quarta-feira, 27 de julho de 2016

Mania de Livro: Um Tema Por Mim Repisado




Cunha e Silva Filho
Ensaísta, Crítico Literário, Cronista e Tradutor.

     A primeira vez de que me lembro ter ido a uma livraria foi no início do curso ginasial. No primário  não me recordo de  ter ido a livrarias  em Teresina.  Julgo que era  mamãe que me comprava  o material  escolar, o  quase livrinho  da cartilha do  ABC reimpressa tantas  vezes  e por várias  gerações. Daquela primeira vez que fui à livrairia,  cujo proprietário se chamava professor Oscar, já estudante ginasiano, conforme disse, acompanhado estava de meu pai. O que me marcou no fundo da memória foi a compra do primeiro livro de inglês,  o King's English, de Harold Howard Binns. Relatei  essa visita  histórica  no meu livro As ideias no tempo (2010).

       Mas, leitores,  sabe de uma coisa? Desde aquela  época  me tornei  um  entusiasta   de carteirinha  dos livros  de matérias  a que  mais  dava atenção: línguas,  leituras,  literatura, gramática, dicionários.

    Hoje mesmo,  à tardinha,   Elza me chamou para ir até ao Shopping da Tijuca. Confesso que  não queria sair  hoje. Preferia permanecer em casa, lendo o jornal  do dia anterior,  segundo  é meu costume. Não consigo ler o mesmo  jornal num só dia. Meu filho mais  novo não me deu sinal de que estava disposto a comprar o jornal de domingo, já que  queria assistir ao jogo da Eurocopa entre Portugal e França. Daí, não tive outra  alternativa senão  sai.

    Como o shopping fica relativamente perto da minha rua,  lá fomos, Elza e eu,  ao lugar combinado. O tempo não estava nem  quente nem frio. O sol não mais se fazia presente lá fora. Caminhamos com passos  em ritmo  normal.

   Olhamos no caminho  os restaurantes já com poucos  clientes  dentro. Os que examinamos  são especializados em   galeto, com batata frita e farofa - apreciado prato  dos cariocas.

   Entramos no  Shopping. Como sempre,  gente saindo, gente entrando,  inclusive nós. Gente de todas as idades,  caminhantes  que talvez nunca mais  veremos  na vida. São os rostos  dos anônimos, logo esquecidos.

  O mundo é grande. A vida, breve, enunciado um tanto surrado, contudo válido sempre. Da infância à adolescência um pulo; outro pulo, da adolescência à mocidade e assim  em todas as fases, até a última, a velhice. Nesta estamos  Elza e eu já  inseridos,  olhado  mais para o passado, para os tantos  pedaços  felizes  o  tristes, mas, assim  mesmo, não deixando de olhar  para trás. Elza costuma  me dizer que as pessoas estão sempre voltando às lembranças,  boas ou ruins,  do passado.Ela tem  razão. É só observar  o quotidiano  das pessoas, os museus,  as lojas de antiguidades,  as fotos  antigas,  os filmes  passados,  os autores  do passado,  a arquitetura   dos prédios  de antanho.Como  olhar o futuro se ainda não existe? Ficamos, então,  oscilando entre o presente e o passado. Essa é regra  geral. Projetamos  o futuro? Sim, mas  ele apenas é uma possibilidade,   um sonho,  uma utopia,   um algo  por vir prenhe de incertezas  e de ciladas.

    A vida humana é, na velhice principalmente, um  contínuo e  intermitente  flashback. Já deram conta disso, leitores da minha geração? Foi quiçá por esses motivos que sempre quis ler o  livro, de resto,  ainda excelente,  em muitas dimensões de leitura,  para o nosso tempo, que é Idade, sexo e tempo, de Alceu Amoroso Lima (o Tristão de Atahyde, 1893-1983). Tanto para mim  é bom  que voou lê-lo mais outra vez.

   Comprei o jornal. Elza, sempre atenta às vitrines,  . Gosta de ver  as novidades de  bijuterias, assim como  de jóias, colares,  anéis,  pendentes,  brincos. Esqueci de  mencionar que Elza adora também  ver artigos de cama e mesa, toalhas,    lençóis, cobertores,  colchas,   travesseiros, fronhas.   Tudo muito  caro.É a crise. Tudo agora é culpa da crise, quando a culpa cabe aos responsáveis pela crise cujos nomes os leitores já sabem quais  sejam se estiverem  habituados a ler os meus textos  neste  Blog que assino    desde 2009.

   Paramos um pouco dentro do shopping. Fomos sentar num banco vazio  defronte de uma salão de beleza. O movimento no salão estava regular. Ficamos  sentados, apreciando  o ir e vir de pessoas no corredor  ladeados de  lojas  bonitas  e muito  limpas. Dei uma  olhada geral na primeira página do jornal com várias chamadas  a colunas  e a reportagens.

  Em seguida,  abri  na coluna de Ferreira Gullar. Lia a crônica  “O banal maravilhoso,”  que fala de  animais ressaltando-lhes as qualidades e usando como contraponto o ser humano como  o único a animal  a  que nasce com  a potencialidade  intelectual de  admirar  pintura,  música poesia, de fabricar máquinas.  Entretanto,  os bichos  lhe são sempre caros, não há dúvida e por isso deixa implícito  o seu  enorme  afeto  por eles, sobretudo pelos que  demonstram maior  interação com  seus  donos.

  No final da crônica, um pouco abaixo,  uma nota na qual   poeta de Poema sujo refere a um  represália recente   do  poeta, ensaísta  e tradutor  Augusto de Campos. Gullar  declara que não vai mais responder a nenhum  insulto  do Augusto, irmão do grande  tradutor Haroldo de Campos (1929-2003). Não quer mais  bate-boca com quem  ele chama de “Augusto,  o Furioso.”

   A briga dele  com  o  intelectual  paulista se prende a questões  de um disse-não disse  relacionadas  a Oswald de Andrade (1890-1954),  ou mesmo à época em que Gullar, a princípio poeta concretista (1956), depois, se afasta dessa vanguarda do grupo paulista e lança o movimento poético  Neoconcretismo (1957), juntamente com  Reynaldo Jardim (1926-2011).

   Todavia,  desta vez, o embate  é  de natureza  política, uma vez que Gullar  descasca o petismo  enquanto que o outro  é a favor  do Lula e da Dilma. Reitera  Gullar na nota que não leu nem vai ler a catilinária do Augusto. Gullar, quando quer, é mordacíssimo  apenas usando  poucas  palavras. Pelo visto,  entre petistas e não petistas  não há espaço para o jogo dialético visto que  a ideologia   petista só  funciona na base do extremismo,   da cegueira  e da idolatria   alimentada  pela cegueira   do fanatismo.


  Último passo do passeio ao shopping: entrei  na livraria e comprei dois livros: uma obra  de Erich  Auebach (1892-1957) e um  volume de uma língua estrangeira que há anos cultivo com maior intensidade.Voltamos  para casa. Já era noite.

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