segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

A Viagem dos Naturalistas Spix e Martius ao Piauí pelo Caminho das Boiadas

Gravura de Spix & Martius


José Pedro Araújo.

A abertura dos portos no Brasil aos estrangeiros, fato ocorrido após a chegada da família real em terras brasileiras, marcou também a vinda de uma leva de naturalistas ao país. Curiosos em desvendar os mistérios da exuberante fauna brasileira, mas também da flora majestosa que tanto atraía os estrangeiros, esses cientistas devassaram o país. Antes impedidos pelos dominadores portugueses de adentrarem ao novo mundo devido ao fechamento do território nacional aos estrangeiros, a abertura dos portos foi uma grande notícia que encheu de júbilo o mundo científico mundial. A esposa austríaca do Príncipe Dom Pedro, Arquiduquesa Leopoldina, trouxe para o país um séquito composto por muitos naturalistas, abrindo as portas do país à visitação de muitos e renomados cientistas.
Alguns deles passaram pelo Piauí, entre estes Carl Friedriche Philipp von Martius e Johan B. von Spix, que empreenderam viagem de reconhecimento da fauna e da flora brasileira em árdua jornada desde Salvador, na Bahia, passando por Oeiras, neste estado, pelo caminho conhecido como Estrada Real do Gado. Por esta via de acesso, equivalente a um simples caminho, circulavam as boiadas que saiam do Piauí com destino à feira de Capoame, nas proximidades da capital baiana. Transcorria o ano de 1818 e, na companhia de expressiva comitiva, carregando no lombo de burros pesada bagagem, partiram aqueles cientistas desde Salvador no dia 26 de fevereiro, acomodados em uma rude embarcação que os levaria até a vila de Cachoeira, inicio do penoso percurso. E já no dia seguinte, segundo seus próprios relatos, tomaram a estrada “de Capoeirussu, que segue a oeste e nordeste, na Comarca de Jacobina, e para a Estrada Real do Gado, por onde são tocadas as boiadas do Piauí(Spix e Martius, pág. 219).

Nos dias seguintes, a trupe passaria por apertos indescritíveis que os levaria ao desespero - e à morte de um dos seus membros. Não apenas isto, mas também à perda de alguns animais de carga, em decorrência da falta de comida e água. Transitando por caminhos ermos e secos, viram com imenso desgosto a tropa de burros ir sendo dizimada, e todos os membros da comitiva padecerem de doenças e grande aflição. Devem ter se recordado que na Feira da Conceição, ainda ao findar o primeiro dia de viagem, foram aconselhados a desistir da viagem pelos moradores locais, uma vez que teriam de marchar durante sete dias até chegar a um local onde encontrariam água e comida para si e para a tropa. Mas, resolutos e desconhecedores da realidade que encontrariam a frente, decidiram prosseguir viagem até a localidade conhecida como Fazenda Rio do Peixe. Naquele ponto esperavam encontrar as condições necessárias para prosseguirem viagem até o Piauí.
Com o pensamento firmado apenas na esperança de cumprir com a missão a que estavam imbuídos, haviam se abastecido apenas de um pouco de milho e rapadura para alimentar a tropa de animais, munindo-se, também, de um depósito de água para combater a sede no difícil trajeto que teriam pela frente. A rapadura, segundo eles, serviria para “mitigar a sede” dos animais, experiência repassada para eles pelo guia da caravana. Encontrariam, porém, como haviam sido alertados, uma situação desoladora: a vegetação apresentava-se esturricada e os riachos e cacimbas completamente vazios, para infelicidade de todos. Nesse instante, o desespero já ia tomando conta dos membros da comitiva, e até mesmo os animais resistiam em prosseguir a marcha, à medida que adentravam mais fundo no sertão seco e sem esperança.
A situação era tão grave, que culminou com a invasão da casa de um velho sitiante, encontrado à beira do caminho, para roubarem o único pote com água que o ancião guardava escondido debaixo da cama. Este fato foi talvez o episódio que mais desagradou os cientistas estrangeiros durante o longo percurso que fizerem pelo país. Não havia como retroceder, contudo. E, pouco tempo depois, ganhariam novo alento ao serem informados de que o sofrimento deles terminaria quando chegasse a uma localidade denominada Coité. Nesse lugarejo, informaram-lhes, encontrariam uma cachoeira que brotava de uma rocha, onde poderiam se abastecer de água para o restante do percurso.
Cinco dias depois de terem iniciado a difícil viagem, chegaram à localidade de Coité, lugarejo onde ficava a tal cachoeira. E qual não foi à decepção do sofrido e angustiado grupo: a tal cachoeira informada não passava de um filete de água gotejando da fenda de uma grande rocha.
A água que caia preguiçosamente da pedra era insuficiente até mesmo para abastecer a população local que se aglomerava em torno dela, ávida pela presença do líquido precioso.
A situação que encontraram era muito aflitiva, dada à quantidade de pessoas que se encontravam agrupadas ali para apanharem água, gerando brigas e dissensões. E por conta disso, o juiz do lugar estava no comando de um grupo de homens armados para garantir a ordem e a paz do local, tão grande era a disputa por um simples copo de água. Mesmo assim, sem outro remédio, acercaram-se da rocha para concorrer com os nativos. Mas, quando chegaram perto da grande pedra, com a intenção manifesta de aumentar a concorrência com as trinta pessoas que esperavam desesperadas a sua vez, foram escorraçados para bem distante, tal era o desespero dos que já estavam por lá. Sem outra opção, seguiram em frente com os depósitos de água completamente vazios, tal como haviam chegado lá. Somente dois dias depois desse lamentável incidente, encontrariam água em decorrência de uma rápida chuva que havia caído na região. Haviam chegado à duras penas ao lugarejo conhecido como Imbuzeiro. A água era de péssima qualidade, mas, era água assim mesmo, mesmo suja. Nesse meio tempo, alguns animais já haviam morrido pelo caminho e outros estavam em situação tão precária que foram abandonados à sua própria sorte, uma vez que resistiram a dar um passo a mais. A febre e a diarreia tomavam conta do grupo, deixando as pessoas cada vez mais fracas e desesperadas. Não tinham outra opção, contudo, a não ser seguirem em frente.
Finalmente, no dia seguinte, chegaram a Rio do Peixe. Haviam conseguido atravessar a pior parte da viagem. Ali a vegetação era um pouco diferente, apresentava-se mais esverdeada, devido a algumas chuvas caídas. Já era até possível encontrar algumas ervas rasteiras, proporcionando algum alimento para os animais. Do mesmo modo, havia disponibilidade de água em cisternas encontradas pelo caminho. Logo depois estavam chegando às margens do rio Itapecuru, onde concluíram que, de fato, seus problemas se achavam agora bastante reduzidos, não havendo mais riscos de vida para homens e para animais.
Ao transporem a Serra da Itiúba, no dia seguinte, encontraram um grupo de vaqueiros que tocavam uma boiada com cerca de 300 animais, desde o Piauí, com destino à feira de Capoame. Foi a primeira que encontraram no caminho, e talvez a última, uma vez que, ao penetrarem em Pernambuco, deixaram a estrada real e tomaram outro caminho para Oeiras. Interessavam-se pela fauna e pela flora, além dos recursos minerais possíveis de serem encontrados no novo território que acabavam de conhecer.

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