sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

PROFUNDAS MUDANÇAS DE HÁBITOS




José Pedro Araújo

Agora há pouco vinha transitando pela Homero Castelo Branco quando me lembrei de algo que ainda precisava fazer antes de chegar em casa. Então falei para a minha esposa que ia do meu lado: “Minha filha, preciso passar na farmácia para sacar algum dinheiro”. Sem nenhuma surpresa ela me respondeu "tudo bem". Logo depois dessa resposta, virei-me para ela e lhe disse: ”Se você tivesse adormecido no início dos anos Sessenta e só tivesse acordado neste presente momento, a sua reação seria de surpresa" – comentei sem um propósito definido.  
Nesse instante, ela olhou para mim, aí sim, com surpresa estampada no rosto e me perguntou o porquê daquela conversa. Sorrindo, disse-lhe que alguém que tivesse mergulhado em sono profundo em 1960 e só tivesse acordado neste instante se depararia com algumas surpresas. A primeira delas seria a afirmação que acabara de lhe fazer que precisava passar na farmácia para sacar dinheiro.
Naquele ano, minha cara, os nascidos no velho Curador, como eu, responderia de pronto que eu havia me enganado, que farmácia era lugar para se comprar medicamentos, e não sacar dinheiro. Aliás, a surpresa seria maior ainda por que de banco mesmo somente ouvira falar, nunca havia posto os pés em uma, pois na terrinha não havia agência de qualquer banco. Contudo, mesmo assim, sabia-se que era no banco que se buscava dinheiro.
A conversa parou por ali, uma vez que estacionei o veículo e entramos no banco, digo, na farmácia. Eu, para fazer o meu saque de dinheiro. Ela, para procurar algum protetor solar, uma vez que na manhã seguinte estaríamos descendo para o litoral. Aquele assunto, contudo, continuou a martelar na minha cabeça até que decidi passar para o papel o caso da minha viagem mental rumo ao passado(nos anos sessenta se anotava tudo no papel, quer com uma caneta ou na máquina de escrever). Portanto, o que estou a fazer mesmo é passando para a tela do computador esse assunto bobo. E se não fizesse assim, ele não pararia de martelar na minha cachola por horas e horas até que eu me decidisse registrá-lo. Coisa que faço agora para me ver livre de vez dessa inutilidade.
Então, já que é assim, digo que naqueles anos aos quais me referia nos parágrafos acima, as farmácias só vendiam medicamentos para a clientela, quem precisasse sacar algum dinheiro teria que procurar uma agência bancária (a mais próxima do Curador ficava em Codó, a mais de cem quilômetros de distância), e enfrentar uma fila enorme no caixa antes de colocar as cédulas no bolso. Lá na terrinha, portanto, as pessoas teriam que se virar com o dinheiro pouco que circulava na própria cidade, ou fazer uso das suas próprias reservas guardadas sob o colchão ou nos bolsos dos paletós nos armários (cofres somente uns poucos possuíam). 
E a carência de dinheiro circulante era tão grande, que alguém da cidade terminou por inventar a sua própria moeda, um tal “Sunguelo”, um pequeno vale-compra com um valor estampado na face que vinha assinado por esse criador da ideia. Aquele pequeno tíquete era aceito por parte do comercio sem contestação. 
A propósito disto, sai agora à procura do significado do nome Sunguelo e me deparei com o seguinte resultado: “Sunguelo, espécie de vale compras fornecidos pelos responsáveis pelas obras de construção de estradas, açudes e obras em geral da SUDENE. O Cassaco recebia o Sunguelo que constava o valor correspondente ao limite de crédito individual. Em geral era usado nas obras contra a seca”. Sunguelo também é um termo nordestino utilizado para definir uma pessoa magra, raquítica.
Na minha terra, pelo que me lembro, estavam em construção, nessa época, algumas estradas que melhoraram significativamente a ligação da cidade com Barra do Corda, e também à capital, São Luís. Do mesmo modo, uma infinidade de outras cidades, como Teresina, por exemplo, mas também outras dos sertões foram beneficiadas naquele momento. Talvez tenha sido esse pessoal os responsáveis pelo pequeno pedaço de papel em forma de moeda que passou a circular por lá. Lembro-me bem que se tratava de um pequeno pedaço de cartolina no qual constava um valor em Cruzeiro, bem como um carimbo e a assinatura de alguém.
Sobre alguém que dormiu anos atrás e acordou em um mundo totalmente diferente, mudado em todos os sentidos, a literatura e o cinema já trataram com enorme clarividência e sucesso. Não apenas isto, mas até mesmo uma viagem em sentido contrário, para frente, rumo ao futuro, como nos filmes 2001- Uma Odisseia no Espaço ou na série De Volta para o Futuro, além de tantos outros, a criatividade humana já trabalhou.  A própria Globo já tratou sobre esse tema em algumas novelas.
É assunto instigante que mostra o choque sofrido pelo protagonista frente às mudanças sofridas nos costumes, nos hábitos ou comportamentos das pessoas, bem como na própria maneira como a humanidade encara certas situações da vida.
Quanto às mudanças tecnológicas, essas nem dá para enumerar aqui, são imensas e tantas. Nesse momento, por exemplo, digito o texto na tela do meu computador, corrijo, apago, mudo o sentido de uma frase inteira, sem precisar de uma borracha ou mesmo de corretor de texto (o tal branquinho, um produto líquido inventado anos atrás com o qual se cobria uma letra ou mesmo uma palavra inteira e depois se escrevia sobre ela quando o liquido secava). Um trabalhão, mas já um avanço, pois permitia que não se perdesse a página inteira. Nos anos sessenta, nem isso existia. Errou, perdia-se tudo. 
Outro exemplo vivo da mudança a qual venho me referindo: por instantes, no computador, parei de digitar este texto, passeei pelo Google em busca do significado da palavra Sunguelo, copiei e o colei no meu texto. Tudo com muita rapidez e segurança.
E o que dizer das comunicações, dos meios de transportes, das estradas, dos veículos com navegador, GPS, ar condicionado? Falar o quê do minúsculo Pen Drive no qual tenho arquivadas mais de quinhentas músicas e que vai comigo na viagem para aliviar o estresse? Ou do aplicativo Streaming que tenho no meu telefone móvel (o tal celular que era uma coisa impensável na época), no qual tenho uma montanha de músicas à minha disposição, caso enjoe das que trago no Pen Drive?
São tantas as mudanças, até mesmo no vestir, que ficaria horas e horas digitando aqui e não chegaria ao fim da descrição de tantas mudanças. 
Para terminar, digo apenas que na farmácia, caso quisesse poderia ter comprado um telefone novo, um umidificador, um secador de cabelo, um picolé, um pote de sorvete, uma caixa de chocolate, um shampoo para lavar os poucos cabelos que ainda tenho, ou até mesmo um simples comprimido para dor de cabeça.
As coisas mudaram muito nesse meio tempo, meu caro dorminhoco. A internet, por exemplo, trouxe um mudo de novidades para as nossas vidas, facilitou-a de uma maneira avassaladora, mas, ao mesmo tempo, trouxe um mundo de problemas para dentro da minha própria casa. Hoje, um sujeito pode roubar os parcos dinheirinhos que tenho no banco sem me apontar uma arma, apenas com um comando rápido lá do outro lado do mundo, ao tempo em que escrevo essas bobagens. Pronto. Já voltei, apenas com um clique dado pelo meliante estrangeiro, a ser o liso completo dos anos sessenta.
É, crianças, como diria Billy Blanco, na sua música Canto Chorado,

O que dá pra rir dá pra chorar. Questão só de peso e medida. Problema de hora e lugar, Mas tudo são coisas da vida”.


segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

DEPOIS DO GINASIAL, VOO PARA FORA DO NINHO



José Pedro Araújo

Já discorri aqui neste espaço sobre a minha vida estudantil no inesquecível Colégio Presidente Dutra onde cursei o meu ginasial. Mas falei muito pouco sobre o que aconteceu depois disto. Faço isto agora muito mais para que não me caia no esquecimento do que propriamente como fonte de informação que, acredito, interessar a poucas pessoas, além dos da minha família ou alguns amigos. De qualquer forma, algumas pessoas podem até mesmo relembrarem que trilharam caminho parecido ao meu e voltarem um pouco ao seu próprio passado, e nesse retroceder no tempo saírem colhendo fiapos de memória do começo de suas vidas.
Naqueles tempos, ano primeiro da década de setenta, levávamos quase um dia inteiro para vir de Presidente Dutra a Teresina, apesar de já possuirmos rodovias e veículos automotor. No começo de março, diploma do ginásio embaixo do braço, embarcamos em um velho ônibus com a carroceria de madeira com destino a Teresina. Era nesta cidade que iríamos prosseguir com os estudos. O velho misto do Galinha sacolejava em baixa velocidade pelo piso irregular da estrada poeirenta atrasando a viagem e prorrogando o tempo de sofrimento. A saudade já devidamente agasalhada no peito fazia o coração sangrar. Sabia que dificilmente retornaria para casa em definitivo outra vez. Como de fato ocorreu.
O trecho da BR 135 não era asfaltado ainda, e muito menos a parte da MA-026 que tomamos no Triângulo e que nos conduziria até o Povoado 17. Ali tínhamos contato, pela primeira vez, com o asfalto da BR 316, estrada que faz a ligação Peritoró à Teresina, fugindo da poeira terrível que nos sufocava. Viagem demorada e que levava cerca de dez horas, comendo a dita poeira e padecendo de maus-tratos dos solavancos do velho Chevrolet misto. Reclamo do desconforto, mas já era um avanço significativo. Era o que diziam as pessoas que precisavam de três dias para fazerem o mesmo trajeto somente até Caxias no lombo de um animal de sela. Nessa minha primeira viagem o velho ônibus do Galinha quebrou uma roda logo que ultrapassamos a cidade de Caxias em direção a Teresina. E nós, que havíamos embarcado no ponto inicial da viagem às cinco da matina, só chegamos à margem do Parnaíba quando a noite já era velha. Menos mal que as luzes da cidade sobre as águas do Velho Monge me encantaram para sempre.
O dia seguinte me encontrou subindo a escadaria do velho Liceu Piauiense, também conhecido como Colégio Estadual Zacarias de Góis. Ia em busca de informações sobre o material escolar que iria precisar, e do fardamento, além de outras informações pertinentes. Fiquei impressionado com a majestosa imponência do prédio que abrigava o colégio. Era ali que eu deveria passar os meus próximos dois anos de aprendizagem e isso sem conhecer vivalma. Tímido como sempre fui, confesso que fiquei um pouco amedrontado com o desafio que tinha à minha frente, pois a fama da escola era a de que possuía os melhores professores e exigia muito de seus alunos. Ali também teria contato pela primeira com matérias que nunca havia estudado, como física, química e biologia, além de me debruçar com uma matemática mais avançada, diferente mesmo de tudo o que já havia visto até então.
Some-se a isto o fato de estar saindo de casa pela primeira vez, e isso era o que me causava mais apreensão. Não foi fácil encarar tudo isso. A saudade dos meus, dos lugares que costumava frequentar, a falta dos amigos e, inicialmente, o contato com disciplinas tão desconhecidas para mim, se constituiu em um fardo de considerável peso para um jovem que ainda não havia completado os seus quinze anos. Fui um aluno apenas razoável nos dois primeiros anos, confesso. E a maior culpa disto jogo nas minhas próprias costas; não me dediquei o suficiente.
Por outro lado, o colégio havia perdido muito da qualidade que o fizera granjear tanta fama. A maioria dos bons professores que lá ensinavam, e que haviam feito o educandário chegar a um bom patamar, não estava mais em atividade, e os novos mestres tinham que conviver com baixos salários e não frequentavam muito as salas de aulas, uma vez que tinham que ministrar aulas em outros estabelecimentos para conseguirem sobreviver na profissão. Depois, ainda tínhamos as reformas processadas no ensino que o fizeram piorar em muito o que já não era tão bom. Por tudo isso, atrevo-me a dizer que sem a presença efetiva e responsável de um professor, dificilmente irão os alunos se aprofundar com a necessária responsabilidade nos livros e colher deles o que necessitam. A necessidade de bons professores ainda é uma constatação. Mas, para isto, precisam receber salários compatíveis com a sua importante função que é a de fazer com os alunos se dediquem com afinco aos livros e deles extraiam o que necessitam. Sem a presença deles em sala de aula, nada feito, tudo é utopia e discurso vazio.  
O fato é que logo me aclimatei com os novos colegas e com as novas matérias. Vivíamos um período de mudanças profundas no mundo e essas novidades meio que atrapalhavam os estudos daqueles jovens imberbes e curiosos como eu. Como se ainda fosse necessário.
Naquele tempo, por conseguinte, o velho Liceu já estava na descendente, perdia qualidade e se debatia com todas as dificuldades que fariam com que se encaminhasse para se igualar por baixo com as demais escolas públicas da cidade. No que pese isto, somente o Diocesano, o Colégio das Irmãs e a Escola Técnica possuíam melhor padrão de ensino na cidade. Ainda. Não esperei para ver para onde se encaminhava. E terminei me transferindo no terceiro ano para outro Liceu, o de São Luís. As notícias que eu tinha daquela instituição de ensino eram as melhores possíveis. Ainda não havia caído na vala comum do ensino público estadual no país. E essa mudança me trouxe muitos ganhos. Provou que eu estava certo em mudar.
De fato, o Liceu Maranhense ainda oferecia um ensino de ótima qualidade na época. Tive que correr mais que os outros colegas, é bem verdade, estudar muito mais para aprender tudo que deixara para trás nos dois primeiros anos do científico para poder acompanhar o ritmo de aprendizagem que se desenvolvia no terceiro ano. Ao custo de muito esforço terminei por conseguir. E isso foi muito bom para a minha vida futura.
Somente então, aprendi, de fato, a me dedicar aos estudos com responsabilidade e sabedoria.  Passar no vestibular, por conseguinte, foi um passo que dei com certa facilidade, apesar da concorrência não ser pequena. A UFRPE, Universidade Federal Rural de Pernambuco, foi a minha escolha. E sobre isso, acho que já falei um pouco.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

CRÔNICAS SELETAS – ATROPELANDO A FAIXA

Momento da ultrapassagem



José Ribamar de Barros Nunes*

O ano do atletismo brasileiro termina com a corrida e maratona de quinze quilômetros do último dia do ano. Nessa tradicional Corrida de São Silvestre, ocorreu um fato incomum na linha de chegada.
Dois concorrentes quenianos se aproximavam da reta final. De repente, o mais idoso, ou pelo menos, o mais experiente, atropelou a faixa e, num movimento inesperado, ultrapassou o jovem de dezenove anos que venceria em segundos, aclamado por todos. Um pequeno gesto e impulso pequeno se impuseram, roubando e arrancando a vitória.
O jovem mais novo, nos instantes finais, não fez aquele tradicional gesto de conferir sua posição e verificar alguma ameaça, olhando discretamente para trás. O esquecimento fatal roubou a cena e causou o fracasso. Uma simples “olhadela” (aquele rabo de olho dos pais antigos) teria evitado o atropelamento da faixa.
Tentei ser pioneiro no Estado do Tocantins. Ali, no ano de mil novecentos e oitenta e oito uma jovem psicóloga me deu a seguinte lição. Nem sempre o caminho é reto. Muitas vezes, um olhar oblíquo, à esquerda ou à direita, resolve o problema, deslocando uma pedra ou um espinho.
Ao longo da vida, a escola do dia-a-dia, sem férias e sem recesso, me confirmou essa liçãozinha ou liçãozona que ela nos oferece todo santo dia, sem nenhuma exceção. O eterno aprendiz só não aprende se não quiser...


(*) José Ribamar de Barros Nunes é autor de 313 Crônicas Seletas.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

PARA COMEÇAR BEM O ANO NOVO



José Pedro Araújo

Todo começo de ano é mesma coisa. Se para alguns estamos apenas virando a página do calendário, para outros é tempo de fazer planos, promessas, e por aí vai. Eu me incluo em um meio termo, por achar que é bem verdade que o calendário virou a página, mas é o tempo ideal para formatarmos novas ideias, fazer plano para melhorar o rumo, até mesmo mudar tudo de jeito, caso não tenhamos ficado satisfeito com o que alcançamos no ano que passou.
Estamos vivendo hoje uma situação sui generis no país. Enquanto a economia aponta para um futuro promissor, a variável política teima em atrapalhar o curso da nau. Quando me refiro a política, ponho todos no mesmo balaio. Estamos sentindo falta de homens com visão de futuro nas duas casas do parlamento, de grandes líderes. Temos lá, por sua vez, gente pouco preocupada com a melhoria da vida dos cidadãos que os puseram lá como seus representantes. A política do toma-lá-dá-cá adotada desde que a tal Nova República foi implantada no único país da américa do sul que não fala a língua espanhola, fez obrar políticos mais interessados em realizar boas transações do que em trabalhar para levar este país a um porto seguro em que todos se privilegiem das riquezas que ele possui.
Quanto às casas mais elevadas do judiciário, responsáveis pela segurança jurídica de todos nós, parecem ter perdido a confiança dos brasileiros, o que nos leva a pensar que a atual forma de escolha de seus membros na corte está completamente fora de propósito, o que mostra que o modelo adotado está completamente superado.  
Mas o que sei eu dessas coisas? Nada, aproveito para responder antes que alguém me convença de alguma coisa. E já que a resposta já foi dada, não precisam responder mais nada. O que eu sei mesmo é que do jeito que a coisa está indo, não vamos terminar bem esse período “mais ou menos” democrático que atravessamos tão penosamente. Isso, porque as duas pontas do espectro político se engalfinham como se as eleições tivessem ido para um terceiro turno, e se esmeram em sandices de todos os tamanhos e tipos. De um lado, a extrema direita se atormenta e pede que as forças armadas deixem o conforto dos quarteis e ponham ordem na casa. Do outro, os extremistas de esquerda dizem que o bom mesmo seria botar fogo no país, conclamando as massas para tomar as rédeas de tudo. São uns cabeças quentes, de um lado e de outro, desacostumados com o jogo democrático. E o pior é que ficamos nós no meio dessa confusão que só atrapalha o andamento das coisas.
O que eu quero mesmo é que o país volte a criar emprego para essa massa de jovens em idade para ocupar o seu espaço no mercado e mostrarem que eles também têm muito a contribuir na construção de uma nação melhor em que as oportunidades sejam iguais para todos. Não vejo futuro nesse jogo de extremistas. Aliás, o país de hoje discute um assunto que já foi sepultado em cova funda há muito tempo. Nos países mais adiantados a discursão gira mais em torno de quem está mais capacitado para implantar reformas que levem ao conforto geral da população. Nada de nivelar tudo por baixo, ou advogar em prol da concentração da riqueza do país em mãos de uns poucos. Afinal, queremos usufruir do bolo naquilo que ele tem de mais doce e nutritivo, e não comer as cascas, os restos, distribuídos igualitariamente para a massa enquanto a intelligentsia fica com o bom de tudo.
Falei disso tudo apenas para dizer que almejo a todos que tenham um ano novo cheio de boas aspirações e de grandes conquistas. E que a vida volte a sorrir para tantos que se encontram hoje à margem das grandes conquistas, ou até mesmos das pequenas. E para alcançar a isso entendo que precisamos investir pesado na educação, especialmente nas fases iniciais, sem esquecer as de nível mais elevado, claro. Mas com ênfase na base. Nunca chegaremos ao topo do mundo desenvolvido se continuarmos com a qualidade da educação que temos hoje. Existem provas cabais que corroboram com o que digo. A Coreia do Sul, por exemplo, saiu de situação pós-guerra que a dividiu em duas partes e, através de um investimento pesado em educação, galgou patamares de primeiro mundo em pouco mais de uma década. Enquanto isso, a sua outra metade se debate em sua situação de completa miséria, sem liberdade e sem comida na mesa de todos. É que ela preferiu investir todos os recursos de que dispõe em armamento ou na manutenção de um exército ciclópico que trabalha unicamente para manter o sistema do jeito que ele está.
Temos até mesmo um exemplo aqui muito próximo de nós, em Teresina. A capital do Piauí possui hoje uma rede municipal de ensino de causar invejar à maioria dos estados ricos, estando classificada entre as três melhores cidades do país nesse mister. Fica, ainda, em primeiro lugar no Nordeste. Isso prova que não é preciso apenas dinheiro para melhorar o nível educacional. Precisa-se, sim, de um melhor planejamento e menos discussões políticas no meio.
Na outra ponta estão as universidades públicas. Não há nenhuma no patamar das maiores e melhores do mundo. O que temos feito de errado nas nossas universidades públicas? Posso até sugerir uma explicação para isso. Quando estudante na UFRPE, em Recife, me deparei com uma situação esdrúxula que pode muito bem ser uma dessas causas. Um grupo de alunos pensou em fazer uma matéria optativa que lhes parecia interessante, e levou a sua intenção ao Pró-reitor da área. Os alunos foram desaconselhados a prosseguirem com o intento, uma vez que o professor da matéria há mais de uma vintena de anos nunca havia dado uma só aula. E como insistissem na questão, receberam a visita do tal professor, já entrando na casa dos cinquenta anos, que afirmou, em alto e bom som, que eles estavam era querendo criar problemas para ele. E que, por fim, tirassem o cabelo da venta que ele não poria os pés na sala de aula, caso a pró-reitoria insistisse com aquela brincadeira. E o curso não aconteceu mesmo. Ficamos sabendo que nessa situação existiam muitos professores. Davam aulas em faculdades particulares assiduamente, mas nunca permitiam que se abrissem uma turma para eles na UFRPE.
Portanto, vamos gastar a nossa energia positiva em bons projetos, que possam render bons resultados para nós e par o país de um modo geral. O país precisa de paz e tranquilidade para tentar acertar o rumo. Deixemos a política partidária, as discursões retrógradas, os achaques e os devaneios para quando 2022 chegar. Aí voltaremos às ruas para debatermos as questões afetas a esse componente que está ocupando o espaço que deveria ser utilizado de outras formas. Usemos as redes sociais para o bem, para facilitar os contatos, as trocas das boas ideias, não para a dissenção, as brigas, as divergências insanáveis.
Um bom Ano Novo para todos!