José
Pedro Araújo(*)
A
ligação da ilha de São Luís com os sertões sempre foi uma
aspiração de todos os maranhense, e isso se daria através da
construção de uma Ferrovia ligando o Itapecuru ao Tocantins, foi o
que primeiro se pensou. Ou, mais precisamente, a ligação da
ferrovia São Luís -Teresina à região tocantina através de um
ramal ferroviário, fazendo-se a ligação definitiva entre essas
duas partes do estado. Um projeto dessa natureza colocaria a
esquecida região sudoeste do estado no mapa de uma vez por todas, e,
de quebra, abria aos colonizadores a possibilidade de explorarem as
terras de altíssimo potencial produtivo situadas no centro
geográfico do território, a desconhecida região do Japão
maranhense.
Vez
por outra, os membros da assembleia provincial debatiam o assunto,
como aconteceu nos anos que antecederam a 1910, quando o assunto da
construção de uma ferrovia ligando Monção ao Tocantins esteve na
ordem do dia e terminou o debate gerando ….
Contudo,
foi em 1910 que esse assunto ganhou maior importância através do
envolvimento do Ministro de Viação e Obras Públicas com o
problema, colocando o engenheiro J. Palhano de Jesus no centro da
causa. Palhano de Jesus era o engenheiro ferroviário responsável
pela fiscalização da Estrada de Ferro São Luís – Caxias, e que
ainda no começo daquele ano, receberia um telegrama controverso do
seu chefe imediato, sediado no Rio de Janeiro, com determinações
especificas para que ele procedesse o “reconhecimento da linha
férrea de Monção a Grajaú, passando por Barra do
Corda”. E ainda, que Palhano escolhesse o melhor local para o
início da construção da citada estrada de ferro: ou partindo de
Codó ou de Coroatá, que ficava ao critério dele a escolha do
melhor local de intercessão das duas linhas férreas.
O
chefe de Fiscalização das Estradas de Ferro se dirigia ao
engenheiro Palhano em comunicado oficial do dia 27.01.1910,
informando-lhe sobre a pressa do Ministro de Viação e Obras
Públicas em obter informações e impressões sobre o melhor traçado
para a citada ferrovia para que ele resolvesse sobre a “conveniência
ou não de mandar proceder posterior estudo das linhas citadas”.
Sim, das linhas citadas, pois eram duas as linhas: Monção a Grajaú
e Codó ou Coroatá a Grajaú.
Somente
no dia 19.02.1910, portanto, no mês seguinte, o citado engenheiro
Palhano respondeu através de telegrama ao seu chefe imediato, Dr.
Ernesto Antônio Lassance Cunha, Diretor da Repartição Federal de
Fiscalização das Estradas de Ferro, desculpando-se por só naquele
momento está respondo ao seu telegrama do mês anterior, por se
achar todo aquele tempo em Caxias à serviço. Depois, diante da
grande urgência do ministro, que queria que a sua viagem de
reconhecimento se realizasse nos meses de fevereiro, março e abril,
alegou que aqueles eram meses de maior precipitação pluviométrica
na região, portanto, quase impossível para se realizar um trabalho
de tal magnitude em um momento tão chuvoso quando rios, córregos e
riachos transbordavam e obstavam a passagem de quem quer que
procurasse transitar pela região que pretendiam estudar. Alegou
ainda risco de vida em razão de trechos da região em causa ser
habitada exclusivamente por selvagens. E não ficou somente nisto.
Cobrou o pagamento de seus vencimentos atrasados há quatro meses,
assim como o dos escriturários e serventes, sem receber pagamento há
exatos sete meses. Informou ainda, que vinha realizando o pagamento
de despesas oficiais através de recursos retirados do seu próprio
bolso. Ainda alegou que precisava levar consigo um auxiliar diarista
e pajens para realizar o serviço de cozinha durante a viagem, além
de mais recursos para a aquisição de animais de montaria e de carga
para fazer frente à viagem que empreenderiam. E, para finalizar,
solicitou o fornecimento de bússolas portáteis, podômetros e
aneroides, instrumentos usados para o levantamento de dados
necessários a elaboração de relatórios sobre a situação física
e geográfica da região.
A
resposta do ministro de Viação, depois de algum tempo, foi dura e
não comportava recusa. Determinava ele ao engenheiro Palhano, em
17/05/1910, e em resposta as suas alegações e cobranças, que ele,
Palhano, começasse imediatamente os trabalhos de reconhecimento
para o traçado da estrada de ferro e, aumentando mais o trecho a ser
levantado, que a estrada deveria finalizar em Carolina, e não em
Grajaú. E ainda mais. Que as despesas de toda a operação fossem
custeadas com os recursos recebidos a título de diárias. Fora uma
decisão realmente dura, pois o engenheiro alegava que os recursos
recebidos como compensação pelos dias trabalhados, as ditas
diárias, seriam insuficientes até mesmo para manter seus
familiares, que ficariam na capital do estado, enquanto ele
empreendia a viagem a serviço. Note-se que o Ministério de Viações
deixou de lado a exigência da realização do levantamento expedito
para o trecho da outra ferrovia, a que ligava Monção ao Tocantins.
Mas, sobre isto, ninguém falou mais nada.
Por
sua vez, ao que parece, o nosso engenheiro Palhano não era
exatamente um inocente nesse jogo e, enquanto as discussões se
desenrolavam, procurou junto ao governo do estado uma saída para o
imbróglio que se constituía. E o governo, maior interessado na
realização daquela obra ferroviária de grande magnitude para a sua
região, responsabilizou-se logo no cobrimento de todas as despesas
da viagem orçada pelo engenheiro. Só não se comprometeu em
arranjar os equipamentos reclamados pelo engenheiro.
Em
resposta, a seu chefe imediato no Rio, J. Palhano de Jesus afirmou
que o Governador do Maranhão Luiz Domingues havia compreendido bem
as suas justificativas que, diga-se, nunca e em tempo algum visaram a
melhoria dos seus ganhos, mas unicamente a certeza da realização
dos trabalhos pretendidos, tendo ele governador, despendido à conta
do tesouro estadual os recursos necessários. E ainda mais. Afirmou
que o chefe supremo do estado maranhense havia acreditado no seu
trabalho e que o havia habilitado a dar início imediatamente àquela
obra tão importante para o povo maranhense. Note-se ainda, que o
engenheiro havia ganho tempo para iniciar os trabalhos somente quando
as chuvas diminuíssem de intensidade na região visitada por ele.
E,
assim, deram-se início aos trabalhos de levantamento do melhor
roteiro para a construção de uma ferrovia que interligasse a região
tocantina à capital do estado maranhense, passando pelas cidades de
Pedreiras, Barra do Corda e Grajaú, até atingir as barrancas do rio
Tocantins. A primeira decisão tomada foi a de iniciar o traçado da
ferrovia a partir de Coroatá, e não da cidade de Codó. E
justificou, dizendo que a extensão dos dois caminhos eram
praticamente as mesmas, mas que havia escolhido Coroatá pelo simples
fato desta cidade ficar mais próxima à capital do que aquela outra,
situação mais apropriada aos sertanejos. E assim começou a
caminhada da equipe incumbida pelo levantamento dos primeiros dados a
respeito da melhor localização da ferrovia em questão. Viagem
penosa sobre montarias, composta pelo próprio engenheiro Palhano,
por um auxiliar de serviços e por um pajem responsável pelas ações
domésticas do grupo, como a preparação de alimentos e outras ações
necessárias ao conforto do grupo daquele grupo de trabalho.
Pelo
roteiro que faz atualmente, poderíamos afirmar que a comitiva seguiu
a mesma rota que leva até Peritoró pela MA-020, seguindo depois até
a sede do município de Independência. E assim, deixando a estrada
de Pedreiras à direita, seguiu a comitiva em direção a Capinzal,
cabeceiras do rio Codozinho. A rigor, o traçado atual da BR-135 é o
mesmo, salvo por algumas curvas eliminadas quando da melhoria da
estrada, prova inequívoca que a dita rodovia seguiu um caminho já
deveras conhecido pelos que transitavam em direção ao velho
Curador. Seguindo ainda o roteiro dito pelo engenheiro no seu
relatório, atravessaram a região conhecida como Califórnia,
chegaram a Lagoa Nova(Santo Antônio dos Lopes), e de lá seguiram em
direção ao cruzamento com a estrada que vem de Codó(Triângulo),
avançando depois até a Serra da Boa Vista, divisor de águas dos
rios Itapecuru e Mearim. Na descrição, o engenheiro não faz
nenhuma citação do povoado Mata do Nascimento (D. Pedro), após
ultrapassá-lo para chegar a Serra da Bela Vista. Cita ter passados
por outras povoações, como Água Boa, Pão de Ouro, Cruzeiro e
Tabocas, lugares hoje inexistentes ou desconhecidos por nós e sem
citações nos mapas.
Depois
de atravessar a Serra da Boa Vista, passarem pela Palma e seguiram
até o povoado Sapucaia. De lá, seguiram adiante, passando pelo
Curador( que não fez referência também), Tuntum, até pegarem a
estrada para a Barra do Corda, sede do município. Como a BR-226
inexistia, o percurso até a Barra seguia a estrada velha do Tuntum,
autênticos caminhos de tropeiros, virava para o sul em direção ao
sertão das Areias, Lagoa D’anta, Cigana e seguia em frente. As
melhores informações que podemos colher do relatório apresentado
são relacionadas ao que se cultivava naquele tempo na região do
Japão: o arroz, milho, mandioca, o algodão e o fumo. Além disto,
segundo declaração do autor do trabalho, “Nas Matas do Japão e
nas do Baixão, cria-se muito gado de boa qualidade, e muito superior
ao gado dos campos (referia-se à região acima de Barra do Corda, e
até a região tocantina), que se alimentam com capim agreste. Faz
exceção o dos campos que se estendem do rio Lageado até perto de
Porto Franco, aí o pasto é um capim mais nutritivo a que dão o
nome de “Capinão””.
Por
sua vez, apesar da falta de estradas, ferrovias ou rios navegáveis
na região, já existiam caminhos conhecidos para os principais
centros, como Codó, Pedreiras, Coroatá e Caxias, cujo trânsito com
animais de montaria ou de carga era constante. Por lá também eram
conduzidas as boiadas que seguiam para a feira de Caxias, da região
ou que vinham da Barra do Corda, Grajaú, ou mesmo da região
Tocantina.
A
outra informação importante, é que em 1910 já haviam muitas
fazendas espalhadas em toda a região do Japão, apesar das
dificuldades de transporte para comercializarem seus produtos
agrícolas e seus gados nas praças mais desenvolvidas. A propósito
disto, o fazendeiro José Nunes de Almeida, meu bisavô, o mesmo que
construiu a primeira casa coberta de telha no velho Curador, nesse
mesmo período fazia viagens costumeiras para Caxias com o intuito de
vender seus produtos. De lá, também trazia o que precisava para o
seu consumo, como o querosene, o sal, o açúcar, além de tecidos e
todo o aviamento necessário à costura das roupas e lençóis. E
nessas viagens, demorava-se cerca de quinze dias para ir a Caxias,
resolver suas coisas, e voltar para o Curador.
Apesar
disto, o Engenheiro escolheu um outro roteiro para a construção da
tal ferrovia tocantina: a velha estrada beirando o rio Mearim e que
passava por Pedreiras. Não levou em conta o fato daquela região
possuir um rio navegável, pelo menos em parte do ano, quando as
águas do mesmo favoreciam o trânsito de barcos a vapor puxando seus
batelões. A região do Japão, apesar dos rasgados elogios recebidos
quanto à sua avultada possibilidade produtiva, ficaria mais uma vez
esquecida.
O
fato é que os políticos e administradores se envolveram mais uma
vez nas suas querelas e a tal ferrovia nunca saiu do papel. A disputa
entre grupos antagônicos pela primazia da construção e exploração
da Tocantina atrasou por décadas o início da obra. Depois veio a
primeira guerra mundial em 1918 e o país reduziu o ritmo das obras
em todo o território nacional, e mais uma vez a Tocantina não foi
iniciada.
Termino
afirmando que na campanha eleitoral para presidente da república em
1950, sobre um palanque em Carolina, o Brigadeiro Eduardo Gomes,
candidato à presidência prometeu: “Prometo-vos, que se for eleito
dar, no meu governo, todo o meu empenho para que no lustro em que
dirigir os destinos da nação, a Tocantina se torne realidade
concreta”. A promessa foi publicada no jornal Correio da Manhã, do
Rio de Janeiro. Não foi eleitor e a Tocantina também jamais foi
construída.
(*)
José Pedro Araújo é engenheiro agrônomo, funcionário público federal aposentado,
historiador, cronista, romancista, e coordenador do blog Folhas
Avulsas.