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Sr. Pedro Leite e D. Naide. |
José Pedro Araújo
Eu o conheci sentado pacifica e
calmamente em um dos primeiros bancos da Igreja Cristã Evangélica de Presidente
Dutra, na fileira de assentos da esquerda. Tranquilo, observador, a mansidão em
pessoa, nunca o vi alterando a voz por qualquer motivo. E foi assim durante
todos os anos em que esteve entre nós. Trazia consigo sempre uma palavra amiga
disponível e pronta para ser ofertada gratuitamente. E se não havia razão para
ser agradável, nunca o vi ultrapassar os limites da sua calma habitual e da sua
decência incontestável. Passei a admirar aquele cidadão que parecia não ter
qualquer compromisso com o tempo, e que aparentava não almejar fortuna além da
que já possuía. Acredito que utilizava o tempo, aquele mesmo com o qual não se
preocupava, para ver bem encaminhada a numerosa família que formara com a sua
Naide, mas também para se alegrar com o progresso do seu semelhante. Vivia do
sustento que retirava da sua propriedade na várzea do rio Preguiça, e enquanto
trabalhava de sol a sol para manter a sua casa, deixava todo o resto das suas
preocupações nas mãos do seu Deus, adotando fielmente o que ensinou o salmista:
“... lança sobre Ele toda a vossa ansiedade, porque Ele tem
cuidado de vós!”.
Homem alto - para os padrões
sertanejo - magro, rijo e elegante, cabeça pequena e de bom formato - também
fora dos padrões do nordestino -, passou para a sua descendência o seu caráter
e o seu jeito de granjear amizades. No velho Curador, a sua numerosa família foi,
aos poucos, foi se dispersando e tomando novo rumo em busca do seu próprio
futuro. Hoje, essa descendência tão bem cuidada e orientada, encontra-se
espalhada pelo Maranhão, Piauí, DF e Goiás. E essa prole, mesmo distante, sempre
inventa, e encontra, uma maneira de se juntar em alegres confraternizações. São
mesmo conhecidos, quando estão juntos, pela estatura fora dos padrões da
região, como já afirmei, mas, sobretudo, pela alegria que não economizam.
Pedro Leite não fazia acepção de
pessoas, nem de classes, nem de idade. Do mesmo modo que esbanjava gentileza
com os do seu tempo, fazia igual com as crianças e com os jovens. Uma das
lembranças mais marcantes que tenho dele, data época da minha adolescência. Estávamos
reunidos naquele momento em um sitio no povoado Sapucaia em retiro espiritual, cujo
propósito era atravessarmos o período carnavalesco longe da balburdia. Esse era
um dos momentos mais agradáveis para os jovens da igreja. Naqueles encontros,
além de ouvirmos a palavra de Deus, também rolavam muitas brincadeiras, e até
mesmo algum tipo de paquera acontecia, tudo dentro dos limites estabelecidos
pelos adultos que ficavam responsáveis por manter a garotada na linha.
Com este propósito, homens eram alojados
em um local, mulheres em outro. E dessa vez, o grupo masculino ficou abrigado
em um casebre de palha à cerca de duzentos metros da casa sede, local onde nos
reuníamos e que foi ocupado pelo grupo feminino. Estávamos todos em busca do
melhor local para armarmos as nossas redes, noite já começada, com a
preocupação de não nos distanciarmos muito do grupão, pois era ali que rolavam
as conversas mais interessantes; as confidencias mais aguardadas.
Estávamos assim, quando de
repente emergiu da escuridão o Sr. Pedro Leite. Vinha com a sua rede enrolada e
abrigada debaixo do braço. A algazarra, que acontecia naquele instante, parou,
pois desconfiávamos que a chegada do visitante tinha um propósito: controlar o
ímpeto da rapaziada. Enquadrar-nos. Mas o sorridente visitante não se deu por
achado e disse logo que havia ficado sem espaço para armar a sua rede no local determinado
para os adultos, e viera procurar um lugarzinho por ali. Não acreditamos muito,
mas, enfim, o visitante era uma pessoa muito querida por todos, e dali a
instantes ninguém mais se lembrou de que ele não possuía a mesma idade que nós.
Por sua vez, municiando-nos com as suas histórias interessantíssimas, logo havia
tomado conta do ambiente. E dali a instantes até aceitou comer das melancias
que a garotada havia ido buscar sorrateiramente em uma roça descoberta nas
imediações. Aceitou também manter o segredo, desde que não repetíssemos o gesto
anterior e deixássemos as melancias do vizinho em paz. Foi um dos retiros mais
prazerosos de que me lembro. Até luta corpo-a-corpo travamos naquele local para
ver quem era o campeão do esporte. Tudo sobre o olhar complacente e risonho do
nosso diretor de disciplina. Fortaleci, naqueles dias, minha amizade com ele.
Muitos anos depois tirei proveito disto, no bom sentido. Foi um dos meus alvos
quando sai a pesquisar sobre o velho Curador que ele tão bem conhecia. Arguto,
bom observador, entrevistei-o várias vezes em busca de confirmação sobre algum
fato histórico que eu precisava de mais uma testemunha.
A família Leite foi uma das
fundadoras da Igreja Cristã em Presidente Dutra. Mas a história do seu trabalho
de evangelização data de um período bem anterior, quando o canadense Perrin
Smith aportou no povoado para difundir o evangelho entre a gente do lugar. Próximo
ao ano de 1912, um pouco mais, um pouco menos, José Leite, patriarca da
família, acompanhou o missionário Smith em uma viagem pelos sertões de Barra do
Corda com o propósito de pregar o evangelho em comunidades dispersas pelo
interior do vasto município, chegando até à distante povoação de Curador. Como
afirmou Dugal Smith, filho do missionário, em seu livro FAZENDO PROGRESSO, o
missionário partia para a sua missão evangelística que durava até dois meses,
montado em um animal, enquanto outra alimária carregava um órgão musical no seu
lombo.
Esse instrumento harmonioso
servia para atrair os circundantes para ouvirem a palavra de fé. E quando um
grupo considerável se formava, o missionário iniciava a sua pregação. Quase não levava suprimento alimentar
consigo, e passava, muitas vezes, necessidade nesses périplos sertão adentro.
Além da falta de alimento, muitas vezes tinha que conviver com o preconceito
quanto algum morador que o recebia tomava ciência que a sua vinda tinha como
propósito a pregação do evangelho. Foi em uma dessas viagens que o pregador
chegou até ao distante Curador e ali conseguiu fazer as primeiras conversões em
meio à uma população totalmente avessa ou desconhecedora do protestantismo.
A escritora e evangelista Eva
Mills, uma inglesa que também chegou à região no começo do século vinte, com o
propósito de pregar o evangelho em meio ao mundo desconhecido, relata em seu
livro 8:28 que, por volta de 1936, foi à Vila de Curador em companhia de Perrin
Smith e mais um grupo de crentes estabelecidos em Barra do Corda para
participar de um Convenção Evangelística na comunidade. Nesse ano, portanto, já
existia um grupo de evangélicos no local. Não é possível afirmar se José Leite
acompanhava os missionários nessa viagem também. Mas, o certo, é que em 1949 se
mudou para o novo município que acabava de ser criado. Trazia consigo, para
fixar residência na nova cidade, o filho Pedro Leite, juntamente com a esposa
Naide e o primeiro filho do casal, João Paulo.
Começava então a história da família Leite em terras curadoenses. Uma
bela história, diga-se, a bem da verdade.
O Sr. Pedro Leite foi testemunha,
portanto, de todo o progresso da igreja nesses muitos anos de sua existência. E
do município também. Viu a construção do primeiro templo na rua Magalhães de
Almeida, a criação de novas igrejas na cidade e, finalmente, a aquisição do
terreno e a ereção do novo e belíssimo templo que hoje abriga a primeira Igreja
Cristã Evangélica de Presidente Dutra, na Av. José Olavo Sampaio. Acompanhou
também o desenvolvimento do município, seus ganhos e suas perdas.
Não é possível dimensionar
quantas vezes o casal, Pedro Leite e Naide, deixou a sua residência, braços
dados, Bíblia Sagrada debaixo do braço, para irem ocupar seus lugares naqueles
bancos em que eu os vi pela primeira vez. Foram milhares de vezes, acredito, assíduos
e pontuais como eles eram.
O barra-cordense Pedro Leite,
nascido a 28.06.1921, tinha algo mais que o relacionava à cidade que o acolheu.
Os dois, homem e cidade, aniversariavam no mesmo 28 de junho. Dizia-me, há
poucos dias a enfermeira, sua neta, Karina Leite Félix Baía que, quando criança,
viajara certa vez para Presidente Dutra para participar das festividades em
comemoração ao aniversário do seu avô. Naquele dia, surpreendeu-se com o
foguetório que explodiu por toda a cidade. Admirou-se e apreciou tudo aquilo. Somente
então ficou sabendo que aqueles fogos eram uma homenagem ao município pelo seu aniversário
e não ao avô. Acredito, contudo, que, mesmo inconscientemente, tinham o
propósito de homenagear seu boníssimo avô, sim.
Pedro Leite formou numerosa
família composta por dez filhos, oito nascidos do ventre da sua esposa, e dois
adotados, mas igualmente tratados como filhos. Se orgulhava muito pela obra
realizada. Afinal, viu com crescente orgulho o progresso de cada um deles, e
até dos netos e bisnetos. Quando nos deixou, em 19.06.2019, nove dia antes de
mais um aniversário, ficou em seu lugar uma lacuna imensa no seio da família,
dos amigos, e da igreja presidutrense. Entretanto, ao mesmo tempo, restou-nos
aquela certeza e o orgulho de que aquele homem cumpriu fielmente a sua missão
na terra.