domingo, 14 de agosto de 2016

ESPECIAL TERESINA 167 Anos - Capítulo 2:

Mapa Colonial de Oeiras 

 José Pedro Araújo

 A reação dos Oeirenses à mudança da capital*


A saída do Presidente da Província, José Antônio Saraiva, na manhã do dia 04 de agosto com toda a sua mudança (ordenanças, tesouro, secretariado, pajens, e possivelmente toda a prataria do palácio), causou terrível alvoroço nos residentes da velha capital. Como das vezes anteriores, os oeirenses acreditavam ser possível reverter a situação e manter a sede do poder administrativo da província na sua cidade, como já havia acontecido antes. Mas a surpresa preparada por Saraiva jogou por terras todas as suas esperanças. A população se alvoroçou e ficou em pé-de-guerra. Os jornais da oposição partiram para o ataque e procuraram sublevar a população, direcionando pesada carga acusatória contra o jovem e intrépido baiano, que por aquele tempo contava com apenas 29 anos de idade. A memória coletiva, sempre ávida por histórias mirabolantes, afirma que o imperador Dom Pedro II, ao saber do imbróglio criado pelo seu nomeado, desaprovou o seu ato, atribuindo o gesto à sua pouca idade, e experiência restrita. Mas, se isso de fato ocorreu, não fez o imperador nada para impedir a transferência da capital de Oeiras para Teresina.
Enquanto isto, a população, estimulada pelos principais opositores à ideia da transferência da capital, e inflamados pelas reportagens virulentas publicadas pelo jornal “Echo Liberal”, revoltou-se e prometeu violenta reação. Estava em andamento uma sedição sem precedentes na breve história da Província do Piauí. Como estavam marcadas eleições para o preenchimento das vagas da Câmara Provincial, e para a escolha dos Juízes de Paz para os quatro anos seguintes, em 7 de setembro, os oposicionistas marcaram para este dia o desfecho do motim. Estavam dispostos a manter a reverter o quadro e, se necessário, tomar o poder pela força. Mas, para isto, teriam que ter o controle do quartel general, além de se apropriar de todo o armamento e munição de que muito necessitavam. Deste modo, desde o dia anterior grupos de homens compostos por 50, 100 e até 200 pessoas, começaram a chegar à cidade. Os opositores pensavam em desfechar o golpe exatamente no dia marcado para as eleições. Contavam com o envolvimento do poder público com o pleito eleitoral, para acertar certeiro golpe nas hostes mudancistas. Mas, não contavam com a astúcia do governo. Na noite do dia 6 de setembro, véspera, portanto, da deflagração do motim, os governistas, alertados pelos seus espiões, puseram um plano de defesa em prática: recolheram ao quartel general toda a munição e as armas, além de todo o efetivo da força pública, e passaram a patrulhar intensamente toda a cidade, demonstrando a força de que ainda dispunha por ali. Ao mesmo tempo, impediram a circulação dos jornais oposicionistas, especialmente o “Echo Liberal”, causando, assim, enorme desnorteamento nas hostes oposicionistas que contavam com o armamento e a munição do governo, além das campanhas de divulgação de suas ideias, para levar a efeito o plano sedicioso. Consta que as eleições do dia seguinte transcorreram em absoluta normalidade. Os oeirenses não encontraram meios para enfrentar o poderio militar governamental.
José Antônio Saraiva, enquanto isto, trabalhava intensamente para instalar a sede da província na Chapada do Corisco, na futura cidade de Teresina. E a partir deste ponto, enviou aos demais presidentes de províncias, o seguinte informe:
“Tenho a honra de comunicar a V. Excia que o Corpo Legislativo Provincial autorizou pela Lei nº 315, de 20 de julho do corrente ano, a transferir a capital desta Província para a nova cidade de Teresina, e que dei já execução a essa lei, pelo que me acho residindo nesta cidade à disposição de V. Excia”.
A transferência das repartições públicas com todo o seu mobiliário, o funcionalismo, e os bens necessários à administração da província, deu-se dentro do período determinado por Saraiva. Enquanto isto, a velha Oeiras caía em profundo sono, desmoronando visivelmente, após perder a importância de outrora. Na nova capital as coisas se davam de modo diferente. Os homens de posse da Vila do Poti já estavam em plena atividade para procederem a sua própria mudança para o novo local escolhido, e erigiam residências luxuosas, quase palácios que, depois, alguns deles cederam ao poder público para a instalação das repartições públicas. Nesse meio tempo, outros prédios públicos iam sendo levantados pelo administrador da província no novo local escolhidos, transformando a Chapada do Corisco, adormecida em sono profundo desde a criação do mundo, em um lugar de frenética atividade. A cidade foi planejada a partir da Igreja do Largo do Amparo, marco inicial da nova capital e ponto de partida de suas ruas e avenidas. No próximo capítulo falaremos um pouco sobre a Vila do Poti, velha povoação situada na confluência deste dreno fluvial com o Parnaíba, e sobre a mudança da sede para a bela Teresina.

* Texto Extraído do Portal Maispiaui.com.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Teresina - Especial 167 Anos

Oeiras, anos 50 - Foto de autoria desconhecida

José Pedro Araújo

Capítulo 1 - Como Nasceu a Filha Querida do Piauí



A Difícil Transferência da Capital


Na semana em que Teresina comemora seus 167 anos de fundação, o MAISPIAUI.COM publicará uma série de reportagens resumidas sobre o nascimento, a transferência e o desenvolvimento desta cidade que, mesmo não tendo nascido nos primórdios da colonização do estado, transformou-se na belíssima e aconchegante capital de todos os piauienses. 

A história registra que o primeiro mandatário a sugerir a transferência da sede administrativa e política da Província do Piauí de Oeiras para a região do Poti/Parnaíba, foi o Governador e Capitão-General da Província do Maranhão, João da Maia da Gama, em 1728. Aliás, nem chefe da Província vizinha ele era mais, uma vez que já fora substituído por outro governante, Alexandre de Sousa Freire. Maia da Gama, após entregar o cargo ao sucessor, resolveu visitar o restante da Província ao realizar viagem de regresso a Portugal, passando pelos sertões do Piauí, por este tempo ainda integrante do Maranhão. Ao chegar às margens do Parnaíba, onde o Poti tem a sua foz, encontrou ali local ideal para a formação de uma vila. E animado com a fartura de água, peixe, mas também com a riqueza das terras circunvizinhas, fez ver ao imperador, no seu consagrado documento intitulado Diário da Viagem de Regresso para o Reino, ser aquele ponto de melhor localização para se estabelecer uma povoação que facilitasse o comércio na nova província que se previa. E assim que ele registrou em seu Diário: “...as riquezas naturais do lugar, com abundância de peixes, matas repletas de madeiras de lei, com a fartura de vazantes e grandes plantios de cana”.

De outro modo, já em Oeiras, após o reconhecimento dos seus arredores, ele elencava as dificuldades vivenciadas pela Vila da Mocha(Oeiras):  “... e ver os arredores da Vila todos agrestes e sem terras e sem madeiras e falta total de peixe lhes propus não a extinção da dita vila, mas a ereção de outra na beira do Parnaíba aonde faz barra o rio Poti...”

A história nos mostra que nada do que Maia da Gama escreveu em seu relatório foi levado em consideração. Tanto por falta de interesse dos mandatários da coroa portuguesa, quanto em decorrência dos custos que adviriam com a transferência da sede administrativa e sua fixação em um local dependente de tudo, até mesmo de instalações físicas. E o que o ex-governador capitão-general diagnosticou, levou mais de um século para acontecer. Mais precisamente 124 anos.

Nesse meio tempo, foram muitas as tentativas de transferência da capital de Oeiras para outra parte, sob a alegação de que a Província precisava de um local mais adequado, com melhor situação geográfica e melhor servido de água e terras propícias à produção de alimento. Alguns advogavam ser a região de São Gonçalo (Amarante) a ideal, pela sua localização central, mas também por se situar muito próxima ao rio Parnaíba, única e viável via de acesso aos diversos pontos da província. Outros, contudo, defendiam a vila da Parnaíba, pela sua localização próxima ao litoral, mas também pela infraestrutura que já possuía à época. Entretanto, os homens de mando, por residirem em Oeiras, advogavam a permanência da sede da província ali mesmo naquela cidade. Foi uma luta difícil. Em agosto de 1798, o Presidente da Província, D. João de Amorim Pereira, sugeriu ao Ministro de Ultramar que a capital fosse instalada na Vila de Parnaíba ou transferida para uma promissora povoação “localizada na embocadura do rio Poti com o rio Parnaíba”.

Em agosto de 1849, cinquenta anos depois, o Governador da Província, Anselmo Peretti, através de lei, determinou a transferência da capital, mas o seu sucessor, Inácio Francisco da Matta, anulou-a e determinou a permanência da sede da província em Oeiras.

Foi preciso a nomeação de um baiano jovem e idealista para tomar a inadiável decisão de procurar um lugar ideal para ali estabelecer a capital: José Antônio Saraiva. Mas não foi uma decisão fácil de ser implementada, situação já mostrada anteriormente. Oeiras contava com gente poderosa e com largo prestígio na capital do império, gente que tinha toda a sua base econômica fincada no entorno do território da velha Mocha. E por conta disso, ofereciam feroz resistência à mudança. Alguns historiadores registram que Saraiva somente sancionou a Lei nº 315, que determinou a mudança da capital, quando se encontrava fora da cidade, já viajando para a Vila Nova do Poti. Mas não foi bem assim. A Lei nº 315, de 16 de agosto de 1852, foi votada e sancionada no dia 20 de julho, e Saraiva, demonstrando espírito forte e incontestável bravura, determinou seu imediato cumprimento. Sabia ele que, caso não adotasse providências urgentes, correria sério risco de isso nunca ocorrer. Como já havia acontecido antes.

E assim, determinou o envio de alguns escravos artífices das Fazendas Estaduais para a Vila do Poti, como também a transferência do Corpo de Educadores Artífices. Ele também marcou a sua viagem para Teresina para a madrugada do dia 4 de agosto. Procurava aproveitar uma hora mais fresca do dia para iniciar a longa travessia de Oeiras até a confluência dos rios Parnaíba e Poty. Saraiva também procurou sair de Oeiras em uma hora em que a população da velha capital ainda estivesse dormindo, para evitar constrangimentos ou coisa pior.

A população de Oeiras, sobretudo a classe política, não digeriu bem a mudança, como veremos no próximo capítulo.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Eleições - A Grande Festa da Democracia (Parte I)



José Pedro Araújo

Não se aflijam com o título acima. Não vou tratar exatamente sobre política partidária, mas sobre alguns acontecimentos ligados a ela. Para comprovar a minha total falta de habilidade em questões eleitorais, vou citar um caso acontecido que quase me fez perder a amizade de um grande amigo: certa feita, um amigo de nome Joãozinho veio me informar que era candidato a vereador naquelas eleições. Sem saber o que dizer, pois tinha convicção que aquele meu amigo tinha condições de ser muita coisa na vida, menos político. Não por lhe faltar atributos como honestidade e bons propósitos, mas por lhe faltar o mínimo de traquejo para desempenhar tal função. Achei de levar na brincadeira o assunto. E foi assim que lhe disse no mesmo instante: “Ótimo, já tenho até um slogan para a tua campanha. Veja só que beleza: Ruim por ruim, vote no Joãozim. Que tal, não é uma boa?”.

Meu amigo arregalou aqueles olhos azuis no meu rumo, demonstrando um misto de surpresa e decepção, e sapecou em cima da bucha: “esse ai tu usa quando for candidato a alguma coisa”. E não é que eu quase perdi o amigo! Joãozinho ficou um bom tempo chateado com o que considerou uma grande desfeita da minha parte. E eu, depois da reação dele, não pude nem lhe dizer que aquilo era uma brincadeira, que estava apenas surpreso com a notícia que ele havia me dado.

Pois bem, com o orgulho ferido, o meu amigo se lançou em campanha com uma vontade somente comparada aos famintos quando vislumbram um prato de comida à sua frente. Percorreu a cidade e o interior do município em busca de votos, palmilhando caminhos dantes totalmente desconhecidos para ele. Nem uma casa isolada, por mais distante que estivesse, era razão suficiente para o meu amigo fraterno deixar de visitá-la. Nessas caminhadas, além da palavra empenhada em busca de melhorias para a comunidade, sempre abria a bolsa e deixava alguns trocados para pagar alguns litros de pinga para a rapaziada. Matou boi erado e distribuiu a carne entre os seus futuros eleitores e, em certa comunidade, até leiloou uma bicicleta novinha em folha para os populares. Nessa localidade, enquanto a festa rolava, ele aproveitava para ir repassando alguns santinhos para a galera, com uma foto colorida que o retratava com uma cabeleira farta, do tempo em que ainda tinha cabelos. Antes que alguém fale em crime eleitoral, vou logo dizendo que naquele tempo tudo era possível, não tinha essa história de caixa dois, doação ilegal de campanha, essas coisas.

Pode-se dizer que o Joãozinho incorporou o espírito do político caçador de votos, aquele que só aparece em período de eleição. Mas que quando chega o tempo da corrida eleitoral, vai com toda a gana em busca dos sufrágios, estejam onde estiverem. E o meu amigo empolgou-se e abriu as burras, logo ele que não gastava o dinheiro dele com nada nesse mundo, e partiu para competir com os seus concorrentes mais conhecidos e traquejados no assunto.  

Fiquei de longe acompanhando o vai-e-vem do amigo com o coração partido. Será que eu era culpado por ele se achar naquela situação? – indagava sem resposta. E nesses momentos, vinha à minha mente a frase terrível que o havia magoado tanto e que eu achava que havia sido decisiva na luta que ele empreendia agora.  

Com a consciência pesada, decidi que votaria no Joãozinho. Não só isso: iria trabalhar para ajudar o amigo na campanha. E foi assim que no dia das eleições lá estava eu com uma pilha de modelos de cédula eleitoral com o número do meu candidato em mãos, praticando a chamada boca-de-urna. Outro crime? Pois é!

Havia, contudo, um problema real, para o qual não me toquei na época: eu era praticamente um desconhecido naquela cidade. Assim, prossegui determinado no meu trabalho de cabalar votos e, armado de muita confiança, fui distribuindo as cédulas eleitorais preenchidas com o número do Joãozinho a todos os prováveis eleitores que passaram por mim naquele dia. E, quando o meu estoque acabava, eu voltava para casa onde um grupo de pessoas da família estava trabalhando no seu preenchimento.  No final da manhã, eu já havia distribuído mais de quinhentas cédulas e gasto muita saliva com os prováveis eleitores. Fiquei muito empolgado.  

Continuei na parte da tarde com a mesma estratégia: cada pessoa que passava eu pedia que votasse no meu candidato, e lhe distribuía o papel com o número dele. E, na maioria dos casos, o simpático eleitor sempre dizia que votaria com certeza, pois até aquele momento estava indeciso, não sabia em quem votar. Então, à medida que ia aumentado a minha empolgação, pensei comigo mesmo: “Como é fácil conseguir votos, rapaz! Se a metade das pessoas que me garantiram votar no Joãozinho confirmarem a promessa nas urnas, o homem estará eleito com folga”!

Assim, no final da tarde, um pouco cansado e muito queimado pelo sol inclemente do verão, retornei para casa com a certeza de que o nosso candidato estaria eleito com uma excelente votação.

Bom, para encerrar a história sem mais delongas, esclareço que ficamos todos no aguardo da apuração que começaria somente no dia seguinte. A confiança na vitória era total. E quando disse isso ao meu amigo, ele apenas me olhou com aquele ar de vencedor, como a dizer: “Está vendo ai sabichão, quando acaba você não confiava na minha grande capacidade política. Quem é bom já nasce feito, meu filho, aprenda mais essa!”. E eu, humilhado por aquele olhar superior, me recolhi à minha insignificância, mas continuei achando que estava absolvido da brincadeira sem graça que havia lhe dito.

E, finalmente, começou a contagem dos votos para vereador. E à medida que a apuração avançava minha certeza na vitória ia murchando, qual balão de gás. Os votos do meu candidato estavam sumidos das urnas. Veio o final da apuração e os votos do Joãozinho não apareceram. Havíamos sido miseravelmente traídos pelos nossos eleitores. Apenas 45 honestos cidadãos haviam confiado seu voto ao meu candidato. Nem é preciso dizer que à medida que o tempo ia passando, aquele olhar superior do meu amigo ia se transformando em uma mistura de decepção e revolta. E eu, mais acuado ainda do que quando comecei com aquela brincadeira horrorosa, meti a viola no saco e sai em busca de uma gelada para acalmar o coração e espantar a decepção para longe. Candidatos, não se empolguem muito! Tá mais fácil, nos dias de hoje, caçar Pokémon do que votos. Eles estão escorregadios, eu diria mesmo, estão mais raros do que enterro de anão!


segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Um Morro Chamado... Pé-do-Morro.

Creation Rute Barros


                                                                                                          José Pedro Araújo

As montanhas(serras), assim como o mar, possuem um fascínio especial quando pensamos em construir aquela casinha simples, caiada de branco, com uma varandinha na frente e um pequeno jardim com flores multicoloridas que se abram o ano inteiro, para o descanso nos finais de semana. Mais que isso: em volta dessa casinha, gostaríamos de plantar algumas fruteiras da nossa predileção e, se o sujeito for um pouco mais exigente, criar algumas poucas vaquinhas de leite e alguns ovinos para abastecer-nos de leite e de carne, especialmente por ocasião dos churrascos.

Depois é só deitar-se em uma rede com varandas bem vistosas e apreciar a paisagem que se descortina gratuita à nossa frente, observando-se lá no fundo algumas serras azuis que se perdem no horizonte. Pronto, está armado o ambiente sonhado por dez entre dez brasileiros. Não é preciso lembrar que as regiões serranas são muito famosas pelo seu clima ameno, chegando mesmo a fazer frio em determinada época do ano. Como exemplo podemos citar a serra Gaúcha (Canela e Gramado), no Rio Grande do Sul; da Ibiapaba e da Meruoca, no Ceará, ou mesmo a Serra dos Matões, na região de Pedro II, no Piauí, como pontos de atração turística que veem aumentar a cada ano o fluxo de pessoas que procuram essas regiões no período equivalente ao nosso inverno tropical. Quem já esteve nessas localidades sabe que é de tirar o fôlego a paisagem que costuma se formar nesses locais.   

Comecei essa crônica falando das grandes elevações existentes em outros estados, para dizer que, no que pese não nos situarmos em uma região montanhosa, temos também as nossas serras, como a do Criolí, a serra dos Poços e a da Boa Vista,  que são muito pouco exploradas por nós. Nesses lugares, posso afirmar com absoluta certeza, o clima é bem mais apetecível do que o temos na cidade, e chega a fazer um friozinho gostoso nos meses que vão de maio a agosto. Mas eu quero me referir aqui é a respeito de um pequeno morro, uma elevaçãozinha simples mesmo, que tinha um poder de sedução muito grande quando eu era criança: o Pé-do-Morro.  

O chamado Pé-do-morro, que a maioria dos moradores do meu Curador conhece, é um pequeno monte que se situa ao norte da cidade, logo depois de outra elevação chamada de Alto-da-Balança. Quando criança, eu costumava observar da calçada de minha casa aquela elevação pontuda qual um seio debutante, apontando resoluto para o céu, coberto por uma vegetação luxuriantemente verde. Era sair na porta de casa, olhar para a esquerda e lá estava o meu monte Kilimanjaro, eterno, sem neve no topo, é bem verdade, mas desafiante, a uma distância que me parecia quase ao alcance das minhas mãos. Demorei muitos anos para conhecer de perto aquele ícone que me atraia tanto.

Mas, certo dia, em companhia de um amigo, resolvemos ir caçar Nambu no Pé-do-morro. Saímos de casa logo depois do almoço. Tempo quente, sol queimando e fazendo com que as árvores perdessem a maioria das suas folhas, mas era o período ideal para caçar as nossas Nambuzinhas.

Com uma espingarda Bate-Bucha e uma capanga com muita munição à tira-colo, botamos o pé-na-estrada com muita disposição.  Caminhamos muito para chegar até o sopé do nosso morro, aonde chegamos ai por volta das três horas da tarde. Nunca imaginei que aquele morro que parecia tão perto da minha casa, ficasse, na realidade, tão distante. Mas a visão daquela elevação tão perto de mim valeu com sobras o sacrifício de chegar até ali. Fiquei absolutamente encantado com o porte elevado das árvores que se distribuíam morro acima. E fiquei ali parado, observando aquele acidente natural que sempre me pareceu tão desafiante, a ponto de perder o contato com o meu colega de caçada, e quase me perder.  

Noviço na profissão de caçador, não cheguei a disparar um único tiro nas Nambus, que, ao ouvirem o barulho que eu fazia na folhagem seca, levantavam vôo antes que eu pudesse me aproximar delas. Analisando hoje o ocorrido, com a consciência que possuo em relação à preservação da nossa fauna e flora, voltei da caçada com um lucro enorme: não consegui abater nenhum daqueles pássaros, mas conheci um dos lugares mais bonitos que eu já vira até então. O que não entendo é o porquê de não merecer de nós um nome próprio, continuando a ser conhecido como Pé-do-morro, simplesmente.

Há algum tempo atrás, em companhia de um irmão, fomos de carro até a sede de uma fazenda que fica no sopé daquele morro. E, para desgosto meu, vi que toda aquela vegetação majestosa foi derrubada e em seu lugar plantaram-se capim. Que desperdício! Remover aquelas árvores tão belas, os ipês, os cedros, os angicos, os jatobás e as sapucaias, ainda por cima para plantar capim em seu lugar! Foi uma péssima troca, sem se falar que naquele momento cometeu-se um crime ambiental capitulado em lei, por se tratar aquele local de uma área de PRESERVAÇÃO PERMANENTE.

A gravura que ilustra o texto é um trabalho da saudosa Rute Barros, uma das nossas maiores e mais talentosas artista plástica. Já falecida. Nesse trabalho, ela representou uma bucólica comunidade rural. O quadro hoje me pertence e embeleza a minha sala de visitas.          

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Mania de Livro: Um Tema Por Mim Repisado




Cunha e Silva Filho
Ensaísta, Crítico Literário, Cronista e Tradutor.

     A primeira vez de que me lembro ter ido a uma livraria foi no início do curso ginasial. No primário  não me recordo de  ter ido a livrarias  em Teresina.  Julgo que era  mamãe que me comprava  o material  escolar, o  quase livrinho  da cartilha do  ABC reimpressa tantas  vezes  e por várias  gerações. Daquela primeira vez que fui à livrairia,  cujo proprietário se chamava professor Oscar, já estudante ginasiano, conforme disse, acompanhado estava de meu pai. O que me marcou no fundo da memória foi a compra do primeiro livro de inglês,  o King's English, de Harold Howard Binns. Relatei  essa visita  histórica  no meu livro As ideias no tempo (2010).

       Mas, leitores,  sabe de uma coisa? Desde aquela  época  me tornei  um  entusiasta   de carteirinha  dos livros  de matérias  a que  mais  dava atenção: línguas,  leituras,  literatura, gramática, dicionários.

    Hoje mesmo,  à tardinha,   Elza me chamou para ir até ao Shopping da Tijuca. Confesso que  não queria sair  hoje. Preferia permanecer em casa, lendo o jornal  do dia anterior,  segundo  é meu costume. Não consigo ler o mesmo  jornal num só dia. Meu filho mais  novo não me deu sinal de que estava disposto a comprar o jornal de domingo, já que  queria assistir ao jogo da Eurocopa entre Portugal e França. Daí, não tive outra  alternativa senão  sai.

    Como o shopping fica relativamente perto da minha rua,  lá fomos, Elza e eu,  ao lugar combinado. O tempo não estava nem  quente nem frio. O sol não mais se fazia presente lá fora. Caminhamos com passos  em ritmo  normal.

   Olhamos no caminho  os restaurantes já com poucos  clientes  dentro. Os que examinamos  são especializados em   galeto, com batata frita e farofa - apreciado prato  dos cariocas.

   Entramos no  Shopping. Como sempre,  gente saindo, gente entrando,  inclusive nós. Gente de todas as idades,  caminhantes  que talvez nunca mais  veremos  na vida. São os rostos  dos anônimos, logo esquecidos.

  O mundo é grande. A vida, breve, enunciado um tanto surrado, contudo válido sempre. Da infância à adolescência um pulo; outro pulo, da adolescência à mocidade e assim  em todas as fases, até a última, a velhice. Nesta estamos  Elza e eu já  inseridos,  olhado  mais para o passado, para os tantos  pedaços  felizes  o  tristes, mas, assim  mesmo, não deixando de olhar  para trás. Elza costuma  me dizer que as pessoas estão sempre voltando às lembranças,  boas ou ruins,  do passado.Ela tem  razão. É só observar  o quotidiano  das pessoas, os museus,  as lojas de antiguidades,  as fotos  antigas,  os filmes  passados,  os autores  do passado,  a arquitetura   dos prédios  de antanho.Como  olhar o futuro se ainda não existe? Ficamos, então,  oscilando entre o presente e o passado. Essa é regra  geral. Projetamos  o futuro? Sim, mas  ele apenas é uma possibilidade,   um sonho,  uma utopia,   um algo  por vir prenhe de incertezas  e de ciladas.

    A vida humana é, na velhice principalmente, um  contínuo e  intermitente  flashback. Já deram conta disso, leitores da minha geração? Foi quiçá por esses motivos que sempre quis ler o  livro, de resto,  ainda excelente,  em muitas dimensões de leitura,  para o nosso tempo, que é Idade, sexo e tempo, de Alceu Amoroso Lima (o Tristão de Atahyde, 1893-1983). Tanto para mim  é bom  que voou lê-lo mais outra vez.

   Comprei o jornal. Elza, sempre atenta às vitrines,  . Gosta de ver  as novidades de  bijuterias, assim como  de jóias, colares,  anéis,  pendentes,  brincos. Esqueci de  mencionar que Elza adora também  ver artigos de cama e mesa, toalhas,    lençóis, cobertores,  colchas,   travesseiros, fronhas.   Tudo muito  caro.É a crise. Tudo agora é culpa da crise, quando a culpa cabe aos responsáveis pela crise cujos nomes os leitores já sabem quais  sejam se estiverem  habituados a ler os meus textos  neste  Blog que assino    desde 2009.

   Paramos um pouco dentro do shopping. Fomos sentar num banco vazio  defronte de uma salão de beleza. O movimento no salão estava regular. Ficamos  sentados, apreciando  o ir e vir de pessoas no corredor  ladeados de  lojas  bonitas  e muito  limpas. Dei uma  olhada geral na primeira página do jornal com várias chamadas  a colunas  e a reportagens.

  Em seguida,  abri  na coluna de Ferreira Gullar. Lia a crônica  “O banal maravilhoso,”  que fala de  animais ressaltando-lhes as qualidades e usando como contraponto o ser humano como  o único a animal  a  que nasce com  a potencialidade  intelectual de  admirar  pintura,  música poesia, de fabricar máquinas.  Entretanto,  os bichos  lhe são sempre caros, não há dúvida e por isso deixa implícito  o seu  enorme  afeto  por eles, sobretudo pelos que  demonstram maior  interação com  seus  donos.

  No final da crônica, um pouco abaixo,  uma nota na qual   poeta de Poema sujo refere a um  represália recente   do  poeta, ensaísta  e tradutor  Augusto de Campos. Gullar  declara que não vai mais responder a nenhum  insulto  do Augusto, irmão do grande  tradutor Haroldo de Campos (1929-2003). Não quer mais  bate-boca com quem  ele chama de “Augusto,  o Furioso.”

   A briga dele  com  o  intelectual  paulista se prende a questões  de um disse-não disse  relacionadas  a Oswald de Andrade (1890-1954),  ou mesmo à época em que Gullar, a princípio poeta concretista (1956), depois, se afasta dessa vanguarda do grupo paulista e lança o movimento poético  Neoconcretismo (1957), juntamente com  Reynaldo Jardim (1926-2011).

   Todavia,  desta vez, o embate  é  de natureza  política, uma vez que Gullar  descasca o petismo  enquanto que o outro  é a favor  do Lula e da Dilma. Reitera  Gullar na nota que não leu nem vai ler a catilinária do Augusto. Gullar, quando quer, é mordacíssimo  apenas usando  poucas  palavras. Pelo visto,  entre petistas e não petistas  não há espaço para o jogo dialético visto que  a ideologia   petista só  funciona na base do extremismo,   da cegueira  e da idolatria   alimentada  pela cegueira   do fanatismo.


  Último passo do passeio ao shopping: entrei  na livraria e comprei dois livros: uma obra  de Erich  Auebach (1892-1957) e um  volume de uma língua estrangeira que há anos cultivo com maior intensidade.Voltamos  para casa. Já era noite.