quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Os Meninos Gibizeiros da Praça Pedro II (2ª Parte)

Antiga banca de revistas O Dentinho


José Pedro Araújo
Tempos atrás redigi uma crônica sobre um hábito que só encontrei em Teresina, quando para esta cidade eu vim com o intuito de continuar os meus estudos: a leitura de gibis nos cinemas antes do início das sessões. Falei ainda que as revistas eram objeto de troca ou simples aquisição em bancas improvisadas sobre caixotes de madeira e postadas em frente aos cinemas. Somente para refrescar a memória dos que já leram o texto ou para informar aos que não o fizeram: o indivíduo chegava para assistir a um determinado filme já trazendo a sua revista em quadrinhos debaixo do braço para a troca por outra não lida com os gibizeiros. E depois de alguma negociação, deixava com o dono da banca um troco, a torna, além do seu gibi, e adentrava ao cinema para aguardar o início da projeção do filme. E, enquanto isto, na companhia de inúmeros outros cinéfilos, passava a ler a sua revista. Era um hábito, fazia parte do programa.
Pois bem. Ontem de manhã fui ao centro da cidade para resolver alguns negócios e, terminada a minha obrigação, resolvi dar uma passadinha na banca de revistas usadas do Dentinho para um dedo de prosa, mas também para garimpar alguma novidade. Saí depois com algumas revistas do Tex, que reservo para ler naqueles momentos de total descontração, quando até mesmo lê um bom livro é tarefa oficial. Esses momentos pedem algo mais leve, menos sério, então saco um gibi da prateleira, que pode ser um Almanaque Disney, um Chico Bento, ou um cowboy estrelado pelo Tex Willer e seu pards. Nos últimos tempos tenho procurado os sebos para adquirir revistas usadas, tanto pelo seu valor, quanto pela sua ausência nas bancas de revistas novas, ou até mesmo por estarem fora de publicação.
Dentinho, de acordo com o que me informou, é um dos últimos remanescentes de um grupo de cerca de 20 meninos que iniciou aquele negócio de vender revistas usadas na porta dos cinemas 4 de Setembro ou do Rex. O outro remanescente é o Joel, dono de várias bancas de revistas espalhadas pela cidade. Só que o Joel, desde muito tempo, migrou para a atividade das revistas novas, ficando apenas o Dentinho como o último remanescente daquela turma, ao lado de alguns outros que se iniciaram depois no mister. Dentinho é um sujeito alegre, boa prosa, que acompanhou o desenvolvimento da cidade de um ponto de observação muito bem localizado, pois situou a sua banca quase defronte ao palácio do governo, o Palácio de Karnak. E nesses últimos 50 anos, acompanhou as transformações pelas quais a cidade passou, inclusive, a migração da maioria das famílias que residiam no centro, para a zona leste.
Espremendo a memória, Dentinho, sessentão, cabelos quase completamente brancos, relacionou-me o nome de quatorze daqueles garotos que começaram a negociar revistas usadas, lá pelos idos de 1964: Pitica, Gobá, Magrelo, Magrão, Preto, Preto Prudêncio, Macaco, Pelé, Magrinho, Crente, Bode, Pixico, Joel, e ele próprio.
Uma curiosidade: ninguém ali era conhecido pelo nome de batismo. Todos eram chamados pelo apelido, de forma que ninguém lhes sabia os nomes próprios. Isso, até hoje em dia. Destes, como falei, apenas ele continua a operar no ramo de revistas usadas ali em volta da praça.  Outros garotos e adolescentes também operavam algum tipo de atividade no local. Dois desses grupos eram formados pelos vendedores de maçãs, naquele tempo totalmente importadas da Argentina, pois o país ainda não as produzia em escala comercial, e os flanelinhas. Mas o grupo mais coeso, que trabalhava junto, e se divertia também em sociedade, era o dos meninos gibizeiros. Como também já afirmei na crônica anterior, as bancas eram improvidas sobre caixotes de maçãs argentinas, as “Manzanas Argentinas”. E Sobre eles estendiam-se o papel arroxeado que acondicionava os frutos, como se fora uma toalha. Era assim que as revistas eram expostas e apresentadas para o público.
Afirmou-me também o jornaleiro que muitos daqueles meninos vieram do interior para Teresina, e se estabeleceram na praça por falta de outra ocupação. Foi este o caso dos três irmãos, Gobá, Magrelo e Magrão, originários de uma cidade do médio Parnaíba, talvez Água Branca, e que, anos depois, voltaram para lá. Aliás, daquele grupo, muitos foram embora, passaram a desenvolver outras atividades, como o garoto conhecido como Macaco. Sobre este, Dentinho me contou uma história triste, que repasso a frente. Macaco, já rapaz, foi acusado de ter participado de um arrombamento ocorrido na Lanchonete Americana, situada em uma das esquinas da praça, e também ponto de encontro da juventude daquela época. Mantido encarcerado por alguns dias, o rapaz foi solto por falta de provas, e resolveu adotar uma postura diferente para a sua vida. Ao ser libertado, entrou na loja Juçara, conhecida por vender roupas de boa qualidade, comprou algumas peças e, devidamente bem vestido, procurou Dentinho para lhe vender todo seu estoque de revistas usadas. Surpreso com o gesto, Dentinho lhe perguntou sobre o porquê daquele gesto. E recebeu como resposta: vou mimbora daqui!
Mostrando que ainda carregava o peso daquela injustiça praticada contra o amigo de tantas passagens, Dentinho me afirmou, com voz entristecida e saudosa, nunca ter visto, durante este tempo todo, alguém tão correto e de palavra quanto o amigo Macaco. E arrematou: “disse-me ele naquela ocasião: Dentinho, se a minha alma tiver vergonha, ela nunca mais botará os pés nesta cidade quando eu morrer”. E, de fato, ele nunca mais voltou a Teresina. Sabe-se que foi visto algum tempo atrás chefiando o departamento de crédito de uma grande loja em São Paulo. Continuava no ramo do comercio, mas Teresina nunca mais o viu.
Joel, como já falei, é um comerciante bem posto em Teresina, e Dentinho, o único a permanecer no ramo de revistas usadas, também leva uma vida de relativo conforto, residindo em um sítio que ele montou para passar os últimos anos da sua vida em contato com a natureza. Mas, todos os dias, desembarca nas imediações da Praça Pedro II para exercer o seu ofício de vendedor de revistas e livros usados. É um gibizeiro convicto.

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