terça-feira, 19 de julho de 2016

Ariston Costa - Uma Estrela Emergiu no Céu do Curador



                                                                                                                                    José Pedro Araújo
Altino Gomes da Costa


Tenho me debruçado nesses últimos tempos a escrever sobre algumas famílias do jovem município de Presidente Dutra, especialmente aquelas que se destacaram politicamente nesses seus 72 anos de emancipação política e administrativa. Nos textos publicados até aqui toquei de leve em um desses agrupamentos familiares cujo cognome é Arapuá. Pois a família sobre a qual pretendo discorrer hoje, mais especialmente um de seus membros, pertencente à vasta população desse clã. Refiro-me ao mais surpreendente deles, Ariston Costa.  Antes, porém, quero tecer alguns comentários sobre seu pai, Altino Gomes da Costa.
Altino Gomes era Arapuá, entretanto, apesar do sobrenome, não era um Gomes de Gouvêia. E apesar de não ser parente de Honorato Gomes de Gouvêa, foi quase sempre seu aliado político. Quase sempre porque, nas primeiras eleições para prefeito do Curador, era aliado de Virgolino Cirilo de Sousa, conforme o registrado em uma nota de apoio ao Interventor maranhense, Saturnino Belo. A nota ao qual me refiro foi publicada no jornal “Diário de São Luís”, de 06.08.1946, e Altino subscreve-a como novo partidário do PSD, juntamente com Virgolino Cirilo, Nelson Sereno, Adalberto Macedo, José Elias Almeida, Durval Cunha Santos e Pedro Francisco Salvador. Fazia parte da cúpula do partido.
O mesmo jornal, em matéria publicada no dia 09/03/1949, noticia que Altino Gomes fez a sua adesão ao PST, novo partido criado no estado por Vitorino Freire: “Acaba de aderir ao PST, o Sr. Altino Gomes, conceituado comerciante e influente político no município de Presidente Dutra. O novo membro vinha militando na UDN, sendo suplente de vereador por essa corrente política”. Infere-se desta nota que o político presidutrense saía do grupo político denominado Oposições Coligadas, para apoiar a ala vitorinista. Acredito ainda, que a partir deste momento Altino Gomes deixou a fracção de Virgolino Cirilo de Sousa e passou para o lado da de Honorato Gomes. Também se observa que ele havia disputado as eleições para vereador do novo município do Curador, não tendo, contudo, logrado êxito.
 Nascido na região do Curador em 1905, sua família tinha origem em São João dos Patos, entretanto. Comerciante e pecuarista, foi Juiz de Paz e líder político desde os primórdios do município.  Mas Altino notabilizou-se por ser o pai de Ariston Costa, um das estrelas mais fulgurantes a nascer no velho Curador.
Ariston Costa
Ariston Costa nasceu no povoado de Curador, município de Barra do Corda-MA, em 30.12.1931, iniciando-se nas primeiras letras com os mestres-escolas que substituíam os colégios tradicionais que ainda não possuíamos. Com o passar dos anos, e para prosseguir com os seus estudos, partiu para a capital maranhense, ingressando no Liceu Maranhense. Em São Luís também, entrou para o 24º Batalhão de Caçadores do Exército, onde prestou serviço militar ainda no início dos anos 50. Depois disto, mudou-se para o Rio de Janeiro e entrou para a Faculdade de Engenharia, passando a residir em uma residência que abrigava estudantes do seu estado, bancada pelo Governo do Estado do Maranhão. Foi colega de república de Jackson Lago, ex-governador, já falecido, e do atual Senador João Alberto de Sousa. Não chegou a concluir o curso de engenharia, pois logo estava de volta ao Maranhão, passando a atuar como advogado provisionado, em uma época em que essa profissão era muito comum, especialmente em cidades interioranas, e em decorrência da falta de profissionais formados nessa área das ciências humanas.
Ariston não voltaria logo a residir na sua terra natal, tendo se fixado primeiramente em Mirador, cidade maranhense situada no sertão, e lá conheceu a jovem Iraci, que viria a ser a sua esposa e mãe dos seus filhos. De volta a Presidente Dutra, passou a atuar em toda a região, em especial nos municípios que se acham em volta deste. A política partidária que já estava no seu sangue, passou a ocupar espaços também na sua mente e na sua alma. No vácuo de uma disputa eleitoral entre o governador Newton Bello e o deputado Federal Eurico Ribeiro, cuja principal base eleitoral era justamente a região de Presidente Dutra, Tuntum, Dom Pedro e circunvizinhanças, surge a figura do jovem advogado Ariston Costa. Com o apoio do prefeito de Presidente Dutra, Honorato Gomes, e do governador do estado, Newton Bello, que tinha como meta minar as bases eleitorais do deputado Eurico Ribeiro na região, o jovem presidutrense lançou-se com toda a força e gana política em busca dos votos dos eleitores da região do Japão, e logrou êxito logo na sua primeira tentativa.
Importante lembrar que Presidente Dutra e Tuntum, foram os principais redutos em que Ariston amealhou mais votos. Em Tuntum havia uma disputa renhida entre a família Léda, capitaneada pelo ex-prefeito Ariston Léda, com o apoio do seu sobrinho Eurico Ribeiro, e do prefeito Luiz Gonzaga Cunha. E em Presidente Dutra, a oposição ao prefeito Honorato Gomes, formada pelos Léda, que já haviam dirigido o município em duas oportunidades (Ariston Léda e o irmão Adir Léda), além do grupo dos Sereno, já sem o antigo poder de outrora, e de mais um apanhado de pequenas lideranças, que, somadas ao vice-prefeito Valeriano Américo de Oliveira, e apoiada por Eurico Ribeiro, formaram um novo grupo político que iria dirigir o município por longos anos, como já falamos em crônicas anteriores.
Pois foi nesse ambiente de duras disputas que surgiu a figura emblemática de Ariston Costa. Apoiado por Honorato Gomes, em Presidente Dutra, e pela numerosa família Arapuá e pelos adversários dos Léda e dos Cunha em Tuntum e região, Ariston conseguiu expressiva votação, suficiente para lhe conduzir a Assembleia Legislativa do Estado como o primeiro deputado estadual presidutrense. Presenciei certo dia um discurso de Ariston Costa através de uma amplificadora em Tuntum. Estávamos visitando um amigo de meu pai naquela cidade, Sr. Joaquim Morais, ele próprio um dos opositores dos Léda e apoiador de Ariston Costa, quando começamos a ouvir a radiofônica transmitir um discurso duro, recheado de ataques ao grupo que governava o município. Impressionado com a virulência da mensagem, mas e, sobretudo, com o poder da oratória de quem falava naquele instante, perguntei ao meu pai quem era o orador. E ele, sorrindo diante da minha curiosidade, respondeu que era Ariston Costa quem discursava. Estávamos em plena campanha eleitoral, e o clima beligerante era possível de ser sentido no ar, na pele, quase ao ponto de tocá-lo dom a ponta dos dedos. Foi preciso a intervenção do exército brasileiro na região para que as eleições pudessem acontecer em um clima de relativa segurança.  
Jovem Ariston Costa
O final dessa história todos já sabem. Foi trágica e triste. Ariston elegeu-se, e com a força do seu discurso e do seu poder de articulação, logo foi nomeado vice-líder do governo na assembleia legislativa do Maranhão. Contudo, usou do poder que detinha de forma demasiada, fruto da idade, pois contava com apenas 31 anos quanto foi guindado ao posto de primeiro deputado estadual presidutrense, e ao de vice-líder da situação. Pelo que consta, Ariston utilizou tudo isso para tentar minar as forças dos seus opositores, em um período conturbado, quando os militares tomaram conta do país.
Em uma de suas ações mais duras, fez com que o exército conduzisse coercitivamente para São Luís os prefeitos de Tuntum e de Presidente Dutra, além de outros adversários seus. A ação desagradou a muitos e poderosos adversários, o que culminou com a sua cassação. Esses fatos que resultaram na interrupção do seu mandato não estão muito claros para mim. Há uma certa cortina de dúvidas a obstruir os reais motivos da cassação do mandato do nosso primeiro deputado eleito, pois em nenhum das relações que constam os políticos cassados no Maranhão, aparece o nome de Ariston.
Mas, esse não seria o problema maior pelo qual passaria o jovem deputado. Enquanto trabalhava pela sua reabilitação política, Ariston continuava a atuar na região e a amealhar inimigos políticos também. E quando se achava próximo de conseguir o seu intento, qual seja o seu retorno ao mandato de deputado, Ariston foi barbaramente assinado por um pistoleiro de aluguel quando transitava pela cidade de Dom Pedro, com destino a São Luís. A história desse assassinato que abalou a população de Presidente Dutra e região, já contei no meu livro “De Curador a Presidente Dutra – história, personalidades e fatos”. Não pretendo descrevê-la aqui.
Ariston Gomes da Costa foi uma estrela fulgurante que brilhou nos céus do Curador, mas que partiu cedo, aos 33 anos de idade, vítima do ódio e do rancor que insistia em cobrir de dor o povo ordeiro da região, e de encharcar de sangue a terra bendita e fértil do nosso velho Curador. Menos mal que, ultimamente, as disputas eleitorais têm sido travadas no campo das ideias e do poder de convencimento. Apesar de duros, renhidos, muitas vezes injustos, os embates eleitorais, apesar de deixar sequelas, dividir amizades antigas e emplacar mágoas profundas, ficam apenas nisso. 
Presidente Dutra, e região, viveu tempos de violência avultada desde o princípio, quando ainda se chamava Curador, foi o que tentei mostrar nas diversas crônicas que publiquei nesse espaço. Contudo, esse comportamento que beirava a insanidade, não era primazia da nossa região. Ao contrário, era um prolongamento do que ocorria, desde tempos imemoriais, em todo o país, e de modo especial no nordeste brasileiro, quando o coronelismo atuava de forma dura e cruel para manter-se no comando dos poderes locais. As práticas violentas travadas em Grajaú para manter o mando na política, entre os Léda e os Costa Araújo, foram estendidas até as terras do Curador, e aqui fizeram seus estragos. Todavia, quem se der ao trabalho de lançar um olhar sobre as famílias que se engolfaram tantas vezes em lutas violentas para conquistar o poder regional, verá que hoje elas convivem pacificamente, até mesmo se entrelaçaram familiarmente, através do casamento de alguns de seus descendentes. Isso só prova que o tempo é de fato o senhor da razão. Os excessos, as porfias sangrentas, devem ser mantidos longe das disputas eleitorais. Sempre e para o bem da democracia!
Com esta última crônica, encerro o meu “Projeto 28 de Junho”, que até já entrou sem controle por metade do mês seguinte. Tentei aqui relatar os fatos históricos acontecidos na cidade com base nas minhas pesquisas, no depoimento de pessoas amigas, e na minha própria  percepção dos fatos acontecidos. Não me detive em exprimir ideias preconcebidas, apaixonadas, ou de valor, sobre os fatos aqui relatados. Não tinha, e nunca tive, esse propósito. Quis, como já externei aqui, apenas ressuscitar fatos acontecidos na região, impedindo que eles caíssem em completo esquecimento. Mas, volto a repetir, o meu verdadeiro propósito é provocar a juventude da minha terra, para que vá fundo na elucidação dos acontecimentos e não deixem que a história da brava gente do nosso Curador venha a submergir no negro mar do esquecimento. Por tudo o que fizeram, de bem ou de mau, não merecem eles cair no esquecimento.

7 comentários:

  1. Seus textos estão de parabéns. Acompanho com assuidade, assim como o fiz na leitura de seu livro que fala sobre a história de nossa cidade. Acredito que inclusive posso contribuir em alguns textos. Apesar da pouca idade sou um apaixonado pela história politica de PDutra. Senti falta nas suas crônicas algo sobre a família Moraes, Nunes e Figueiredo , eles que se confundem entre si , tem uma parcela na história de nossa cidade , com alguns representantes na política , desde o cargo de vereador como o de prefeito.

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  2. É verdade Lucas. Como você deve ter visto, entretanto, informei que falaria apenas sobre algumas famílias importantes politicamente, não sobre todas. Afinal, falta-me informações para discorrer sobre todas elas. Contudo, fico feliz de saber que você se interessa pelo assunto, o que, para mim, termina sendo o que busco realmente: um continuador para este trabalho. Por fim, gostaria de te pedir que prepare um texto sobre a família Moraes/Nunes/Figueiredo, faríamos um trabalho a quatro mãos para publicar aqui nesse espaço. Que achas?

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  3. Parabéns 😤 meu caro amigo Pedro por resgatar estas histórias. de presidente Dutra ma minha cidade natal 🎅 que amo muito eu sempre fui curioso em conhecer o passado histórico dessa cidade que teve grandes nomes na historia tanto na política como na bravura de grandes batalha de homens valentes como coronel Sebastião gomes e seus sucessores vc esta de parabéns 😤 mesmo obrigado agora tenho certeza da veracidade de seus textos que nos leva ao túnel do tempo ......

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    1. Obrigado, Regi. Tem sido muito gratificante para mim também esse mergulho na história e o levamento da vida desses personagens que tiveram importância na evolução de nossa terra.

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  4. Obrigado amigo pedro araujo que o senhor deus possa lhe proporcionar e levar suas lindas historias Para essa juventude do século 21 que possa conhecer a historia de presidents dutra assim Como eu Filho dessa cidade maravilhosa atualmente resido na cidade de sp breve estarei ai e sera ima honra conhece-lo meu abraço e sucesso ....

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    1. O prazer será meu. O problema é que resido em Teresina. Mas, sempre haverá uma possibilidade.

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  5. obrigado continuarei sempre acompanhando seus relatos e as histórias da região dos cocais

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