segunda-feira, 31 de agosto de 2015

DAVID CALDAS - O Profeta da República



(Chico Acoram Araújo)*

Recentemente, escrevi uma crônica com título Barras do Marataoan: o Retorno que generosamente foi publicada, para minha enorme satisfação, no blog “Folhas Avulsas” do ilustre escritor José Pedro Araújo Filho, e também postada no prestigiado Blog Poeta Elmar Carvalho. Nesse escrito, descrevo uma viagem que realizei ao meu torrão natal, que tem como destaque principal o elenco dos ilustres barrenses que fizeram com que Barras fosse conhecida pelo epíteto de “Terras dos Governadores e dos Poetas”. Nessa crônica, além de relacionar os principais vultos da minha terra querida, apresentei um resumo da história da cidade, além de relembrar alguns fatos ocorridos quando da minha infância em Barras.

Dentre as biografias sobre os notáveis barrenses mencionados na referida crônica, a de David Caldas - o “Profeta da República” - foi a que mais despertou a minha atenção. Talvez por curiosidade ao seu cognome. Embora sendo eu de Barras, quase nada sabia a respeito desse famoso conterrâneo; apenas conhecia uma rua no centro de Teresina e outra na cidade de Barras com o seu nome, além de um povoado localizado no município União, que teve como origem um antigo Núcleo Colonial Agrícola, criado Governo Federal. O destaque que ora faço desse grande barrense, não significa dizer que seja ele mais importante do que seus conterrâneos intelectuais Celso Pinheiro, João Pinheiro, Matias Olímpio de Melo, Arimathéa Tito Filho, Wilson Carvalho Gonçalves e tantos outros filhos ilustres de Barras do Marataoan; todos, indistintamente, estão na galeria dos grandes escritores e poetas do Piauí. Escolhi este porque muito me atraiu a sua vida de lutas, mas, e também, pela ética, coragem, integridade, honestidade e idealismo com que se houve durante toda a sua vida.

De acordo com os apontamentos biográficos de Monsenhor Chaves, insigne historiador Piauiense, David Moreira Caldas nasceu em 22 de maio do ano de 1836, em uma fazenda conhecida como Morrinho, nas imediações da antiga Capela das Barras. Era filho do Capitão Manuel Joaquim da Costa Caldas e de Manuela Francisca Caldas. Na época do nascimento do menino, a propriedade da família já não era tão rentável; o patrimônio do Capitão, com o passar do tempo, diminuía cada vez mais o seu valor, mormente pelo agravamento das secas de 1823 e 1826, bem como pelas consequências dos conflitos dos Balaios ocorridos na região, em 1839.  

Era desejo do pai que o jovem David tomasse conta de suas terras, tornando-as novamente produtiva. No entanto, a vida do campo não despertava muito a atenção daquele rapaz. O que desejava mesmo era entrar no mundo das letras. Para tanto teve uma importante ajuda do Dr. Francisco Xavier de Cerqueira, Juiz de Direito da comarca, que lhe ensinou português, latim, francês e aritmética. Aos dezenove anos, David Caldas tornou-se promotor público de Campo Maior, cargo que abdicou por conta de uma depressão nervosa que lhe acometeu.


Vendo que David era um jovem prodígio nos estudos, o pai o enviou para Recife a fim de terminar os preparatórios para ingressar na Faculdade de Direito de Olinda. O Capitão Manuel, embora passando por uma situação financeira difícil, não mediu sacrifícios. E o jovem partiu para a Veneza brasileira em 27 de janeiro de 1860. No entanto, segundo Monsenhor Chaves, no dia treze de agosto daquele mesmo ano, uma infeliz notícia lhe chegou ao seu conhecimento. Seu pai tinha falecido dias antes, mais exatamente no dia 1 de agosto, após dias de padecimentos. Decidido, no dia seguinte, retornou para Barras, para ajudar sua mãe e sua irmã naquele momento tão difícil. Diante dessa fatalidade, David Caldas sacrificou todos seus sonhos, aspirações e esperanças. Sua vida mudou radicalmente. Ele agora era o chefe da família; tomou para si a responsabilidade pela administração da fazenda, o que o impediu de se dedicar à cultura ou às atividades jornalísticas. Cabe aqui salientar que, conforme nos informa o historiador Wilson Carvalho Gonçalves, no seu Dicionário Enciclopédico Piauiense Ilustrado, David Caldas iniciou sua vida profissional na imprensa, no jornal Arrebol, por ele fundado em 1859.

Em que pese a boa vontade do jovem David Caldas, positivamente ele não fora amoldado para a vida dura do interior, descreve Monsenhor Chaves em sua importante obra. Optou por um emprego de professor de letras que conseguiu em Barras, e casou-se, a 12 de dezembro de 1862, com Benvinda de Queiroz, filha de importante fazendeiro de União. No ano seguinte, o emérito historiador vai encontrar David Caldas em Teresina trabalhando como redator, ao lado de Deolindo Moura, em um periódico liberal progressista chamado “Liga e Progresso”. Diz também Monsenhor Chaves que o ano de 1863 foi marcante para a vida de David Caldas, iniciando ali uma brilhante carreira burocrática. Em 1864 passou a oficial da Secretaria da Presidência da Província, além de ministrar aulas na antiga Escola Normal. E, continuando a sua ascensão no serviço público, em 1867 obteve, por merecimento, promoção a Oficial-Maior da Secretaria do Governo. Ainda no ano naquele ano, o talentoso David Caldas passou em um concurso público para professor vitalício em uma Cadeira no Liceu Piauiense. Paralelo a isso, David Caldas participa, entre 1965 e 1968, da redação do jornal “A Imprensa”, um semanário oficial do Partido Liberal, de propriedade também do mencionado Deolindo Moura.

No ano de 1867, David Caldas já era bastante popular devido a sua ascendente carreira burocrática, bem como pelas suas atividades de jornalista e professor. Por ser bem conceituado na sociedade, decide concorrer às eleições para a Assembleia Provincial. Obteve uma expressiva votação, ficando em primeiro lugar entre os deputados eleitos para o período de 1965 a 1968.

Daí em diante, começa a derrocada do nosso ilustre barrense. A política partidária lhe foi cruel. Monsenhor Chaves ressalta que devido a atuação de David Caldas na Câmara, defendendo os interesses do povo mais humilde de Teresina, desperta uma enorme “antipatia de certos grupos sociais que se sentem ameaçados com sua pregação populista”. Na época, a maioria da população morava em miseráveis casas de palha que ficavam na beira do rio Parnaíba e na periferia ou até mesmo em alguma parte do centro da cidade. Por essa razão, o deputado David Caldas apresentou, dente outros, um audacioso projeto para beneficiar os pobres que residiam nesse tipo casa. Seu projeto consistia em instituir o “imposto da décima urbana, que seria aplicado na construção de casas populares de telha, que seriam entregues ao povo mediante contribuições módicas”. Sua estratégia era evitar a construção de palhoças em Teresina. Disso, pode-se concluir que David Caldas era um homem de visão; um homem à frente do seu tempo. Caso fosse aprovado esse projeto, certamente teria se evitado os misteriosos incêndios ocorridos em meados do século XX na cidade de Teresina.

Cada dia que passava, o ódio de seus opositores recrudescia cada vez mais; não desejavam as mudanças propostas por David Caldas. O próprio Partido Liberal, ao qual era filiado, não o apoiou. Por conta disso, desligou-se dessa agremiação partidária e também da redação da “A Imprensa”. Em 1968 funda seu próprio jornal com o nome de “O Amigo do Povo”. Este jornal, segundo a Doutora Ana Regina Rêgo, em seu artigo OITENTA E NOVE, Monitor Republicano do Piauhy, “já nasceu republicano embora não o reconhecesse como tal”. Contudo, afirma a emérita professora da UFPI, que os textos do referido jornal são de combate à monarquia, seus vícios e práticas de corrupção. A partir da criação do “Amigo do Povo, David Caldas se transformou em um contumaz crítico do governo de D. Pedro II, mormente quanto as suas constantes mudanças de opinião. De fato, referido jornal tornou-se o baluarte dos ideais do valente David Caldas. Em 14 de janeiro do ano de 1872, o “Amigo do Povo” já aparece, no seu cabeçalho, com o subtítulo de Órgão do Partido Republicano da Província do Piauí. Pelos seus textos publicados nesse periódico, via-se que o combativo jornalista tinha embasamento político para argumentar sobre os variados temas, sobretudo com relação ao Império Brasileiro. Na realidade, David Caldas tornou-se um dos maiores propagandistas republicanos na Província do Piauí. Monsenhor Chaves ressalta que as ideias republicanas de David Caldas já vinham desde o ano de 1849, quando tinha apenas 13 anos de idade.

A partir de 1872, quando David Caldas publicamente se declara republicano, seus inimigos o perseguiram implacavelmente, chegando a perder todos os empregos que obtivera por seus próprios méritos, excetuando-se o cargo de professor vitalício da cadeira do Liceu Piauiense, uma vez que tinha sido admitido através de concurso público. Mesmo assim, ele pediu demissão daquele cargo, afirmando que não devia receber salários provenientes de um Governo que ele combatia. Conforme registro de Monsenhor Chaves, o valoroso jornalista, para sobreviver, passou a dar aulas particulares, haja vista que o “O Amigo do Povo” não lhe proporcionava rendas suficientes para o sustento da sua família. Em 1873, David Caldas muda o nome do seu jornal para “Oitenta e Nove”, em alusão ao último exemplar, o nº 89, do periódico até então em circulação. Este periódico teve 31 edições em circulação. O jornal, por falta de recursos financeiros e da grande inadimplência no pagamento das assinaturas, não pode mais ser impresso.

O historiador Wilson Gonçalves nos relata que, na edição do primeiro número do jornal “Oitenta e Nove”, David Caldas escreve um artigo manifesto contra as instituições imperiais, ao tempo em que conclama à Proclamação da República Federativa do Brasil para, exatamente, o ano em que o movimento aconteceu, ou seja, em 1989. Alguns estudiosos dizem que David Caldas profetizou o advento da República em 1989: atribuiu ao seu jornal o dístico Oitenta e Nove. E como se sabe, o primeiro número do novo periódico tem data de 1º de janeiro de 1873, quer dizer, quase uma década e meia antes da Proclamação da República. Sobre essa profecia, Monsenhor Chaves está de acordo, mesmo no sentido de conjectura. Outros, como Abdias Neves, não comungam dessa ideia de profecia, pois se “cingem obstinadamente ao sentido religioso da palavra”, o que também concorda o Monsenhor Chaves. Em que pese os argumentos de Abdias Neves e outros discordantes, David Caldas passou a ser conhecido como o Profeta da República, de forma lendária e histórica, como afirma o notório escritor Wilson Carvalho Gonçalves.

Para corroborar com a tese da profecia de David Caldas sobre a Proclamação da República em 1989, Chaves transcreve dois tópicos do emblemático artigo escrito por David Caldas no primeiro número do combatente jornal “Oitenta e Nove”:

“... (os patriotas mineiros) acabaram por ser outros tantos mártires da liberdade, outras tantas vítimas imoladas ante o altar druídico, em forma de trono, onde se achava exposta à veneração dos fiéis a mentecapta Maria, digna bisavó do atual imperador do Brasil, a quem Deus guarde, quando muito, até 1889...”.

“... seja-nos permitido ter a fé robusta de ver a República Federativa estabelecida no Brasil, pelo menos daqui a 17 anos, ou em 1989, tempo assaz suficiente, segundo pensamos, para a educação livre de uma geração, para a qual ousamos apelar, cheios da maior confiança”.

Em seu mencionado artigo, a ilustríssima professora Ana Regina Rêgo enfatiza que David Caldas, além de não ter condições para continuar com o seu jornal, também não teve forças para criar o Partido Republicano na Província do Piauí, mesmo porque a grande maioria dos importantes cidadãos do Estado estavam a favor do sistema monárquico vigente. Por conta disso, ele retornou, a convite expresso do Partido Liberal, para o jornal “A Imprensa”, onde atuou de forma moderada, mas sempre com os ideais republicanos e crítico à Monarquia, completa a professora. Antes disso, em 1874, David Caldas funda o jornal de nome “O Papiro”, que teve duração efêmera. Em 1887, também cria outro jornal conhecido como “O Ferro em Brasa”, também de curta duração. Há registros históricos de que ele fundou um outro jornal – “O Bom Menino”. Como se nota, David Caldas teve uma vida bastante atuante na imprensa de Teresina nas décadas de 60 e 70 do século XIX.

No seu Dicionário Enciclopédico Piauiense Ilustrado, Wilson Gonçalves evidencia que David Caldas, além da sua extraordinária atividade jornalística, elaborou e escreveu importantes trabalhos de ordem científica, pedagógica e literária, entre os quais destacam-se: “Relatório de Viagem Feita de Teresina à Cidade de Parnaíba” (no ano de 1867, pelo rio de mesmo nome); um trabalho de “retificação de uma planta de Teresina” (1867); a “Planta Topográfica do Rio Parnaíba” (1867); e o “Dicionário Histórico e Geográfico do Piauí”. Escreveu também inéditas poesias tais como “Tímidos Acentos” e “A Musa Triforme”. Lamentavelmente, não se tem conhecimento do paradeiro dessas obras.  David Caldas é Patrono da Cadeira nº 4 da Academia Piauiense de Letras e da nº 8 da Academia Vale do Longá.

Segundo Monsenhor Chaves, David Caldas era um homem desprendido. Em que pese sua situação financeira bastante precária, em 1974, levou para morar em sua casa a irmã, e mais quatro filhas, em razão do falecimento do cunhado.

Diz ainda Wilson Gonçalves que, ante às perseguições e injustiças pungidas pelos seus ferrenhos inimigos, o seu estado de pobreza o levou, em fins de 1877, a uma profunda depressão nervosa, perdendo o contato com a realidade, e passando a viver de abstrações. Um exemplo disso: lançou os princípios de uma nova ciência, a Coincidenciologia, onde se declarava em formação de trindade humana com Gonçalves Dias e Deolindo Moura, o que tentou provar através de cálculos coincidenciológicos, conforme reforça a professora Ana Regina Rêgo.

Em Teresina a 03 de janeiro de 1879, paupérrimo, morre David Caldas, o maior dos republicanos na Província do Piauí.

Para finalizar, Monsenhor Joaquim Chaves anota que o poeta “Licurgo de Paiva, que lhe assistiu nos últimos instantes, diz que ele morreu balbuciando os versos do hino litúrgico – ‘Glória in excelsis Deo’. Poucas horas antes exclamava: “É chegado o dia de vos dar minhas contas ... Sabaoth ... Sabaoth ... Sabaoth ... Três vezes sábio... Três vezes santo...” A igreja católica, contudo, lhe negou sepultamento cristão. Essa negação, de fato, é confirmada pelo grande escritor e poeta, Celso Pinheiro, em seu livro “História da Imprensa”. Ali, Pinheiro enfatiza os continuados atos discriminatórios contra David Caldas:

Mas nem a morte fez arrefecer a vingança dos áulicos imperiais contra o grande republicano. Como a Igreja Católica era ligada ao Estado, David, apesar de grande crente em Deus, e membro da Irmandade do Santíssimo Sacramento, era oficialmente considerado ateu e, como tal, não teve o direito de ser enterrado no cemitério. Cavaram-lhe um túmulo em frente ao portão principal do cemitério São José, debaixo de um velho jatobazeiro ali existente, túmulo que alma caridosa mandou cercar com grade de ferro. Só na década de 1930, quando do calçamento da rua, foram exumados seus ossos e transladados para dentro do cemitério, assim como outros túmulos de protestantes junto ao seu existente”.

(*) Chico Acoram Araújo é funcionário público federal, contista, cronista, poeta e futebolista aposentado. 

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