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Arraial Vazio |
José Pedro Araújo
As festas juninas têm para o
nordestino um sabor especialíssimo, em grande medida quando aliou-se ao Forró
para trocar a trilha sonora que, de músicas sacras, passou a algo mais mundano,
e por isso mesmo mais contagiante. E o que começou “Joanino”, referência a São
João, passou a “Junino”, por acontecer no mês de junho. Mudou muito desde lá, “mundanizou-se”,
e hoje a bebida alcoólica substituiu também as beberagens caseiras com pouco ou
nenhum álcool. A cachaça, a cerveja, além de todos os tipos de bebida com um
teor alcoólico mais robusto, agitam o sangue e botam fogo no arraial. Apesar
disto, em determinadas localidades a igreja ainda consegue arrecadar fundos com
seus leilões a permear o que é estritamente mundano.
Hoje em dia, o mês de junho é o mês
das grandes fogueiras, do forró, das quadrilhas e da bebida em larga escala em
outras regiões do país também. As grandes marcas de Cerveja patrocinam eventos monumentais
em cidades como São Luís, Campina Grande e Caruaru, tirando os eventos dos
pátios das igrejas. Mas este ano será
diferente. Os tais santos festeiros também entraram em regime de quarentena, assim
como todos nós, simples mortais. As bandas de música se calaram, as fogueiras
não foram acesas e as garrafas de bebida não saíram das fábricas e alambiques.
É começar a escrever algo assim,
e me vem imagens do velho Curador. Apesar da minha origem protestante,
esbaldava-me nesse período a correr rua acima, rua abaixo, encantando-me com as
mais belas fogueiras acesas sobre o pó da rua Grande desnuda de calçamento
naquela época. E sobre as calçadas, pessoas conhecidas observavam tudo sentados
em cadeiras encostadas nas paredes. Era um show encantador observar os estalos,
os traques, as estrelinhas, as bombinhas explodindo na noite; as girândolas enroscando-se
no ar, e as chuvas chinesas faiscando coloridas e incandescidas, por toda a
parte. E quando as fogueiras iam morrendo, vinham as batatas-doces postas para
assar sob as brasas ainda vivas. E depois, no rastro das batatas, vinham os moleques
que desciam a rua com arames pontiagudos em formato de lanças para roubá-las e
depois dá no pé para escapar da fúria dos donos dos apetitosos tubérculos e das
fogueiras. Terminava tudo em festa. Ninguém apanhava ou se feria nessas brincadeiras
saudáveis, mesmo transitando em meio aos estrondos ao fogo e as carreiradas.
Depois veio o progresso sem graça
e a municipalidade cobriu a rua com calçamento e proibiu as fogueiras para impedir
que elas danificassem a obra pública, sinal de entrada do Curador no mundo
moderno. Mesmo assim, algum transgressor ainda acendia uma ou outra fogueira,
burlando a ordem da autoridade municipal. Se fosse aliado da autoridade de
plantão, escapava da fúria sagrada da guarda. Até que veio o asfalto. Aí
ninguém mais acendeu fogueiras na rua Grande. Não combinava, definitivamente, o
progresso com aquele amontoado de troncos fumegantes e em formato piramidal. Acabou-se a alegria da criançada. Só na
periferia da cidade ainda se viam o clarão das fogueiras crepitando nas noites
juninas.
Insatisfeito com isso, no
arrabalde um cidadão chamado Cobra-Preta introduziu o espetáculo do
Bumba-meu-Boi na cidade. Em um local meio isolado, sem calçamento, casas de
palha em derredor, instalou o seu arraial como uma novidade trazia da ilha de
São Luís. Foi assim que o Bumba-meu-Boi estreou na terrinha. Um grande acontecimento. Gazeávamos as aulas
no ginásio para ir apreciar aquele espetáculo que pela primeira vez era
praticado em terras do Curador.
Lá, como já falei outras vezes, praticávamos
o São João sob a ótica dos nordestinos piauiense, cearense, paraibano ou
pernambucano. O ponto alto eram as quadrilhas e o trio com Sanfona, triângulo e
zabumba. O bumba-meu-boi era coisa dos habitantes da Capital distante e ausente.
E por isso a novidade do Cobra-Preta foi um sucesso retumbante. O ritmo
contagiante das toadas, o passo cadenciado dos brincantes, o colorido das
roupas cobertas de lantejoulas, o encantamento do boi a girar no centro do
arraial, tudo agradou de pronto e marcou para sempre os terreiros do Curador.
Mas, este ano não será assim. Nem
mesmo nos povoados interioranos, nos sítios, nos arrabaldes, enfim, veremos o
brilho das fogueiras, as bandeirolas enfeitando o terreiro, não ouviremos o som
rasgado do acordeom, a batida da zabumba e o repinicar do triângulo. Ou o
batuque dos pandeirões ou o som estridente das orquestras que dão o tom da
folia. Termos, no máximo o velho disco de Luiz Gonzaga girando na vitrola caseira
ou as imagens de São Joões passados na tela dos celulares. Até surgiu a novidade das Lives este ano, nada
que se compare com o calor das fogueiras acesas, o brilho dos fogos de
artifícios e o barulho dos rojões. Mas, enfim, cada tempo tem o seu propósito,
e o deste ano é de nos protegermos do famigerado vírus chinês que está a nos
acossar, enquanto relembramos os festejos juninos passados.
Dr. Araújo, uma belíssima crônica que fez voltar ao meu tempo de feliz mocidade lá no Morro dos Ventos da Esperança. Nostalgia é meu sentimento nesse período de duras penas. Parabéns.
ResponderExcluirChico Acoram Araújo
ExcluirObrigado, meu amigo e parceiro nessa seara de letras e penúrias.
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