quinta-feira, 14 de novembro de 2019

QUATRO POETAS DO PIAUÍ


11 de novembro   Diário Incontínuo
QUATRO POETAS DO PIAUÍ

ELMAR CARVALHO é poeta, cronista, contista, historiador e membro da APL.
No meu trabalho de reorganização do que restou de minha biblioteca, terminei encontrando um exemplar de LB – Revista da Literatura Brasileira. Trata-se do exemplar nº 6. A brochura, de apenas 45 páginas, consequentemente sem nome na lombada, encontrava-se perdida entre os meus livros, de maiores dimensão e volume. Não a via há vários anos. Pensava até que ela se extraviara, no meio de tantos papéis. Por uma circunstância que adiante será explicada, não lhe havia esquecido. O número que tenho em mãos contém crítica literária, resenha de publicações, contos, crônicas, uma novela e outras matérias.

Não há indicação sobre sua periodicidade. O exemplar em comento é referente ao ano de 1997. Seu conselho editorial é formado por Aluysio Mendonça Sampaio, poeta e contista, e Henrique L. Alves, crítico literário, secretário geral da Academia Paulistana de História. Gloria Rivers é o nome de sua secretária administrativa. Entre suas matérias constam Quatro Contistas do Brasil, em que figuram Aluysio Mendonça Sampaio, Caio Porfírio Carneiro, Dalton Trevisan e Moacir Sclyar, e Quatro Poetas do Piauí, cuja seleção recaiu sobre Da Costa e Silva, H. Dobal, Clóvis Moura e Elmar Carvalho. Considero o primeiro, o nosso poeta maior, o nosso poeta laureatus, o príncipe dos poetas piauienses. Dobal e Clóvis, estão entre os poetas piauienses de minha predileção, aos quais, entre os mortos, acrescentaria Mário Faustino, Celso Pinheiro, Martins Napoleão e Jonas Fontenele da Silva. A contracapa anunciava que a próxima edição traria os Quatro Poetas do Rio de Janeiro, sem lhes antecipar os nomes.

Meu primeiro contato com a poesia de Da Costa deu-se quando eu era garoto, quando ainda cursava o antigo ginásio, através de uma professora de Português e Literatura, não sei se dona Francisca Teresa Andrade ou se dona Eidene, filha do farmacêutico e comerciante Aquiles Brasil Rocha. O fato é que a mestra leu o soneto A Moenda, de nosso poeta maior, para mostrar a riqueza dessa composição, tanto pelo conteúdo como pelas figuras de estilo, sobretudo as aliterações começadas pela letra r. Eu já conhecia, na época, os grandes poetas nacionais, e fiquei orgulhoso de que o Piauí tivesse um poeta de tal magnitude, um bardo que se lhes podia ombrear.

Desse episódio, fiquei com a certeza de quão era importante o estudo de literatura em sala de aula. Por esse motivo, quando presidi a UBE-PI, gestão 1988/1990, lutei para que o ensino de Literatura Piauiense fosse posto no texto constitucional do estado como disciplina obrigatória, o que terminou acontecendo, graças ao esforço e obstinação do deputado Humberto Reis da Silveira, que homenageei com honrarias da entidade, cujos diplomas ele emoldurou e expunha em seu gabinete, porquanto sabia da sinceridade da outorga. Um pouco depois da declamação feita por Francisca Teresa ou Eidene, na Casa do Estudante do Piauí, em Teresina, vi o poema Saudade, estampado em um cartão postal, e mais uma vez constatei a grandeza do poema dacostiano. Desse soneto, meu pai extraiu o magnífico verso – Saudade ! Asa de dor do Pensamento! – e o depôs na lápide de minha irmã Josélia, falecida aos 15 ano de idade, vítima de desastre automobilístico, no esplendor de sua beleza e carisma. Estive presente a alguns dos eventos da comemoração de seu centenário de nascimento, ocorrido em 1985, inclusive a uma palestra proferida pelo poeta e embaixador Alberto da Costa e Silva, seu filho. Li o número da revista Presença, elaborado em sua homenagem, com matérias biográficas e críticas sobre ele. Não lhe pude adquirir o livro de suas Poesias Completas, editado na época. Comprei-as numa edição posterior, da Nova Fronteira, e as li todas, com prazer, enlevo e enternecimento.

Meu primeiro conhecimento dos versos de H. Dobal se deu quando eu tinha em torno de 19, 20 anos, quando conheci a avantajada biblioteca de João Nonon de Moura Fontes Ibiapina, quando fui visitá-lo, acompanhando uns parentes de meu pai, que eram seus amigos. O nobre magistrado e escritor morava em um sobrado, na rua Pedro II, em Parnaíba, e seu acervo ocupava um amplo salão do andar superior. Fontes Ibiapina era um homem simples, humilde, sem empáfia e sem afetação. Não era verborrágico e nem eloquente, de modo que não impressionava muito em sua conversa. Na verdade era muito contido, chegando quase, às vezes, a ser monossilábico. Entretanto, era um mestre na arte de escrever. Eu era leitor de sua coluna de resenhas literárias, publicada semanalmente no jornal Folha do Litoral, que ele manteve durante muitos anos. Magistrado íntegro, imparcial, foi um dos fundadores da Academia Parnaibana de Letras, e seu primeiro presidente.

Nessa visita ou em outra, já não tenho certeza, mostrou-me sua grande biblioteca. Admirou-se quando eu lhe pedi emprestado uns livros de sua autoria, pelo fato de que, entre tantos clássicos da literatura universal, eu fosse escolher os de sua lavra. Acontece que eu já lhe lera Brocotós, anos atrás, por empréstimo de uma prima, e gostara muito de suas estórias e forma de narrar. Nessa ocasião, sabendo que eu era de Campo Maior, perguntou-me se conhecia os poemas de H. Dobal. Ao lhe responder negativamente, mostrou-me alguns versos do poeta. No início, estranhei aqueles versos personalíssimos, inusitados, sem preocupação com rimas, e somente em futuras e sucessivas leituras pude apreciar a sua beleza ímpar, sem derramamentos emocionais. Décadas após, sugeri seu nome ao vereador Luiz Carlos Martins Alves, para que ele recebesse o título de Cidadão Honorário de Campo Maior. O nobre edil conferiu-me a honra de proferir o discurso em sua homenagem, por ocasião da outorga da honraria. Quase três anos atrás tive a elevada honra de ocupar a cadeira nº 10 da Academia Piauiense de Letras, que fora ocupada por H. Dobal, sem a pretensão de que estaria a substituir esse aedo insubstituível.

Quanto a Clóvis Steiger de Assis Moura, tomei contato com sua arte poética através da revista Presença, então órgão da Secretaria de Cultura. Mais tarde me veio às mãos o valioso opúsculo Argila da Memória, em que as suas lembranças líricas e amarantinas ficam a pulsar e borbulhar por entre suas páginas, com gargarejos de gargalos, com golfadas de afogados, com rumorejos de redemoinhos, em que perpassam as elegias dos sinos e do cemitério, e as lembranças dos que se foram, tragados pelas águas traiçoeiras do Velho Monge. Quando ele veio lançar um pequeno livro de cordel, conheci-o pessoalmente. Soube depois, que ele, com o apoio de Cineas Santos, publicara o livro Duelos com o Infinito (2005), através da Secretaria da Educação. Tendo admirado Argila da Memória e Flauta de Argila, porfiei em conseguir esse livro. Procurei o poeta Cineas Santos, que só tinha um único exemplar. Disse-me ele que eu talvez conseguisse algum volume na Seduc.

Nesse órgão, procurei uma conhecida minha, que não conseguiu localizá-lo. Obstinado, dirigi-me ao gabinete do secretário, para ver se existia algum exemplar perdido em alguma gaveta ou prateleira. Não havia. Entretanto, uma servidora do gabinete, vendo o meu interesse e esforço, disse que iria tentar encontrar algum exemplar, em outros setores da Secretaria. Ficou de me ligar se a procura tivesse êxito. Ligou-me alguns dias depois, para me dizer que podia ir buscar o livro. Fui e o recebi de suas boas e abnegadas mãos. Mergulhei, então, na leitura desse grande poeta piauiense, que foi também notável sociólogo, com respeitáveis estudos sobre negritude, ele que era descendente de escravo e de barão do império prussiano. Pesquisador determinado e sério, ficou vários dias ou meses na comunidade dos Mimbós, estudando a história, a cultura e os costumes desses remanescentes de quilombolas. Tenho a honra de ser o primeiro ocupante de cadeira da Academia de Letras do Médio Parnaíba, sob seu patronato.

Voltando a falar da LB – Revista da Literatura Brasileira, nº 6, devo dizer que não sei quem me indicou para fazer parte da seção Quatro Poetas do Piauí. Quem o fez, nunca me alegou tal iniciativa, e nunca me apresentou fatura e nem cobrança. Na capa de meu exemplar, existe autógrafo da professora Clea Melo, chamando-me a atenção para a página 33, na qual começa minha participação. Foi ela quem me enviou a revista, o que demonstra ser ela uma verdadeira amiga, pois os falsos e dissimulados só gostam de se referir às notícias que não nos são favoráveis, ignorando, em ressentido silêncio, as que reconhecem as nossas vitórias e qualidades positivas. Cada poeta teve direito a três páginas. Foram publicados três poemas de cada autor, exceto de Clóvis Moura, que participou com quatro textos.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

PARNAÍBA: o rio da integração piauiense

O majestoso rio Parnaíba(foto de autoria desconhecida)





José Pedro Araújo

Da mesma forma que o São Francisco é conhecido como o rio da integração nacional, o rio Parnaíba pode receber o epíteto de rio da Integração do Piauí, por sua importância ímpar para a ocupação e desenvolvimento deste Estado. O traçado do seu curso, a relativa ocorrência de obstáculos intransponíveis e a largura e profundidade do seu leito, são alguns dos pontos positivos que favoreceu o trânsito de pessoas e embarcações ao longo de todo o trecho navegável. Também funcionou como fator primordial a configuração do próprio território, amplo no seu comprimento e estreito na sua largura. Por esta razão, desde a sua embocadura no Atlântico, até a região de Santa Filomena, a mais de um mil quilômetros de distância, existia, naquela época, certa facilidade na sua navegação utilizando-se embarcações com calado apropriado.  

Por estas razões, transformou-se o chamado rio grande dos Tapuias em autêntico caminho por onde desciam as embarcações com os produtos agropecuários produzidos na região sul, chegando até ao litoral; da mesma forma, por ele subiam as embarcações com outros artigos não encontrados nas distantes regiões de onde procediam os rebanhos. Do mesmo modo, também trafegavam seu leito sinuoso os novos ocupantes do vasto e desocupado território, grandes pecuaristas, mas também pequenos agricultores, todos a procura de locais aonde situar suas moradias simples. Pequenas posses de terra lhes serviriam para assentarem nelas suas famílias, instalar suas roças com produtos de subsistência e seus diminutos rebanhos.

Nas margens desse manancial de esperanças relevantes, foram surgindo pequenos embarcadouros, que muito mais tarde se transformariam em cidades, centros de atração de novas populações e novos negócios. Em um ponto equidistante deste fantástico rio, entre Parnaíba e o alto sertão, o Agrônomo Francisco Parentes instalaria a primeira colônia agrícola na Província, munida de estrutura apropriada para receber a primeira escola especializada em agropecuária, no local que ficou conhecido como Colônia e, anos depois, cidade de Floriano. Aquele estabelecimento, que passou a chamar-se São Pedro de Alcântara, sobre o qual falaremos mais detidamente à frente, funcionou como principal ponto de apoio aos colonos que subiam o rio em busca das fertilíssimas terras existentes mais ao sul.

Pode-se assim dizer que acontecia agora um processo de recolonização, uma vez que os primeiros colonos vindos da Bahia e de Pernambuco, haviam começado exatamente por aqueles ermos sertões a ocupação do território piauiense.  Portanto, à falta de estradas com boas possibilidades de tráfego que ligasse as regiões sul e norte, foi o rio Parnaíba o principal percurso tomado pelos primeiros desbravadores, símbolo de uma época de grandes conquistas e de muita luta.

As embarcações usadas para vencer as grandes distâncias naqueles tempos remotíssimos eram simples, construídas à partir do talos retirados da palmeira denominada buriti ou do próprio babaçu. Em rudimentares embarcações, aproveitavam-se da corrente os primeiros navegantes, para chegar aos primeiros aglomerados urbanos que iam se formando ao longo do portentoso rio, até chegar ao seu litoral, onde crescia com desenvoltura a célebre povoação de São João da Parnaíba. Também trafegavam contra a corrente, as grandes canoas, levando suas cargas e seus passageiros, impulsionadas para frente pelo braço forte do resoluto barqueiro, por centenas de quilômetros, à falta de outro meio de transporte que facilitasse a chegada da sua carga ao sul da Província.

Foi tormentosa a luta dos primeiros administradores para abrir e conservar os primeiros caminhos ligando a capital da Província com as vilas que iam se formando nos distantes sertões. Os recursos escassos e o desinteresse da Coroa para com a nova colônia, deram o tom do primeiro século de vida dela. É vasta a documentação encontrada dando conta das correspondências enviadas à Corte com a solicitação de recursos para abrir estradas, construir pequenas pontes sobre os rios mais importantes ou simplesmente conservar e alargar os caminhos abertos pelos curraleiros para tocarem as suas boiadas até os mercados consumidores.

Por outro lado, a eterna falta de recursos da qual padecia a Província, além da pobreza de espírito e de dinheiro do nascente empresariado local, impediu por mais de um século que embarcações movidas à motor substituíssem as pobres canoas impulsionadas a remo, na difícil tarefa de vencer as grandes distâncias até os locais mais distantes do Piauí. Discorrendo sobre isto, o incansável Odilon Nunes vai buscar na correspondência trocada entre o Presidente da Província, Frederico de Almeida e Albuquerque e o ministro do Império, as razões que considera como preponderantes para o atraso eterno pelo qual passava o Piauí: a falta de meios de transportes para os produtos locais.

Visando chamar a atenção para a aflitiva situação de atraso pelo qual passava o território por ele administrado, Almeida e Albuquerque esclarece assim a situação vivida: “Esta Província fica em sua totalidade, tão distante dos portos de mar, e dos grandes mercados do país que muitos de seus produtos agrícolas deixam de ter valor algum, porque as despesas de transporte absorvem e porventura excedem ao mesmo valor; e aquele mesmo produto que é o objeto da ocupação da máxima parte dos respectivos habitantes que constitui a riqueza da Província, o gado, vende-se por preço mui inferior àquele por que costuma ser vendido o que produzem as províncias vizinhas que se acham colocadas em posições mais favoráveis” (NUNES, pág. 139, 2007).

Foram tempos de duras lutas, vencidas pela dadivosa existência de um grande manancial, chamado rio Parnaíba. Contudo, se funcionou como grande válvula de escape, tornou-se também a desculpa que queriam os gestores do país que diziam não precisar o Piauí de estradas terrestres, uma vez possuindo o extenso e sinuoso rio que cobria toda a sua extensão.

sábado, 2 de novembro de 2019

O PRIMEIRO CEMITÉRIO DO CURADOR

Cemitério Militar e Memorial Americano na Normandia(França)



José Pedro Araújo

Hoje temos um dia perfeito para tratamos sobre este tema triste da história do município. Para algumas pessoas, sobretudo os mais novos, o primeiro “Campo Santo” destinado para o sepultamento dos mortos do velho Curador, foi o conhecido Cemitério de Santo Antônio, situado quase no centro da cidade, à rua Cel. João Sena. Como já tratei em outro texto, trata-se de um espaço em que convivem lado a lado o descaso com os nossos mortos, com uma desorganização sem tamanho. Andar pelo interior daquele cemitério é uma ação que exige muita vitalidade do visitante, pois não existem ruas ou alamedas para a sua movimentação, tendo o incauto de saltar sobre catacumbas, pisar em sepulturas semi-abandonadas, ou mesmo se machucar em alguma cruz de braços pontiagudos enquanto procura pelo seu morto a prantear. Como dever de ofício, gostaria de afirmar que o desleixo com aquela necrópole não vem de hoje. Os atuais administradores da cidade já herdaram o problema de administrações passadas, e continuaram a tratar o velho cemitério no mesmo diapasão.

E em razão disto, a desorganização do local tem feito com que sejam realizados sepultamentos de pessoas em covas de há muito já habitadas. Como aconteceu recentemente, quando a sepultura da minha irmãzinha Célia foi usurpada por determinada pessoa da comunidade ao construir sobre ela um horroroso mausoléu. Acredito que, pelo tamanho da coisa, outras tumbas tenham sido vilipendiadas também. Mas, devo admitir que nesse caso houve um profundo descaso de quem deveria primar pelo zelo do espaço, ao permitir que um túmulo tão antigo como aquele fosse “grilado”. Esse fato me causou tanto constrangimento, e tanta dor, que esta é a segunda vez que trato sobre ele. E como acontece em todos os outros lugares onde os mortos e seus familiares são tratados com respeito, aquele cemitério não deveria permitir as atividades de novos sepultamentos, a não ser que o destino do corpo fosse as catacumbas familiares ali existentes e com espaço definidos para isto. Para os novos, existem outros cemitérios.

Mas o assunto que me trouxe até aqui, cujo o título acima evidencia, diz respeito ao primeiro sepulcrário construído no velho Curador de outros tempos. E esse “Campo Santo”, não foi o Cemitério Santo Antonio, mas um outro que ocupava espaço bem no centro da cidade, próximo à antiga Capela de São Bento, templo substituído pela imponente Matriz de São Sebastião.

Como é do conhecimento de todos, no passado distante, os cemitérios eram administrados pela igreja católica, e construía-se em uma das fontes de arrecadação de fundos das igrejas as taxas cobradas em decorrência dos sepultamentos naquele local. Por essa razão, esses espaços eram escolhidos bem ao fundo das igrejas, como se fossem o seu quintal. Alguns defuntos, os mais abonados, eram sepultados no interior dos templos mesmo, nas suas largas paredes, ou mesmo no piso destas. Suas famílias, naturalmente, tinham que dispender uma quantia maior para ter essa permissão. Ou isso, ou a figura ali sepultada deveria pertencer a uma casta privilegiada, como os antigos nobres ou coronéis com larga folha de serviços prestados à paróquia. E isso aconteceu até que houvesse a proibição, por motivos sanitários, de se sepultar no interior dos templos ou em locais muito próximos de onde eram realizados os cultos ao sagrado.

Quando primeiro cemitério do Curador foi construído, esta prática não existia mais. E como a humilde capela nem Cura possuía, coube à municipalidade a sua construção, ou mesmo tratou-se de uma ação realizada pela própria comunidade, o que era mais provável. O certo mesmo, é que essa necrópole também ficava a poucos passos da Capela de São Bento, na rua Grande, onde hoje se situa a pomposa sede do Banco do Brasil, além de algumas casas da região. Sob as paredes daquela casa de crédito estão sepultados os primeiros defuntos do Curador. Sou tendente a acreditar, inclusive, que não se procedeu de acordo com legislação pertinente para casos de encerramento de cemitérios: após o encerramento das atividades de um cemitério, os ossos dos que ali foram sepultados devem ser removidos e levados para um ossuário construído no novo local para lá serem depositados. Mas a lei não chegava até o Curador de então, e por essa razão, acredito que não se deu uma destinação mais respeitosa aos primeiros mortos do Curador.

Um tio meu, já quase chegando ao patamar do centenário, disse-me outro dia que se constituía em verdadeiro martírio passar pela frente daquele cemitério depois que a escuridão cobria a povoação ainda sem nenhuma iluminação noturna. Que existe até mesmo a história de uma onça que se abrigava no interior daquele velho cemitério durante as noites. Mas isso é história para outra ocasião. O fato é que o primeiro cemitério do Curador ficava onde hoje é um dos pontos mais valorizados da cidade, e a dois passos da principal praça da cidade.

Para finalizar esta crônica, devo dizer que a escolha de uma data para prantearmos todos os nossos mortos advém desde o século V. Mas a escolha do dia 2 de novembro só foi sacramentada já no século XIII. E é uma data consagrada em todo o mundo cristão. Alguns povos, como os mexicanos, por exemplo, fazem uma verdadeira festa nesta data, o povo veste-se com aquelas feias fantasias com pinturas de toda a ossatura de um cadáver, enquanto outros usam horrendas máscaras de caveira. E bebem, embriagam-se, e disponibilizam comida e bebida para seus mortos.

Por aqui, obsequiamos nossos finados com ramalhetes ou coroas de flores. E velas. Muitas velas, prática esta dos que professam a fé católica. A tradição afirma que as coroas circulares, atestam a vitória sobre a morte. E as velas acesas são para iluminar os caminhos. É o que atestam os praticantes do catolicismo.

Para nós outros, bate uma saudade sem igual dos nossos entes queridos que já partiram. É um dia, o de finados, para refletirmos sobre o que nos resta da vida, e para uma mudança de foco, caso entendamos que estamos transitando por errados e tortuosos caminhos.