segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

No Caminho de Volta pra Casa Niguém se Perde

Foto extraída do Blog do André Jardim



José Pedro Araújo
Vivi menos de quinze anos na minha terra, na minha querência, dos mais sessenta que tenho hoje. No mais, minha convivência com o velho Curador tem sido menor do que eu desejava. A necessidade de batalhar pelo pão de cada dia me levou para longe da singeleza que tanto aprecio, lugar em que vi a claridade do sol brilhar pela primeira vez.

Todavia, mesmo para passar fugazes momentos, começo a sentir aquele friozinho gostoso na barriga desde o dia anterior ao da partida. Aliás, preciso fazer um parêntese aqui para justificar porque uso tão frequentemente o nome Curador no mais das vezes em que me refiro à terrinha. Querem mesmo saber? Porque tem maior sonoridade, é mais palatável, deixa sabor na língua, gosto e som do passado. Acho-o mais poético até. Sinceramente, experimentem falar Presidente Dutra ao se referirem à terra querida. Depois, empreguem o termo Curador. Sou de Presidente Dutra. Sou do Curador. Gosto mais da segunda frase. Entretanto, não discuto com quem ache o contrário. Trata-se, apenas e tão somente, de um jeito de ver as coisas, de sentir gosto ao pronunciar o topônimo das duas maneiras. Já quanto ao gentílico, tenho dúvidas se presidutrense não é mais gostoso de pronunciar do que curadoense. Mas, voltemos à estrada que trafegávamos antes de investir por este atalho.

Falei que já sinto um friozinho leve na barriga ao se aproximar o dia da minha viagem à minha querência. Esse sentimento aumenta à medida que ultrapasso os chapadões de Caxias e começo a ver os coqueirais de Codó, ali bem antes do Dezessete. Notem que estou trafegando pela estrada habitual e de melhor condição, a BR-316. Em Peritoró então, já me sinto em casa. Pouco mais de uma hora depois já avisto a torre da matriz de São Sebastião, ai então o friozinho se transforma em pura adrenalina. A alegria de voltar para casa me faz entrar em profundo êxtase, em um estado de felicidade total.

Certo pensador inglês, George Moore, cunhou a seguinte frase: Um homem percorre o mundo inteiro em busca daquilo que precisa e volta a casa para encontrá-lo. É como me sinto ao voltar para casa. Tal alegria só encontro lá. Caminhar pelas ruas da cidade é como reviver um passado que sempre teima em voltar à memória. Sinto-me andando pela minha casa de morada. Não preciso da claridade para andar firme e seguro pelas ruas por onde sempre andei, corri, tropecei e aprendi a me erguer a cada tombo.

Estar com os meus, abraçar a minha mãe e os meus irmãos e amigos, é um aditivo a mais nesse alegre exercício de voltar no tempo. Claro, a falta que meu pai me faz, não pode ser substituída por nenhum outro sentimento. Do mesmo modo, sinto a falta daqueles parentes e amigos que já nos deixaram. Consolo-me ao adentrar em  alguma das casas onde moraram. Requer forças redobradas para impedir que as lágrimas me toldem os olhos. Somos recompensados com a imagem dessas pessoas nas fotografias pregadas nas paredes ou postadas sobre os móveis na sala. Sei que eles ainda estão ali, em espírito, mas, estão e sempre estarão de qualquer modo.

Tenho procurado, nos últimos anos, conviver diariamente com as coisas do meu querido torrão, através das pesquisas. Tudo o que aconteceu no passado me interessa. Quero reviver os acontecimentos que nortearam a nossa caminhada para recontar a todos que se interessam pela história de um povo que precisou superar todos os tipos de dificuldades para tornar aquela região deserta e insalubre em um lugar bom para se viver. Deste modo, todos os dias estou em contato com o meu passado. O presente também me interessa sobremaneira. E as novas tecnologias tem facilitado isso. A internet e o telefone são instrumentos que me ligam diariamente ao meu velho e querido Curador. As tristezas e as alegrias são vividas quase em tempo real. Portanto, estou sempre retornando ao meu pedaço de chão.

Como agora quando tento passar para o papel o presente texto.  


quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Náufrago Arrependido

Rua em que residíamos

Vegetação aquática demonstra assoreamento do açude


José Pedro Araújo
            Passava minhas férias de julho em um povoado simpático e acolhedor chamado Crioli do Joviniano, situado a pouco mais de doze quilômetros de Presidente Dutra. Região de solos ubérrimos, por lá se produziam muito arroz e se exploravam os extensos babaçuais que cobria parte daquele território. Meu Pai tinha por lá uma filial do seu comércio e também adquiria esses produtos que já citei. Apesar de se situar tão próximo à sede, o acesso a ele durante o período invernoso era muito difícil, diria quase impossível para veículo automotor. A terra que era boa para a agricultura, mostrava-se indigesta para os meios de transporte, em razão do massapê se transformar em um lamaçal intransponível quando as chuvas caiam fartas sobre a região. O transporte, assim, era feito no lombo de animal, ou pelos carros-de-boi, situação válida tanto para os passageiros como para o transporte de cargas.

            Lembro-me, a propósito disto, que certa noite, debaixo de uma chuva torrencial, meu pai foi acordado por alguns tropeiros que lhe traziam mercadoria para abastecer a loja. Curioso com o barulho levantei para observar o que ocorria e me deparei com alguns homens vestidos com capas de chuva, chapéu enterrado até as orelhas, que freneticamente descarregavam vários animais. Apesar de protegidos da chuva, alguns fardos achavam-se enlameados e pingavam água e lama enquanto eram levados para dentro do salão comercial, ao lado da casa. Depois fiquei sabendo que alguns burros haviam caído em decorrência do lamaçal impossível, e a mercadoria que transportavam ficou muito molhada. Como a maior parte da mercadoria era composta de peças de tecidos, imaginem o aborrecimento do meu pai com a notícia.

            Deste modo, a presença de visitantes na nossa casa, fato muito comum no período sem chuvas, escasseava durante as chuvaradas da primeira metade do ano. E como nesse período quase ninguém aparecia por lá para nos visitar, as férias de fim de ano, assim, era meio triste. Falo da folga desse período porque durante o ano letivo eu ficava na cidade para estudar. Agora, as férias de julho eram muito animadas. Invariavelmente recebíamos a visita de alguns parentes e amigos.

            Mas o objetivo dessa conversa, até mesmo para honrar o título que a encabeça, leva-me a dizer que o povoado possuía um açude de bom tamanho, que era o ponto de maior atração de todos que por lá apareciam, especialmente para a garotada que não se negava a alguns mergulhos no caudaloso ajuntamento de águas. Para os meus olhos de criança, aquele açude estava mais para um grande mar; talvez até fosse um oitavo mar, desconhecido daqueles que consideravam existir apenes sete em todo o planeta. Em dias de ventos mais fortes, as águas da barragem chegavam a agitarem-se, formando pequenas ondas, maretas ininterruptas e impetuosas. Para mim, que não conhecia até então o oceano que banha as costas do nosso país, aquele era um mar de fato e de direito, sim. O problema era que eu não sabia nadar ainda. Nem “bater água”, como se diz por lá, eu sabia. E minha mãe vivia no meu pé. Temia que eu viesse a me afogar naquelas águas profundas. Quando me permitia tomar banho lá, era sempre acompanhado por um adulto e debaixo de severas ordens. Ficava eu nessas ocasiões, em uma parte rasa que normalmente era ocupada pelas pessoas que como eu não sabiam nadar, ou por aqueles que vinham dar banho nas suas montarias, fato que acontecia sempre nos finais de tarde. Ai então misturavam-se quadrupedes e humanos democraticamente, todos aliviando o corpo das impurezas que pousa-nos na pele pelo decorrer do dia.

            Agravava-se o meu problema, o fato de meu pai possuir um sítio recoberto de fruteiras ao lado da parede do açude. Até mesmo um filete de água escorria por baixo do paredão e formava um riachinho que serpenteava por dentro do nosso sítio, irrigando boa parte dele. E quando vinha apanhar frutas, sempre dava um jeito de espiar aquele marzão que me encantava e me atraia como se algumas sereias me tentassem com o seu canto, como fizeram com o herói de Homero, Ulisses.

            Em uma dessas férias de julho, veio nos visitar um irmão de minha mãe que morava em Fortaleza. E trouxe consigo um de seus filhos, poucos anos mais velho que eu. Ficamos felizes com os visitantes, uma vez que o meu tio demorava a vir visitar a família. E para mim foi uma felicidade maior ainda. Ganhei uma baladeira nova trazida pelo meu primo. E eu, para recompensá-lo, convidei-o a conhecer o grande açude. Fiz isso na surdina, sem que minha mãe percebesse. Levei junto conosco um amigo mais ou menos da mesma idade do meu primo, e fomos sorrateiramente conhecer o nosso mar particular e desconhecido da maioria dos navegantes. Passava um pouco da uma da tarde quando subimos uma colina e de lá se descortinou à nossa frente o belo açude do Crioli. Meu coração batia forte, como sempre acontecia quando eu atingia o pico da colina e mergulhava a minha visão naquelas águas dadivosas.

            Descemos a ladeira em desabalada correria e, ao chegarmos no meio da parede do açude, meu primo e o meu amigo baixaram as calças curtas, e pularam nu em pelo para as águas e saíram nadando para bem distante. Fiquei estático, parado e remoendo uma infelicidade sem tamanho. O fato de não saber nadar não me permitia acompanhar meus dois amigos naquele maravilhoso banho em águas tão cintilantes e refrescantes. Olhei para os lados, desespero estampado no olhar, e vi quando uma lavadeira levantou-se de onde estava na beira da água e levou algumas peças de roupa para estender em umas moitas próximas. Vi ali a minha alternativa. E não contei até três: desci pela parede do açude e me apropriei da enorme tábua de tamboril que a mulher utilizava até instantes antes, e me joguei na água, qual fazem hoje os praticantes de Body Surf. Sai batendo os pés na água e logo ganhei o meio do açude. Lá atrás ficou a mulher lançando impropérios contra mim, por ter levado a sua tábua da bater roupas. Minha alegria não dava lugar para exames de consciência. Não queria nem saber se com aquele gesto aloucado eu estava atrapalhando o serviço da pobre mulher. Para mim era bastante o vento forte e as pequenas maretas que vinham de encontro ao meu rosto e peito.

            Já estava a meio caminho de onde se encontrava meus amigos, agarrados agora a alguns galhos de uma árvore seca que existia no meio da água. Ao longe ainda via a mulher gesticulando e, provavelmente me lançando algumas palavras do seu repertório que não poderiam ser repetidas em um texto como este. Nada me importava. A aventura me bastava. Mas dizem os mais esclarecidos que a vingança anda a cavalo. E cavalo gordo, eu diria. A tábua que me conduzia contra a corrente, mantinha-se um pouco elevada da água devido ao meu peso na outra ponta, e logo uma onda mais forte a levantou mais alto ainda, deixando-a quase na vertical. Lisa, porque ensaboada estava, não consegui me segurar nela e logo desci para o fundo. O desespero foi grande. Achei que a minha hora tinha chegado.

            Desesperado, comecei a bater fortemente com os pés e com as mãos e logo comecei a subir para a superfície da água. Logo ao chegar lancei os dois braços para fora da água em  busca de algo para me agarrar e, o milagre aconteceu: o vento ajudou as ondas a trazerem de volta a tábua que tinha sido impelida para a frente quando eu a larguei abruptamente. E ela se achava agora exatamente sobre mim. Agarrei-a fortemente e consegui subir nela novamente. Meus amigos não havia nem dado conta do perigo que me acercara. Bati os pés com força, agora para trás, para o ponto de partida, e em pouco tempo, ajudado pela corrente cheguei à margem. A mulher estava a me esperar, e pelo jeito, acompanhara todo o meu desespero de náufrago, pois estava radiante, e ainda aproveitou para me sacanear. Não respondi nada, e voltei correndo para casa. Nunca mais foi preciso que minha mãe me admoestasse sobre os perigos de tomar banho naquele açude que todo ano tragava algumas pessoas para o fundo das suas águas. Eu não lhe confessei o que havia me ocorrido. Mas, nunca mais voltei a molhar os pés lá.

             

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O Carro Fantasma de Sete Cidades

Vista aérea do Parque Nacional de Sete Cidades-Piracuruca/PI


Reinaldo Coutinho
Ficcionista, contista, cronista.
O “Carro-Fantasma” é um tipo de fenômeno inexplicável, luminoso, que ocorre nas solidões rurais do Nordeste e possui similares na Amazônia. Os depoimentos em estados diferentes, em épocas diferentes e em circunstâncias diferentes, quase sempre coincidem. Há um padrão comum a todos.

Apresenta-se como um distante facho de luz (ou dois), às vezes acompanhado por um suave rumor, como se fosse de um motor. 

Nas imensas dunas do Parque dos Lençóis Maranhenses é conhecido como Jipe-Fantasma ou Caburé, com as mesmas características do “Carro-Fantasma”.

Na Amazônia, região de hidrografia muito rica, é conhecido pelos ribeirinhos como “Barco-fantasma” ou “Vapor-Fantasma”, e às vezes também é chamado de Caburé. 

Eis aqui um caso sobre o famoso carro-fantasma das solidões rurais, desta vez no Parque Nacional de Sete Cidades, norte do estado do Piauí, publicado no nosso livro Arrepios e Assombrações em Sete Cidades (2001):

"Numa cálida e silenciosa noite de 1996, dois vigilantes do Parque faziam a guarda no abrigo (Pousada) da Unidade de Conservação.

"Estava faltando energia elétrica e tênues clarões de velas eram a única iluminação do local, sem nenhum hóspede naquela época, de baixa estação turística. De qualquer maneira, para os dois funcionários, parecia ser apenas mais uma sonolenta e monótona noite. Puro engano! A noite estava apenas começando...

"Repentinamente, ouviu-se um leve barulho, como que o ronco suave de um motor de carro novo. Uma leve claridade parecia crescer de intensidade aos poucos, à medida que o barulho se tornava mais audível.

"Gérson, um dos vigilantes (conhecido como Gordo), comentou desconsolado para o colega, conhecido como Júnior:

“Vamos nos preparar Júnior, que lá vem um visitante para se hospedar.

E o pior, Gerson, é ajeitar os apartamentos faltando luz. Mas, fazer o que? Vai ser na vela mesmo. Vamos aguardar.”

"Assim os dois ficaram pacientemente, observando sempre o crescente aumento da luminosidade na estrada sul do Parque.

"Mas, de repente, tudo sumiu... nem mais o suave e uniforme ronco do motor nem o resplendor dos faróis entre as árvores. O que teria acontecido? Alguma pane no veículo? O motorista desligara o carro para bater uma pestana, já a uns 200 metros da Pousada? Esquisito, não?

"Passaram-se as horas e, impressionados e cansados pela expectativa, os dois vigilantes recolheram-se no pátio interno do abrigo, onde havia alguma claridade de velas. E ali passaram o resto da noite.

"Ao amanhecer, Gerson e seu colega Júnior se reuniram com os dois vigilantes das duas únicas entradas do Parque. Indagara-nos sobre o automóvel e comentaram o procedimento esquisito do motorista. Qual não foi a surpresa dos dois ao ouvirem dos colegas que nenhum veículo havia adentrado ao Parque pelas guaritas durante toda a noite!

“Júnior, rapaz, bem que o papai diz que aqui em Sete Cidades acontece muita coisa encabrojada! Desabafou o aturdido Gerson para o espantado Júnior.

Segundo o credivertentes/portalsaotiago o fenômeno do “Carro Fantasma” ocorre em todo o Brasil e outros países, recebendo nomes regionais. 

No Maranhão é conhecido como “Caburé”; na Paraíba seria “Carro de Visagem”. Os fantasmas ou a imaginação humana, também  ao que parece, se modernizam. Após o surgimento dos primeiros veículos motorizados, inúmeras pessoas passaram a relatar avistamentos ou ainda de serem vítimas de quase atropelamentos ou abalroamentos por carros, caminhões e jipes “do outro mundo”.

Tais ocorrências se davam, via de regra, em estradas vicinais rurais ou ermas, de pouco tráfego ou mesmo em rodovias, porém, em horários de reduzido movimento. Veículos, na acepção das pessoas que os encontraram, geralmente silenciosos, que surgiam praticamente do nada e que desapareciam também de forma súbita.

Um renomado ufólogo mineiro Prof. Antonio Faleiro (N. 1941), autor de vários livros sobre o assunto desde os anos 1970, esclarece que, tais quais outros inúmeros mitos de nosso folclore e da crendice popular, o “Carro Fantasma” é uma manifestação explícita de UFOS ou “Discos Voadores”, aparelhos de alta tecnologia e de origem certamente extraterrestre.

O que posso garantir é que os dois vigilantes, que conheci pessoalmente, nunca haviam ouvido falar nada a respeito do tal carro-fantasma. Fenômeno ufológico? Ilusão de ótica? Histeria coletiva? Alucinações?  Ilusão de ótica não é acompanhado por barulhos. Histeria coletiva e alucinações não causam fenômenos idênticos no tempo e no espaço. Para muitos são sondas interplanetárias que nos vigiam e devassam nosso território constantemente sabe-se lá por que.

Referências
Faleiro, Antônio. UFOS no Brasil – misteriosos e milenares. Ed. CBPVD.
http://www.credivertentes.com.br/uploads/files/Boletim_Maio.pdf. Acessado em 15/03/2014

(Publicado anteriormente no site www.Piracuruca.com).

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Bitorocara e a barra do Maratoã

Antigas igrejas N.S.da Conceição(Barras) e Santo Antônio(C.Maior)
by Portal Entretexto e Blog do Poeta Elmar Carvalho


Chico Acoram Araújo
Funcionário Público, cronista, contista, historiador e poeta.

Ao amigo e grande mestre Dr. Elmar Carvalho
                Como barrense da gema, sempre tive curiosidade em saber um pouco mais da história do meu torrão. Qual a origem, por exemplo, do nome dado ao rio em que minha mãe lavou meus “coeiros”; onde fisguei o primeiro peixe; paraíso em que me empanturrava de alegria nas suas águas mansas e frescas, e lugar do meu primeiro pulo mortal. Mas também, lugar onde observava o canto dos pássaros sobre as frondosas copas das matas ciliares; o voo apressado do Martim Pescador, de plumagem verde-azul reluzente, plainando sobre as águas e sempre aguardando o momento oportuno para, em queda livre, mergulhar e fisgar seu almoço. Local, por fim, do nado lento e mortal do jacaré, sempre à espreita, nas sombras soturnas das árvores descaídas das ribanceiras do rio.

Pois bem, segundo nosso prestigiado escritor e historiador Wilson Gonçalves, em seu Dicionário Enciclopédico Piauiense Ilustrado, o rio Maratoã, como era antigamente grafado, significa o riacho da Pedra Grande, em língua indígena. Isso tem sentido, uma vez que em alguns trechos do rio enormes rochas afloram e permitem, no período de verão, a travessia de pessoas e animais.

Ao descrever o rio da minha infância, lembrei-me do excelso poeta Da Costa e Silva em seus versos “SOB OUTROS CÉUS”, que magistralmente canta o rio Parnaíba em Amarante:                      
                          IV
“Eu sou tal qual o Parnaíba: existe
Dentro em meu ser uma tristeza inata,
Igual, talvez, à que no rio assiste
Ao refletir as árvores, na mata...

O seu destino em retratar consiste,
Porém o rio tudo o que retrata,
De alegre que era, vai tornando triste,
No fluido espelho móvel de ouro e prata...

Parece até que o rio tem saudade
Como eu, que também sou desta maneira,
Saudoso e triste em plena mocidade.

Dar-se em mim o fenômeno sombrio
Da refração das árvores da beira
Na superfície trêmula do rio ...”         
                                                                               
Foi este desejo de conhecer mais sobre a história do meu torrão, o que me levou a escrever uma crônica com o título “Barras do Marataoan: o Retorno”, publicada, recentemente, em Folhas Avulsas(josepedroaraujo.blogspot.com.br), e no blog de Elmar Carvalho (poetaelmar.blogsport.com.br). Nesse escrito, conto um pouco da história de Barras, a origem do epíteto de terra dos governadores e dos poetas, e elenco alguns dos ilustres barrenses nascidos às margens do Marataoan. Para escrever esse artigo, recorri ao grande poeta e escritor Elmar Carvalho em sua crônica ensaística “Barras – terra dos governadores e de poetas e intelectuais”.

No texto que ora escrevo, volto a falar um pouco mais sobre as origens de Barras, dando um enfoque histórico sobre os precedentes da fundação e povoamento de Barras em meados do século XVIII, e, sobre o seu entrelaçamento com Bitorocara, antiga fazenda de propriedade de Bernardo de Carvalho e Aguiar, pai de Miguel de Carvalho e Aguiar, ambos considerados fundadores da cidade de Campo Maior e Barras do Marataoan, respectivamente. Trato aqui, portanto, da relação que existe entre estas duas importantes cidades fundadas, a primeira, pelo valoroso Mestre de Campo, e a segunda, pelo seu filho.  

Como relatei em minha crônica anterior, Barras surgiu a partir de uma fazenda de gado conhecida como Buritizinho, que se tornou povoado tempos depois. O proprietário dessa fazenda chamava-se Miguel de Carvalho Aguiar, filho do lendário Mestre de Campo Bernardo de Carvalho e Aguiar fundador da fazenda Bitorocara que ficava encravada nas confluências dos rios Longá (Bitorocara) e Surubim hoje município de Campo Maior.

De acordo com o Pe. Cláudio Melo, Miguel de Carvalho de Aguiar, natural do Rio São Francisco, Bahia, veio para o Piauí por volta de 1714, atraído pela vocação do pai, sendo-lhe companheiro inseparável nos momentos mais duros, partilhando de suas canseiras, angústias e glórias.

É provável que nesse período Bernardo de Carvalho e Aguiar tenha aconselhado ao filho a instalar sua primeira fazenda nas ribeiras do rio Marataoan, uma região de águas abundantes, ricas pastagens, e distante aproximadamente 16 léguas (imperial) da fazenda Bitorocara. É razoável presumir-se que o pai tenha vendido ou doado a Miguel de Carvalho Aguiar uma razoável quantidade gado, bem como autorizado que alguns de seus escravos e moradores fossem ajudar a instalar uma fazenda na barra do Maratoã, na localidade Buritizinho, hoje cidade de Barras, onde muito prosperou.

Miguel de Carvalho e Aguiar tornou-se um abastado fazendeiro da região. Conforme se verifica em seu testamento, transcrito no livro “Barras, Histórias e Saudades” de autoria do ilustre barrense Antenor Rêgo Filho, Miguel de Carvalho declara, dentre outras coisas, ser possuidor de uma grande fortuna:
“Declaro que todo monte de minhas fazendas possuirei quarenta mil cruzados, pouco mais ou menos, a saber, quatro fazendas, uma chamada da BARRAS, NA RIBEIRA DO RO MARATAUAN, NO LONGÁ, e outra chamada Campo (inelegível), e outra chamada São Francisco e outra chamada Arraial, todas na ribeira do Parnaíba, com terras próprias, com todos os gados vacuns e cavalares do meu ferro (inelegível), que dentro delas se acharem (inelegível) mais fábricas a elas pertencentes.
Item: mais ouro e prata e roupas, selas, bancos, mesas e mais trastes que (inelegível) partes para dentro se acharem.
Item: mais 19 escravos, a saber: ...”.
Miguel de Carvalho tinha a patente de Coronel e foi construtor da primeira capela de Barras do Marataoan, onde foi sepultado. Conforme Wilson Carvalho Gonçalves, no seu dicionário já citado, o início da construção dessa capela ocorreu em meados do século XVIII sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição. Gonçalves diz ainda que esse templo foi a célula geradora do povoamento da localidade, em redor do qual se formaram os primeiros sítios, currais e fazendas. A igreja foi, portanto, a primeira forma de ocupação da povoação de Barras do Marataoan.

Em abril de 1730, morre seu pai Bernardo de Carvalho e Aguiar, no Maranhão, muito pobre e como muitas dívidas. O Pe. Cláudio Melo afirma que, por razões desconhecidas, Miguel de Carvalho abandonou o pai, no final de sua vida, deixando-o em extrema pobreza. O Coronel Miguel sente a morte do pai, ao tempo em que lamenta que uma riqueza imensa se diluiu e se transformou em dívida. Sobre esse fato, apenas declarou:
“Nada herdei, por isso não sou obrigado a pagar seus débitos”.
Em seu livro, Antenor Rêgo Filho observa que conta a lenda que um vaqueiro, andando a procura de uma rês desgarrada, encontrou uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição, talhada em madeira, dentro de uma moita de tucum, localizada onde hoje está erguida a igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Barras. Salienta ainda que o Coronel Miguel de Carvalho e Aguiar, como fervoroso católico, deu início à construção de uma capela em homenagem à mencionada Santa. Antes da conclusão da referida construção o Cel. Miguel de Carvalho veio a falecer, deixando parte da sua fortuna para um sobrinho de nome Manoel da Cunha Carvalho, filho de sua irmã Antônia de Carvalho Aguiar que morava na Bahia. O inventário de Miguel de Carvalho e Aguiar, datado de 9 de dezembro de 1749, revela que este não teve filhos:
“Declaro que sou casado na cidade da Bahia com dona (inelegível), da qual não tenho filhos nem outros alguns herdeiros forçados, e depois de casado, pouco meses, vieram os parentes da dita minha mulher e a tiraram violentamente de minha casa, com tudo quanto tinha trazido de seu para meu poder e até o presente, não tenho feito vida material com ela.
Os motivos da separação do Coronel Miguel de Carvalho e Aguiar com sua esposa são desconhecidos.

Alguns anos após a morte de Miguel de Carvalho, seu herdeiro Manoel da Cunha Carvalho deu continuidade à construção da capela.

Diz também Antenor Rêgo Filho que, em 1804, ao redor da capela de Nossa Senhora da Conceição já existiam algumas casas de telhas e várias de palha. A dois de abril desse mesmo ano morre Manoel da Cunha Carvalho, então dono de imensa quantidade de terras, herdadas, do tio, deixando, em testamento, para Nossa Senhora da Conceição, uma vasta gleba de terra, compreendendo uma légua em quadra, exatamente onde se localizava a capela recém-construída, e a fazenda Buritizinho, incluindo mais, todo o gado bovino e demais animais e benfeitorias. Daí a razão porque todas as terras onde se localiza a sede do município de Barras pertenciam ao patrimônio da paróquia de Nossa Senhora da Conceição.

Com o falecimento de Manoel da Cunha de Carvalho, é nomeado Francisco Borges Leal Castelo Branco para a administração do patrimônio da paróquia de Nossa Senhora da Conceição.

Em 1806, conclui-se a reforma e pintura da capela, iniciando-se, assim, o povoamento da localidade. A fazenda Buritizinho dava lugar à “POVOAÇÃO DAS BARRAS”. Três anos depois, existia já um arruamento de várias casas, onde já havia um desenvolvimento da povoação; registra Antenor Filho.

Segundo ainda Antenor Filho, em 22 de agosto de 1819, Francisco Borges Leal foi substituído por José Carvalho de Almeida, filho de Barras. E foi por iniciativa desse novo administrador, que o Presidente da Província do Piauí, em data de 27 de setembro de 1826, solicitou ao Governo Imperial a criação de uma Freguesia no povoado de Barras, e sua elevação à categoria de Vila. Pela Lei Provincial de nº 656, de 2 de setembro de 1836 e a Instrução da Presidência da Província, de 9 de setembro do mesmo ano, foi a povoação erigida a Distrito de Paz.

Barras só veio ser elevada à categoria de Vila em 24 de setembro de 1841, através da Lei nº 127 e, de fato instalada, a 19 de abril de 1842.  

Finalmente, pelo Decreto nº 01, de 28 de dezembro de 1889, do então Governador do Estado, Gregório Taumaturgo de Azevedo, ilustre filho de Barras, foi elevada da categoria de Vila para a de Cidade, com o nome de Barras do Maratahoan.

Assim, a história nos mostra que Bitorocara tinha uma estreita ligação com a barra do Maratoã, ou seja, com a minha Barras do Marataoan.

            Sobre a história da minha terra natal, faço aqui uma interrupção estratégica para não cansar e não provocar tédio aos leitores que, por acaso, se dispuserem, generosamente, ler esta crônica. Em outra oportunidade, quiçá continue eu a recontar fatos históricos de Barras do Marataoan.