segunda-feira, 21 de maio de 2018

A SELEÇÃO BRASILEIRA DE FUTEBOL E O JOGO QUE NUNCA ACONTECEU.

Imagem das Seleções no estádio do Arruda


José Pedro Araújo
Em alguns momentos eu acredito que a minha memória está querendo me trair. Coisas da idade, dirão. Hoje, por exemplo, passei o maior perrengue ao afirmar para o meu filho caçula, um jovem já com seus trinta e dois anos, que assisti a um jogo especial da Seleção Brasileira A contra a seleção Brasileira B, em Recife, no ano de 1973. A indagação dele foi: “e aconteceu isso mesmo? Nunca ouvi falar”. E como nos dias de hoje tudo é motivo para se recorrer ao pretensioso Google, logo sacou seu Smartfone e começou a pesquisar. Um minuto depois ele se vira para mim, e como se estivesse falando consigo mesmo, devolveu sarcástico: “como eu pensava! Esse jogo nunca aconteceu!”.  Eu fiquei perplexo e rebati na mesma moeda: “pois saiba que eu sou mais atualizado do que esse sabe-tudo Google. Vou provar!”. 
Como eu não sou louco e nem estou ainda naquela fase em que o homem esquece facilmente aquilo que presenciou ou ouviu cinco minutos atrás, compreendi que ali estava a chance de provar que eu ainda estou com as minhas faculdades mentais completamente intactas. E corri para o meu computador e iniciei a minha própria busca no... Google. Nada encontrei, no que pese ter tentado de maneiras diferente formular a pergunta. Nenhuma uma linha sobre o assunto foi encontrada. Tentei de outras formas, sempre alertando que o jogo havia acontecido em Recife, no início do ano 1973. Nada. Apareceram algumas informações, como o jogo de despedida de Garrincha da Seleção Brasileira em 1973, além de outras coisas sem a menor conotação com o que eu procurava. Sobre o maldito jogo, nem uma linha. Eu mesmo já começava a me questionar.
Nesse momento meu filho se acercou de mim e despejou a pergunta que eu temia: “achou alguma coisa? Temo que esse jogo só aconteceu na sua mente, pai!”.  Nem me virei. E sem nada dizer, insisti na minha procura no Google. Tudo em vão. Então me lembrei de procurar no YouTube. Também é um instrumento de busca importante a que eu tenho recorrido constantemente. Mas, antes, fiz uma última tentativa ainda no Google, sobre As Olimpíadas do Exército que aconteceram em Recife em 1973. O tal jogo, da forma como eu me lembrava, havia acontecido na abertura desse evento grandioso para a época. Aí apareceram dois vídeos antigos sobre o evento, ambos publicados no You Tube. Um com 12, e outro com 11 minutos. Acessei um e vi que aqueles jogos olímpicos haviam acontecido de fato. Tratava-se das IVª Olimpíadas do Exército, informações provenientes da Casa Civil da Presidência da República, do Arquivo Nacional. De fato. Aquele evento havia sido realizado em Recife no ano de 1973. Chamei o meu filho e mostrei. “E o tal jogo, cadê?” – ele ainda me desafiou.
Sem alternativa, comecei a assistir aos vídeos, e vi que eram idênticos. Então parti para ver o maior, com doze minutos, e lá apareceu a abertura do evento que se deu no estádio do Santa Cruz, o chamado Mundão do Arruda. Abertura animada e com música marcial, imagens de um militar conduzindo a tocha olímpica, tudo de acordo com o script, mas nada do tal jogo. O vídeo era apresentado apenas com fundo musical, sem falas. Já estava impaciente, meio vídeo já passado, e eis que de repente aparecem as figuras dos jogadores da Seleção Brasileira na filmagem. Alguns trajavam os tradicionais uniformes canarinhos, enquanto outros jogadores vestiam o uniforme azul. “Olha aqui!” – empolguei-me. Meu filho acercou-se de mim ainda desconfiado, mas logo vi no seu semblante um tênue reflexo de incredulidade. Era como se dissesse: “e não é que ele tinha razão!”. Mas nada disse. Mesmo assim, passou a se interessar pela informação. Todavia, daí a poucos minutos, as imagens do Gerson, do Rivelino, vestidos com as camisetas amarelas, e do Dário, vestido o uniforme azul, sumiram e não mais apareceram até o final do filme.
Nesse momento o meu filho, mais dado à pesquisa internética – neologismo muito utilizado por um amigo meu -, disse-me para pesquisar nos jornais da época que eu deveria encontrar algo. E assim fiz. Não encontrei uma linha sobre o assunto. Aí então me lembrei de um  instrumento a que recorro muito quando busco informações em velhos jornais publicados, a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Não deu outra. No jornal Diário de Pernambuco, do dia 31 de março daquele ano de 1973, encontrei as informações que tanto procurava: “Seleções A e B já estão escaladas”, dizia a matéria. E logo a seguir vinham as escalações: Brasil “A” – Félix; Eurico, Brito, Piazza e Marco Antônio; Gerson, Rivelino e Paulo César; Jairzinho, Leivinha e Edu. Seleção “B” – Leão; Rodrigues Neto, Luís Pereira, Moisés e Marinho; Carbone, Dirceu Lopes e Dirceu; Valdomiro, Palinha e Dario.
A Seleção “A” era a titular, e aparecia com algumas ausências com relação ao time que jogara a final da Copa de 70, menos de três anos antes. A saber: Carlos Alberto, já aposentado da seleção; Everaldo, falecido em um acidente de carro; Pelé, também já fora da seleção, e Tostão, traído por um deslocamento da retina que o afastou dos campos de futebol. O restante do time era o mesmo que havia enfiado 4x1 na Itália na final. O Time “B” era composto por alguns jogadores reservas que haviam participado do Tricampeonato no México, além de outros que não estivera nos campos mexicanos, tipo Luís Pereira, Rodrigues Neto, Marinho, Dirceu Lopes, Dirceu, Valdomiro e Palinha. Eram, contudo, o que de melhor o Brasil tinha naquele ano.  
Não preciso dizer que o meu filho já me olhava com outros olhos, nem de longe aparecia aquele sorriso sarcástico de momentos atrás. E eu surfei na onda com rompantes de Medina, e cuidei de lhe repassar detalhes do jogo. Contudo, mesmo assim, ele ainda não se deu por achado e perguntou: “Será que a CBF não considera esse jogo apenas uma espetáculo demonstrativo?”. Ao que eu retruquei: “Um espetáculo demonstrativo que ocorreu dentro das regras, estádio lotadíssimo, jogo de 90 minutos, transmitido pelas rádios para todo o Brasil, cujo árbitro foi o Manuel Amaro de Lima, da FIFA, juiz que dirigiu o jogo Vasco x Santos por ocasião do milésimo gol de Pelé? Nada disso. A razão deve ter sido outra!”.
De fato, acredito que a falta de informações se deve hoje ao revisionismo empregado para apagar da memória nacional fatos ocorridos durante o regime militar. Parte considerável da imprensa procura esconder o apoio dado. Só pode ser isto. Pois os jornais da época, sobretudo os pernambucanos, estampavam com estardalhaço aquele jogo que, para eles, era algo para entrar para a história. Contudo, não adianta procurar informações nos seus sites hoje em dia. A história foi apaga, pelo visto.  
De volta ao jogo. Eu estava empolgadíssimo, seria a primeira vez que veria o escrete nacional jogar ao vivo. A outra vez foi em Teresina, no estádio Albertão, anos depois, em 1989.  Cheguei ao estádio do Arruda às 10 horas da manhã para assistir a um jogo que só começaria às quatro da tarde. Mas, ou seria assim, ou não seria, como veria mais tarde, tal a multidão que ficou do lado de fora do estádio. Não reclamei, contudo, pois o sacrifício valeria a pena. Havia levado água, um lanche frugal para comer no horário de maior fome, e ficamos a observar o estádio se encher completamente em pouco mais de uma hora. Depois foi esperar. Radinho colado ao ouvido ia mudando de estação para acompanhar os comentários dos locutores e comentaristas que, à medida que o tempo ia escorrendo, e aproximando-se da hora do jogo, a torcida se inflamavam mais e mais. E quando as duas equipes adentraram ao gramado, quase não contive a minha emoção. Dar de cara com aqueles monstros sagrados que haviam se tornado lenda ao vencer a Copa do México menos de três anos antes, a correr pelo gramado a poucos metros de onde eu me encontrava, quase me levou às lágrimas.
Entretanto, quando o jogo começou, parecia realmente um espetáculo de demonstração. A bola rolava mansa de pé em pé, sem que os jogadores esboçassem o menor esforço. Pareciam brincar daquelas “rodas de bobo”, tão comum nos campos de treinamento. Entretanto, tinha alguém no gramado que queria demonstrar que merecia sim uma vaga no escrete A: Dario, o peito de aço, além de Palinha, o centroavante do Cruzeiro, em ótima forma. E eles empreenderam tamanha correria que logo a seleção B começou a ameaçar a meta do goleiro Félix. Deste modo, não tardou para o atacante cruzeirense estufar as redes da seleção “A”. Depois disso o jogo ganhou em emoção, os jogadores demonstraram mais empenho e a torcida foi à loucura. Leivinha empatou para os camisas amarelas, e Rivelino virou o placar. E foi isso no primeiro tempo. Mal esperávamos para o jogo recomeçar.
No segundo tempo, as equipes foram fazendo alterações, e mesmo assim o jogo foi aumentando de intensidade para alegria dos milhares de torcedores que lotaram o Arrudão. No Final, 4X2 para os titulares do Brasil, aqueles que envergavam as camisas amarelas. E o Presidente da República, Emilio Garrastazu Médici, presente com enorme comitiva, concluiu assim a sua percepção do jogo: “Foi um bom treino”. Pensando bem, talvez esteja aí a razão para a CBF, e também para os demais estatísticos esportivos, omitirem esse jogo, nunca falarem da sua existência. “Mas que o jogo aconteceu, isso eu não tenho a menor dúvida, Éder Araújo!”.

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