quarta-feira, 10 de junho de 2015

UMA FOTOGRAFIA REFLEXIVA

José Pedro Araújo


                Quando conclui o ginasial, lá pelos idos de 1969, estava encerrado o meu período de aprendizagem em colégios do velho PK. O que fazer depois disso, foi um dilema. E o tempo não nos era favorável. De certeza mesmo, somente a necessidade de buscar outras plagas para dar continuidade aos estudos, pois já estava mais que comprovado que eu não prestava para exercer outra tarefa. Então, o caso tomava ares de grande problema. E para piorar, meus pais não atravessam um período muito favorável, financeiramente. Havíamos acabado de fechar a loja de tecidos da qual tirávamos o nosso sustento, e ainda restavam algumas dívidas a serem pagas.

                Meu pai, como sempre, muniu-se de grande força de vontade e de uma boa dose de confiança, e outro tanto de fé, e foi tentar solucionar o problema em Teresina. Lá estaria o meu futuro, pensava ele. E com razão, como nos mostrou o porvir.

Governava o Estado naquela época, um parente distante, Helvídio Nunes de Barros, picoense como meu pai. Meu velho chegou à capital do Piauí com alguns planos na cabeça e pouco dinheiro no bolso. E logo que chegou à cidade, foi direto para o palácio de Karnak. Não precisou nem fazer contato com o governador, pois se encontrou com um primo que exercia o cargo de Chefe da Casa Civil. Saiu de lá com um bilhete endereçado ao diretor do Liceu Piauiense. Estava resolvido o problema do colégio. Agora só faltava encontrar um lugar para este escriba ficar. Problema difícil de resolver, mas não impossível, para quem possuía um rol de amizades como o meu pai. Como ele sempre buscava força nas suas orações acreditava que logo Deus o confrontaria com uma solução para o problema. Ele sabia que precisava arranjar um local por um curto espaço de tempo, até aparecer uma solução definitiva para o meu caso. E a solução apareceu. Como sempre acontecia na vida desse homem feito de fé e de muita esperança.

                A solução a qual me refiro estava na casa de um homem boníssimo, mas tão pobre quanto nós, conhecido pela alcunha de Manoel Pepita. ‘Seu’ Manoel viva de uma pequena aposentadoria do Departamento de Portos e Vias Navegáveis, que era complementada com o trabalho de vigia noturno. Ele habitava com a família em uma casinha simples, sem água encanada, e com três pontos de luz elétrica, junto à cabeceira da ponte metálica, em Teresina. Parnaibano, e já entrado na idade, havia passado a vida inteira navegando nas águas do rio Parnaíba, como barqueiro. Transportava gente da sua cidade natal para Teresina, daí ter amealhado a sua pequena aposentadoria. Preto de gestos afáveis e fala fina, mas bem modulada, seu Manuel foi também para mim um exemplo de fé e confiança no futuro. Nunca o vi reclamar da vida. Demorei em sua casa meus primeiros quatro meses em Teresina. Lá aprendi a lavar a minha própria roupa, mister que realizava sobre as pedras que existiam sob a ponte. Lá também tomávamos banho e escovávamos os dentes utilizando as águas ainda limpas e frescas do Velho Monge. Fazíamos as nossas abluções diárias sem o menor constrangimento e com grande alegria.

                Duas lembranças que carrego comigo daqueles tempos remotos, mas importantes: o grito dos vendedores de picolés, Carioca e Amazonas, ao transitarem de Teresina para Timon;  e o apito estridente, o barulho ensurdecedor e a fumaça negra expelida pela Maria Fumaça ao atravessar a velha ponte. Logo me acostumaria com tudo isso, e o escarcéu provocado pelo velho trem não mais me acordava ao atravessar o rio de um lado para o outro nas madrugadas do início dos anos setenta.

                Por que essas lembranças me apareceram agora? Porque hoje me deparei com uma fotografia daquela época, imagem que publico acima, junto com esse texto singelo. A casa em que residi ficava do outro lado da ponte. A rua não possuía calçamento, e nem saída, e era estreitíssima, mal dava para as pessoas transitarem a pé por ela. Também ficava em um nível muito abaixo do da cabeceira da ponte, de modo que precisávamos subir por uma estreita escada cimentada para atingir a rua lá em cima.

                Na última casa que vemos na foto, funcionou a Congregação Cristã Evangélica de Teresina, demolida quando a Avenida Maranhão precisou ser ampliada. Nesse local nasceu uma bonita mangueira, que ainda está lá produzindo frutos. A casa pertencente ao senhor Manuel Pepita também foi demolida - como as demais - existindo em seu lugar um espaço vazio ocupado por algumas árvores frutíferas. Minha vida na cidade em que moro e constituí família, começou no local mostrado pela fotografia acima. Obrigado, Teresina; obrigado, ‘Seu’ Manoel e dona Luíza Praxedes; obrigado a meus pais que acreditaram nesse sonhador incorrigível.

2 comentários:

  1. Meu caríssimo amigo Comendador Honorário do Curador,

    Este trecho de Teresina também faz parte de minhas melhores lembranças. As aguas e a ponte do Parnaiba eram um desafio constante para mim. Certo dia de um longínquo mês de janeiro de 1956, aproveitando a cheia do rio com as fortes chuvas do inverno pulei com mais três amigos da paliçada da ponte nas águas revoltas munido apenas de talo de buriti para ajudar na flutuação. Não precisa nem dizer que naquele dia o Velho Monje quase fez a povoação celestial aumentar. Adrenalina pura!!!!

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    1. Desde este dia te tornastes um sábio, grande Fernando! Tal qual te vemos hoje! Como diria Erasmo de Roterdan, a Loucura está na base de tudo, nos nossos maiores ganhos!

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