segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O Jardim de Minha Mãe

As Jardineiras: Minha mãe, a esquerda, e minha tia.



José Pedro Araújo

Nos sertões de dentro, última fronteira colonizada no centro do Maranhão, região também conhecida como Japão, dado a sua distância e dificuldade de acesso, está encravada a terra da qual sou filho: o Curador, hoje Presidente Dutra. Aliás, quando lá irrompi do ventre da minha mãe, já haviam mudado o seu nome para homenagear um general presidente, Eurico Gaspar Dutra. Mas, gosto do termo Curador. Sinto-o mais palatável, sonoramente mais bonito, e por isso chamo tanto por ele nas minhas crônicas sobre a terrinha.

Faço esses primeiros comentários que tomou um parágrafo inteiro para dizer que, colonizada por nordestino do leste da região, especialmente por cearenses e piauienses, as ruas do Curador possuem um casario igual àquele encontrado em todas as cidades interioranas nordestinas: casas simples, paredes de tijolo comum ou adobe, em geral com duas águas, às vezes um platibanda com algumas calhas em forma de biqueira “boca-de-jacaré” para escoar a água da chuva, e que atestava um pouco do poderio financeiro do proprietário do imóvel. Essas residências possuem fachada rente à calçada, sem espaço para jardim ou terraço. O jardim, quando possui, é interno, na maioria das vezes no próprio quintal, onde se cultivam plantas ornamentais comuns, quase nativas da região, mas de cuja origem todos, indistintamente, ignoram.

O Jardim
Minha mãe também possuía, e ainda possui, o seu jardim. Interno como a maioria, mas não no quintal. Fica em um espaço reservado para ele, ao lado da casa, que o circunda por três dos seus quatro lados. Quase como uma vivenda espanhola, com o pátio interno com um poço e um chafariz. As vivendas espanholas, não o jardim da minha mãe. Diziam os que tinham a sorte de conhecê-lo, que minha mãe tem a mão boa para as plantas, pois elas crescem vigorosas, folhas lustrosas que demonstram a sua perfeita alimentação, e emitem flores belas e viçosas. Creio ser verdadeira a afirmação. E isso era um hábito familiar, pois minha tia Feliciana, única irmã, dez anos mais velha, também cultivava em jarros o seu jardim particular. Não estou falando daqueles jardins suntuosos que vemos nos filmes, e nos quais o dono nunca põe as mãos, posto serem cultivados por jardineiros profissionais, pagos regiamente para cuidarem unicamente dele. Estou falando de espaços simples, mas bem cuidados, cuja adubação é mantida com esterco de gado, pois quase não tínhamos ovinos ou caprinos na região, e com paul, um adubo extraído da palmeira de babaçu em decomposição, artigo produzido com muita fartura na região.

Instalado ao lado da nossa sala de jantar, corriqueiramente sentíamos o aroma suave de alguma flor que desabrochava em sua plenitude naquela manhã. O jasmim-laranja, que ficava vizinho à uma dos janelões, emitia o seu aroma gostoso quase sempre, inundando tudo com o seu adorável cheiro. Mas não somente ele. O bugarin de pétalas brancas e sedosas rivalizava com ele em potência e aroma, e misturava seu cheiro ao daquele em pleno ar. As roseiras, bem estrumadas, diversificadas em variedades e cores, enfeitavam o espaço com o seu belo colorido, e muitas ainda soltavam o seu cheiro característico pelo ar também. A mais comum era a rosa Paruara, bela, volumosa e aromática. Mas tinha ainda a Rosa Menina, miudinha, branca ou rósea, a Rosa Mariquinha, cujo nome era uma homenagem à avó de mamãe, a Rosa Cachopa, a Rosa Amélia, e tantas outras que não lembro mais o nome!

As rosas, aliás, são cultivadas e elogiadas tanto pela sua beleza, quanto pelo seu aroma. E são as mais encontradas em jardins particulares. Mas existem também aquelas produzidas em grandes estufas industriais. Estas perderam o cheiro em favor da durabilidade, foi o que me disse certa vez um florista que visitei em um desses grandes roseirais instalados na serra da Ibiapaba, no Ceará.

Mas, voltando ao jardim da minha mãe, lá não se cultivava apenas roseiras, lá havia também as Papoulas, rosa ou vermelhas, com seus pistilos grandes e apontados para o chão; os Cactos de vários formatos e tipos, a Açucena, as Palmeirinhas decorativas, uma planta chamada Coelho Neto, com suas flores em cacho, a Onze Horas, a Boa Tarde e a Boa Noite; pés de pimenta decorativos, uma flor amarela cuja rama se alastrava em todas as direções, conhecida como Pente-de-macaco, Hortênsias, Mini Margaridas, Helicônias, Cravos, além de uma infinidade de plantinhas de flor miudinha que minha mãe foi encontrar em lugares por onde passou. Admirava-as, e depois retirava um dos seus galhos e produzia uma muda para si. Produzir mudas, também era uma das suas especialidades. Quando via uma plantinha, ou admirava uma florzinha que não possuía, já pedia licença para a retirada de um galinho e, dali a poucos dias, um novo jarro ocupava o seu espaço no seu jardim. Mãos de fada? Talvez mãos cuidadosas, experientes e dedicadas.

A rega daquelas plantas era um espetáculo diário que culminava com o levantar de cheiros de flores, de terra molhada, em um esvoaçar de abelhas, e insetos vários, que minha mãe adora fazer, em geral à tardinha, para que suas queridas amigas pudessem passar a noite imunes à sede provocada pelo nosso verão puxado. Curioso, certa vez perguntei se sabia de onde vinham aquela variedade de plantas, e recebi uma negativa resposta. Ninguém por ali sabia. Parti para a pesquisa e vi que algumas, como a Papoula, já era cultivada pelos sumérios há mais de 5.000 anos. E que, a maioria, tinha origem em outros países. Como a Rosa Dália, provinda do México, cultivada pelos índios desde épocas imemoriais. Muitas foram trazidas pelos colonizadores portugueses, obtidas em suas andanças pelo mundo na época dos descobrimentos. Da Ásia, da África, das Américas, do norte, central e do sul, de tantos lugares distantes, mas que encontraram solo propício e mãos talentosas no sertão mais profundo do Maranhão e em outras partes deste imenso Brasil.


Um tanto debilitada nesses seus quase noventa anos de vida, minha mãe teve que abandonar as suas plantas aos cuidados de uma nora, uma vez que a sua casa se acha fechada e ela está vivendo com os filhos nesse período. Mas sempre que algum deles ou uma de suas noras ligam de P. Dutra para falar com ela, pergunta, em primeiro lugar, como está o seu jardim, se tem sido aguado direitinho, essas coisas.

Aposentado, tentei cultivar algumas roseiras. Não é coisa fácil de fazer, mesmo para mim que tenho como profissão o amanho da terra e o cultivo de plantas. Não obtive resultados muito favoráveis. Realmente, isso é coisa para gente mais dedicada e experiente.

  

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Interventor É Nomeado Para Presidir as Primeiras Eleições no Curador

Interventor do Curador, Antenor Dias de Carvalho


José Pedro Araújo

A história do meu Curador está intimamente ligada a mim, à minha vida, mesmo estando distante do local onde abri os olhos pela primeira vez para a luz da vida, por isso vivo imerso em suas lembranças. Por isso também, resgato tantos fatos lá acontecidos e, depois, os publico aqui nesse espaço. Agora mesmo, passando em revista um trabalho ficcional que pretendo publicar proximamente, veio-me à mente uma parte importante da sua história, aquela que diz respeito às primeiras eleições ocorridas após a sua emancipação política.

Não tenho em mãos registros sobre o que digo nesse parágrafo, mas acredito, pelo tanto que as paixões elevaram a temperatura política no novo município, que as disputas pelo poder no velho Curador antecedem em muito ao período da sua transformação em município. Os primeiros registros existentes nos dão conta do poderio de uma única família, os Gomes de Gouvêia, e até mesmos dos Leda, ligados a esses últimos, mas não há qualquer ocorrência sobre disputas travadas por opositores políticos na época da Vila do Curador. Registros de 1921 já apontavam o coronel Sebastião Gomes como subdelegado do distrito, no governo Urbano Santos. Entretanto, todas as pendengas políticas registradas tiveram início após a criação do novo município em 1943. É bem verdade que havia uma grande alternância na nomeação do subdelegado de polícia nomeado para a vila, ocasião em que o Coronel Sebastião Gomes era substituído no cargo pelo senhor Virgolino Cirilo de Sousa, para, pouco tempo depois, retornar para aquele mesmo posto. Isso talvez ateste que já havia um princípio de embate entre dois grupos pela hegemonia política local, mas não existem anotações, nem mesmo registros na imprensa da capital falando explicitamente sobre isso, e muito menos na memória oral dos velhos habitantes. Pelo menos nunca conseguiu levantar isso na sua inteireza.

Por outro lado, o Curador já era assunto que, vez por outra, ocupava a capa de um jornal na capital, mas por outras razões: a política estadual. Por volta de 1921, por exemplo, quando o caso Manoel Bernardino de Oliveira ganhou as manchetes dos jornais da capital – posicionando-se uns contra, e outros a favor -, o velho Curador já aparecia como um lugar violento, em que tudo era resolvido sob a égide dos trabucos e das balas. Nesse período, o longevo coronel Sebastião Gomes já ditava as regras como já tive a oportunidade de aqui mesmo neste espaço relatar. Era o coronel contra os “revoltosos”, como se dizia na época. Mas, o que estava em jogo era uma luta surda e violenta pelo poderio político do Estado do Maranhão. E o Curador se achava no centro dos episódios mais violentos, uma vez que a base política de Bernardino, representante dos oposicionistas da capital no alto sertão, era o vizinho povoado da Mata do Nascimento.

Portanto, embate político mesmo, com duas alas em constante disputa pelo poderio local, ocorreu quando houve a decretação da maioridade política do Curador, através do Decreto-Lei 820, de 30 de dezembro de 1943. Como era praxe, nomeava-se um interventor para dirigir os destinos do novo município, que normalmente vinha a ser uma autoridade estadual lotada na região e, via de regra, um coletor, figura onipresente em todas as povoações maiores. E isso se dava até a nomeação de um político, ou indicado político de algum grupo hegemônico com maior poder na capital.

Assim aconteceu no Curador. O primeiro interventor nomeado para dirigir os destinos do novo município foi o coletor de tributos estaduais, José Lúcio Bandeira de Melo. Com larga experiência administrativa adquirida ao tempo em que dirigira os destinos políticos de Itapecuru Mirim, como prefeito, município que administrou no quadriênio 1926 a 1930, achava-se ele no local certo, e no momento certo, escrevendo o seu nome na história de Presidente Dutra. José Lúcio, que deveria permanecer pouco tempo no cargo, demoraria nove longos meses na função. Muito tempo, se cogitarmos que fora nomeado apenas temporariamente para o cargo. Mas as disputas pela indicação do novo interventor devem ter sido travadas com todos os requintes de uma campanha eleitoral, pois o nome do escolhido demorou mais tempo do que o programado. Todos queriam um administrador à frente do novo município, lutando pela eleição do seu candidato. Mas, afinal, venceu o grupo encabeçado pela família Leda em conjunto com os Gomes de Gouvêia. 

O escolhido para ocupar a função foi o Major Valdemir Bezerra Falcão, já em avançada idade, mas com experiência administrativa, por já ter sido presidente do Conselho de Intendência do município sede, Barra do Corda. As disputas continuaram na capital, de modo que, poucos meses depois, era nomeado Nelson Sereno para o lugar de Valdemir Falcão. Havia se passado apenas cinco meses da sua nomeação. Ganhava a disputa o grupo de Virgolino Cirilo de Sousa. Mas a vitória seria efêmera. Pouco mais de dois meses depois voltava o Major Valdemir Falcão ao cargo de interventor. Aqueles que acham que acabou ali a disputa ferrenha pelo poder de mando no Curador, aguardem um pouco mais. O grupo ao qual Nelson Sereno pertencia, não satisfeito com a sua saída da interventoria, voltou à carga e conseguiu que ele voltasse ao poder, pouco tempo depois, numa reviravolta que somente atestava o embate político que era travado.

Mas as disputas não ficavam somente na substituição de um dirigente por outro, gerava violência, desassossego, extrapolava as raias da política partidária, do embate limpo e direto pelo voto. Essa parte, talvez um dia eu escreva sobre ela.

Nelson Sereno voltou ao cargo, mas a insegurança para as eleições que se avizinhavam permaneceu a mesma, forçando o Interventor Saturnino Belo a reunir, em São Luís, os representantes da situação e da oposição para um conversa reservada no Palácio dos Leões, cujo objetivo era encontrar uma saída para o problema enfrentado pelo município. Foram à capital, além do interventor municipal, Nelson Sereno, e provavelmente outras lideranças do seu grupo, seus adversários pelo PSD, Honorato Gomes e João Paulo da Silva. A reunião, segundo a imprensa da época, deu-se em clima de paz e concórdia. E dela resultou o impensável. Demonstrando grande altruísmo e preocupação com os rumos tomados pela campanha travada para prefeito municipal, Nelson Sereno apresentou ao interventor o seu pedido de renúncia ao cargo, em 03/12/1946, permitindo que este nomeasse para o posto alguém da sua estrita confiança.

E assim se fez. A escolha recaiu sobre o Tenente Coronel Antenor Dias de Carvalho, uma figura de destaque na segurança estadual que, por aquele tempo, ocupava no governo o cargo de Delegado da Ordem Política e Social, equivalente ao de secretário de segurança.

Antes deste desfecho, já com vistas ao apaziguamento e ao controle do pesado clima de insegurança reinante, havia sido nomeado para o cargo de Delegado de Polícia do Curador, o 2º Tenente Aristeu do Rêgo Maranhão, em decreto publicado no dia 12/09/1946, portanto, poucos dias antes da nomeação de Antenor Carvalho. O interventor Carvalho chegou ao município assessorado por uma força militar condizente com o tamanho do problema, e dirigiu as eleições marcadas para o dia 19/01/1947 com todo o cuidado, pois se achava munido de uma representação que equivalia a uma carta branca emitida pelo próprio interventor maranhense. Conduziu bem o processo, fez-se respeitar, implantou a tranquilidade necessária ao desenvolvimento do pleito, mas demorou-se pouco no cargo, pouco mais de um mês, apenas o tempo necessário para a realização do pleito, logo voltando para São Luís. A sua saída, como já vimos em crônica anterior, trouxe de volta a insegurança e a intranquilidade política.

Abertas as urnas e procedida a contagem dos votos, logo o velho problema voltaria a agitar o pequeno município. O resultado do pleito foi contestado, e o candidato declarado vencedor não conseguiu ser efetivado no exercício do primeiro mandato administrativo no velho e problemático Curador. A história desse pleito ainda precisa ser esclarecida em sua totalidade. Partidários dos dois candidatos concorrentes, Virgolino Cirilo de Sousa, declarado eleito pelo juiz que conduzia o pleito, e Ariston Arruda Leda, seu opositor, apresentam histórias diferentes para o mesmo caso. O Juiz Porciúncula de Morais, que presidiu ao pleito, declarou vencedor o coronel Virgolino Cirilo de Sousa. Já o TRE-MA, após contestação, conferiu a vitória a Ariston Leda. Aos historiadores só resta aprofundar as pesquisas e estudar o caso em sua profundidade.

As altercações políticas continuaram no Curador após a volta do Interventor militar para São Luís, mostrando que os problemas, na sua integralidade, nunca foram efetivamente resolvidos. Mais que isto, durou até poucos anos atrás, mas, finalmente, é página virada. Digo mais. As querelas políticas atuais, apesar de renhidas e muito disputadas, ficam no campo da troca de ofensas e do próprio embate de ideias, nunca mais foram travadas ao sabor da violência explícita. Menos mal. Em uma democracia as armas utilizadas são os discursos convincentes, as propostas bem elaboradas e a credibilidade dos oponentes.  O resto é selvageria, atraso.


quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Presidente Dutra - Mudança de Foco

Caminhões carregados de algodão em PK(Acervo Salomão Soares)


José Pedro Araújo

Aqueles caminhões de cores variadas e suas lameiras dependuradas na carroçaria com provérbios engraçados me atraiam a atenção de forma exacerbada. As placas fixadas nos para-choques indicavam a sua procedência diversa e também aguçavam a minha curiosidade e me levavam a perguntar como seria viver naquelas cidades. Não restavam dúvidas de que elas deveriam ser muito maiores do que o nosso Curador, afinal, já havia visto tantos carros cujas placas denunciavam a mesma procedência! Jaguaribe, Icó, Sobral, Cajazeiras, Patos, Caruaru, Arcoverde, Petrolina, Campo Maior, Piracuruca, Picos, eram tantos, com nomes tão vistosos! Os caminhões a que me refiro ficavam estacionados em frente às usinas beneficiadoras, enquanto aguardavam o carregamento de arroz. Corria um tempo em que este cereal era produzido em larga escala na região. Mas, deixa-me voltar ao começo, conferir fidelidade ao nome do texto posto acima.

A região de Presidente Dutra já foi celeiro dos mais importantes produtos de exportação agrícola do nosso estado, especialmente o algodão e o arroz. Talvez os dois mais importantes na pauta de exportação do Maranhão. O algodão, por exemplo, durante muitos anos, conferiu ao estado o título de grande exportador. Por conta disto, inúmeras fábricas de tecidos foram instaladas no seu território, especialmente em São Luís, Codó e Caxias. E a região de Presidente Dutra se sobressaia entre os maiores produtores desse produto. Em conversa com um dos maiores compradores do produto no município, o empresário Salomão Soares, obtive dele a informação de que a produção dessa pluma era tão grande na região, que um certo empresário de Codó fazia anualmente uma carreata com os caminhões que chegavam à cidade trazendo o tal produto, e que a fila se estendia por quilômetros de extensão. Comprovou o que dizia com uma fotografia, depois publicada por mim no livro sobre a história do nosso município. Nela é possível ver uma fila enorme de caminhões carregados com o produto, quase todos originários da região de Presidente Dutra e Tuntum.

Atestando a importância do algodão, o município contava com muitas bolandeiras para descaroçar e enfardar o produto. Nessa época, deu guarida a um grande número de famílias originárias do Rio Grande do Norte, estado com grande tradição no cultivo desse vegetal, e as assentou em terras pertencentes ao Sindicato dos Proprietários Rurais, situando-os na região da Caatinga de Porco. Parte dos seus descendentes ainda está na região, ficaram por aqui mesmo, assentaram-se definitivamente na terra que não contava com o fantasma da seca.

O mesmo acontecia com o arroz. Produto com larga importância na mesa do maranhense, era produzido em quantidades alarmantes e deu sustentação a economia local por muito tempo. E, nesse tempo, proliferavam as usinas de beneficiamento do produto. Mas, isso ficou no passado. 

O algodão sumiu dos nossos campos, perdeu importância. Desapareceu ao ponto de, hoje, não mais existir um único produtor conhecido na região. Quase a mesma coisa aconteceu com o arroz. Poucas famílias ainda cultivam essa gramínea entre nós, e mesmo essas a produzem apenas para o seu próprio consumo. Hoje, a maioria dos nossos agricultores prefere colher na mercearia mais próxima da sua casa, o arroz necessário para o seu dia-a-dia. O produto consumido por nós vem de regiões tão distantes, como Santa Catarina e Rio Grande do Sul, ou mesmo do Tocantins. Os caminhões agora aportam por aqui para trazer o produto antes tão presente nos nossos campos e não para adquiri-lo. Para alguns críticos, isso se deu em função da invenção das tais bolsas gratuitas que o governo federal distribui para a população. Ninguém quer mais rachar as costas no cabo da enxada para produzir o seu próprio sustento, e lançam mão do dinheiro recebido e vão direto ao comercio. Passaram de produtor a consumidor, pura e simplesmente. Produzir arroz ou algodão, agora é coisa para empresário. 

Isso trouxe um custo social alto para a população mais carente. Se não mais produzem, por que viver no campo? E assim migraram em massa para a cidade. Incharam a periferia, passaram a fazer ponto nos botecos que se espalharam pelas vielas mais pobres como a tiririca, planta invasora que atormentava a vida deles no tempo em que precisavam derramar o suor do próprio rosto para prover o sustento da sua família. Continuam tão pobres como antes, ou até mais. E ainda por cima assistiram impassíveis os filhos se consumirem em noites regadas a muita bebida, droga e prostituição. Eles haviam perdido o costume de laborar em busca do seu próprio sustento ou não aprenderam a fazê-lo. 

Hoje, a maioria desses jovens transita pelas ruas a ermo, sem ter nada para fazer, e alguns desandam a praticar toda a sorte de coisa ruim, tomam o que querem de quem tem na base da violência, para poderem fazer frente ao consumismo exagerado que aprenderam com as pessoas da cidade. Espalham a violência que, pouco depois, os transformam em vitimas também. A maioria tem a sua vida abreviada. Um dito popular afirma que “mente vazia é oficina do diabo”. Será que ainda temos jeito? 

Não é saudosismo, mas precisamos voltar à vida de tempos passados, quando colhíamos o feijão verde, o arroz, a abóbora, o tomate, a mandioca e o milho no nosso próprio quintal. A galinha era motivo de festa no almoço de domingo, e era servida ao molho ou assada no próprio forno “rabo quente”, criada e engordada no terreiro e não em industriais granjas onde hoje recebem o estimulo de venenosos hormônios para apressar o seu crescimento. Sem constar que produziam ovos em quantidades alarmantes. Além de mais saudáveis, era muito mais saborosa, a tal galinha caipira. Isso também era alegria, diversão, contato puro com a natureza.

Precisamos voltar a aprender a criar os nossos próprios meios de sobrevivência. Esse pobre dinheiro que nos chega através dos tais programas sociais, tem tido um custo alto para a maioria das famílias que são beneficiárias deles. Enquanto isto, sem o menor escrúpulo, ficam eles com a parte do leão. O que deveria ser utilizado em saúde, educação e segurança, é desviado e passa a engordar as contas desses ladravazes que se mantêm no poder a custa do voto comprado com o nosso próprio dinheiro. Não acuso diretamente este ou aquele partido pelos males que nos assola e agride a família brasileira. Aponto o dedo na direção de todos os que estão se perpetuando no poder há séculos, àqueles que se iniciaram tão pobres quanto nós na política e que hoje estão se cevando com o dinheiro público. Pobre Brasil! Pobres brasileiros!

sábado, 3 de setembro de 2016

Um Mundo Sem Livros*

Nazistas queimam uma montanha de livros



Arnaldo Boson Paes
Desembargador do TRT/PI,
Mestre e Doutor em Direito

Como seria um mundo sem livros? Esta reflexão me veio à tona com a leitura do livro Fahrehreit 451, do escritor americano Ray Bradbury. No romance de ficção científica, em um futuro imaginário, as pessoas vivem em um sistema totalitário, em que os livros são proibidos e queimados, por supostamente gerarem desejos, frustrações e perigos. Quem é visto lendo livros é, no mínimo, confinado em um hospício.

Embora não seja impossível viver dignamente sem eles, seria impossível imaginar um mundo sem livros que valesse a pena viver. Sem os livros, o significado das coisas, a percepção do mundo e da vida não seria a mesma. Todas as palavras de nossa língua perderiam uma parte de seu significado, de sua riqueza, de seu peso e de sua sensibilidade. 

Ideias como amor, tristeza, felicidade, dor, vitória, sonho, desejo, ódio, trabalho ou aventura não seriam as mesmas. Sem os livros, não teríamos aprendido o nome das coisas, tampouco teríamos aprendido a senti-las, estranhá-las, eliminá-las ou buscá-las. Sem eles, não teríamos como reconhecer o que se passa conosco nem compreenderíamos o que se passa com os outros.

Temos aprendido muito mais coisas nos livros do que na vida. Eles nos ensinam a viver, abrem horizontes, oferecem melhor visão do mundo, ampliam a compreensão da realidade, estimulam a imaginação e criam possibilidades de aperfeiçoamento pessoal e coletivo. Os livros também nos informam, distraem, enriquecem o espírito, emocionam e, graças a eles, não nos sentimos sozinhos.

Por meio dos livros, somos arrebatados por sentimentos variados e intensos. Temos sido felizes, rimos, choramos, enamoramos e nos desencantamos. Mais do que isso, eles são o grande motor da vida, não apenas porque nos inspiram e nos revelam o sentido de nossa existência, mas porque nos ensinam a compartilhar, a sair de nós mesmos para penetrarmos em outros mundos.

Mas, para que os livros sejam verdadeiros livros, para que cumpram sua função, necessário que existam leitores. O amor aos livros e o prazer da leitura, uma vez incorporados, levam-nos a um mundo infinito e encantado, que identifico como a própria imagem do paraíso, como fez o escritor argentino Jorge Luís Borges, que sempre imaginou o paraíso como uma grande biblioteca.

Neste contexto, a ficção de Ray Bradbury encontra plenamente sua justificativa se imaginarmos os livros como instrumentos de aprendizagem e de libertação. Porque os livros, como os melhores mestres da vida, ensinam e libertam. E nada mais essencial do que a liberdade de viver a vida com todas as suas potencialidades. Um mundo sem livros não faria nenhum sentido. Então é preciso ler para viver.

* Texto publicado no blog do Poeta Elmar Carvalho