sábado, 21 de outubro de 2017

O QUE VOCÊ SABE SOBRE MURILO BRAGA?




José Pedro Araújo

Recentemente relia um dos clássicos da literatura brasileira, MENINO DE ENGENHO, de José Lins do Rego, um dos ícones da literatura nacional, quando me despertou a vontade de saber a quantas andava o Engenho Itapuá, lugar que serviu de ambiente para o romance do consagrado autor. Depois de uma rápida busca no Google, deparei-me com um documentário de mais de uma hora sobre o autor, e também sobre o velho engenho da sua infância. Com tristeza verifiquei que o Itapuá não passa hoje de um conjunto de escombros, e as terras que viviam cobertas por canaviais, hoje estão em mãos de um grupo de trabalhadores rurais, expropriada que foi pelo governo federal. O documentário traz uma visão completa sobre a vida do grande escritor regionalista e começa com um dos seus organizadores em visita à cidade do Pilar-PB, terra natal do escritor.
Pilar é uma cidadezinha de pouco mais de 11.000 habitantes, que já teve a sua importância no auge do ciclo da cana-de-açúcar; vetusta a mais não poder, uma vez que fora fundada em 1758, hoje não passa de uma cidadezinha perdida nos ermos sertões nordestinos, apesar de já mesmo merecido uma música da lavra de Luiz Gonzaga e seus parceiros: Moça de Feira.
De microfone na mão, o documentarista foi em busca de um colégio que homenageava o conterrâneo: Unidade Escolar “José Lins do Rego”. E passou a entrevistar os alunos que naquele instante saiam de lá, possivelmente após o término das aulas.
Curioso, o documentarista perguntou ao primeiro aluno se ele sabia quem havia sido José Lins do Rego. O adolescente respondeu que não. O repórter então perguntou ao segundo aluno que saia, e obteve a mesma resposta. Ele também não sabia quem fora o homem que emprestava o seu nome à escola, estampado em letras garrafais no frontispício logo a sua frente. Depois de indagar a vários alunos, e obter sempre respostas negativas, resolveu o documentarista sair pela cidade à procura de alguém que soubesse algo sobre o ilustre filho da terra. E ao abordar um jovem, logo próximo, trajando a farda do colégio, recebeu a resposta que tanto almejava: ele sabia quem fora José Lins do Rego. Disse ainda que era até seu parente, declinando o seu nome a pedido do entrevistador. Animado, o visitante perguntou se ele já havia lido algum livro do parente; Ele respondeu que havia começado a ler um, mas não havia terminado. Foi uma ducha de água fria.
Foi depois de ver o documentário sobre esse autor nordestino que revolucionou a literatura com a sua forma seca, direta, mas que abordava temas regionalistas de grande importância, como o ciclo da cana e o cangaço, que me ocorreu escrever a presente crônica. E antes de iniciá-la, eu já esclareço: somente quando iniciei minhas pesquisas para o livro “Do Curador a Presidente Dutra – história, personalidades e fatos”, soube quem havia sido o homem que deu nome ao colégio em que fiz parte significativa do meu curso primário: Dr. Murilo Braga.  Construído na gestão do prefeito Gerson Sereno, nos idos da década de cinquenta, o grupo escolar Dr. Murilo Braga continua sendo uma referência no ensino público da cidade de Presidente Dutra. Quando para lá me transferi, por volta de 1960, deslumbrei-me com o tamanho do prédio e a quantidade de salas de aula, oriundo que era da pequenina Escola Rural, e depois da União Artística e Operária, ambas situadas na praça do mercado. Naquele tempo a diretora do Murilo Braga era a professora Mariazinha Barros, e a minha primeira professora naquele colégio foi a jovem Marli Sá, uma Ludovicense, cunhada do Ailton Sereno, figura muito conhecido na cidade. 
A professora Marli era uma pessoa admirável, bonita, doce e muito atenciosa, que me adotou logo de cara a ponto de algumas vezes me convidar para lanchar na pequena lanchonete que existia na frente do colégio. O lanche era café com bolo frito ou chapéu de couro, invariavelmente, e eu sempre dava um jeito de ficar ao lado dela logo que a campainha anunciava o horário do recreio. Coisa de menino pidão.  E por ser o aluno mais novo da turma e, modéstia às favas, tirar sempre algumas das melhores notas, ganhei a amizade da minha professora e até uma fotografia sua, mimo que até poucos anos ainda tinha comigo. Ganhei também o epíteto de caçula. Dona Marli era muito culta e gostava de demonstrar isso ao entoar, em um francês que acredito perfeito, e com uma voz limpa e aveludada, o hino nacional daquele país, a Marselhesa. Só não me recordo se ela me falou quem foi o cidadão que deu nome àquela escola, o tal doutor Murilo Braga.
Acredito até que poucos alunos hoje, depois de indagados, responderiam saber quem de fato foi o homem que emprestou o seu nome ao colégio em que estudam ou estudaram. Vou mais além: aposto que poucos sabem quem foi o homem que deu nome a uma das principais artérias da cidade, a Rua Magalhães de Almeida, ou mesmo a sua cidade, o tal Presidente Dutra. Creio que já passa da hora de os nossos educadores se preocuparem com coisas como essas. Discorrer sobre os nossos principais autores, descrever quem foi o cidadão que deu nome ao colégio em que ensinam, essas coisas. Melhor do que falar sobre o Presidente americano ou Francês, ou mesmo Fidel Castro ou Che Guevara, tão ao gosto de muitos. Hoje os políticos passaram a nominar os prédios públicos com os seus próprios nomes ou o de alguém da sua família, ou mesmo um político do seu agrado, e isso talvez desestimule a maioria a falar sobre o assunto. Mas já foi diferente.
O tal doutor Murilo Braga, volto ao assunto, foi um advogado piauiense, nascido em Luzilândia em 1912, que teve grande importância na educação do país, e que passou a dar o seu nome prédios escolares em quase todos os estados da federação. Murilo Braga foi diretor do Instituto de Educação do MEC, diretor do Instituto de Estudos Pedagógicos do mesmo ministério e diretor Geral do DASP, órgão federal responsável por todos os concursos para preenchimentos das vagas do serviço público no Brasil, entre outros cargos por ele ocupados. Deve ter sido o responsável pela liberação dos recursos para a construção do nosso querido e importante Grupo Escolar Dr. Murilo Braga, dai merecer a homenagem.
Finalizo este texto afirmando que, talvez por conta da vergonhosa participação dos alunos do município no documentário acima referido, a secretaria de educação municipal do Pilar, Paraíba, realizou em 2014 um desfile cívico em homenagem ao filho da terra, José Lins do Rego. De estranho apenas o fato de ter sido outro colégio quem homenageou o escritor nascido no Pilar, e não o colégio estadual que leva o seu nome. Mas isso é o de menos.

3 comentários:

  1. Excelente, José Pedro. O que mais ocorre é se estudar em um Colégio por bastante tempo e sequer ter uma ideia da pessoa que deu nome ao Educandário. Se cada aluno soubesse um pouco do personagem que deu nome ao seu Colégio já seria um bom começo. Que bom lembrar do extinto DASP. Fui Datilógrafo do extinto DNER, por intermédio de concurso do público, realizado pelo DASP.

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  2. È verdade, Dr. Almeida. Nas escolas ensinam muito sobre personalidades de outras terras e muito pouco aprendemos sobre os nossos ícones. o DASP era de um tempo em que não se terceirizava tudo, até a realização dos certames públicos. Estão ai os exemplos de venda das vagas nos concursos públicos.

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  3. Infelizmente a Educação brasileira é uma lástima. Ninguém se preocupa com a biografia de ninguém. Eu morava ainda em Teresina quando a Escola Murilo Braga começou a ser construída aí no Marquês de Paranaguá. Se essa mesma pergunta for realizada lá, possivelmente ninguém responderá. Aqui em Aracaju no bairro Farolandia tem um colégio Ministro Petrônio Portela e na cidade de Itabaiana há outro colégio Murilo Braga. É fato que nossos políticos são cabotinos por excelência. Adorei seu artigo. Nem produzido e bem acabado.

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