terça-feira, 16 de agosto de 2016

ESPECIAL TERESINA 164 ANOS - Capítulo 3

População teresinense em frente ao palácio do governo e ao fórum - 1902 






José Pedro Araújo
 
Vila do Poti, Vila Nova do Poti, Teresina.*

                O local escolhido para situar a nova capital precisou ser alterado, ou mais precisamente, substituído por outro a cerca de uma légua de distância da confluência dos dois rios, Parnaíba e Poti. Por esse tempo, a vila criada no local idealizado por Maia da Gama já estava em franca expansão quando Saraiva a visitou e se decidiu pela mudança. O comércio local vicejava e se expandia com rapidez, até já possuía uma capela erigida em intenção a Nossa Senhora do Amparo, e também um vigário, Mamede Antonio de Lima. Este, aliás, um dos três personagens mais importante no processo de instalação da cidade que logo passou a ser chamada de Teresina, juntamente com o próprio Saraiva e, com o mestre de obras português, João Isidoro de França.
Capela do Amparo - Poti Velho
A Barra do Poti apresentava muitas deficiências, muitos empecilhos a serem resolvidos. Passível de inundações, o local se achacava cercado pelos dois rios e por algumas lagoas, o que o tornava insalubre e propenso a doenças palustres. A escolha de um novo local situado na chapada do corisco foi, portanto, uma decisão acertada e que denota a inteligência dos homens que a proferiram.  A Vila do Poti é hoje um bairro da cidade, muito querido dos teresinenses, no qual, todos os anos, por ocasião da passagem do dia 16 de agosto, sedia as festividades de aniversário da capital. Lá também esta instalado o Polo Cerâmico de Teresina com centenas de ceramistas que produzem um ótimo artesanato a partir do barro argiloso retirado de barreiros da região. As peças produzidas no Poti Velho são respeitadas no mundo inteiro, tanto pela sua qualidade excepcional, quanto pela sua beleza plástica.  
Formada na intercessão dos dois rios desde primórdios do século XVIII, a Vila da Barra do Poti demorou mais de um século para adquirir pequena população, pois possuía lento desenvolvimento. Seus moradores viviam da criação de gado, da pesca e da produção de alimentos. A construção da capela em intenção a Nossa Senhora do Amparo, deu-se ainda no século XVIII, suprindo uma lacuna reclamada pelos moradores  
Somente em setembro de 1827 o imperador D. Pedro I elevou o local à condição de Freguesia, concedendo-lhe foro eclesiástico e civil. E cinco anos depois, em 1832, novo ato imperial elevava a povoação à condição de Vila.
 O pároco local, Frei Mamede Lima, teve importância preponderante no convencimento da população da Barra do Poti para proceder a mudança. Ativo, envolvente e respeitado pelos seus concidadãos, logo se juntou a um grupo de moradores importantes da vila, e partiram para a escolha do lugar ideal para situar a nova povoação. O local escolhido ficava nas terras pertencentes ao sesmeiro Manoel Domingues Gonçalves Pedreira, área situada nas margens do rio Parnaíba, mas em local elevado e plano, com terreno firme, sem a presença dos baixões alagadiços da velha Vila da Barra do Poti. Neste ponto entra em cena o outro personagem importante: João Isidoro da Silva França, ou, Mestre Isidoro França. Foi ele o responsável pelo planejamento urbano da nova vila, como de resto pela construção das primeiras edificações, como a Igreja do Amparo, primeira edificação da nova vila, da Cadeia Pública, do Cemitério Velho(São José), e do Quartel de Polícia.
Este momento histórico importante está registrado em carta dirigida pelo mestre de obras ao Presidente da Província, José Antônio Saraiva. Este é o outro personagem importante nessa história, quiçá o maior deles. Ativo e organizado, o mestre Isidoro deu a conhecer ao administrador o fruto inicial do seu trabalho: “Tenho a grande honra e satisfação de levar ao conhecimento de V. Exa. que no dia 25 do corrente teve lugar a primeira pedra no alicerce da Porta do Evangelho da nova Matriz”. Obra de maior porte em execução, a Matriz transformou-se em problema para a administração central, uma vez tendo apresentado problemas nas suas fundações, o que provocou enormes rachaduras. E isso obrigou o governo a suspender a sua construção por avultado tempo. Enquanto isso, a fofoca corria solta na vila sobre a segurança da obra, incomodando sobremaneira o governo instalado na nova sede.
Conselheiro Saraiva
Pelo que se pode ver, nem um palácio para o governo se tinha, obrigando-se o Presidente da Província a se instalar em casa alugada, situação que permaneceu por muito tempo assim. Depois de pouco mais de dois anos a frente do governo, Saraiva foi embora para a Bahia para desempenhar por lá mandato de deputado provincial. Por aqui, os recursos do tesouro eram tão escassos, que a simples perfuração de um poço cacimbão para abastecer de água os moradores de Teresina, foi motivo de registro em relatório apresentado à assembleia provincial, pelo sucessor de Saraiva. Alegava o administrador aos deputados haver necessidade de se construir mais alguns, mas que as combalidas finanças públicas não permitia. O poço foi perfurado no Largo da Constituição, em frente ao palácio do governo, hoje Praça da Bandeira ou Deodoro.
Era essa a Teresina da época. A maior parte das obras em execução na cidade foram feitas por gente da antiga Vila da Barra do Poti que, convencidos por Saraiva, haviam acreditado na transferência da sede do governo para a Vila Nova do Poti (Teresina). Do mesmo modo, a pedido do Presidente da Província, esses mesmos moradores construíram novos prédios para a instalação das repartições públicas, para a escola de artífices e, sobretudo, para servirem de residência, tanto às autoridades quanto para os demais funcionários transferidos de Oeiras para a nova sede do governo provincial.
Obelisco em homenagem a Saraiva(1859)
Vila da Barra do Poti virou um bairro de Teresina, o Poti Velho e, segundo o Censo de 2010, viviam em torno de 3.730 habitantes. N. S. do Amparo, a santa padroeira de Teresina tem morada em dois templos: o primeiro, transformado hoje em capela, fica exatamente no Poti Velho, e guarda em um nicho construído no seu adro, a imagem da padroeira trazida de Portugal em 1832, doada pela família Pedreira, proprietária da sesmaria onde a nova cidade foi erguida. A Matriz de Nossa Senhora do Amparo, foi construída depois de 1852, no marco Zero da cidade de Teresina, é um dos mais belos templos religiosos do Brasil. A capital, portanto, possui duas moradas para a sua padroeira. E também realiza festa para ela em duas datas: 16 de agosto, em Teresina. E 25 de novembro, no Poti Velho. O templo situado na Praça da Bandeira, com a frente virada para o rio Parnaíba, já passou por inúmeras reformas, e teve as suas duas torres em estilo neogótico erigidas em 1950 para as comemorações do primeiro centenário da cidade, e dela própria.
Teresina teve o seu traçado planejado a partir do Marco Zero. Em formato de xadrez, o planejamento inicial da cidade previa a distribuição, de forma gratuita, de sete quarteirões para o lado sul, e três para o norte. As ruas possuíam forma retilínea, e partiam da Igreja do Amparo em direção ao Poti. Demorou pouco tempo para a cidade começar a tomar forma.
Teresina é hoje uma das mais belas cidades brasileiras, com suas ruas largas, suas avenidas arborizadas, e seus parques instalados ao longo dos rios, e em diversos pontos do seu traçado. Valeu muito a pena a luta de José Antonio Saraiva para instalar na Chapada do Corisco, em pleno sertão, uma comunidade para sediar o governo. A cidade hoje possui as suas contradições, as suas carências, como todas as outras existentes no nosso país, mas como é bela, agradável e charmosa! Parabéns, Teresina, como é gratificante viver aqui!
 * Texto extraído do Portal Maispiaui.com

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