sábado, 2 de julho de 2016

Os Gomes de Gouvêia - Desde a Pré-história do Curador




Cel. Sebastião Gomes (Acervo família)

José Pedro Araújo

A história do município de Presidente Dutra está associada à da família Gomes de Gouvêia desde os seus primórdios, é o que podemos inferir das pesquisas realizadas. Ou mais precisamente, desde quando o Curador não passava de uma vila inexpressiva, escondida no mais profundo da região central do Maranhão. A primeira referência que encontramos sobre a família, data de antes de 1920, quando o Coronel Sebastião Gomes, oriundo do município de Carolina, cidade situada às margens do Tocantins, detentor de patente conferida pela Guarda Nacional, foi chamado pela população do Curador para lhe dar proteção contra desmandos ali praticados por Manoel Bernardino e por sua tropa paramilitar. A história do revolucionário Bernardino está registrada no meu livro intitulado “Do Curador a Presidente Dutra – história, personalidades e fatos”. Adianto apenas que Manoel Bernardino de Oliveira partira naquele dia do povoado Mata do Nascimento para ocupar a Vila de Curador, juntamente com um exército de homens armados. O coronel Sebastião Gomes, ainda residente em sua fazenda no lugar conhecido como Graça de Deus, hoje município de Tuntum, acorreu ao chamado da população alarmada do Curador, mas não mais encontrou os tais revoltosos, que já haviam retornado à sua base de operações.

Pelas informações que temos, Sebastião Gomes era a autoridade maior na região, e foi esta uma das razões que o levaram a ser nomeado Subdelegado de Polícia pelo líder político barra-cordense Frederico Filgueira, de quem era grande amigo e aliado. Em vista da atuação de Bernardino, foi Sebastião Gomes nomeado chefe das tropas que dariam combate ao revoltoso. Com ele veio também o Delegado Geral, Dr. Costa Gomes, que ocupava cargo que equivale ao de Secretário de Segurança nos dias de hoje. O Coronel Sebastião Gomes também foi recebedor de um montante em dinheiro de 2.633.850,00 (dois contos de réis, seiscentos e trinta e três mil, oitocentos e cinquenta réis), dinheiro que seria utilizado para adquirir suprimentos para abastecer as tropas. O caso do movimento armado na região, bem como os assassinatos cometidos pela polícia do Capitão Henrique Dias na Mata do Nascimento, passou a ser chamado pela imprensa da capital de Crimes da Matta. É uma página sangrenta que já parte da história oral e escrita da região.

Exemplificando o açodamento político que já tomava conta da região naqueles tempos inóspitos, dependendo do jornal que a noticiava, era o Coronel Sebastião elevado à condição de herói, ou de malfeitor. Os dois jornais mais importantes em circulação na capital, que se encarregavam de promover esse antagonismo, era o Diário de São Luís, governista, e O Combate, duro diário oposicionista.

Mesmo passados os anos, o Coronel Sebastião Gomes sempre esteve envolvido diretamente com os acontecimentos políticos mais importantes do Curador, desempenhando papel de prócer maior, ora como representante do governo, ora como líder da oposição. Aproveitamos estes fatos para passar um recado aos que querem reescrever a história partindo única e exclusivamente do que noticiavam os tabloides da época. No caso especifico do Coronel Sebastião Gomes de Gouvêia, que nos interessa em particular, o mesmo jornal O Combate, que o atacava seguidamente em 1921, lançando sobre ele palavras duras e pejorativas, durante a campanha de 1950 estampava o seguinte título de capa: “Na Realidade o Coronel Sebastião Gomes nunca esteve com o situacionismo”. E escrevia loas e boas sobre as qualidades morais e políticas do velho político curadoense. O próprio coronel não deixava dúvidas sobre suas opções políticas. Em 1945, por exemplo, o velho líder se encarregaria de deixar claro de que lado ele estava. Em nota publicada no jornal o Combate, ele se expressou assim: “Declaro que, em virtude do senhor Vitorino Freire fazer parte da chapa para deputados do PSD, venho, na qualidade de presidente do subdiretório do mesmo partido no Curador, declarar que retiro o meu apoio ao mesmo partido, por considerar o referido cidadão o maior dos meus inimigos. Declaro, outrossim, que desta data em diante passarei a fazer parte dos Partidos Coligados, isto é, Partido Republicano e União Democrática Nacional. São Luís, 31 de outubro de 1945. Ass. Sebastião Gomes de Gouvêia”.

Era um homem corajoso. É o mínimo que se pode afirmar. Pouquíssimas pessoas teriam peito para enfrentar o velho cacique Vitorino Freire deste modo. Enquanto isso, do outro lado, no jornal que lhe era favorável anteriormente, a história agora era bem diferente. Dizia-se que o velho político não tinha mais forças, que a liderança agora estava com o seu filho Honorato. Isso e outras coisas mais. Deste modo, precisamos nos acautelar, pois dos jornais engajados a facções políticas, devemos filtrar os acontecimentos com discernimento e cuidados extremos, não como verdade absoluta, portanto.

Cap. Honorato Gomes(Acervo família)
Por esse tempo, de fato, já pontificava politicamente na região do Curador seu filho Honorato Gomes de Gouvêia, e com ele os irmãos, Nereu e Orfileno. O Capitão Honorato, indubitavelmente, foi uma das maiores lideranças políticas do Curador e deixou descendência política que pontifica politicamente no município até os dias de hoje. Portanto, com a velhice do pai, foi ele, Honorato, quem passou a comandar a facção dos Gomes de Gouvêia no Curador. E na primeira eleição municipal de 25.12.1947, disputou, e ganhou, uma vaga de vereador, cerrando fileira ao lado dos Léda. Atestando a sua liderança, foi escolhido como o primeiro presidente do legislativo municipal.

Nas eleições seguintes, com pretensões de ser o candidato do grupo do prefeito, de quem era aliado histórico, teve o seu nome preterido. E por isso mesmo, lançou-se candidato a prefeito no pleito de outubro de 1950 pelas oposições. Foi derrotado nessas eleições pelo candidato apoiado pelos Léda, José de Freitas Barros, que tinha o comerciante Gerson Sereno como vice. Mesmo assim, o grupo de Honorato fez uma bancada numerosa na câmara municipal, e passou a fazer uma oposição dura e sistemática ao prefeito empossado. Tão dura que o eleito, pouco afeito aos embates políticos, vez que era verdadeiramente um comerciante, renunciou ao seu mandato antes de completar seis meses no cargo.  

Começava ali renhida luta pelo poder. Mais dura e sangrenta. O vice-prefeito, Gerson Sereno, sobre quem já falamos em crônica anterior, negou-se a assinar também a sua renúncia, preferindo não abrir mão de um direito adquirido nas urnas. O que que se seguiu é do conhecimento de todos. Presidente Dutra passou por momentos de pura insegurança, e alimentou os jornais da capital com notícias horripilantes sobre os acontecimentos daqueles anos. A violência, a insegurança e o desrespeito aos mais comezinhos preceitos constitucionais prosseguia na região, e ainda passaria muito tempo até que a ordem fosse estabelecida de vez.

Honorato continuou militando politicamente na região, mas somente no pleito realizado em 03 de outubro de 1960, seria eleito prefeito do município de Presidente Dutra, tendo como companheiro de chapa, o Sr. Valeriano Américo de Oliveira, sobre quem já falamos em crônica anterior. Valeriano assumiu o mandato de vice-prefeito pela segunda e consecutiva vez. Agora, junto ao candidato das oposições, e contra os Léda. Honorato, já em fase idosa, logo se descobriu com um câncer que o debilitaria muito e o impediria de fazer uma administração mais efetiva. Mas ainda teve forças para ajudar a eleger o primeiro representante presidutrense a assembleia legislativa do Maranhão, o deputado estadual Ariston Costa.

 Durante o seu mandato teve inicio o regime militar de 1964, e com ele grandes mudanças ocorreram no país. O capitão Honorato Gomes ainda viu ser assassinado o seu deputado Ariston, e ele próprio veio a falecer durante o seu mandato, fatídico acontecimento ocorrido no dia 15.06.1965. Seu vice, Valeriano, abriu mão de assumir ao cargo de prefeito para não perder a oportunidade de um mandato completo. E por isso coube ao Sr. Raimundo Lopes de Sousa, o Dico da Serra, então presidente da câmara municipal, assumir os destinos do município.

O quadro político local sempre contou com alguém ligado à família Gomes de Gouvêia até os dias de hoje. Um parente próximo, Nacôr Gomes, foi eleito em dois mandatos consecutivos à câmara municipal, para a 2ª e 3ª legislaturas. Orfileno Gomes de Gouvêia, irmão de Honorato, para a 5ª legislatura, mas faleceu em pleno mandato. Eduardo Gomes, filho de Honorato, foi eleito vereador para a 10ª legislatura. Mais recentemente um neto de Honorato voltou à terrinha para trabalhar como médico e logo retomou o projeto político dos Gomes de Gouvêia, do ponto em que foi interrompido. Refiro-me ao Dr. Orlando Pinto, atual vice-prefeito do município, esposo da vereadora eleita para 16ª legislatura, Karita Gomes. Ela também uma neta do velho e aguerrido Honorato Gomes de Gouvêia. Os dois são bisnetos de Sebastião Gomes de Gouvêia, chefe do clã em terras do velho e querido Curador. 

O coronel Sebastião Gomes ao mudar para o Curador situou a fazenda Fortaleza, onde passou a residir. O Capitão Honorato, dono de muitas terras, organizou a Fazenda Santa Maria, situada bem próxima à sede do município, e lá residia. As terras da Santa Maria foram divididas entre os herdeiros, ficando a sede com o filho Eduardo, já falecido. Mas a sua viúva, Lídia Morais Gomes, ainda reside na vetusta casa dos Gomes de Gouvêia. Quando ao herdeiro político, Orlando Pinto, situou-se em uma bela morada também dentro das terras da antiga fazenda. É lá que ele recebe seus correligionários para planejar as futuras ações políticas.

10 comentários:

  1. Sobre Manoel Bernardino, que era comunista, espírita e vegetariano cabe lembrar que este foi quem abriu a estrada que liga hoje Dom Pedro a Presidente Dutra em 1915.
    Chamar seus 'amigos' de tropa paramilitar é um exagero, não passava de 15 pessoas.
    Chamar-los de arruaceiros outro grande anacronismo.
    Se hoje as pessoas que lutam por justiça não são vista com bons olhos, imaginemos como devia ser há mais de 90 anos.

    Relve Marcos

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    1. Caro Relve,
      Obrigado pelo acesso ao blog no qual tentamos resgatar a história perdida da região do Curador e adjacências.Não sei de onde vc tirou a informação de que o revolucionário Manoel Bernardino de Oliveira adentrou a vila do Curador com "apenas" 15 homens. Como não existe registro documental de tal episódio, baseei-me em depoimentos de pessoas(3 pelo menos) que já habitavam na dita vila naquela época. Por outro lado,certos cronistas que faziam parte da Coluna Prestes afirmam que Bernardino juntou o maior contingente de homens armados em todo o trajeto feito por ela ao longo dos mais de 20.000 quilômetros pelo interior do país.Todos eles fardados e armados com rifles Winchester. Isso é mais do que um batalhão,você há de convir. Deste modo, não acho que tenha exagerado ao chamar o grupo de Bernardino de tropa, se pensarmos na sua capacidade de arregimentar combatentes. Por fim, não os chamei de arruaceiros, como também não os brindei com o título de herói.

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    2. Gostaria que me fornecesse as fontes sobre essa questão do contingente de Bernardino.
      Pois li os jornais e o depoimento do dito cujo na época e os relatos são de poucas pessoas.
      Além do mais causa muita estranheza o fato de tão bem armado "batalhão" não ter resistido as investidas do capitão Henrique Dias que chacinou os três moradores da Mata sem maiores consequências.
      Att.
      Relve Marcos

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    3. Vejo que você é interessado por história, especialmente história regional, muito pouco difundida entre nós. Mas, respondendo à sua indagação, afianço-te que a historiografia, especialmente a que trata de assuntos regionais, ou localizados, como é o caso da do nosso Bernardino, é bastante vasta, não na quantidade e qualidade que deveria, mas muito melhor do que jamais foi.No caso específico do A. Bernardino,encontramos no livro do jornalista Lourenço Moreira Lima, intitulado Coluna Prestes, Marchas e Combates, muitas referências sobre ele. Lourenço foi exatamente o Secretário e relator da marcha, uma das fontes mais insuspeitas, e por isso mesmo consultadas pelos historiadores sobre a Coluna. Mas não somente ele. Nelson Werneck Sodré, grande historiador brasileiro, autor de importantes obras sobre os principais movimentos militares ocorridos no país,militar com um viés de esquerda, e por isso mesmo caçado pela revolução de 64, autor muito consultado, foi o autor da informação que te passei: "Antonio Bernardino juntou-se à Coluna em Picos(Colinas), com cerca de 200 homens armados. foi o maior contingente de homens liderados por um único indivíduo que se juntou à Coluna nos 25.000 km que a marcha empreendeu pelo país". Bernardino foi um dos subcomandantes da coluna, e isso atesta o seu poderio bélico e a sua liderança. A historiografia piauiense também é farta em informações sobre a passagem da Coluna pelo estado, e traz muitas informações sobre Bernardino.Galeno Edgar Brandes, no seu livro Barra do Corda na História do Maranhão,transcreve, inclusive alguns bilhetes encontrados com lideres oposicionistas presos, e que apoiavam a coluna no estado, e afirma que Barra do Corda e região teve as suas vias de acesso cortadas por Bernardino e seus homens, e esteve ameaçada de invasão, tudo isso na tentativa de soltarem dois importantes membros da coluna aprisionados na cidade. Codó, e a própria capital, também sofreram ameaças de invasão. Bernardino não era uma andorinha só, posso de afiançar. Mas não sei também se era tudo o que dizia ele próprio ser. As informações são muitas, e não cabem aqui neste espaço, contudo. Grato pelo interesse.

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  2. Uma bela história!😞 Mas me resguardo em falar algo dos primórdios deste clã. Uma vez q faltou diálogo com meus antepassados.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Linda história da família 👪 gomes

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  5. Olá! Achei a história sobre os Gomes de Gouveia muito interessante. Pude conhecer um pouco mais sobre minha família, meu pai é primo em segundo grau do Sr. Honorato Gomes de Gouveia. Somos de Balsas, sul do Maranhão. Meu bisavô, Pedro Gomes de Gouveia é irmão do Sr. Sebastião Gomes de Gouveia, que migrou de Carolina para Presidente Dutra enquanto meu bisavô Pedro Gomes migrou para Balsas. Meu pai, Pedro Gomes de Gouveia Neto, conhece muito da história da família, mas agora estamos conhecendo bem mais graças ao seu blog. Muito obrigada

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  6. Irani, desculpe-me por não ter agradecido o seu comentário que muito me alegrou, por poder escrever um pouco sobre as famílias que tiveram grande influência política na região centro-sul do nosso estado. Grato pelas suas palavras!

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