quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

UM TRIBUTO A MEU PAI

Fotografia da autora com o pai



Régia Vitória Feitosa
Funcionária da Justiça Federal em Teresina, ex-professora da UFPI e presidutrense.

          Em 14 de dezembro de 1914 – há exatos cem anos – nascia em Colinas (antiga Picos do Maranhão), aquele que um dia viria a ser meu pai. Filho de um cearense que migrara para o Maranhão por ocasião de uma forte seca em sua terra, veio a casar-se com Elvira Alzira, de cujo casal nasceram cinco filhos. Virgílio dos Reis Feitosa era o terceiro dessa prole.
          Ali viveu até a idade adulta, quando conheceu Carmosina, na vizinha cidade de São Domingos, vindo a casarem-se e fixarem residência em Colinas, onde nasceu o primogênito Ely.
          O casal, que era evangélico, sentindo o chamado ao ministério, mudou-se para a cidade de Barra do Corda. Lá ingressaram no Instituto Bíblico do Maranhão, onde se prepararam para tal mister.

          Após concluído o curso, e já com mais dois filhos – João Paulo e Boanerges – Virgílio e Carmosina mudaram-se para a cidade de Presidente Dutra, dando início a sua carreira ministerial, ele como pastor da primeira igreja evangélica daquela cidade – a Igreja Cristã Evangélica. Em fevereiro de 1963, faleceu Carmosina, deixando esta filha, ainda pequena. Em novembro de 1964, Virgílio contraiu novas núpcias com Lindalva Pacheco, de cuja união nasceu minha irmã Quênia.

          Meu pai foi pastor daquela igreja por mais de vinte anos, vindo a ajudar igrejas vizinhas como Tuntum e São Domingos. Foi como Secretário Executivo da AICEB – Aliança das Igrejas Cristãs Evangélicas do Brasil - que findou seu ministério. Trazia no seu carimbo: Virgílio dos Reis Feitosa, Pastor evangélico até a sua promoção à glória.
Meu pai tinha muitas habilidades – de dentista prático e protético, alfaiate fino, cosendo seus próprios ternos, tinha no sangue um “quê” político, vindo a integrar o primeiro grupo de vereadores presidente-dutrenses.
          Mas o que movia mesmo seu coração era o ministério pastoral. Uma coisa que até hoje me impressiona é como ele embargava a voz quando falava do sacrifício vicário de Cristo. Nos últimos anos, não mais como pastor titular daquela igreja, não deixava, todavia, de preocupar-se com aquele trabalho. À véspera da última viagem que fizera, da qual voltaria sem vida, meu pai pregou naquela igreja. Segundo o depoimento de um membro, seu sermão foi baseado em II Timóteo 4.7: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé.” E continuou: “ Vocês, que ficam, precisam despertar para esta obra, continuar este trabalho”. Parecia saber o que o aguardava. Ao chegar à casa, sua esposa, que não fora ao culto, falou-lhe que ele havia demorado - talvez tivesse pregado demais -, ao que ele respondeu: “Eu precisava dar aquele sermão”.

          Três semanas antes de completar seus 60 anos, meu pai faleceu, vítima de um fatal acidente em Miranda-MA, quando de viagem de São Luiz a Teresina. Socorrido por um desconhecido (que mais tarde o identificamos como sendo delegado de Itapecuru-MA), foi levado ainda a São Luís, vindo a falecer três horas depois. A família só recebeu seu corpo graças ao reconhecimento feito pela secretária do Deputado Manoel Gomes – seu amigo – o qual lhe enviara, no dia anterior, um bilhete, que se encontrava no bolso da calça que usava, quando veio a falecer. Isto porque toda a sua bagagem ficara no ônibus em que viajava, inclusive a pasta de documentos. Seu corpo foi levado para a cidade de Presidente Dutra, onde foi sepultado.

          O tempo passa, hoje poucas são as pessoas daquela cidade, ou mesmo da igreja, que guardam a lembrança do ministro do evangelho pioneiro naquele local. Vale, contudo, relembrar aos outros aquele que jamais esquecerei. Até porque dele herdei muita coisa, com ele aprendi muito, apesar de ter convivido tão pouco. Naquele dia 14 de dezembro nasceu alguém que um dia ouviu o chamado: “A quem enviarei, e quem há de ir por nós?” e prontamente respondeu: “Eis-me aqui, envia-me a mim”.



Pr. Virgílio é o segundo da direita para a esquerda(foto extraída do livro Nossas Raízes)

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