segunda-feira, 27 de junho de 2016

A Família Sereno - Influência Política Que Se Mantêm.




                                                                                                     José Pedro de Araújo

          Como já afirmei em algumas oportunidades, o velho Curador foi fundado por gente com pouco dinheiro. Não surgiu, portanto, à sombra de uma grande fazenda ou de um expressivo empreendimento qualquer. A região foi desbravada por gente pobre, mas corajosa e destemida. Afinal, penetrar no âmago daquela floresta fechada e distante era coisa para quem tinha coragem e um grande objetivo na vida. No livro “Viajando do Curador a Presidente Dutra”, no qual tento contar a história da colonização da região do Japão, termo utilizado exatamente para definir um lugar distante de tudo, sobretudo da civilização, trato desse assunto com riqueza de detalhes. No geral, a população que chegava à região provinha de Pastos Bons, Barra do Corda, Caxias, ou, na sua maioria, dos estados nordestinos mais assolados pelas secas periódicas. Sem fortuna, geralmente arrastavam atrás de si uma família numerosa e passavam a residir em uma casa simples, despojada, no mais das vezes construídas por eles próprios.

          O censo de 1950 afirmava que quase 70% da população do Curador provinha de outras plagas, em geral do nordeste. Chegava muita gente por aqui, e como já afirmei também, seria impossível fazer justiça a todos aqueles que participaram ativamente da criação do município do Curador, seja por falta de dados confiáveis, seja, sobretudo, por se tratar de um trabalho hercúleo e que extrapola às minhas forças e à minha competência.

          Feita esta justificativa, passo a me referir a uma família que participa desde sempre e ativamente da vida política, administrativa e empresarial do município de Presidente Dutra: os Sereno.

Nelson Sereno (Acervo de Teresinha Sereno)
Na primeira bancada de vereadores saída das eleições de 25/12/1947, já aparecia o nome de Nelson Sereno. Filho de Pedro Sereno e Felisbela Félix Sereno, Nelson participou ativamente dos primeiros embates políticos travados para se conhecerem os mandatários do novo município. Mas a história política dele começaria anos antes quando foi nomeado interventor para dirigir os destinos do novo município criado. Houve intensa luta política travada entre os grupos que brigavam pela hegemonia política do novo município, ocasionando a substituição de Valdemir B. Falcão, primeiro interventor após a posse provisória do coletor Lúcio Bandeira, por Nelson Sereno. Este ficaria pouco tempo no poder e logo seus adversários conseguiriam recolocar Valdemir Falcão em seu lugar. Mas, Nelson voltaria a ocupar o cargo em nova reviravolta e ficaria lá até próximo às eleições para se conhecer o primeiro prefeito eleito do Curador, assim como os membros da primeira bancada para a câmara municipal. As disputas continuaram, entretanto, e o governo do estado, em vista do clima beligerante instalado próximo às eleições, convidou os dois lados da questão para uma conversa na capital. E dai surgiu um acordo para preservar a segurança da população no pleito que se avizinhava. Nelson Sereno, num gesto de grande dignidade, aceitou entregar o cargo ao governador para que ele nomeasse um interventor à sua escolha. Foi nomeado o Ten. Coronel Antenor Dias de Carvalho, uma das maiores autoridades policiais do estado naquela época. O militar deveria organizar as eleições do município para se conhecer o primeiro prefeito eleito. 

Depois de substituído no cargo de interventor municipal, Nelson Sereno continuou com suas atividades políticas, e anos mais tarde foi eleito vereador logo na primeira legislatura para a câmara municipal, como já enunciei acima. Elegeu-se também para a terceira legislatura, passando ainda a atuar decisivamente na administração de seu irmão Gerson Sereno à frente do município, quando assumiu o posto correspondente à secretaria de governo. Já nesse cargo, foi o principal mentor da criação da guarda municipal do município.

Viveu também a amarga experiência de ser cassado pelos seus confrades da câmara municipal na sua segunda participação como vereador, motivado, segundo o que registra os anais daquela casa, pela sua ausência em todas as reuniões da câmara naquele segundo mandato. Nelson ainda tentou manter-se no cargo que o povo havia lhe confiado alegando insegurança para participar das sessões, uma vez que temia pela sua integridade física; pela sua própria vida, enfim. Mas a alegação não foi aceita pelos outros edis. Nada que nos impressione hoje, afinal, vivíamos um período conturbado, em que a justiça, e a própria razão, estavam sendo constantemente sobrepujadas pela busca do poder de mando a qualquer custo.

No pouco tempo que permaneceu à frente do comando municipal, Nelson Sereno trabalharia junto ao interventor estadual para angariar recursos para o seu município, tendo conseguido importante vitória. No dia 09 de outubro daquele ano, Clodomir Cardoso baixaria o Decreto-Lei de nº 1.061, concedendo auxilio financeiro a diversos municípios, dentro os quais estava contemplado o Curador.

Ao abandonar a política, Nelson Sereno firmou-se como um dos principais empresários da região estabelecendo seu empório comercial na Rua Grande, principal artéria da cidade, local que ainda hoje serve como residência para a sua esposa e para alguns de seus filhos e netos. Foi, portanto, um cidadão que esteve presente ao longo de mais de cinquenta anos nas principais ações municipais, tanto no campo político, quanto no segmento empresarial, como grande empreendedor que era.

Gerson Sereno(Acervo de Terezinha Sereno)
Gerson Sereno, irmão de Nelson, ocupou o cargo de prefeito municipal depois da renúncia de Zeca Freitas, eleito juntamente com ele em uma eleição duríssima no qual tiveram como adversário Honorato Gomes de Gouvêia. O prefeito empossado em razão da renúncia do titular, contudo, não teria paz para administrar o município em decorrência das disputas políticas que em determinado momento conduziram a um desfecho violento. E nesse período de grande turbulência, os dois grupos políticos em disputa se cercaram por inúmeros homens armados, trazendo grande intranquilidade à população. O prefeito municipal criaria então a Guarda Municipal, que ao invés de apaziguar os ânimos, serviu para acirrar mais ainda os ânimos. Esse confronto, que fugia ao limpo e legítimo debate político, culminou com a morte do jovem Acioly Tomás de Barros, atingido por um tiro durante uma das escaramuças havidas entre os dois grupos antagônicos.

 Mesmo com tantos conflitos, o prefeito Gerson Sereno edificou obras de peso para a comunidade, e dentre as mais importantes de sua administração está a instalação da rede elétrica urbana após a aquisição de um grupo gerador e a implantação de 200 postes de aroeira nas principais ruas da cidade. Determinou ainda que o fornecimento de energia domiciliar para cerca de 90 famílias seria feito a expensas do próprio município. De graça, portanto. Na área da educação construiu o Grupo Escolar Dr. Murilo Braga, com 08 salas de aula, uma escola monumental para os padrões da época, além de mais outro colégio no povoado Calumbi. Foi responsável também pela construção do primeiro mercado municipal na sede do município, uma construção simples, sem paredes laterais, protegido por um teto como cobertura, sobre colunas de madeira de lei, e alguns Box individuais.

Pelo que se viu acima, Gerson precisou de muita coragem para tocar a vida administrativa da comunidade. Quando se pensava que tudo ia bem, a calma aparente, entretanto, seria quebrada mais uma vez no pobre município que tentava se organizar. Assim aconteceu quando, em clima de grande emoção, a Câmara Municipal se reuniu no dia 21 de janeiro de 1955 para apreciar e votar as contas do prefeito, relativas ao ano anterior. Atestando o clima de intranquilidade instalado, os vereadores desaprovaram as contas apresentadas, e, ato contínuo, e por proposição oral do vereador Zeca Belizário, decidiram iniciar a votação do afastamento do prefeito eleito, por alegada improbidade administrativa. Como a oposição contava com maioria na casa, o prefeito Gerson Sereno foi afastado do posto, tendo sido substituído pelo então presidente da Câmara Municipal, Sr. Ilídio Fialho de Souza, após lavrada Resolução por aquele sodalício.

O ato, que mais tarde seria considerado irregular pela justiça, fez com que o Sr. Ilídio Fialho ficasse no cargo de mandatário de 21 de janeiro de 1954 a 10 de abril de 1955, quando Gerson Sereno reassumiu o seu mandato acobertado por uma liminar. Voltava Gerson Sereno ao lugar que lhe pertencia por direito. E ficaria lá até o fim do seu mandato, encerrado pouco tempo depois deste último imbróglio. Perdeu, mais uma vez, parte considerável do seu mandato conferido pela soberana vontade do povo de Presidente Dutra, uma vez que, na qualidade de vice-prefeito eleito, ainda demorou a assumir o cargo vago em decorrência da renúncia do prefeito José de Freitas Barros, o Zeca Freitas. Essa situação será relatada em outra crônica.

Gerson Sereno, ou Janico, como era chamado carinhosamente pela população, desenvolveu intensa atividade comercial durante toda a sua vida, constituindo-se em um dos empresários mais importantes da região, e dedicou-se a ela até próximo do seu falecimento. Outro membro da família, Noveli Sereno, filho de Nelson, também ocupou o cargo de vereador no município por algum tempo.

Irene de Oliveira Soares
O município ainda contou com um Sereno na chefia da administração, a prefeita Irene Soares, viúva do ex-prefeito Remy Soares. Expoente desta família que participa ativamente dos embates políticos desde a época da criação do então município de Curador, Irene é sobrinha dos ex-administradores Nelson e Gerson Sereno, e embora tenha contado com a força do nome do ex-prefeito Remy Soares, traz consigo o DNA dos Sereno. Governou o município por dois mandatos sucessivos, de 2005 a 2008, e de 2009 a 2012, e deixou extensa folha de serviços prestados. Ainda atua fortemente na política municipal e tem seu nome ventilado para as próximas eleições, seja como candidata, seja como apoio importante para os candidatos da oposição.

Nelson e Gerson Sereno, que me lembre, possuíam outros irmãos que se dedicaram ao comércio, entre eles Celso e Apolônio, mas estes não enveredaram pelos caminhos da política.


4 comentários:

  1. Excelente texto, parabéns! Como neto do Gerson Sereno tive a oportunidade aprender muito, lições práticas da vida e dos negócios.

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    1. Teu Avô me repassou informações importantes sobre a história do nosso PK.Já estava com a saúde debilitada, mas com a memória lúcida. Fornece-me também algumas fotos importantes. Aliás, se tiveres alguma fotografia de valor histórico contigo ou com algum familiar seu, ficarei muito agradecido em recebe-la para futura publicação. Obrigado pelos elogios ao texto, esforcei-me para ser leal aos fatos e a história dos meus biografados.

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  2. Teresinha Meneses Sereno30 de junho de 2016 17:03

    As pessoas nem param para pensar que existe um passado, com coisas esteticamente bonitas, que contam as nossas origens, a nossa história. Você nem imagina, Araujinho (permita-me que assim o chame, porque foi assim chamando-o que lhe vi nascer e crescer em nossa Presidente Dutra, onde éramos vizinhos) o quanto é importante este seu trabalho de construtor da história de nossa terra Natal. Talvez não existam palavras suficientes e significativas que me permitam agradecer você com justiça, com o devido merecimento. Mas, receba nosso carinho, nosso reconhecimento e agradecimento pelo trabalho competente e dedicado de preservação e recordação do nosso passado. Acima de tudo você realiza um trabalho de alto cunho social porque refletir sobre a memória, além de valorizar o passado e seus legados, é uma forma de unir os presidutrenses. Ficamos-lhe penhoradamente agradecidos pelo artigo. Obrigada.

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  3. Dona Teresinha, pesquisar, escrever e depois manter contato com os oriundos do meu querido Curador, é o que me mantém em contato diário com esta terra em que primeiro vi a luz do sol. Obrigado pelas palavras elogiosas. Saiba que tenho também pela senhora um enorme afeto, aumentado pela forma carinhosa e disponível com que recebeu na sua casa quando estava em busca de informações para escrever o meu livro. Quero lhe antecipar que cometi um pequeno, mas significativo, erro quando escrevi esta crônica sobre a família. E exatamente sobre o seu marido: fui levado por um grave defeito de pesquisador descuidado.Encontrei documentos que provam que o prefeito Nelson Sereno assumiu mais de uma vez o cargo de prefeito. E renunciou ao mandato em decorrência de um acordo firmado com o governador do estado e a oposição do Curador para que encerrasse o seu segundo período à frente do município em prol da garantia de eleições mais tranquilas e seguras, permitindo que fosse nomeado o Ten. Coronel Antenor Dias de Carvalho,que ocupava à época cargo equivalente ao de Secretário de segurança, para conduzi-la.Confiei em trabalhos anteriores e não aprofundei as minhas pesquisas. Contudo, como sempre faço, voltei a cotejar todo o material que tenho em mãos, colhido junto ao arquivo público do Maranhão, e descobri o equivoco. EM VERDADE NELSON SERENO ESTEVE POR DOIS PERÍODOS COMO PREFEITO, SUBSTITUINDO NAS DUAS VEZES A VALDEMIR FALCÃO. PORTANTO, ESTEVE POR UM PERÍODO MAIOR COMO PREFEITO DO CURADOR. VOU FAZER A RETIFICAÇÃO NO TEXTO.
    UM FORTE ABRAÇO
    J.P.DE ARAÚJO FILHO.
    PS. SINTO-ME LISONJEADO EM SER CHAMADO PELA SENHORA COMA A MINHA MÃE ME CHAME AINDA HOJE.

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