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Darlann Weskley Sousa
Silva(*)
Ainda ressoa, nas lembranças dos
mais antigos, o burburinho das manhãs em torno do velho Mercado Público
Municipal de Presidente Dutra. Não era apenas o rumor das compras, nem somente
o vai e vem dos fregueses em busca da carne, da farinha, do arroz, do cheiro-verde,
do toucinho, do feijão ou de alguma novidade trazida da zona rural. Era,
sobretudo, o som da cidade acordando para o trabalho.
O mercado foi, durante décadas,
um dos pontos mais vivos do centro urbano da Nossa querida Presidente Dutra.
Ali, homens e mulheres chegavam cedo, muitas vezes antes mesmo de o sol vencer
completamente a madrugada. Vinham lavradores, feirantes, carregadores, pequenos
comerciantes, vendedores ambulantes, donas de casa, marchantes, curiosos e
proseadores. Cada um trazia consigo uma parte da vida econômica e social do
município.
Naquele tempo, o mercado não era
somente um lugar de compra e venda. Era também uma espécie de jornal falado da
cidade. As no cias chegavam pela boca do povo, corriam de banca em banca,
atravessavam os corredores, paravam nas portas dos comércios e, em pouco tempo,
já estavam espalhadas pelo centro. Uma viagem, uma doença, uma eleição, uma
festa, uma enchente, uma seca, uma chegada inesperada, tudo podia virar assunto
nas redondezas do velho mercado.
| Imagem do Mercado Público de Presidente Dutra(1964)
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Situado na Praça Senador Vitorino
Freire, no centro comercial da cidade, o Mercado Público Municipal aparece em
documento oficial do próprio município como bem de interesse histórico-cultural.
Em 2021, o Projeto de Lei do Legislativo nº 019/2021, apresentado no âmbito da
Câmara Municipal de Presidente Dutra, propôs o tombamento do Mercado Público
Municipal como patrimônio histórico-cultural do município. O texto registrava
expressamente que o mercado estava localizado na Praça Senador Vitorino Freire,
no centro comercial da cidade, e defendia a preservação do seu “aspecto
histórico-social”, bem como da sua estrutura original.
Ainda que o documento publicado
no Diário Oficial não traga, no trecho disponível, o nome individual do
vereador autor da proposição, a matéria revela uma preocupação institucional
importante: a de reconhecer o Mercado Público como um bem de memória coletiva.
Não se tratava apenas de proteger paredes, portas e telhado, mas de preservar
um espaço onde a história cotidiana da cidade se desenrolou durante décadas.
Não se tratava, portanto, de um
prédio qualquer. Era o reconhecimento formal de que aquele espaço, gasto pelo
tempo e marcado pelo uso cotidiano, guardava uma parte importante da história
da cidade. Afinal, há construções que valem menos pela imponência arquitetônica
e mais pelo que testemunharam. E o Mercado Público testemunhou muita coisa: o
crescimento do comércio, a ampliação da zona urbana, a circulação de moradores
da sede e do interior, os encontros casuais, as conversas de balcão e as no
cias que chegavam primeiro pela boca do povo, antes de alcançar qualquer jornal
ou rádio.
O projeto buscava, em essência,
impedir que obras, reformas ou intervenções futuras viessem a descaracterizar o
imóvel. Ao falar em preservação do “aspecto histórico-social”, a proposta
reconhecia que o valor do mercado não estava somente na sua estrutura física,
mas também no papel que ele desempenhou na vida econômica, social e afetiva de
Presidente Dutra.
O projeto de tombamento,
entretanto, foi vetado integralmente pelo prefeito Raimundo Alves Carvalho. A
razão apresentada foi de natureza jurídica: segundo o veto, o tombamento
específico de um bem seria ato administrativo de competência do Poder Executivo,
e não uma atribuição direta do Poder Legislativo por meio de lei específica.
Ainda assim, o próprio texto do veto reconhecia que a proposta tinha por objetivo
tombar, por interesse histórico e cultural, o Mercado Público de Presidente
Dutra.
Esse ponto merece atenção. O veto
não negou a importância histórica do mercado. O que se discutiu foi o caminho
jurídico escolhido para protegê-lo. Em outras palavras, a proposição legislativa
foi barrada por vício de competência, mas deixou registrado oficialmente que o
Mercado Público Municipal era visto como um bem digno de preservação.
Por isso, a menção ao Projeto de
Lei nº 019/2021 continua sendo relevante. Ele funciona como uma espécie de
marco documental na história recente do Mercado Municipal: prova que, em algum
momento, o poder público municipal discutiu formalmente a necessidade de
reconhecer aquele espaço como patrimônio histórico-cultural de Presidente
Dutra.
Esse detalhe é importante. O veto
não apagou o valor histórico do mercado. Apenas interrompeu, naquele momento, a
forma jurídica escolhida para protegê-lo. A discussão, contudo, permaneceu
registrada no Diário Oficial e deixou para as gerações futuras uma pergunta
incômoda: se o Mercado Público é reconhecido como parte da memória urbana, por
que ainda não recebeu o cuidado patrimonial, urbanístico e turístico que
merece?
O próprio Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística, o IBGE, possui em seu acervo uma fotografia catalogada
como “Mercado municipal: Presidente Dutra, MA”, pertencente à série Acervo dos
Municípios Brasileiros. O registro identifica o município de Presidente Dutra,
no Maranhão, e classifica a imagem sob os assuntos “Maranhão; Mercados;
Presidente Dutra (MA)”. Embora a data apareça apenas como [19--], sem ano
preciso, a existência dessa fotografia em acervo nacional confirma que o
mercado integra também a memória visual documentada do município.
Pela tradição memorialística
local, há referências indicando que a construção do Mercado Público Municipal
teria sido iniciada na gestão de Gerson Sereno, prefeito entre 31 de outubro de
1951 e 31 de janeiro de 1956. Como se trata de informação preservada em
registros de memória local, convém tratá-la com a prudência devida: não como
sentença definitiva, mas como forte indicação oral e memorialística da origem
do prédio.
Ainda assim, essa informação
dialoga bem com a própria formação urbana de Presidente Dutra no século XX.
Naquele período, o antigo Curador já deixava para trás a condição de povoado
isolado e se afirmava como ponto de passagem, comércio e articulação regional.
O mercado, nesse contexto, não era apenas uma obra física: era um sinal de
modernização, de organização da vida comercial e de centralidade urbana.
Havia, naquele espaço, uma
pedagogia própria da vida simples. O menino aprendia a negociar vendo o pai
pechinchar. A dona de casa conhecia o preço das coisas pelo olhar acostumado. O
comerciante sabia quem comprava fiado, quem pagava em dia, quem vinha da roça,
quem vinha apenas para conversar. O mercado ensinava economia sem quadro-negro,
sociologia sem universidade e geografia sem mapa: bastava observar de onde
vinham as pessoas, os produtos e as histórias.
Por isso, falar hoje em
revitalização do Mercado Público Municipal não significa apagar o passado.
Significa justamente o contrário. Revitalizar é devolver dignidade ao espaço
sem arrancar dele a alma. É cuidar da estrutura, melhorar a iluminação, organizar
a circulação, valorizar os trabalhadores, preservar elementos históricos, criar
sinalização patrimonial, estimular a fotografia, o turismo, a gastronomia
popular e a visitação.
Cidades que cuidam dos seus
mercados cuidam também da sua memória. Basta observar que, em muitos lugares do
Brasil, os mercados públicos se transformaram em cartões-postais, pontos turísticos
e centros de cultura popular. São lugares onde se come, se compra, se conversa,
se ouve música, se encontra gente e se reconhece a identidade de um povo.
Presidente Dutra tem no seu
Mercado Municipal uma oportunidade parecida. Ali não está apenas um prédio antigo.
Está uma paisagem da memória. Está a lembrança dos trabalhadores que ajudaram a
movimentar a economia local. Está o cheiro da feira, a conversa de balcão, o
barulho das manhãs, a presença dos que vinham da zona rural vender seus
produtos e comprar o necessário para a semana.
A imagem histórica do mercado,
hoje melhorada visualmente por inteligência artificial para fins de valorização
da memória local, nos permite enxergar com mais nitidez não apenas as paredes
do prédio, mas aquilo que elas representam. A tecnologia melhora a fotografia;
a memória melhora o olhar.
E talvez seja esse o grande
desafio: fazer com que o povo da nossa Presidente Dutra volte a olhar para o
Mercado Público Municipal não como uma construção envelhecida no centro da
cidade, mas como um patrimônio vivo, capaz de unir passado e futuro.
Porque um mercado não é feito
apenas de bancas, portas e telhados. É feito de gente. De trabalho. De suor. De
vozes. De lembranças. De cidade. E quando uma cidade preserva os lugares onde o
povo trabalhou, comprou, vendeu, conversou e viveu, ela não está apenas
restaurando paredes. Está restaurando a si mesma.
(*) Weskley Sousa
Silva é presidutrense, geógrafo, professor e servidor público. Especialista
em Docência, Educação Profissional e Geoprocessamento, dedica-se à pesquisa em
geotecnologias, ordenamento territorial, memória urbana e leitura do espaço
geográfico. Atualmente, é Superintendente de Pesquisa e Geoprocessamento na
SAGRIMA, onde atua com estudos técnicos voltados ao território, ao planejamento
e à organização espacial.
Referências:
ARAÚJO, José Pedro. O Relógio da Matriz de São
Sebastião do Curador. Blog Folhas Avulsas, publicado em 5 de março de 2026.
Usado como referência de estilo narrativo e composição memorialística.
PRESIDENTE DUTRA.
Diário Oficial do Município de
Presidente Dutra-MA, edição de 08 de julho de 2021. Projeto de Lei do Legislativo
nº 019/2021 e razões do veto ao tombamento do Mercado Público Municipal.
IBGE. Mercado municipal:
Presidente Dutra, MA. Biblioteca IBGE, Acervo dos Municípios Brasileiros.
Fotografia em preto e branco, ano [19--].
MEMORIAL PRESIDENTE DUTRA-MA /
registros memorialísticos locais. Referências sobre o Mercado Público Municipal
de Presidente Dutra, localização na Praça Senador Vitorino Freire e indicação
memorialística de construção iniciada na gestão de Gerson Sereno. |
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