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Imagem recolhida do Google |
José Pedro Araújo (*) Antes de me alongar, preciso
fazer aqui uma ressalva: já havia me encontrado com os Beatles anos antes.
Contudo, não sabia que se tratava deles, no que pese a fama estratosférica dos
Quatro Jovens de Liverpool. E esse primeiro contato incógnito se deu quando
ouvi pela primeira vez a música And I Love Her, no final do
ano de 1.965, pelas ondas da rádio Timbira do Maranhão. Nesse tempo, passava eu
as minhas tardes tomando conta da loja do meu pai situada na Rua Grande, mesmo
sem saber responder nada sobre os preços dos artigos à venda. A loja
comercializava tecidos, perfumaria, cintos, peças de plásticos, chapéus finos,
entre outros produtos. E meu pai, para poder discutir preços com a clientela,
apreçava os artigos com dois códigos com letras do alfabeto. O primeiro trazia
o valor de custo do produto, enquanto o segundo identificava o valor mínimo que
a mercadoria poderia ser vendida. Eu, criança ainda, desconhecia a forma de
conversão das letras em números, razão pela qual, sempre que aparecia algum
cliente, tinha que chamar por meu pai ou pela minha mãe para atendê-lo. A minha função, portanto, era
apenas a de vigiar a loja nas horas mortas da tarde, quando a clientela
permanecia em suas casas curtindo a sesta e protegendo-se da canícula impiedosa
da tarde. Nessas horas, ficava eu de sentinela, enquanto meus pais também
tiravam o seu rápido cochilo em redes brancas e perfumadas. Irrequieto como
toda criança, eu sentia que aquilo era uma forma disfarçada de me castigar
pelas estripulias que costumava realizar. Assim, insatisfeito com o
“aprisionamento”, resolvi que precisava fazer alguma coisa para matar o tempo e
superar a insatisfação de ver os meus colegas irem para o jogo de futebol na
Praça Diogo Soares ou tomar banho no riacho Firmino. Tinham tolhido o meu
tempo, acreditava. Hoje, diria que o motivo adotado pelos meus pais era muito
justo. Voltando ao assunto do título
acima. Para aqueles que se surpreendem com o fato de somente ter tomado
conhecimento da existência da mais famosa banda do mundo já próximo da sua
extinção, justifico dizendo que naquela época a televisão ainda não havia chegado
até nós, e que as revistas de variedades chegavam na cidade com um preço muito
alto. Não dava para mim. Assim, o rádio era o principal veículo de comunicação
que nos chegava, trazendo notícias e tocando as músicas de sucesso que ocupavam
os primeiros lugares nas paradas. E eu não me incomodava muito com o
que os falavam, queria era ouvir a música que tocava logo depois. Havia até encontrado uma maneira de
superar o tempo que se arrastava com cansada lentidão: ouvir música em um velho
rádio portátil que o meu genitor mantinha encostado em um canto por estar sem
serventia. Tive que improvisar uma antena para ele com algumas cordas de aço
para violão, que também comercializávamos na nossa loja. Havia identificado que
o rádio até ligava, mas o aparelho só emitia um chiado confuso, não se ouvia
nada mais. Trabalho feito, observei que o
problema estava sanado ao ligar novamente o aparelho, pois o som que saiu do
receptor era de boa qualidade. Passei a sintonizar algumas emissoras de rádio
em diversos Estados, como a rádio Globo do Rio, a Sociedade da Bahia, a Clube
de Pernambuco, e a Timbira de São Luís. Até passei a contar com alguns
programas em diversas delas. Na rádio Clube de Pernambuco, por exemplo, tinha
predileção pelo Programa do Bolinha, que transmitia os maiores sucessos
do Hit Parade na época. Enquanto isso, na Timbira ouvia o
programa Alegria na Taba, e foi nesta que ouvi pela primeira vez a
música And I Love Her. Não fiquei sabendo quem cantava, pois,
como já afirmei alguns parágrafos atrás, não me interessava muito pela prosopopeia
do locutor, mas achei a música especialmente bela, mesmo sem compreender uma só
palavra que eles diziam no idioma de Shakespeare. Dois anos depois, ocorreu o meu
encontro definitivo, que eu considero o primeiro, com a maior e mais badalada
banda de música de todos os tempos: The Beatles. Já estudava no Ginásio
Presidente Dutra e, certo dia, ao entrar na sala de aula, encontrei alguns
colegas travando uma acalorada discussão sobre o nome correto de certa banda de
música, cujo rosto dos quatro componentes aparecia na capa de trás de um
caderno que os jovens estudantes traziam nas mãos. Nessa época a língua
estrangeira ensinada no colégio era o Francês, portanto, não sabíamos nada de
Inglês, já vou logo esclarecendo como forma de defesa. Discussão vai, discussão
vem, e um dos colegas resolveu pedir a minha opinião sobre a pronúncia correta
do nome estampado no alto da capa. Gaguejei qualquer coisa que não me lembro
mais, decorridos tantos anos, mas, com certeza, não respondi o que eles queriam,
pois a discursão continuou açodada. O que ficou na minha memória,
entretanto, foi o rosto dos quatro rapazes cabeludos e trajando uns terninhos
estilosos, com o nome destacado sob cada um: John Lennon, Paul McCartney,
George Harrison e Ringo Star. Nunca mais esqueci a imagem nem tampouco os nomes
daquele grupo e o de seus componentes. Aquele foi, de fato, o nosso primeiro
encontro. Os Beatles se transformou em um divisor de águas no meu gosto
musical, e até hoje gosto de ouvi-los nos meus momentos de lazer e de
relaxamento. Daí achar que a banda não morreu. Nunca se desfez! Daí também
achar que os rapazes de Liverpool passaram, em carne e osso, pela minha sala do
velho ginásio fundado pelo insigne Dr. José de Ribamar Fiquene, juiz da comarca
e fundador e proprietários daquele inesquecível educandário. (Texto publicado anteriormente
em 13/01/2015. Ampliado e corrigido). (*) José Pedro Araújo, é engenheiro agrônomo, funcionário público federal aposentado, historiador, cronista, romancista, e coordenador do blog Folhas Avulsas. |