quinta-feira, 30 de abril de 2015

Sinos da Minha Aldeia

Fotografia by Carlos Magno


O título acima tomei emprestado de um belo poema do Fernando Pessoa, cuja primeira estrofe descrevo abaixo:
Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

                Assim como o vate português, guardadas as devidas proporções, também me encantei com as badaladas dos sinos da Igreja de São de Sebastião. Sobretudo quando chamava os fieis para a missa dominical. Acionados de forma alternada, os sinos iam misturando os vários sons, formando bela algaravia sonora.
                Sempre tive, também, curiosidade em saber quando e onde eles foram feitos. Em recente viagem à minha querência, contatei com o vigário responsável pela paróquia para lhe pedir autorização para subir no alto da torre e fazer algumas fotos. Nessa empreitada, contei com a ajuda do Carlos Magno, amigo e interessado pelas coisas da terra. Precisávamos subir naquelas alturas e já não está mais entre as minhas possibilidades, um esforço daquela magnitude. Mas, além de fotos impressionantes, descobrimos mais algumas outras coisas importantes. Como, por exemplo, que os admiráveis sinos foram fabricados em 1955, na Itália. Mais precisamente em Milão. Com essas informações, fui às pesquisas. Coisa que sempre faço antes de começar uma crônica. E descobri coisas impressionantes sobre a Fundição Barigozzi, fabricante dos sinos da torre de São Sebastião do Curador.  
A fundição responsável pela fabricação dos nossos sinos foi criada em 1806, pela família Manfredini, e depois adquirida pela família Barigozzi. Atestando a sua importância, foi responsável pela confecção dos sinos de muitas igrejas históricas na Itália, algumas delas eu tive a felicidade de conhecer quando por lá passei. Alguns exemplos: no alto do campanário da histórica igreja Santa Maria del Fiori, Catedral de Florença, construída pelo incensado Giotto, batem sinos fabricados pela fundição Barigozzi. Do mesmo modo, somente para citar mais um exemplo da importância dessa fundição, após um colapso nos sinos da Igreja de San Marco em 1902, em Veneza, a fundição Fratelli Barigozzi foi chamada para substituí-los por outros. Também tive a felicidade de conhecer o Campanário de San Marco de perto. Muito de perto mesmo, pois subi no alto daquela torre para vislumbrar a bela paisagem de Veneza. Trata-se de um programa imperdível e que atrai uma quantidade muito grande de turistas. Daí se enfrentar filas imensas para conhecer a cidade construída sobre as águas, lá do alto.

Imagem da Fundição Fratelli Barigozzi

Outro trabalho importante da fundição já citada foi a fusão da estátua equestre de Garibaldi, na cidade de Verona, em 1886. Garibaldi, para quem não se recorda, teve influência decisiva na guerra farroupilha no Rio Grande do Sul, e aqui conheceu a mulher que o acompanharia na sua jornada revolucionária, Anita Garibaldi. E por também participar ativamente da reunificação da Itália, é chamado de “herói de dois mundos”.
                Um reparo: quando fui a Itália não sabia ainda que os sinos que tocam no alto do campanário da Igreja de São Sebastião, em Presidente Dutra, haviam sido fabricados pela mesma fundição que fez os icônicos carrilhões de San Marco e Santa Maria del Fiori. Pena. Teria tido muito mais prazer em conhecer tudo aquilo.
                A Fundição Fratelli Barigozzi encerrou as suas atividades em 1975. É hoje parte da história.
               

2 comentários:

  1. Meu caro amigo escritor historiador Dom José Pedro de Araújo Filho,

    Atualizei hoje meu salutar e enriquecedor hábito de ler as "Folhas Avulsas" e tenho a reafirmar que a região de Presidente Dutra já tem muito a lhe dever pela divulgação e avivamento da história
    local. Outros assuntos, como o estado em que deixaram ficar a nossa Lagoa do Portinho por pura omissão dos órgãos responsáveis, também chamam nossa atenção. Vá em frente, tá muito bom o seu blog.
    Fernando Fontenelle.

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