terça-feira, 16 de junho de 2015

Atravessando o Parnaíba no lombo da Maria Fumaça

Trem na Estação de Rosário, última parada antes de entrar na ilha(Década de 30)


O poeta e compositor maranhense João do Vale cantou a saudade da sua terra em vasta e gloriosa discografia que está para sempre imortalizada na memória musical do Brasil. Simples nas suas composições, atingia o âmago da alma brasileira ao discorrer sobre temas fundamentais da nossa fauna e da nossa cultura, inserindo-os nas suas letras. Foi assim quando homenageou o Carcará, representante principal das aves de rapina que povoam o nosso sertão, ou até mesmo a Pipira, pássaro encontrado em quase todo o país, sublime apreciador das nossas frutas mais conhecidas. Poeta consagrado, principalmente nos meios universitários da nossa época, discorreu com grande sobrecarga de sentimentalismo as coisas mais corriqueiras da sua terra. Dentre os temas que ele cantou tão bem, me vem à memória um que diz respeito ao meu saudoso pai, José Pedro de Araújo: De Teresina a São Luís. Falava de uma viagem de trem entre as duas capitais mais ao norte da região nordestina. Foi este o trajeto que o jovem Araújo fez no lombo da Maria Fumaça nos idos de década de 40. Tomou o mesmo caminho e o mesmo meio de transporte que o personagem cantado por João do Vale.  

Assim como milhares de nordestinos fazem todos os anos, o jovem de 21 anos tomou o trem de ferro na estação de Teresina e rumou para São Luís do Maranhão em busca de um futuro mais alvissareiro, uma vida melhor do que a que tivera até então.   Dispensado do exército em razão da redução de contingente( orçamento deficitário), tentaria a sorte na Polícia do Maranhão que, segundo ouvira, estava contratando jovens dispensados pelas forças armadas para compor os quadros da briosa polícia maranhense.
Não tinha pressa, contudo. Transpôs o Parnaíba com dor no coração e uma incerteza enorme com relação ao futuro. Enquanto a Maria Fumaça comia brasa e queimava lenha, o jovem aventureiro acalentava seus sonhos mirando a paisagem exuberante através de uma das janelas do vagão de passageiros. Esquadrinhava o horizonte desconhecido com grande surpresa e encantou-se com o verde vivo das matas que ladeavam o velho e cansado trem. Este, vez por outra, soltava seu grito de alerta através do estridente apito para espantar os animais que ocupavam os trilhos de aço por onde deveria passar.

Na primeira parada para abastecer de água a fumarenta locomotiva, o jovem aventureiro olhou para fora e ficou deslumbrado com o que viu: uma simpática fazendola bem ao fundo de uma espaçosa campina. Resolveu descer do trem e contatar com o senhor que via descansando no alpendre da casa grande. Não demorou muito e já voltava correndo para apanhar suas coisas. Suas coisas é o modo de dizer. Todos os seus pertences se restringiam a uma velha mala de couro com algumas poucas peças de roupa. Havia sido aceito para trabalhar alguns dias naquele lugar que o encantara com a sua simplicidade e beleza. “Alguns trocados a mais”, pensou, “seria de bom proveito quando chegasse na capital do Maranhão”.

Passou quinze dias no povoado Engenho D’água e depois retomou sua viagem até São Luiz, deixando para trás alguns amigos.

Mas a viagem seria interrompida novamente. De forma idêntica aconteceu quando chegou à estação de Coroatá. Passou também alguns dias trabalhando na cidade e, no final, juntou os trocados a mais e embarcou rumo à ilha maravilhosa, agora sem paradas. O que lhe aguardava na capital do Maranhão, conto em outra oportunidade.   

Muitos anos depois, quando vim residir em Teresina, morei em uma casa nas imediações da ponte de ferro que liga os dois estados irmãos. Corria o ano de 1970 e naquele tempo o lastro da ponte metálica era de madeira. Vez por outra a Maria Fumaça passava sobre ela fazendo um barulho tremendo no piso solto. E, via de regra, o pessoal da ferrovia corria para apagar o fogo que começava a se alastrar sobre a madeira. A Maria Fumaça era alimentada com carvão fumegante, e às vezes soltava brasas da sua caldeira sobre a ponte, iniciando um pequeno incêndio que logo era interrompido. Todas as vezes que o trem apitava avisando que ia atravessar a velha ponte, trazia-me de volta a recordação da travessia empreendida pelo meu pai no lombo daquele monstrengo de ferro, um dos poucos meios de transporte na época e também o mais barato de todos. Quanta incerteza carregava consigo ao cruzar o limite dos dois estado! Quanta saudade lhe invadia o peito ao observar que ia ficando cada vez mais distante o seu querido solo natal!       

Ah, João do Vale! Ninguém se expressaria tão bem como fizeste ao descrever com tanto sentimento a passagem dos nordestinos sobre o rio Parnaíba em busca de melhor sorte nas terras do grande e receptivo Maranhão! A saudade do que ia ficando para traz era contrastante com a esperança do que iriam encontrar mais afrente. Enquanto isso, o trem seguia engolindo léguas e cuspindo brasa, espalhando o som estridente do seu apito através dos coqueirais, sobre as várzeas e serrotes, até chegar ao estreito dos mosquitos, quando se começava a respirar o ar fresco e salgado da ilha de São Luis.

O velho trem já não é mais o mesmo. Em lugar da lenha, a ruidosa máquina consome óleo diesel. Mas continua a fazer o seu incansável trajeto, levando os passageiros que contam com pouco dinheiro no bolso ou até mesmo aqueles que apreciam aquele meio de transporte e não estão com muita pressa de chegar. O velho trem cantado pelo vate maranhense, já não queima lenha e nem come brasa. Nem queima tanto, mas atrasa.  

2 comentários:

  1. Peguei o trem em Teresina, pra são Luis do Maranhão. atravessei o Parnaíba, ai, ai que dor no coração...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Foi isso mesmo, meu caro! Primeira viagem interestadual e nunca mais voltou para o seu amado Picos!

      Excluir