segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Um Juiz Educador e Boa Praça

Juiz e educador José de Ribamar Fiquene


                                                                                         José Pedro Araújo

Estávamos no início da ditadura militar que governaria o país pelos 23 anos seguintes, quando chegou à cidade um jovem juiz de direito para assumir os destinos da comarca. Seu nome, José de Ribamar Fiquene. Cidadão tranquilo, amante das letras e das artes, logo nos brindou com duas das coisas mais importantes com que se pode presentear um cidadão: o acesso à justiça, e a uma educação de qualidade. Acesso à justiça feita através do emprego efetivo da lei, e acesso à educação disponibilizando o curso ginasial à população, além do curso normal e o de contabilidade. Fiquene, bom samaritano cultural, criara o hábito de fundar escolas por onde passava, propiciando o acesso à educação aos estudantes que não possuíam recursos suficientes para se deslocar para outras cidades mais desenvolvidas para dar continuidade aos estudos. O seu legado foi se estendo por onde passou até culminar com a fundação de uma universidade na cidade de Imperatriz. Por tudo que fez, a providência divina o presenteou com o cargo de governador de todos os maranhenses, cunhando seu nome definitivamente na história do Maranhão.


Hoje é possível avaliar que a qualidade do ensino do colégio por ele fundado não ficava a dever a nenhum outro, pois possuía um corpo docente que, favorecido por um conjunto de fatores favoráveis, fez com que se juntasse naquela época e em um mesmo local, profissionais da qualidade do professor universitário Hubert Lima de Macedo(história), do engenheiro Onildo Fortes(matemática),  e do próprio Dr. Fiquene(português), além de muitos outros que por lá passaram.


Vivíamos um tempo de revolução nos costumes através da música e das artes. Enquanto nos Estados Unidos da América e na Europa alguns cabeludos se insurgiam à velha ordem estabelecida através do movimento hippie, aqui nossos jovens criavam um novo ritmo musical, a bossa nova, que assombrava o mundo com o seu incrível teor melódico e suas letras simples, mas rebuscadas.  Ao mesmo tempo, enquanto lá fora os Beatles levava o temor a muitos com suas músicas de protesto contra o preconceito e a tirania, aqui o regime militar fechava mais ainda o sistema, e músicos como Chico Buarque, Caetano Veloso, Torquato Neto, Gilberto Gil, entre tantos outros, se rebelaram e gritaram em alto e bom que “é proibido proibir”. Tal demonstração de coragem custou o exílio para alguns.


Talvez estimulados pelos ventos de liberdade que vinham do exterior, quase nunca noticiado pela imprensa brasileira ajoelhada perante o regime estabelecido, um grupo de estudantes, ao acabar a aula, se organizava em marcha e descia a rua Grande cantando palavras de ordem, como se estivessem em um desfile militar. Era uma brincadeira simples, sem intenção de se contrapor ao regime instalado. Mas o fato é que desagradou a certas pessoas com poder de mando. Naquele tempo as luzes da cidade se acendiam às 6: 00 da tarde e apagavam-se às 10:00 da noite. As tais marchas aconteciam exatamente após esse horário, passando talvez uma ideia de insubordinação. O certo é que algumas pessoas da comunidade foram até ao juiz, e também diretor do colégio, onde se originavam as passeatas, reclamar da situação.


Chamados por sua excelência para justificar tais atos, os líderes da brincadeira, responderam que não estavam provocando nenhuma desordem, e, apesar da insistência do diretor para que parassem com as passeatas, continuaram a fazê-las. Alguns dias depois, foram advertidos pelo diretor do colégio de que estavam suspensos em razão da insubordinação. Apesar do respeito e da admiração que o Dr. Fiquene gozava no seio da classe estudantil, houve uma revolta generalizada pelo que consideravam uma punição injusta e, portanto, desnecessária, contra aqueles jovens que só queriam se divertir, saindo da mesmice que atingia os jovens de uma pequena cidade do interior. E a coisa pararia por ali, se alguns indivíduos mau intencionados não tivessem se aproveitado do ensejo para lançar sobre o juiz todo o ódio que possuíam em razão de alguma decisão que não os beneficiava. E foi assim que no dia seguinte, em pontos estratégicos da cidade, como o mercado público, o banco do Estado e a agência dos correios, foram apregoados panfletos apócrifos com calúnias virulentas contra o juiz e a sua família. Pessoas sem nenhum escrúpulo haviam se aproveitando do acontecido com os estudantes para espalhar a sua bílis em forma de mentiras sobre uma família que só havia trazido o bem para a nossa comunidade.


Mostrando-se um ser normal, como os demais viventes, o nosso magistrado aceitou a provocação, engoliu a isca lançada. E a sua reação não se fez esperar. Achando que aqueles panfletos caluniosos haviam partido dos estudantes punidos por ele no dia anterior, como apontava a lógica, determinou que uma guarnição militar se deslocasse à casa de cada um daqueles rapazes com ordem para aprisioná-los, sob a acusação de terem atingido a honra da principal autoridade judicial do município. Ordem dada, ordem cumprida. Os jovens estudantes, alheios a tudo o que estava acontecendo, foram surpreendido ainda em casa enquanto dormiam.


Foi o que bastou para deflagrar uma onda de crescente descontentamento no seio da estudantada, e eles ocuparam a praça da matriz, e em frente a casa onde o juiz morava iniciaram um ato pacífico de protesto que entrou noite adentro. Estava quebrado o elo de confiança que unia o jovem juiz e educador e a classe estudantil da cidade de Presidente Dutra.


Depois de muitos discursos, uma comitiva formada por estudantes e políticos da cidade foi recebida pelo magistrado em sua casa, e lá, depois de muitas ponderações, convenceram o magistrado que as calunias assacadas contra ele e a sua família não haviam partido dos estudantes e sim de terceiros interessados em se aproveitar da situação para praticar um ato de vingança, por algum interesse contrariado. Analisando melhor a situação, Dr. Fiquene deu-se por satisfeito, e o ato público que se iniciara como protesto, terminou  com em ato de repúdio contra aquele ou aqueles que atingiram tão covardemente a honra daquele eminente educador que tantos benefícios trouxe à comunidade presidutrense.


Os jovens foram postos em liberdade imediatamente. Mas o clima fraterno estabelecido entre o magistrado e a comunidade estava irremediavelmente comprometido. Pouco tempo depois o magistrado foi transferido para outra cidade. Mas deixou funcionando um dos melhores colégios em que estudei e que me deu possibilidades de sair para a capital e disputar alguns anos depois uma vaga para a universidade em pé de igualdade com os outros estudantes. Muitos jovens que passaram pelos bancos daquele colégio, são hoje profissionais respeitados e levaram seus conhecimentos e saberes para várias partes deste imenso país.

Nascido em Itapecuru-Mirim, além de governador do estado, Fiquene foi prefeito de Imperatriz, senador, reitor da Uema, Membro da Academia Imperatrizense de Letras, e fundador da faculdade Athenas Maranhense(Fama). O nosso juiz bonachão também foi o autor da letra e música do hino da cidade de Imperatriz. Por tudo o que fez, é topônimo de um município maranhense, além de muitas e justas outras homenagens recebidas.


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