segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O Jardim de Minha Mãe

As Jardineiras: Minha mãe, a esquerda, e minha tia.



José Pedro Araújo

Nos sertões de dentro, última fronteira colonizada no centro do Maranhão, região também conhecida como Japão, dado a sua distância e dificuldade de acesso, está encravada a terra da qual sou filho: o Curador, hoje Presidente Dutra. Aliás, quando lá irrompi do ventre da minha mãe, já haviam mudado o seu nome para homenagear um general presidente, Eurico Gaspar Dutra. Mas, gosto do termo Curador. Sinto-o mais palatável, sonoramente mais bonito, e por isso chamo tanto por ele nas minhas crônicas sobre a terrinha.

Faço esses primeiros comentários que tomou um parágrafo inteiro para dizer que, colonizada por nordestino do leste da região, especialmente por cearenses e piauienses, as ruas do Curador possuem um casario igual àquele encontrado em todas as cidades interioranas nordestinas: casas simples, paredes de tijolo comum ou adobe, em geral com duas águas, às vezes um platibanda com algumas calhas em forma de biqueira “boca-de-jacaré” para escoar a água da chuva, e que atestava um pouco do poderio financeiro do proprietário do imóvel. Essas residências possuem fachada rente à calçada, sem espaço para jardim ou terraço. O jardim, quando possui, é interno, na maioria das vezes no próprio quintal, onde se cultivam plantas ornamentais comuns, quase nativas da região, mas de cuja origem todos, indistintamente, ignora.

O Jardim
Minha mãe também possuía, e ainda possui, o seu jardim. Interno como a maioria, mas não no quintal. Fica em um espaço reservado para ele, ao lado da casa, que a circunda por três dos seus quatro lados. Quase como uma vivenda espanhola, com o pátio interno com um poço e um chafariz. As vivendas espanholas, não o jardim da minha mãe. Diziam os que tinham a sorte de conhecê-lo, que minha mãe tem a mão boa para as plantas, pois elas crescem vigorosas, folhas lustrosas que demonstram a sua perfeita alimentação, e emitem flores belas e viçosas. Creio ser verdadeira a afirmação. E isso era um hábito familiar, pois minha tia Feliciana, única irmã, dez anos mais velha, também cultivava em jarros o seu jardim particular. Não estou falando daqueles jardins suntuosos que vemos nos filmes, e nos quais o dono nunca põe as mãos, posto serem cultivados por jardineiros profissionais, pagos regiamente para cuidarem unicamente dele. Estou falando de espaços simples, mas bem cuidados, cuja adubação é mantida com esterco de gado, pois quase não tínhamos ovinos ou caprinos na região, e com paul, um adubo extraído da palmeira de babaçu em decomposição, artigo produzido com muita fartura na região.

Instalado ao lado da nossa sala de jantar, corriqueiramente sentíamos o aroma suave de alguma flor que desabrochava em sua plenitude naquela manhã. O jasmim-laranja, que ficava vizinho à uma dos janelões, emitia o seu aroma gostoso quase sempre, inundando tudo com o seu adorável cheiro. Mas não somente ele. O bugarin de pétalas brancas e sedosas rivalizava com ele em potência e aroma, e misturava seu cheiro ao daquele em pleno ar. As roseiras, bem estrumadas, diversificadas em variedades e cores, enfeitavam o espaço com o seu belo colorido, e muitas ainda soltavam o seu cheiro característico pelo ar também. A mais comum era a rosa Paruara, bela, volumosa e aromática. Mas tinha ainda a Rosa Menina, miudinha, branca ou rósea, a Rosa Mariquinha, cujo nome era uma homenagem à avó de mamãe, a Rosa Cachopa, a Rosa Amélia, e tantas outras que não lembro mais o nome!

As rosas, aliás, são cultivadas e elogiadas tanto pela sua beleza, quanto pelo seu aroma. E são as mais encontradas em jardins particulares. Mas existem também aquelas produzidas em grandes estufas industriais. Estas perderam o cheiro em favor da durabilidade, foi o que me disse certa vez um florista que visitei em um desses grandes roseirais instalados na serra da Ibiapaba, no Ceará.

Mas, voltando ao jardim da minha mãe, lá não se cultivava apenas roseiras, lá havia também as Papoulas, rosa ou vermelhas, com seus pistilos grandes e apontados para o chão; os Cactos de vários formatos e tipos, a Açucena, as Palmeirinhas decorativas, uma planta chamada Coelho Neto, com suas flores em cacho, a Onze Horas, a Boa Tarde e a Boa Noite; pés de pimenta decorativos, uma flor amarela cuja rama se alastrava em todas as direções, conhecida como Pente-de-macaco, Hortênsias, Mini Margaridas, Helicônias, Cravos, além de uma infinidade de plantinhas de flor miudinha que minha mãe foi encontrar em lugares por onde passou. Admirava-as, e depois retirava um dos seus galhos e produzia uma muda para si. Produzir mudas, também era uma das suas especialidades. Quando via uma plantinha, ou admirava uma florzinha que não possuía, já pedia licença para a retirada de um galinho e, dali a poucos dias, um novo jarro ocupava o seu espaço no seu jardim. Mãos de fada? Talvez mãos cuidadosas, experientes e dedicadas.

A rega daquelas plantas era um espetáculo diário que culminava com o levantar de cheiros de flores, de terra molhada, em um esvoaçar de abelhas, e insetos vários, que minha mãe adora fazer, em geral à tardinha, para que suas queridas amigas pudessem passar a noite imunes à sede provocada pelo nosso verão puxado. Curioso, certa vez perguntei se sabia de onde vinham aquela variedade de plantas, e recebi uma negativa resposta. Ninguém por ali sabia. Parti para a pesquisa e vi que algumas, como a Papoula, já era cultivada pelos sumérios há mais de 5.000 anos. E que, a maioria, tinha origem em outros países. Como a Rosa Dália, provinda do México, cultivada pelos índios desde épocas imemoriais. Muitas foram trazidas pelos colonizadores portugueses, obtidas em suas andanças pelo mundo na época dos descobrimentos. Da Ásia, da África, das Américas, do norte, central e do sul, de tantos lugares distantes, mas que encontraram solo propício e mãos talentosas no sertão mais profundo do Maranhão e em outras partes deste imenso Brasil.


Um tanto debilitada nesses seus quase noventa anos de vida, minha mãe teve que abandonar as suas plantas aos cuidados de uma nora, uma vez que a sua casa se acha fechada e ela está vivendo com os filhos nesse período. Mas sempre que algum deles ou uma de suas noras ligam de P. Dutra para falar com ela, pergunta, em primeiro lugar, como está o seu jardim, se tem sido aguado direitinho, essas coisas.

Aposentado, tentei cultivar algumas roseiras. Não é coisa fácil de fazer, mesmo para mim que tenho como profissão o amanho da terra e o cultivo de plantas. Não obtive resultados muito favoráveis. Realmente, isso é coisa para gente mais dedicada e experiente.

  

8 comentários:

  1. OLÁ PRIMO, GOSTEI MUITO, DOS SEUS VERSOS SOBRE O JARDIM DE TIA TEREZINHA E Feliciana. AMO PLANTAS, FLORES, É UM SONHO ESSE JARDIM! ESTÁ NO SANGUE ESSA PAIXÃO. DESEJO SAÚDE PRA MINHAS TIAS.

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    1. É uma herança familiar, os Barros são assim mesmo, loucos pelo que há de mais simples, belo e relacionado à natureza.

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  2. Ótimo texto, pai! Um dos melhores do blog.

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  3. Obrigado, filho. Você tem culpa disso, pois o brinquedo aqui foi criação sua.

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  4. Belo texto, meu sogro! Lá em Esperantina tb tínhamos gosto pelas flores. Antes de terminar o texto, logo lembrei de sua tentativa de ter uma plantação de rosas. Ainda não está totalmente fracassada a sua tentativa. Já vi muitas rosas bonitas brotarem de lá. Vamos continuar cuidando, para que Alice, Bela e Lavínia tomem gosto. Bjo ��

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    1. Obrigado, Carol! Tentei ser o mais fiel possível, e para isso contei com as duas jardineiras que se encontram aqui comigo. Quanto ao plantio de rosas, estou em déficit, mas aceito ajuda.

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  5. Meu nobre escritor, que beleza de texto! Ao ler a sua crônica resgatei imagens da minha infância e, de forma quase que imperceptível, troquei o cenário da contextualização da sua narrativa para me ver ao lado da humilde casa paterna, onde fui criado, em Axixá do Tocantins. Parabéns por nos prestigiar com agradável leitura! Brasília - DF, 22 de setembro de 2016

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    1. Fico muito grato pela assiduidade com que tens lido nossos textos no FA, e mais ainda pela maneira generosa com que tens me estimulado a continuar laborando nessa seara tão espinhosa. E isso, vindo de um escritor experiente como você, muito me honra. Grande abraço, conterrâneo.

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