sábado, 11 de junho de 2016

Jean Carvalho, o Guerreiro do Bem.

Deputado Jean Carvalho à vontade ao microfone


José Pedro Araújo

Como afirmei no final da crônica passada, aproveitarei o mês de junho para homenagear algumas personalidades que tiveram grande importância no desenvolvimento do nosso querido Curador. Evidentemente, o espaço, o tempo e a paciência dos meus poucos leitores não me permitem que enumere todos os líderes que trabalharam incansavelmente pelo soerguimento do município nesses 72 anos de emancipação política. Espero que isso seja compreensível. Entretanto, alguns desses construtores, ou o conjunto de algumas famílias destes, terão lugar nessas despretensiosas crônicas. Na de hoje irei falar sobre um dos maiores e melhores amigos que já tive em toda a minha vida. Trata-se do meu querido parceiro de muitas empreitadas, o Dr. Jean Carvalho. Ou Dr. Jean, como passou a ser conhecido o grande médico presidutrense.

A minha relação com Jean vem desde a nossa infância. E devo acrescentar que, no principio, não era nada cordial. Ao contrário, vivíamos às turras, tudo por conta do futebol. A coisa aconteceu assim: como Jean jogava pelo time da Praça do Mercado e eu pelo da Praça da Bomba, dois ferrenhos adversários, as disputas em qualquer campo, seja no nosso estádio da Praça Diogo Soares, seja no estádio municipal Honorato Gomes de Gouvêia, como se chamava o hoje Estádio Dr. Adrian Berróspi, as pelejas sempre terminavam em confusão. E nós levávamos essas desavenças para o Grupo Escolar Dr. Murilo Braga, onde estudávamos na mesma turma do primário. Mas, para nossa felicidade, essas arengas eram sempre resolvidas de maneira pouco agressiva, sem recorremos ao muque.

Essa pequena antipatia nós levamos para o ginásio, quando passamos a estudar no Colégio Presidente Dutra. Mas, somente nos primeiros anos porque, logo depois, começou uma aproximação entre nós que duraria até o seu desaparecimento prematuro. Isso se firmou muito mais quando viemos estudar em Teresina. Aqui nessa cidade que tão bem nos acolheu, morávamos na mesma república de estudantes. E isso fortaleceu nossos laços de amizade e fez com que andássemos sempre juntos, planejássemos as nossas vidas em conjunto, trocássemos confidências sobre as nossas paqueras e coisas e tais. Foi assim que acompanhei todo o seu processo de aproximação e inter-relação com aquela que viria a ser a sua esposa, mãe de seus filhos.

Nesse tempo, já conversávamos sobre a política municipal, uma vez que nossas famílias militavam na oposição, formando um só grupo político. Jean, altivo, combativo e com o sangue quente de uma das mais tradicionais famílias políticas do nosso município, traçava planos para ingressar nesse ramo da atividade humana tão logo ele retornasse para o Curador. Enquanto eu, no que pese pertencer a uma família também muito envolvida com política partidária, sempre afirmava que não estava nos meus planos caminhar por aquela trilha. Mas ouvia o que o meu amigo dizia com aquele jeito inflamado e apaixonado que lhe era peculiar. E a coisa aconteceu exatamente como nós planejávamos: Jean formou-se em medicina e retornou para a nossa aldeia para dar vazão ao que o destino já havia traçado para a sua vida.

Dr. Jean, como já afirmei na crônica anterior sobre o nosso grande Remy Soares, foi formado nas bases do mesmo grupo político que tantas e tantas derrotas sofreu para o grupo hegemônico do ex-prefeito Valeriano Américo. E se tornou um de seus membros mais aguerridos. Mas, com o tempo, como sempre acontece na política partidária, o espaço ficou pequeno para tantos líderes natos, e ele afastou-se para formar o seu próprio grupo político, juntamente com o seu irmão Jurandy Carvalho. Paralelamente à sua atividade política ia desenvolvido uma carreira profissional das mais brilhantes, voltando-se de forma decidida para os mais pobres, os desassistidos. Jean formatou a sua plataforma política, a principio, junto a esse tipo de eleitor, o da periferia da cidade. Mas, ainda no início, o seu nome ganhou força em todo o município, o que lhe rendeu grande prestígio junto à nova facção política que subiu ao poder nas eleições municipais de 1982. Naquele ano, ainda na mesma agremiação que iria derrotar o esquema antigo, seu irmão Jurandy Carvalho foi eleito vereador e escolhido Presidente da Câmara Municipal, e foi eleito Prefeito para aquele exercício, o notável Remy Soares. Começava ali a sua ascensão política meteórica.

Na eleição seguinte, em 1988, houve o seu afastamento do grupo político de Remy Soares, para desgosto de muitos que viam naquele jovem o seu candidato ideal. Entre esses, estava o meu pai, ainda presidente do partido que ele deixava. E logo no primeiro embate entre os ex-aliados, Jean Carvalho foi eleito vereador em lugar do seu irmão Jurandy, que concorrera ao cargo de prefeito municipal. A nova facção política quase ganha as eleições para prefeito já nessa primeira tentativa. E não fosse o racha havido entre os oposicionistas, que pecaram por lançar dois candidatos, Jurandy Carvalho e Dr. Adenor Lira, possivelmente teria saído vitoriosa. Na eleição seguinte, contudo, concorrendo com a fortíssima candidata Irene Soares, esposa de Remy Soares, o grupo político dos irmãos Carvalho venceu as eleições com ampla maioria. E ele, Jean, assumiu a presidência do poder legislativo municipal na gestão do irmão prefeito, eleito nas eleições municipais de 1992.

Jean ficaria pouco tempo no cargo de vereador, pois nas eleições seguintes, dois anos depois, foi eleito primeiro suplente de deputado estadual na sua coligação, vindo a assumir o posto  para o qual concorrera, logo no início daquele ano legislativo. E o seu prestígio aumentou rapidamente.  Combativo, destemido e muito bem articulado nos seus discursos, logo chamou a atenção da governadora do Estado, Roseana Sarney, que o nomeou um dos seus vice-líderes, naquela casa legislativa. Mas Jean não era de se aliar aos maus feitos políticos, mas apenas aos projetos políticos pautados na correção e na honestidade. Assim, mesmo na condição de vice-líder do governo assentado no Palácio dos Leões, passou a contestar a lisura do Secretário de Segurança da época, denunciando uma tenebrosa negociata que enxovalhava a corporação militar maranhense. Demonstrava mais uma vez a sua coragem ao se bater com o chefe da segurança no estado. E foi assim debatendo com ardor, defendendo projetos desenvolvimentistas para os municípios que haviam sufragado o seu nome para o legislativo estadual, que ele se destacou nos poucos anos que se manteve entre nós.

Jean Carvalho passou para a história como um jovem político talentoso e destemido que não media esforços para praticar a boa política partidária. Mas também, e principalmente, notabilizou-se como um ser humano especial, de gestos afáveis, bom e leal companheiro, pai de família exemplar e cuidadoso, sempre preocupado com a educação dos filhos e o seu bom encaminhamento na vida.

Jean, como os outros dois deputados estaduais eleitos pelo velho e sofrido Curador, foi tragado por mais uma armadilha do destino, e faleceu em um acidente pavoroso de uma pequena aeronave quando se deslocava para cumprir com a sua atividade parlamentar em Imperatriz. Essa página triste da nossa história, é do conhecimento de todos. Assim como o grande legado deixado pelo nosso combativo conterrâneo, cujo grupo político formado por ele, e pelo irmão Jurandy, está hoje à frente do poder municipal. Era um líder natural, mas foi por mim convencido a torcer pelo meu time do coração. Eu o transformei em um apaixonado torcedor do Palmeiras. 

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Remy Soares, Uma Lufada de Esperança



 José Pedro Araújo

Lendo hoje a coluna do Buzar, no blog de mesmo nome, fiquei sabendo que o Velho Chico, como ele intitulou o político de Balsas, Francisco Coelho, estaria pensando em se candidatar a prefeito de sua cidade, cargo que já ocupou no passado. De imediato me veio à memória o nome de um grande amigo do político balsense: Remy Soares. Chico Coelho teve participação ativa naquela campanha. Remy foi um vento benfazejo que soprou sobre o nosso sofrido Curador, trazendo esperança para os mais humildes e impondo um jeito moderno e responsável de governar. Mas como toda brisa suave que nos acaricia com a sua bonomia, foi-se rapidamente embora deixando conosco a saudade e a esperança de que a semente plantada por ele gerasse frutos. A suavidade e o desvelo da sua passagem por nós ainda nos rende a duradoura paz política que tanto almejávamos. Se ninguém parou para pensar nisto, olhe para trás e veja que as disputas políticas travadas sob a égide da violência extremada e sangrenta, essa ficou no passado, sepultada que foi pela segurança implantada na época. Nunca mais a política partidária gerou cadáveres em série no município, e isso por si só já é um notável avanço. Hoje, os perdedores choram apenas pela deficiência de votos, não mais por entes queridos tombados à força de odientos crimes de morte, perpetrados por pistoleiros sanguinários.
Mas não foi somente isso que o Remy deixou como herança. Deixou-nos também um elenco de obras de grande alcance social que perduram até hoje; deixou-nos também uma forma de administrar que mudou para sempre o perfil do nosso município e o inseriu no rol dos mais importantes do estado. Nos tempos que correm é impossível se falar sobre as principais cidades interioranas do estado sem citar o nome do bravo PDutra entre estes. Mas, essa história começou bem antes. E é nesse ponto que eu quero focar daqui para frente.
Cansados de perder as eleições para a facção hegemônica do calejado e experiente líder político Valeriano Américo de Oliveira, um grupo oposicionista foi buscar em São Luís do Maranhão o jovem agrônomo presidutrense Remy Soares que prestava seus serviços profissionais ao BDM – Banco e Desenvolvimento do Maranhão. Talvez Remy nunca tivesse pensado em voltar a sua terra natal para disputar politicamente o seu mando administrativo. E não foi fácil convencê-lo disso. Mas à frente desse grupo, estava meu pai, que com algum traquejo político, pois já havia ocupado algumas vezes o mandato de vereador no município, e uma amizade firme junto à família do jovem técnico, presidia o Partido da Frente Liberal, agremiação recém-criada por um grupo de liberais saídos da velha Arena. E para São Luís partiu acompanhado pelo pai de Remy, Salomão Soares, pelo amigo de longas datas do pretendido, José da Cruz, além de outros políticos que já militavam na oposição há muitas décadas. Convencer o jovem não foi fácil como já afirmei. Assim como não fora fácil convencer a sua família também. O histórico de violência no município não estimulava ninguém a ingressar na política municipal. Mas, afinal, venceu a mosca azul. O jovem fora picado de forma inescapável por ela.
Retornando da capital, a notícia trazida pela trupe oposicionista logo se espalhou pelo município e gerou uma onda crescente de animação com os novos rumos que a disputa estava tomando. Fez-se, talvez, a mais bela e empolgante campanha que Presidente Dutra já vira até então. A cidade embarcou num crescendo de empolgação e esperança no porvir. As ruas se engalanavam para receber a comitiva de políticos oposicionistas; embandeirava-se, parecia uma festa de São João antecipada, embalada pelo jingle da campanha composto pelo músico Chico Cabeludo.
Recém-casado, já morando em Teresina novamente, fui insistentemente convidado por meu pai a viajar para a terrinha para participar de um dos animados comícios. Terminei indo. E fiquei empolgado com o que vi naquele final de semana. A cidade fora tomada por um inebriante ar festivo. Parecia que todo mundo havia escolhido o mesmo lado naquelas eleições. Vi gente que não perdia um só comício, mas que não sabia ser tão festeira. Acredito que nem eles próprios sabiam que prezavam tanto aquilo. Eu também me animei tanto que terminei por voltar vários finais de semana para participar dos comícios.
No grupo oposicionista militavam pessoas que faria parte ativa da política presidutrense até os dias dia hoje. Gente de talento. Gente compromissada com os destinos da sua terra mãe. Alguns, como o nosso inesquecível Jean Carvalho, que partiu cedo também, mas deixou formado o grupo que hoje administra o município. A história deste querido amigo eu contarei em crônica que farei depois.
No final, as urnas registraram um placar elástico, uma diferença de votos a favor de Remy nunca vista no município. E ele não fez por menos. Honrou cada voto recebido. Fez uma administração brilhante. Adotou uma forma de governar que não privilegiou somente a sede, mas deixou a sua marca por todo o interior, abriu novas estradas, melhorou as já existentes, implantou sistemas de abastecimento de água em regiões que ainda se valiam da velha cacimba para coletar a água que usavam no dia-a-dia. E na educação deixou um legado para a posterioridade que ainda hoje rende frutos. Foi, de fato, um anjo benfazejo que passou como uma estrela luminosa por nós. A vida o levou muito cedo. Mas seu nome ficou para sempre registrado na história do nosso querido Curador. No mês em que o município completa mais um ano na sua jornada rumo ao futuro, pretendo escrever alguns textos sobre pessoas que fizeram muito por nós.

sábado, 4 de junho de 2016

Álbum da Cidade - Outras Fotos Comparativas

Fotografia do acervo de Sulamita Barros

  José Pedro Araújo
 A foto acima retrata uma cena bucólica da Presidente Dutra do início dos anos 60. Uma vaquinha calma e tranquila é alimentada e acariciada pelo meu tio Zeca Barros, enquanto o vaqueiro da foto, vestido a caráter, observa tudo com curiosidade. O vaqueiro, no caso, é Pedro Oliveira, em uma das suas férias na querida cidade, longe do ruge-ruge da São Paulo em que morava. Compõe ainda a paisagem, um jumentinho com cangalha, animal muito importante no transporte da lenha que era o combustível utilizado nas cozinhas de então. É possível ver ainda a casa da minha família do lado esquerdo da fotografia e algumas crianças defronte a ela. Poderia ser este escriba que vos fala, o garoto que se encontra na porta de entrada. Não dá para dizer que sim, nem que não. O tempo apagou da memória a lembrança desse dia.
Importante também observar o piso da rua que não possuía calçamento. A cena se passa na principal rua do velho Curador, a rua Grande ou Magalhães de almeida.
A segunda fotografia, feita quase da mesma posição, também retrata o mesmo trecho da rua Magalhães de Almeida, muitos anos depois. As diferenças de tempo mostram o que mudou na rua daqueles anos para os dias de hoje, no que pese a fotografia retratar um período próximo ao ano de 2012.

Foto do acervo do J. Wilson.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

A Vingança de Nabucodonosor



José Pedro Araújo


            Nabucodonosor não era uma ave igual às outras, seu dono pôde verificar isso desde o início quando ele chegou por ali, adquirido em uma feira da capital. Pequeno ainda – e plumagem tingida de azul para agradar à meninada - já se mostrava cheio daqueles costumes somente vistos nos seres superiores, inigualáveis, naqueles que vieram predeterminados a não se comportar como o grosso dos da sua espécie. E ele procedia sempre assim, empinado, orgulhoso, pescoço em riste, desconfiado com o ser humano que adentrava no seu espaço para trazer-lhe comida ou agrados.

“Esse bicho é diferente dos outros”, pensou o homem logo que o viu assim, com aquele jeito afetado, mantendo-se à distância e comportando-se como um nobre, munido daquela pose altiva. Foi adquirido mesmo assim. Não para fazer às vezes de brinquedo para crianças. Foi adquirido porque era diferente.

Ganhou logo o nome do Rei da Babilônia, Nabucodonosor. Entre os doze de sua espécie que vieram habitar o quintal da casa, era um dos três machos. As outras nove fêmeas, à medida que o tempo ia passando, cercavam-no de cuidados cada vez maiores o que não tardou a despertar ciúmes nos outros dois companheiros de sexo. Esse sentimento foi passando de um simples desconforto inicial, para uma grande aversão, culminando com uma disputa tão acirrada por espaço que chegou ao extremo da violência física. E nesses momentos, ele mostrou que era realmente diferente, batendo, em sequência, seus dois contendores. Surrou-lhes tanto que ganhou da parte deles uma reverência total, inconteste. Passaram estes da qualidade de opositores, para a de fieis escudeiros.

            Mas o destino das aves emplumadas da sua espécie é sempre fazer parte de algum banquete, na qualidade de repasto para os presentes, não na de convidado. E assim acontecia sempre que o dono do galinheiro encontrava alguma razão para mudar um pouco o cardápio. E esse destino negro fez com que, paulatinamente, seus pares fossem sendo eliminados um a um, quando chegaram à fase adulta. Só sobrou ele.  

Nesse período, já era uma ave de porte avantajado, belíssimo na sua vestimenta de penas brancas, e mais compenetrando ainda. Não se deixou abater pela perda de seus vassalos. Contrariamente, mostrava-se cada vez mais arredio, arrogante, avesso a qualquer aproximação com o pessoal da casa. O chefe da família, que o observava desde o início, e o admirava, apesar da esnobação de Nabucodonosor, era o seu grande defensor, e não permitia que ele tivesse o mesmo fim de seus companheiros.

- O quê esse galo tem de tão importante que você não permite que o levemos à panela, homem!? – indagava a mulher cada vez que era impedida de lançar mão no bicho, transformando-o em uma gostosa iguaria.

- Então você não está vendo, mulher! Ele é o nosso grande Nabucodonosor, o rei desses quintais – respondia orgulhoso.

- E para que nós precisamos de um rei no nosso quintal? – irritava-se a mulher.

- Para alegrar as nossas madrugadas com o seu canto eterno. Lembra-me minha infância na roça, quando eu acordava à noite para ouvir o canto desses bichos. Era uma festa. Um cantava perto, outro respondia mais distante, outro mais distante ainda, até não se ouvir mais nada. E ai o primeiro começava tudo novamente! Esse aí traz o sertão para dentro da minha casa aqui na cidade. – Respondia orgulhoso e saudoso o homem.

A conversa terminava sempre assim, e Nabucodonosor ia sempre escapando de ter o seu pescoço decapitado.

Não se sabe se por desconhecimento desse assédio cada vez maior, ou se por conta da sua herança nobiliárquica, o certo é que o bicho mostrava-se cada vez mais compenetrado e refratário à aproximação com o pessoal da casa. Nem mesmo o seu grande defensor era tratado de maneira diferente, e isso só fazia aumentar o número dos que lutavam pela causa da sua extinção pura e simples; queriam vê-lo convenientemente servido em postas no almoço de Domingo.

Mas, estranhamente, seu defensor arguia com ardor sempre maior, lutando pela sua salvação. Uma coisa que não conseguiu, contudo, foi livrá-lo do cativeiro atroz. Passou o seu “rei” a viver aprisionado, amarrado pelos pés para evitar que atacasse as pessoas que por ventura adentrasse ao quintal. Território Nabucodonosor já considerava como seu reino indevassável.

Não se sabe se pelo fato de ter sido mantido em cativeiro, o certo é que o bicho passou a se mostrar um pouco mais dócil. Não sabiam que isso era fruto do amadurecimento dele, da sua esperteza. O fato é que Nabucodonosor ganhou mais liberdade, recebeu permissão para se deslocar pelo quintal livremente, e seu canto melhorou sensivelmente, voltando ao nível melódico de quando estava ainda com o seu séquito intacto. Nos últimos tempos, sua ode lhe saía triste, tremido, e sem força, quase não ultrapassava os limites do próprio quintal. Agora não, soltava seus solfejos pelos ares qual um menestrel medieval, numa tentativa de agradar a sua amada enclausurada nas alturas da torre de um castelo fictício.

E seu território foi se expandindo, se expandindo, já podia até andar pelo gramado da frente da casa. E nesses momentos, espiava interessadamente para a rua, observando o vai-e-vem das pessoas e dos automóveis que se movimentavam livremente.

Certo dia arriscou uma subida na mureta baixa que protegia a casa da rua propriamente dita. Gostou de ficar ali em cima, em um ponto de observação acima do nível do solo, mas sempre voltava para dentro, para o seu quintal. Até mesmo a dona da casa passou da desconfiança estremada a um estágio de tolerância sob vigilância. O preço de uma bicada que o galo aplicara na sua caçula, estava lhe custando muito caro ainda, precisaria de muito tempo para que fosse esquecida.

Mas Nabucodonosor possuía o sangue quente dos guerreiros conquistadores, e não tolerava quem o confrontasse com brincadeiras fora de hora ou mesmo com gracinhas que considerava carregadas de pejoração. Essa assertiva foi confirmada pelo menino Bruno, um vizinho que morava em uma casa próxima ao território de Nabucodonosor. Garoto brincalhão, o garoto estava ai pelos seis anos de idade, no auge da sua curiosidade, e por isso mesmo explorava as cercanias de sua residência, sempre sob os olhos cuidadosos da mãe. Nesse dia, estava Nabucodonosor empoleirado em seu ponto preferido de observação, sobre o muro, quando Bruno se aproximou acompanhado por Andrey, um garoto um pouco mais novo, mas extremamente curioso também. Vinham subindo a rua, brincando, espantando os besouros e borboletas que pousavam sobre as flores dos imensos jardins que enfeitavam as largas calçadas.

Um pouco mais abaixo, conversavam com o dono do galo à sombra de um frondoso ficus, seu pai, o pai do menino Andrey e o avô deles dois, pois eram primos. Por isso, de onde se encontravam, os homens procuravam não perder as duas crianças de vista.

Quando já estavam próximos do lugar aonde o galo se encontrava no seu ponto de observação, cerca de uns cinqüenta metros de distância da sua casa, Bruno chamou a atenção do primo.

- Olha ali, Andrey. Que galo bonito!

A ave não se mexeu. Continuou lá, altivo, sem demonstrar o mínimo interesse pelos observadores que se aproximavam solícitos dele. Depois de admirá-lo por um bom tempo, Bruno resolveu mexer com o galináceo e começou a jogar-lhe alguns seixos que trazia nas mãos, no que foi acompanhado por Andrey.  Os meninos arremessavam as pedrinhas e riam gostosamente com a reação que o galo tinha agora. Nabucodonosor, para não ser atingido, pulava de um lado para o outro, abrindo as poderosas asas para se equilibrar sobre o muro. E isso serviu de estimulo aos dois garotos que se aproximaram mais para conseguir acertá-lo em cheio.

O que era brincadeira para os meninos, passou a ser encarada pelo galo como um acinte, uma agressão despropositada contra seus direitos à tranqüilidade. E ele, que não admitia nenhum desrespeito à sua condição de nobre na sua espécie, começou a indignar-se e a perder o autocontrole. E foi então que, abrindo as asas até ao limite, lançou-se no espaço em direção aos garotos.

Foi um vôo curto, mas parecia um Condor que se lançava do alto de um penhasco para o espaço infinito. As garras afiadas, e os esporões amoladíssimos estavam prontos para atingir dolorosamente a quem o estava molestando naquele momento.

Quando os meninos viram o salto majestoso de Nabucodonosor em direção a eles, partiram em desabalada carreira rua abaixo. Tentavam chegar até ao local em que estravam seus parentes. E Nabucodonosor, cada vez mais furioso, corria atrás deles com velocidade crescente. As asas agora abertas lhe davam um aspecto de uma aeronave que tentava levantar vôo sem, contudo, conseguir sair do solo. Saltitava, na verdade, na tentativa de voar, pois acabava voltando ao solo. Mas se não conseguia voar, empreendia uma velocidade grande, incerta, é verdade, mas crescentemente perigosa para os dois guris.

Bruno olhou para trás, e o que viu o deixou apavorado, razão pela qual soltou um grito de terror que ecoou pela rua inteira. Andrey, um pouco menor que o primo, estava ficando para trás na longa carreira que empreendiam, ficando à mercê do galo. Também já vinha gritando a plenos pulmões, completamente aterrorizado com o que adivinhava está prestes a acontecer.

Mas o galo, cheio de ódio e com gana de atacar dolorosamente a quem ele achava que o tinha destratado, emparelhou com Andrey e, sem nem ao menos olhar para ele, o ultrapassou na corrida. As asas que não conseguiam fazer com que aquela ave pesada alçasse voo, elevavam-no do solo por pequeníssimos instantes, e depois depositavam-no novamente sobre a calçada, mostrando, na verdade, que ele se deslocava aos pulos. Tal fato conferia ao bicho um aspecto aterrorizante, e ele já se encontrava próximo ao menino que considerava o seu verdadeiro inimigo.

De onde estavam os homens ouviram os gritos dos meninos e, ao observarem para saber a razão de tamanho alarido, ficaram preocupados com a cena dantesca que avistaram, e com a iminente agressão que se prenunciava. Nabucodonosor já estava quase alcançando o menino Bruno que, já sem forças, corria desequilibrado, quase flutuando, mantendo-se a muito custo de pé, sem cair ao chão. Os braços abertos do guri, tal qual as asas de Nabucodonosor, era o que o mantinha ainda em posição vertical, de pé.

Mais rápido que os demais, o pai de Andrey correu em socorro dos meninos e ainda teve tempo de amparar Bruno nos braços antes que ele caísse desfalecido e fosse atacado pelo feroz bípede.

Nabucodonosor não se intimidou, contudo. Estava já tomado por um furor animal que o fez atacar o garoto, e também quem o amparava. Os outros homens, vendo que a situação estava passando de crítica, atacaram o galo a pesadas tentando afastá-lo de sua pretensa presa. A muito custo fizeram com que ele refluísse do seu intento e voltasse para o seu território.

Passado o susto, com o garoto Andrey já devidamente sob os cuidados dos parentes, os salvadores caíram em estrepitosa gargalhada. Quanto aos garotos, continuavam em estado de terror absoluto, com os olhos quase a saltar das órbitas. 

Os homens riram por um bom período até não conseguirem suportar o incômodo na barriga. Um pouco aliviados, e outro tanto admirados com a valentia daquele animal que não demonstrara, em momento algum, receio pela presença deles, recolheram os dois meninos à segurança do lar.

Todavia, esse incidente quase teve resultados catastróficos para o nobre Nabucodonosor. Preocupados em manter a política da boa vizinhança, e com receio de que o reizinho viesse a atacar outras crianças, decidiram sacrificar o belo galo.

Mais uma vez seu protetor entrou em ação para salvá-lo do banquete do qual ele não tinha o menor interesse de participar. E, em nome da diplomacia e da boa política, decidiu agir. Na noite que antecedeu ao previsto banquete, o galo foi sorrateiramente retirado de lá, e levado, às escondidas, para o sítio de um amigo que possuía um mini zoológico com várias espécies de animais e aves, muitas da mesma espécie de Nabucodonosor. Lá o fugitivo se encontrou com belas companheiras originadas de muitos países, como a inglesa Bianca Leghorn, as americanas  Mimi Rhode Island Red,  Angel New Hampshire e  Desirée Plymouth Rock Barradas, entre outras, todas logo incorporadas ao seu novo séquito real. Para isto, não encontrou muitas dificuldades, pois os espécimes masculinos que antes reinavam no terreiro, foram vencidos um a um e passaram a fazer parte da sua corte, servindo-o e adotando-o como novo e verdadeiro líder. Chegara novo rei ao pedaço.

Até que Nabucodonosor gostava de suas novas pretendentes. Eram belas e educadas, de fina estirpe e o tratavam com carinho e devoção. Mas, apaixonar-se mesmo, só aconteceu com uma: a bela Gail White América, de andar gingado e orgulho nas alturas. Portadora essa índole também real, fazia questão de não acompanhar as outras amigas quando o assunto era bajular o recém-chegado rei do pedaço. E esta talvez tenha sido a razão para ela ter sido escolhida para rainha. A mais bela e inteligente rainha que se conheceu por aquelas terras em uma centena de anos. Quanto a Nabucodonosor, viveu feliz por muitos e longos anos e deixou numerosa prole que hoje se espalha por vários reinados onde ocupam os mais importantes cargos na realeza.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Ceticismo




Elmar Carvalho
Poeta, é membro da Academia Piauiense de Letras

Náufrago de uma tempestade
num copo dágua,
escuto o canto da desgraça
como um chamado de sereia.
Pregado numa cruz invisível,
de cabeça para baixo,
tenho os braços fechados
em sinal de protesto.
Herói morto de
um sonho desfeito,
tenho como epitáfio
a solidão e o
esquecimento.
Cantor do silêncio,
tenho a lira sem cordas
e as mãos paralíticas.
Pássaro-símbolo da liberdade,
tenho as asas quebradas e a
garganta afônica.
Mendigo da solidão,
tenho as mãos vazias.
Descendente de troglodita,
sou menos que um
macaco.
Partícula de mim mesmo,
sou menos que uma célula
fragmentada.
Resumo de mim mesmo
uma expressão me resume:
o NADA absoluto.


           Parnaíba, 04.09.77