![]() | ||
Imagem do Google |
José Pedro Araújo
Já tive oportunidade de homenagear o riacho Firmino, meu caudaloso rio que me emocionou com suas águas cálidas e correntes, e que se transformava, na minha visão pequenina, de um simples filete de água em um tenebroso e desconhecido mar oceano. O período a que me refiro agora antecede ao das traquinagens no Firmino. Digamos que seja a gênese de um atrevido nadador de águas rasas; um desbravador de mares de pequeno curso.
Os Barreiros eram pequenos ajuntamentos de água que se acumulava ao lado da estrada para Barra do Corda, logo na saída do Curador. Um primo meu, também companheiro de aventuras, orgulhosamente denominava os barreiros de “Valetas”. Nunca chamava aqueles pequenos açudes de Barreiros, como todos os outros banhistas falavam. Parecia-me querer imitar alguém da sua família. Sempre desconfiei disso. Mas, de qualquer forma, que sejam barreiros ou valetas, foi naquele pobre ajuntamento de águas pluviais que aprendi a nadar. E foi por causa deles também que levei a maioria das surras que minha mãe me aquinhoou por querer me transformar num menino-peixe. Temia que eu me afogasse naquelas águas tão poucas.
Na verdade, a parte mais funda da principal das lagoinhas, aquela que escolhíamos para nosso balneário, a água mal me chegava ao nariz. Mas, mesmo assim, mamãe temia pelo encerramento da minha passagem por esse vale de lágrimas. Nem desconfiava, porém, que aqueles momentos ficariam para sempre na minha memória como algo especial na minha aprendizagem para a vida. Pois foi lá que me libertei do medo do perigo de naufragar em águas em volume realmente significativo. Como aconteceu no velho e querido rio Parnaíba, que atravessei na cota máxima, certa época, de um lado ao outro, apenas para testar a minha competência no ramo, e em um momento em que transbordava de margem a margem. E ainda estou aqui contando a história, prova de que as “aulas” que tomei nos Barreiros foram muito importantes para mim.
Aquelas
pequenas poças d’água acumuladas no período das chuvas, que iam de dezembro a
final de abril, atraia a meninada toda da região da Bomba, como era conhecida a
parte da cidade na qual morávamos. A água acumulada era de uma coloração verde
escura, límpida e calma como são as águas de lagoas. Isso, antes de entramos
nela. Depois, com o passar das horas, ia tomando uma coloração vermelho-escura,
ficando depois com aquele aspecto barrento, sujo, fazendo com que os micro
fragmentos de argila ficassem impregnados em nossos cabelos e na nossa pele. E
isso era por demais denunciador. Pois, não bastasse os olhos vermelhos a nos
denunciar, a pele também atestava que havíamos desobedecido às ordens de nunca
mais voltar àqueles buracos cheios de água. E não adiantava negar. Minha mãe
havia adquirido uma experiência ímpar para diagnosticar se havíamos ou não
praticado o ato transgressor. Era só passar a unha na pele de um dos braços, e
lá ficava um risco comprido, denunciador, a atestar que o período passado dentro
das águas dos barreiros haviam sido longo. Depois, era aguentar as
consequências.Cipoadas doloridas complementava o meu dia.
Entretanto, na minha lógica de menino desobediente, a punição valia a pena. A dor das cipoadas recebidas sumia rapidamente, enquanto o prazer adquirido naqueles momentos de puro deleite demorava a sumir. Ou não sumia jamais. Como prova este momento em que escrevo estas transgressoras linhas.
Hoje, passo a acreditar que minha mãe tinha razão em não me querer tomando banho naquelas lagoinhas. E não apenas pelo fato de eu correr risco de afogamento. O que, apesar da pequena profundidade, sempre poderia ocorrer, uma vez que a meninada extrapolava nas brincadeiras pesadas. Mas, e também, porque ali aconteciam coisas que deixaria qualquer mãe em estado de alerta, caso ouvisse as conversas que ali aconteciam. As brigas também eram frequentes. De quando em vez algum garoto não gostava da desfeita que o outro havia lhe feito, e a pancadaria corria solta. Moleque tinha que está esperto, caso quisesse se dar bem naquele democrático espaço, onde crianças em idade tenra tinha que conviver como meninos já taludos, loucos de vontade de demonstrar isso para outros menos formados fisicamente. No meu caso, apesar de miudinho, um dos menores a frequentar o local, tinha a proteção de alguns primos maiores. Então, o risco corrido era calculado.
Passei recentemente pelo local onde ficavam os Barreiros. Lá, hoje, só existe mato e lixo. Nem parece que ali já existiu um dia um balneário por excelência. E que nele muitos garotos da minha idade aprenderam a nadar. Parafraseando o poeta Drummond, “os Barreiros são apenas fotografias na parede da memória".