segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Noturno de Oeiras, Com a Arte de Edson Guedes de Morais.

* Elmar Carvalho,  é Poeta, Cronista, Contista, Crítico Literário e Membro da APL.


          Este poema já foi publicado aqui neste espaço e gerou muitos acessos daqueles leitores que apreciam um trabalho de incontestável magnitude como é o caso. Contudo, esta semana o autor desta obra incomensurável em homenagem à velhacap piauiense foi surpreendido por um presente que lhe foi ofertado pelo também Poeta, Artista Plástico, Editor, entre tantas outra atividades exercidas no campo literário, Edson Guedes de Morais. Refiro-me ao primoroso trabalho apresentados abaixo em treze lindos postais feitos artesanalmente pelo artista paraibano que hoje reside em Jaboatão dos Guararapes. Juntou, o artista, em um só espaço, o engenho da sua criatividade inesgotável com a beleza lírica dos versos de Elmar Carvalho e deu nisso que ora este blog publica. 













quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Uma Busca Determinada



José Pedro Araújo

As pessoas tomam determinadas decisões que se torna difícil de assegurar se se trata de uma situação de completa teimosia ou, por outro lado, determinação ou, como neste caso, pura afeição. Muitas vezes, perdem-se vultosas somas de dinheiro na busca de um bem que não custa tanto quanto se gastou para readquiri-lo. Será isso teimosia ou outra coisa? As respostas podem ficar para depois, pois, em algumas situações, como a que vamos narrar a seguir, pode surgir uma vertente que enquadre o caso como pura determinação. Vejamos, então.
Basiliano Barros, ou simplesmente Bazu, que é como todos o conhecem na pequena Presidente Dutra, cidade encravada no sertão central do Maranhão, possuía um jumento com algumas características que o tornava especial, diferente mesmo da maioria dos animais de sua raça que, nos dias de hoje, são completamente desprezados e abandonados para morrerem atropelados nas margens das rodovias nordestinas. 
Animal de porte avantajado, esse jumento caracterizava-se como excelente cargueiro, transportando quase tudo que era produzido na propriedade Silveira, situada às margens do rio Preguiça. A distância entre o terreno e a cidade não é tão grande assim, mas o seu trajeto, em especial no período invernoso, é muito difícil em decorrência do lamaçal terrível que se forma, uma autêntica armadilha para tantos quantos se aventuram a passar por lá no período das águas. E isso valia também para todos os animais de carga, com exceção do jumento que historiaremos. Outra característica sua, era e empatia e a amizade que existia entre o seu dono e ele, fazendo com que, onde estivesse, atendesse prontamente ao chamado do seu dono.
Pois, certo dia, um grupo de ciganos que estava arranchado na região da Santa Maria, próximo à cidade, aproveitando-se da liberdade que o animal tinha de transitar sozinho do Silveira até a casa do seu proprietário, o bando o incorporou ao seu rebanho, levando-o com eles. Para aqueles que não conhecem bem o modo de vida desse povo que transita pelas estradas brasileiras, eu diria que, na sua maioria, são formados por famílias pobres que vivem de negociar animais e outros objetos de origem duvidosa. Gente de vida livre, esses ciganos não possuem pousada certa, pernoitando em um local para, no dia seguinte, já estarem na estrada novamente. Também é certo que existem outros grupos que negociam com pratarias e, principalmente, com vasilhames de cobre, situação que lhes confere certo poder econômico. Mas não é desse tipo que falamos aqui.
Poderíamos dizer que esses ciganos que transitam costumeiramente pelo interior maranhense, são muito pobres, levam vida muito simples, e a sua profissão de negociantes faz com que, em um dia esteja aqui, e, no outro, acolá. E nesse constante vai-e-vem, muitos deles saem praticando atos não muito éticos por esses caminhos, como ocorreu com o grupo que juntou o jumento do Bazu ao seu rebanho de animais. 
Quando tomou conhecimento do desaparecimento do seu animal, Bazu saiu a investigar o seu paradeiro. Como aquele animal era muito conhecido no lugar, algum tempo depois obteve a informação de que ele havia sido visto reunido ao rebanho dos ciganos. E que, para sua tristeza, o bando tinha partido rumo a cidade de Dom Pedro já decorridos alguns dias. D. Pedro é um município situado há cerca de trinta e seis quilômetros dali, portanto, relativamente próximo, mesmo para quem faz o trajeto em lombo de animais. Sem perda de tempo, Bazu convidou o irmão Zeca Barros para acompanhá-lo e, juntos, tomaram um ônibus para o destino indicado. Ao chegarem à cidade vizinha, para seu desgosto, obtiveram a informação de que os ciganos pouco haviam se demorado por ali, prosseguido no rumo de Santo Antônio dos Lopes, município situado a pouco mais de trinta quilômetros dali. Mas também não mais os encontrou lá.
Os dois irmãos continuaram a perseguição ao bando, sempre colhendo informações nos lugares por onde passavam, até chegarem à cidade chamada Independência, situada há cerca de cem quilômetros de onde haviam partido. Lá chegando, obtiveram outra notícia ruim: o grupo, de fato, havia passado por ali, mas já haviam seguido no sentido da cidade de Pedreiras, distante cerca de 40 quilômetros. E mais: que haviam dito que seu objetivo era alcançar o povoado de Marianópolis, lugarejo antigo, histórico, e bastante conhecido.
Nesse ponto, Zeca Barros, seu irmão, já cansado daquela busca que parecia não ter fim, ponderou que as despesas estavam ficando muito altas, e que era contraproducente se gastar tanto tempo e dinheiro para encontrar um simples jumento, animal quase sem importância nesses dias. Mas Bazu rechaçou qualquer possibilidade de retorno sem o seu animal. Nesse momento o irmão, conhecendo a índole do outro, disse que o havia acompanhado até aquele ponto, mas que precisava retornar para os seus afazeres.
Cada vez mais determinado a encontrar o seu animal, Bazu continuou a sua perseguição, agora sozinho, embarcando dali direto para Pedreiras. Lá chegando, tomou condução para o povoado de Marianópolis, que não ficava longe. Uma vez chegando ao povoado, foi em busca de informações sobre o bando de ciganos e logo encontrou um rapaz que lhe disse saber onde o grupo estava. Bazu não contou mais tempo: contratou o rapaz para lhe conduzir até aonde sabia estarem os ciganos. Mas, ao chegarem próximo ao rio Mearim, o contratado disse temer uma reação do bando e, portanto, só ia até ali. Inconformado, e sabedor de que os ciganos estavam acampados do outro lado do rio, Bazu seguiu sozinho para lá.
E como era conhecido do bando, que habitualmente comprava pães e biscoitos em sua padaria, Basiliano arregaçou as pernas da calça, colocou um chapéu de palha na cabeça e tomou uma canoa para atravessar para o outro lado do rio. No trajeto, verificou que viajava com um dos componentes do grupo de ciganos, aumentando ainda mais o cuidado para não ser identificado por ele.
Do outro lado do rio, uma pequena parte deles estava acampada, mas logo observou que o chefe não se achava ali, nem a tropa de animais. Bazu decidiu passar pelo meio deles sem ser reconhecido.
Assim, adotou uma postura de alguém com um defeito em uma das pernas e, mancando, passou por eles incógnito, tendo ainda que responder aos cumprimentos de alguns sem ser reconhecido. Seu objetivo era seguir até onde se achava o grosso do bando e verificar se seu animal ainda estava no meio dos outros. Chegando lá, sua procura se mostrou exitosa ao localizar o seu animal junto aos outros, pastando calmamente.
Bazu retornou até onde se encontrava o grupo maior, já com sua suas vestes e o seu caminhar completamente recomposto. Ao avistar o homem com quem havia contatado por diversas vezes, sempre que ia à sua padaria, o líder do grupo demonstrou grande satisfação por encontrá-lo por aquelas bandas. Com certeza tentava um despiste, um gesto de dissimulação, procedimento vez por outro adotado por eles quando confrontados com situações como aquela.
- E não é o “seu” Bazu, o homem da padaria! – levantou-se o homem para cumprimentar o visitante, demonstrando contentamento. – O que está fazendo tão distante de casa, homem?
Sem se impressionar com a falsa alegria demonstrada pelo líder do bando, Bazu respondeu com certa cortesia, mas energicamente.
- Minha viagem se encerra aqui. Estava atrás de vocês.
- Então já nos encontrou, meu amigo! – o homem continuava com a sua fala mansa e cativante, sem demonstrar o menor temor.
- Vim atrás de um animal que se acompanhou a tropa de vocês – respondeu Bazu sem acusar diretamente o homem de lhe ter roubado o seu animal. Contudo, encarava-o de frente.
- Ora, não me diga! Mas, será possível uma coisa dessas? Pois saiba de uma coisa “seu” Bazu. Se o seu animal estiver no meio dos nossos, o senhor o terá de volta imediatamente. Qual é o animal?
Basiliano seguiu fazendo o jogo do líder cigano e descreveu com riqueza de detalhes o jumento a que estava no encalço. Ao final de sua explanação, o homem, continuando com a farsa, chamou um de seus comandados e determinou que ele fosse ver se o animal estava de fato junto com os seus. E em caso afirmativo, que o trouxesse até ali para entregá-lo ao verdadeiro dono.
Sabendo que o que o homem estava fazendo era determinar que o animal fosse afastado do rebanho, escondendo-o, Bazu rechaçou energicamente:
  - Não se preocupe com isso? Eu mesmo já vi o animal junto a tropa de vocês há poucos instantes. Dê ordem ao seu rapaz para trazê-lo até aqui, por favor.
O homem acusou o golpe, mas, em seguida, se recompôs:
-Ah, então o senhor já viu que o animal estava lá? Vá lá e traga o jumento do meu amigo aqui, menino! – determinou com um gesto de mão, para depois se desculpar - às vezes, “seu” Bazu, os animais perdidos nas estradas seguem o nosso rebanho. Mas, sempre que notamos isso, apartamos o bicho e seguimos em frente. O que deve ter ocorrido com o seu jumento, é que quando ele se juntou aos nossos animais não demos fé disso. Pode ocorrer também – concluiu o homem olhando diretamente para o visitante.
- Eu não tenho dúvidas disso! Mas, agora que eu já localizei o meu animal, só me resta agradecer por terem cuidado tão bem dele.
Logo, o rapaz que havia recebido ordens para ir buscar o animal chegou, trazendo-o puxado por um cabresto. E quando o asinino ficou de frente com o seu verdadeiro dono, relinchou alegremente abanando o rabo e empinando as orelhas.
O líder cigano não demonstrou em nenhum momento estar se sentindo mal com aquela história e ainda convidou o visitante a pernoitar com eles. Bazu agradeceu solenemente, mas disse-lhe que precisava empreender o trajeto de volta para casa.
Ao chegar ao povoado, Bazu contratou o dito rapaz que o havia prestado ajuda antes para levar de volta o animal até Presidente Dutra. E que ele, cortando caminho por algumas velhas e conhecidas veredas, agora quase intrafegáveis, encurtaria em muito a distância. Quanto a ele, faria o trajeto de volta de ônibus, tal como havia feito na vinda.
As despesas tinham sido muitas, mas a alegria de ter concluído as suas buscas com absoluto sucesso compensava o prejuízo e reforçava a sua convicção de que o homem deve lutar com todas as suas forças por algo que, de fato, tem interesse. E que as dificuldades, por maiores que sejam, nunca devem se transformar em barreiras intransponíveis.
Com certeza, não fora o fato de ter se sentido subtraído por um bem valioso, no sentido do seu valor econômico, que o havia feito seguir aquele bando de ciganos por um trajeto tão longo. Mas, por se ver afastado de um bem que tanta admiração lhe causava. E isso lhe fora motivo mais do que suficiente. Motivação que o fizera se aventurar, sem hesitações, naquela demorada perseguição. Basiliano Barros é conhecido como um homem de palavras, para quem, alguns empecilhos nunca é razão suficiente para fazê-lo desistir dos seu intentos. O nome disso, voltando agora ao começo desta prosa para responder à nossa indagação, é determinação e coragem. 

 

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Os Meninos Gibizeiros da Praça Pedro II (2ª Parte)

Antiga banca de revistas O Dentinho


José Pedro Araújo
Tempos atrás redigi uma crônica sobre um hábito que só encontrei em Teresina, quando para esta cidade eu vim com o intuito de continuar os meus estudos: a leitura de gibis nos cinemas antes do início das sessões. Falei ainda que as revistas eram objeto de troca ou simples aquisição em bancas improvisadas sobre caixotes de madeira e postadas em frente aos cinemas. Somente para refrescar a memória dos que já leram o texto ou para informar aos que não o fizeram: o indivíduo chegava para assistir a um determinado filme já trazendo a sua revista em quadrinhos debaixo do braço para a troca por outra não lida com os gibizeiros. E depois de alguma negociação, deixava com o dono da banca um troco, a torna, além do seu gibi, e adentrava ao cinema para aguardar o início da projeção do filme. E, enquanto isto, na companhia de inúmeros outros cinéfilos, passava a ler a sua revista. Era um hábito, fazia parte do programa.
Pois bem. Ontem de manhã fui ao centro da cidade para resolver alguns negócios e, terminada a minha obrigação, resolvi dar uma passadinha na banca de revistas usadas do Dentinho para um dedo de prosa, mas também para garimpar alguma novidade. Saí depois com algumas revistas do Tex, que reservo para ler naqueles momentos de total descontração, quando até mesmo lê um bom livro é tarefa oficial. Esses momentos pedem algo mais leve, menos sério, então saco um gibi da prateleira, que pode ser um Almanaque Disney, um Chico Bento, ou um cowboy estrelado pelo Tex Willer e seu pards. Nos últimos tempos tenho procurado os sebos para adquirir revistas usadas, tanto pelo seu valor, quanto pela sua ausência nas bancas de revistas novas, ou até mesmo por estarem fora de publicação.
Dentinho, de acordo com o que me informou, é um dos últimos remanescentes de um grupo de cerca de 20 meninos que iniciou aquele negócio de vender revistas usadas na porta dos cinemas 4 de Setembro ou do Rex. O outro remanescente é o Joel, dono de várias bancas de revistas espalhadas pela cidade. Só que o Joel, desde muito tempo, migrou para a atividade das revistas novas, ficando apenas o Dentinho como o último remanescente daquela turma, ao lado de alguns outros que se iniciaram depois no mister. Dentinho é um sujeito alegre, boa prosa, que acompanhou o desenvolvimento da cidade de um ponto de observação muito bem localizado, pois situou a sua banca quase defronte ao palácio do governo, o Palácio de Karnak. E nesses últimos 50 anos, acompanhou as transformações pelas quais a cidade passou, inclusive, a migração da maioria das famílias que residiam no centro, para a zona leste.
Espremendo a memória, Dentinho, sessentão, cabelos quase completamente brancos, relacionou-me o nome de quatorze daqueles garotos que começaram a negociar revistas usadas, lá pelos idos de 1964: Pitica, Gobá, Magrelo, Magrão, Preto, Preto Prudêncio, Macaco, Pelé, Magrinho, Crente, Bode, Pixico, Joel, e ele próprio.
Uma curiosidade: ninguém ali era conhecido pelo nome de batismo. Todos eram chamados pelo apelido, de forma que ninguém lhes sabia os nomes próprios. Isso, até hoje em dia. Destes, como falei, apenas ele continua a operar no ramo de revistas usadas ali em volta da praça.  Outros garotos e adolescentes também operavam algum tipo de atividade no local. Dois desses grupos eram formados pelos vendedores de maçãs, naquele tempo totalmente importadas da Argentina, pois o país ainda não as produzia em escala comercial, e os flanelinhas. Mas o grupo mais coeso, que trabalhava junto, e se divertia também em sociedade, era o dos meninos gibizeiros. Como também já afirmei na crônica anterior, as bancas eram improvidas sobre caixotes de maçãs argentinas, as “Manzanas Argentinas”. E Sobre eles estendiam-se o papel arroxeado que acondicionava os frutos, como se fora uma toalha. Era assim que as revistas eram expostas e apresentadas para o público.
Afirmou-me também o jornaleiro que muitos daqueles meninos vieram do interior para Teresina, e se estabeleceram na praça por falta de outra ocupação. Foi este o caso dos três irmãos, Gobá, Magrelo e Magrão, originários de uma cidade do médio Parnaíba, talvez Água Branca, e que, anos depois, voltaram para lá. Aliás, daquele grupo, muitos foram embora, passaram a desenvolver outras atividades, como o garoto conhecido como Macaco. Sobre este, Dentinho me contou uma história triste, que repasso a frente. Macaco, já rapaz, foi acusado de ter participado de um arrombamento ocorrido na Lanchonete Americana, situada em uma das esquinas da praça, e também ponto de encontro da juventude daquela época. Mantido encarcerado por alguns dias, o rapaz foi solto por falta de provas, e resolveu adotar uma postura diferente para a sua vida. Ao ser libertado, entrou na loja Juçara, conhecida por vender roupas de boa qualidade, comprou algumas peças e, devidamente bem vestido, procurou Dentinho para lhe vender todo seu estoque de revistas usadas. Surpreso com o gesto, Dentinho lhe perguntou sobre o porquê daquele gesto. E recebeu como resposta: vou mimbora daqui!
Mostrando que ainda carregava o peso daquela injustiça praticada contra o amigo de tantas passagens, Dentinho me afirmou, com voz entristecida e saudosa, nunca ter visto, durante este tempo todo, alguém tão correto e de palavra quanto o amigo Macaco. E arrematou: “disse-me ele naquela ocasião: Dentinho, se a minha alma tiver vergonha, ela nunca mais botará os pés nesta cidade quando eu morrer”. E, de fato, ele nunca mais voltou a Teresina. Sabe-se que foi visto algum tempo atrás chefiando o departamento de crédito de uma grande loja em São Paulo. Continuava no ramo do comercio, mas Teresina nunca mais o viu.
Joel, como já falei, é um comerciante bem posto em Teresina, e Dentinho, o único a permanecer no ramo de revistas usadas, também leva uma vida de relativo conforto, residindo em um sítio que ele montou para passar os últimos anos da sua vida em contato com a natureza. Mas, todos os dias, desembarca nas imediações da Praça Pedro II para exercer o seu ofício de vendedor de revistas e livros usados. É um gibizeiro convicto.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Saudade Antecipada

Alice, minha neta - um breve passeio no parque.


Carol Soares Araújo*

Por favor, filha, vá devagar! "Tão pequena, e já tão dona de si. Pronta para desbravar um mundo que vai além de mim! Perdoe-me, filha, não estou pronta para te ver partir… sinto falta de quando eu era tudo que você precisava para ser feliz.
Você vai crescer, é inevitável, é saudável… Mas eu queria reviver, dia após dia, os seus sorrisos inocentes, as suas conquistas, os seus primeiros beijos e abraços. Queria eternizar esse momento e viver assim, juntinho de ti.
Está pronta para desbravar o mundo, conquistar novos amigos, encantar outras vidas… eu me sinto orgulhosa e ao mesmo tempo perdida, porque já sinto o vazio da nossa diária despedida. Seja gentil, tempo! Desacelere. O tempo não perdoa. Não espera. Eu ainda te vejo frágil, indefesa, minha pequena. Mas você já descobriu que lá fora existe um mundo cheio de aventuras esperando por ti.
Existe um mundo que vai além dos meus braços, dos meus abraços, dos meus beijinhos, do olhar sempre atento a te proteger… Eu não estou pronta, mas você está..."

(*) Carol Soares Araújo possui formação em turismo, é minha nora e mãe da minha neta Alice.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Um Juiz Educador e Boa Praça

Juiz e educador José de Ribamar Fiquene


                                                                                         José Pedro Araújo

Estávamos no início do governo militar que governaria o país pelos 23 anos seguintes, quando chegou à cidade um jovem juiz de direito para assumir os destinos da comarca. Seu nome, José de Ribamar Fiquene. Cidadão tranquilo, amante das letras e das artes, logo nos brindou com duas das coisas mais importantes com que se pode presentear um cidadão: o acesso à justiça, e a uma educação de qualidade. Acesso à justiça feita através do emprego efetivo da lei, e acesso à educação disponibilizando o curso ginasial à população, além do curso normal e o de contabilidade. Fiquene, bom samaritano cultural, criara o hábito de fundar escolas por onde passava, propiciando o acesso à educação aos estudantes que não possuíam recursos suficientes para se deslocar para outras cidades mais desenvolvidas para dar continuidade aos estudos. O seu legado foi se estendo por onde passou até culminar com a fundação de uma universidade na cidade de Imperatriz. Por tudo que fez, a providência divina o presenteou com o cargo de governador de todos os maranhenses, cunhando seu nome definitivamente na história do Maranhão.


Hoje é possível avaliar que a qualidade do ensino do colégio por ele fundado não ficava a dever a nenhum outro, pois possuía um corpo docente que, favorecido por um conjunto de fatores favoráveis, fez com que se juntasse naquela época e em um mesmo local, profissionais da qualidade do professor universitário Hubert Lima de Macedo(história), do engenheiro Onildo Fortes(matemática),  e do próprio Dr. Fiquene(português), além de muitos outros que por lá passaram.


Vivíamos um tempo de revolução nos costumes através da música e das artes. Enquanto nos Estados Unidos da América e na Europa alguns cabeludos se insurgiam à velha ordem estabelecida através do movimento hippie, aqui nossos jovens criavam um novo ritmo musical, a bossa nova, que assombrava o mundo com o seu incrível teor melódico e suas letras simples, mas rebuscadas.  Ao mesmo tempo, enquanto lá fora os Beatles levava o temor a muitos com suas músicas de protesto contra o preconceito e a tirania, aqui o regime militar fechava mais ainda o sistema, e músicos como Chico Buarque, Caetano Veloso, Torquato Neto, Gilberto Gil, entre tantos outros, se rebelaram e gritaram em alto e bom que “é proibido proibir”. Tal demonstração de coragem custou o exílio para alguns.


Talvez estimulados pelos ventos de liberdade que vinham do exterior, quase nunca noticiado pela imprensa brasileira ajoelhada perante o regime estabelecido, um grupo de estudantes, ao acabar a aula, se organizava em marcha e descia a rua Grande cantando palavras de ordem, como se estivessem em um desfile militar. Era uma brincadeira simples, sem intenção de se contrapor ao regime instalado. Mas o fato é que desagradou a certas pessoas com poder de mando. Naquele tempo as luzes da cidade se acendiam às 6:00 da tarde e apagavam-se às 10:00 da noite. As tais marchas aconteciam exatamente após esse horário, passando talvez uma ideia de insubordinação. O certo é que algumas pessoas da comunidade foram até ao juiz, e também diretor do colégio, onde se originavam as passeatas, reclamar da situação.


Chamados por sua excelência para justificar tais atos, os líderes da brincadeira, responderam que não estavam provocando nenhuma desordem, e, apesar da insistência do diretor para que parassem com as passeatas, continuaram a fazê-las. Alguns dias depois, foram advertidos pelo diretor do colégio de que estavam suspensos em razão da insubordinação. Apesar do respeito e da admiração que o Dr. Fiquene gozava no seio da classe estudantil, houve uma revolta generalizada pelo que consideravam uma punição injusta e, portanto, desnecessária, contra aqueles jovens que só queriam se divertir, saindo da mesmice que atingia os jovens de uma pequena cidade do interior. E a coisa pararia por ali, se alguns indivíduos mal intencionados não tivessem se aproveitado do ensejo para lançar sobre o juiz todo o ódio que possuíam em razão de alguma decisão que não os beneficiava. E foi assim que no dia seguinte, em pontos estratégicos da cidade, como o mercado público, o banco do Estado e a agência dos correios, foram apregoados panfletos apócrifos com calúnias virulentas contra o juiz e a sua família. Pessoas sem nenhum escrúpulo haviam se aproveitando do acontecido com os estudantes para espalhar a sua bílis em forma de mentiras sobre uma família que só havia trazido o bem para a nossa comunidade.


Mostrando-se um ser normal, como os demais viventes, o nosso magistrado aceitou a provocação, engoliu a isca lançada. E a sua reação não se fez esperar. Achando que aqueles panfletos caluniosos haviam partido dos estudantes punidos por ele no dia anterior, como apontava a lógica, determinou que uma guarnição militar se deslocasse à casa de cada um daqueles rapazes com ordem para aprisioná-los, sob a acusação de terem atingido a honra da principal autoridade judicial do município. Ordem dada, ordem cumprida. Os jovens estudantes, alheios a tudo o que estava acontecendo, foram surpreendido ainda em casa enquanto dormiam.


Foi o que bastou para deflagrar uma onda de crescente descontentamento no seio da estudantada, e eles ocuparam a praça da matriz, e em frente a casa onde o juiz morava iniciaram um ato pacífico de protesto que entrou noite adentro. Estava quebrado o elo de confiança que unia o jovem juiz e educador e a classe estudantil da cidade de Presidente Dutra.


Depois de muitos discursos, uma comitiva formada por estudantes e políticos da cidade foi recebida pelo magistrado em sua casa, e lá, depois de muitas ponderações, convenceram o magistrado que as calunias assacadas contra ele e a sua família não haviam partido dos estudantes e sim de terceiros interessados em se aproveitar da situação para praticar um ato de vingança, por algum interesse contrariado. Analisando melhor a situação, Dr. Fiquene deu-se por satisfeito, e o ato público que se iniciara como protesto, terminou  com em ato de repúdio contra aquele ou aqueles que atingiram tão covardemente a honra daquele eminente educador que tantos benefícios trouxe à comunidade presidutrense.


Os jovens foram postos em liberdade imediatamente. Mas o clima fraterno estabelecido entre o magistrado e a comunidade estava irremediavelmente comprometido. Pouco tempo depois o magistrado foi transferido para outra cidade. Mas deixou funcionando um dos melhores colégios em que estudei e que me deu possibilidades de sair para a capital e disputar alguns anos depois uma vaga para a universidade em pé de igualdade com os outros estudantes. Muitos jovens que passaram pelos bancos daquele colégio, são hoje profissionais respeitados e levaram seus conhecimentos e saberes para várias partes deste imenso país.

Nascido em Itapecuru-Mirim, além de governador do estado, Fiquene foi prefeito de Imperatriz, senador, reitor da Uema, Membro da Academia Imperatrizense de Letras, e fundador da faculdade Athenas Maranhense(Fama). O nosso juiz bonachão também foi o autor da letra e música do hino da cidade de Imperatriz. Por tudo o que fez, é topônimo de um município maranhense, além de muitas e justas outras homenagens recebidas.