quarta-feira, 9 de agosto de 2017

CURADOR ESPOLIADO

Mapa de Presidente Dutra - MA


José Pedro Araújo

Desde muito tenho pensado em escrever sobre esse assunto que teve um peso considerável no desenvolvimento social e econômico do velho e querido Curador: a criação e o desmembramento do município de Tuntum. Mas, antes de entrar no assunto principal, deixem-me tergiversar um pouco e enveredar pelos caminhos tortuosos e estreitos da região conhecida como Japão maranhense. O nome se deu em consequência da sua localização no mais profundo sertão, distante de tudo, especialmente da capital do estado, dificuldade acentuada pela falta de acessos. Tanto por terra, à falta de uma estrada, quando pela ausência de um rio navegável, quer permitisse se chegar a ela, a tarefa de lá chegar era ingrata.
O Curador era o centro dessa região recoberta por um tapete verde formado por uma floresta portentosa e quase impenetrável. Embaixo dela, todavia, dormia desde a existência do mundo, um solo ubérrimo, escuro, receptivo às sementes de quaisquer cereais, especialmente daqueles adaptados ao clima tropical. E tudo isso sob as bênçãos de chuvas benfazejas e em quantidades apropriadas ao regadio. Era assim que todos os pesquisadores e aventureiros que tiveram a felicidade de passar por ali descreviam a boníssima região do Japão.
O Curador, portanto, àquela época, pertencia territorialmente ao município de Barra do Corda, cuja sede distava longos 177 quilômetros em razão da tortuosidade do seu caminho de acesso.  Hoje, depois do traçado novo da estrada conhecida como central do Maranhão, essa distância não passa de 98 quilômetros. O Curador, já desde então, transformou-se num entroncamento rodoviário importante. E por conta disso, não restou outra saída aos homens que administravam o estado naquela época a não ser a nossa separação do município tronco, acelerando o desenvolvimento da região. Com a criação do município em dezembro de 1943, destinaram a ele uma área esplêndida e vasta, de 6.675 km², quase a área de um estado.
Para demonstrar o tamanho do território que abrangia o novo município do Curador, basta falar sobre os nossos confinantes: Barra do Corda, desde as margens do Rio Alpercatas até a foz do rio Flores. Deste ponto, a norte, como o município de Pedreiras desde a dita Foz, seguindo-se pela margem direita do Rio Mearim, até o Divisor de Águas Itapecuru-Mearim, no município de Codó, ao leste. Deste ponto, seguindo-se para o sul, limitava-se com o município de Colinas desde o divisor de águas Itapecuru-Mearim, até o Rio Alpercatas. E, finalmente, com o município de Mirador, seguindo pelo Alpercatas até o ribeirão Maravilha, fechando assim o perímetro na confluência com Barra do Corda. Era esse, portanto, o território do novo município do Curador que passava a contar com uma população de 36.687 habitantes.
Mas então sobrevieram os problemas políticos, todos querendo o poder de mando do novel município. Depois de acirrada disputa política e judicial, assume o primeiro prefeito, Ariston Leda, chefe de uma família que deteria nas mãos o poder administrativo por muito tempo. Veio o segundo prefeito, José de Freitas Barros, que logo renuncia, e em seguida Gerson Sereno. Nesse período, como já descrevemos aqui nesse espaço, travou-se uma luta pela responsabilidade dos destinos do Curador que terminou por descambar em violência pura e explícita. E enquanto isso ocorria, Ariston Leda que havia sido eleito vereador, e depois assumira a presidência da câmara municipal, trabalhava silenciosamente pela criação do município de Tuntum, região onde morava e detinha suas fazendas. Tuntum até então não figurava como uma povoação importante, tanto que não passou nem pelo processo de transformação em vila ou distrito. Aliás, a povoação mais importante da região que passou a ser conhecida como Tuntum era São Joaquim dos Melo. Mas a região que abrigava os Leda era outra e eles tinham peso político, como veremos.
Enquanto se trava renhida disputa pelo poder de mando do Curador, Ariston Leda ia dando azo à sua ideia de criar um novo município para si. Com forte influência no governo de Eugênio Barros e com um aliado de peso na Assembleia Legislativa do Estado, o deputado Eurico Ribeiro, seu sobrinho, o político foi armando a sua teia e logo conseguia o seu objetivo: criou-se o município de Tuntum, destacando toda a sua área territorial do de Presidente Dutra. Estaria tudo bem se com a sua criação não se suprimisse a maior parte do município-tronco. Tuntum levou 79% do território, ficando Presidente Dutra com apenas 21%. Situação inédita esta. Sempre que se cria um novo município, aquele que sofreu a supressão fica com a parte  maior do seu território, diferente do caso aqui tratado. Quando o Curador foi destacado de Barra do Corda, por exemplo, o município tronco ficou com uma área de 13.838 km², enquanto que ao novo foi destinado apenas 6.221 km². Fez-se justiça, a meu ver.
Mapa de Tuntum - MA
O professor e historiador tuntuense, Jean Carlos Gonçalves, em artigo publicado no blog Bate Tuntum, assim se referiu ao caso da divisão territorial em razão da questão levantada no nosso livro “Do Curador a Presidente Dutra – história, personalidades e fatos”: “O cenário de rivalidades e disputas não só ajuda a compreender o processo de emancipação de Tuntum na perspectiva do desmembramento, mas de entender como tal processo foi caracterizado por um aspecto bastante singular de nossa história: O município criado possui uma extensão territorial superior ao “Município Mãe”. Diante dessa conjuntura, aproveitou-se muito bem Ariston Leda, que após o término de seu mandato como prefeito, conseguiu se eleger para vereador nas eleições de 1950, ocupando inclusive, a presidência da Câmara. Desse modo, Ariston se colocava como uma importante liderança local e com fortes relações com o governador Eugênio Barros e também com o Senador Vitorino Freire que a época reinava absoluto na política maranhense. Somado a isto, o quadro de turbulências inclinaria Ariston a articular um plano para separar Tuntum de Presidente Dutra. De outro lado, Eurico Ribeiro via com bons olhos a separação, pois, tal medida lhe daria amplo controle do eleitorado do novo município”. Dito isto, o historiador concluiu a informação: “O popularmente conhecido Mestre Elias, antigo mecânico da cidade e que chegou à Tuntum em 1954 relata: “Enquanto os Serenos e os Gomes de Gouveia travavam o embate pelo controle do poder, Ariston contratou secretamente um topógrafo em São Luís para percorrer e traçar as linhas limítrofes do mapa que viria constituir no território do município Tuntum”.
E foi assim que as disputas políticas levaram o Curador a perder parcela importante do seu território para o novo município criado, o que muito influiu no seu desenvolvimento socioeconômico, em razão da apropriação, a nosso ver indevida, da fração maior de suas terras mais produtivas.




Nenhum comentário:

Postar um comentário