onde lhe nasceram outros irmãos. Os três mais moços, nasceram em Passagem Franca, neste Estado.

Explicou-me mais a veneranda senhora a razão por que o seu irmão dizia ter aqui nascido. Precisando ele fazer prova de idade, que não tinha, aconselho-lhe um advogado que a fizesse por meio de justificação de que se encarregou; declarando as testemunhas que ele nascera em Passagem Franca.

Com efeito, ele me pereceu um tanto contrafeito uma vez que lhe perguntei qual o seu estado natal. Não se sentia bem negando-o, mas se sentia pior contestando um documento que, por necessidade de homem público, teve que exibir. De resto, não era desairoso dizer-se ele maranhense, que o era de coração, pois veio muito criança para este Estado e a ele tudo devia. Mas, isto não é motivo para que deixemos de restaurar a verdade – missão que não compete somente ao historiador, mas a todos que escrevem.

O meio-dia correu-me desagradavelmente, devido ao asfixiante calor que fazia. Associei-me aos atiradores para espairecer e dei bons e certeiros tiros. Só ao escurecer desprezamos as armas, com pesar de não mais manejá-las. Éramos uns verdadeiros japoneses, e tínhamos como russos os jacarés e camaleões que, se não caiam na arena do combate, é porque fugiam à nossa presença.

Substituímos então a caçada pelas histórias do Othon Franco de Sá, inteligente e espirituoso companheiro que, como o Saló da máquina fotográfica e o bom e o bom e ingênuo Othon Braga, vai ao interior do Estado inspecionar coletorias.

Depois das 8 horas da noite o vapor começou a dar apitos, anunciando a sua chegada ao nosso muito desejado porto de Caxias. Todos nos sentimos de alma nova.

Passadas as 9 horas, chegamos finalmente. Antes do vapor aportar, notamos esquisito movimento. Foguetes estrugiam no ar, e duas afinadas bandas de música tocavam excelentes peças. Indagando, soube que alguns bons caxienses moviam aquele alegrão em sinal de apreço à minha humilde pessoa.

Mas, perguntava de mim para mim mesmo, o que fiz a esta boa gente para merecer tão festiva recepção. Imaginei que, embora a medida de minhas pequenas forças, e como o permite a minha posição, já tenha dispendido alguns esforços pelo bem comum; e só isto repercutindo naqueles corações generosos, podia justificar tamanho aparato. Festejava-se, de fato, a minha chegada à rainha destes sertões.

Abraçados os amigos, segui com eles para uma das casas do Coronel Leôncio Machado pois, devo dizer que entre o coração bondoso do velho Leôncio, a alma espartana do Leôncio Filho, me sinto feliz e satisfeito. Com eles, a quem me prendem velhas relações de família, me hospedei. Ai fui tratado gentilmente, sendo, ao chegar, alvo de penhorante manifestação. Houve muitos discursos, que agradeci.

Dia 26 - Foi-me oferecido um excelente almoço em casa da família do Coronel Leôncio Machado. Ergueram-se muitos brindes, correndo tudo com a maior animação. À tarde, com o ilustrado clínico. Bento Urbano, fui percorrer a cidade.

Caxias pode-se dizer, desde muitos anos, a rainha do sertão maranhense; e orgulhosa do seu trono, ela manterá ainda por muito tempo a realeza, que é uma conquista de sua excelente posição geográfica, e do espírito culto, altivo e nobre de seus habitantes, que tem alguma coisa dos velhos hábitos cavalheirescos. Situada à margem do Itapecuru, a mais importante artéria fluvial do Estado, pouco distante do caudaloso rio Parnaíba, que   separa o Piauí do Maranhão, onde mais irradia a vida maranhense entrelaçada com o espírito piauiense.

Demais duas circunstâncias cooperam no seu progresso: é o ponto terminal da navegação à vapor no Itapecuru e um ponto de trânsito dos piauienses que por mar se destinam a outros pontos da república, porquanto ao porto marítimo da Amarração, preferem-se o embarque no porto de S. Luís.

Devido a isto, é ela um importante centro comercial. Os produtos do interior, em busca dos melhores mercados consumidores, e não somente estes, mas também muitos produtos da indústria piauiense. Ela tem também brilhante tradição histórica. O morro do Alecrim que fica a leste da cidade, foi o ponto estratégico onde se acastelou o português Fidié, que, atacado no Piauí em 1822, para se dirigiu no intuito de se reforçar, e poder investir contra hostes libertadoras, ao tempo da nossa independência.

Estas hostes, vindas do Piauí, com um contingente que lhes mandaram do Ceará, com o entusiasmo do santo amor às liberdades pátrias, ali deram ao fiel soldado de D. João VI, que batido de todos os lados, teve afinal que depor as armas. Foi então menos feliz que em Campo Maior, onde, tripudiando sobre o espírito liberal dos nossos antepassados, deixou o campo juncado de cadáveres.

Apreciei muito o Morro do Alecrim, em cuja conquista, naquela época heroica, figuraram alguns membros da minha família. Dele se descortina a cidade em magnífico panorama, salvo uma parte dos seus arrabaldes pitorescos. Aos primeiros albores da manhã, Caxias apresenta o belo espetáculo de uma oficina de trabalho, cujos operários se movimentam ao grito da voz do progresso saindo pelos volumosos canos das máquinas, que os convidam ao labor diurno. Em quatro fábricas de tecidos, e outras diferentes empresas concretiza esta atividade industrial de que há pouquíssimos exemplos entre as nossas cidades distantes do litoral. Teresina, cidade nova e florescente que lhe suga grande parte das forças, e outras cidades do centro, mesmo capitais, não lhe levam a palma no tocante às indústrias.

Aqui fazem-se tecidos de diferentes qualidades, jornais que levam às portas as novidades do mundo culto, faz-se bom sabão, o excelente açúcar do Engenho d’Água, e produtos e artefatos outros, que por si sós recomendam bem a inteligência dos caxienses. A cidade tem importantes estabelecimentos comerciais, ruas calçadas, boas pontes e outros serviços que indicam a iniciativa dos habitantes e o zelo dos poderes públicos, a despeito da opinião popular, atualmente, contra a edilidade, no que diz respeito à limpeza das ruas e praças.

Dir-se-á que quem vem de um importante foco de civilização, ávido para saborear os esplendores da natureza, não poderá saciar aqui seus desejos. Perfeito engano!

Em um dos arrabaldes de Caxias, na Ponte, a natureza americana, sorridente dos seus dons inefáveis, ostenta-se em toda a sua beleza virginal. Semeado esse trecho da cidade de pequenas casas, umas aliás graciosas, mas que lhe não tiram sua naturais atrativos, uma alma de filósofo aí se sente inebriada ante os belos descampados, as árvores verdejantes e o doce sussurrar das águas cristalinas.

O riacho ponte, cuja linfa é a melhor que tenho bebido no Estado, qual grande cobra serpenteando, ora deslizando suavemente, ora dando saltos sobre a rocha e formando cascatas, é o ponto pitoresco onde vai refestelar-se a cidade civilizada, cansada dos artifícios do progresso, para se abeberar da poesia campesina.

Continua!

(*) Araújo Costa, piauiense, advogado, jornalista, ex-presidente da Câmara de Vereadores de São Luís, foi também um dos participantes da Junta Governativa Provisória, que governou o Maranhão por volta do ano 1922.