segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Poucas, Pouquíssimas Lembranças de 1964



                Já afirmei que não fui fulminado – aqui estou para provar -, nem muito menos arrebatado, pelo movimento de 1964. Aliás, pouco me lembro dos acontecimentos daquele 31 de março que incendiou as principais cidades desse imenso Brasil, com o som metálico das lagartas dos tanques retinindo nos paralelepípedos das ruas, enquanto o barulho das botas em ritmo marcial acelerado se elevava e encobria os discursos inflamados dos poucos que se meteram a contestar a marcha verde-oliva que tomava conta do país. No meu cantinho isolado do Maranhão, fiquei longe de tudo, até mesmo das noticias radiofônicas que cruzavam nervosas os céus e pousavam em alguns poucos rádios espalhados pelo sertão. Estava mais interessado em rolar o Dial do velho ABC – A voz de ouro da minha casa, e parar em alguma estação que veiculava uma música da moda. Nada de noticias sobre política. Nem mesmo de esporte, naquele tempo. Estava pouco ligando para os dois assuntos. Alienado? Melhor dizer que o menino de 10 anos estava mais preocupado com outras coisas mais bonitas.

                Meu pai, vereador nessa época, passou a receber visitas de amigos e correligionários, muitos nervosos e, tão por fora quanto eu, que só queriam saber se o acontecido era bom ou ruim para o país e, de resto, para o velho e isolado Curador. Não prestei muito atenção ao que diziam, só me lembro do nervosismo de alguns com as noticias que chegavam até lá. Nas ruas, o grosso da população levava a vida como se nada de anormal estivesse acontecendo, tão distante estavam dos problemas do país, e mais preocupados com o preço do arroz, do feijão e da carne que por aqueles dias andava muito alterado na feira da cidadezinha. No colégio onde estudava, nadica de nada ouvi sobre política. Tudo estava como “dantes no quartel de Abrantes”. Nenhum cochicho, nenhum gesto de satisfação ou insatisfação por parte do corpo docente também.

                Escrevo isto neste momento, devido aos novos tempos que estamos atravessando, com a política tomando o espaço quase todo dos noticiários. Até mesmo as redes sociais estão veiculando à larga noticias nervosas sobre a possibilidade de os militares tomarem conta do país outra vez, desapeando do poder a presidente do país e o seu vice. Tudo anda beirando a histeria, enquanto a turma da boquinha suga sem dó nem piedade as tetas dantes gordas da nação, aproveitando o tempo que lhes resta e o resto do leite que a vaca ainda carrega no úbere.  

                A bem da verdade, pouco mudou em cidades como a minha naquele tempo. Apenas nas capitais, em municípios considerados de segurança nacional e nas estâncias hidro-minerais houve alteração no status quo, uma vez que nessas, os prefeitos passaram a ser escolhidos pelo poder constituído. Nas corrutelas, os prefeitos e os vereadores permaneceram os mesmos, não houve alteração. E logo, todos eles já estavam rezando pela cartilha dos novos donos do poder. Tornaram-se revolucionários desde criancinhas. Político é um bicho com muitos recursos de sobrevivência, superando até mesmo o jumento, ultimo da espécie dos herbívoros a perecer em caso de grave crise no meio ambiente. 

                Nem mesmo quando se instalou na cidade um Batalhão de Engenharia do Exército – iam fazer a estrada de Presidente Dutra a Porto Franco – houve qualquer alteração na situação vigente. Ninguém reclamou de falta de liberdade, nem um só cristão foi para as ruas defender o Presidente deposto pelo pessoal da caserna. Tudo permanecia calmo como água de cacimba.

Alguns dirão que não foi bem assim, esse mar de calmaria. Tivemos um deputado cassado, o primeiro eleito no nosso município. E também alguns representantes da classe política foram levados à capital, coercitivamente, para prestarem algumas informações ao comando militar. Mas, esses assuntos tiveram mais a ver com a política rasteira que acontecia a época no município do que propriamente com questões relacionadas ao conflito esquerda X direita, tão em voga na época.

                A propósito disto, lembro que os militares do exército recém-instalado na cidade andaram fazendo suas rondas nas noites escuras do velho Curador. Mas o objetivo era unicamente o da segurança pública, e não propriamente de segurança nacional. E nessas ocasiões, para não perderem o hábito nem a viagem, andaram descendo a borracha em alguns apreciadores da noite. Principalmente naqueles que procuravam diversão nas casas de prostituição da cidade e, lá, depois de entornar todas, faziam-se de valentes e passavam a riscar o chão com suas amoladíssimas facas peixeira, ou até mesmo demonstravam a sua macheza disparando um tresoitão para o alto. Alguns desses valentões também não devem sentir saudades daquele tempo, uma vez que andaram levando boas e variadas bordoadas no lombo. E para aqueles que sentiram o peso da mão dos milicos mais de uma vez, por reincidência, a única saudade que ficou foi mesmo da humilde cidade, pois foram forçados a sumir de lá.

                Alguns anos depois, quando sai para estudar fora, tomei contato com o período mais duro do regime militar, inclusive quando fui fazer faculdade em Recife, uma das cidades mais resistentes ao regime instalado. Nas universidades de Pernambuco, em meio à estudantada, os partidos mantidos na clandestinidade iam buscar seus adeptos mais aguerridos. Pude sentir isso claramente quando já estava em idade mais avançada.

               

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