quinta-feira, 21 de maio de 2015

Grande Sertão, Paixão!




            Criou-se em mim, desde sempre, uma grande afinidade com a palavra “sertão”. Agradava-me tanto a sonoridade que ela embutia, como o seu belo significado. No Aurélio, sertão significa ‘região agreste, longe das povoações ou terras despovoadas’. Mas prefiro a definição de Guimarães Rosa: “o sertão é dentro da gente”. Tudo a ver comigo, com a minha ojeriza a multidões, a trânsito complicado, enfim, a gente em demasia.
            Certa vez me deparei com o termo “sertões de dentro” dos historiadores. Definia algo ainda mais interior, encravado no mais profundo do Brasil desconhecido. Passei a gostar mais ainda de ‘ser tão’ de lá de dentro.
Não bastasse já está firmemente abraçado ao termo, João Guimarães Rosa me veio com um tal de Grandes Sertões – Veredas. Um livro. Um estupendo livro. Foi demais. Descreveu ele o sertão de forma magistral. Só ele mesmo para definir tão bem o vocábulo amado. E olha que comecei mal a leitura desse livro, como já havia acontecido com outro sobre outro sertão: o de Euclides da Cunha. Comecei a ler e... parei. Se no livro do Euclides a razão foi a cansativa e avassaladora descrição geográfica do ambiente em que a história se passava, no do Guimarães Rosa foi a avalanche de neologismos e frases de trás pra frente. Isso tudo porque sertão para mim era coisa simples, de fácil entendimento, fácil de sentir e gostar.
Mas, sertão também é coisa áspera, campo de luta, habitat de bravos, foi o que compreendi depois. E assim voltei aos dois livros. Ganhei nova alma com a minha persistência; senti-me mais sertanejo ainda. Como diria o autor: “Ah, uma ideia que vale, ora veja! A gente tem de conceber também, é o bom exemplo pra se aproveitar...” Entenderam? Difícil, não?  
            A obra do Guimarães Rosa ficou para sempre na minha memória e empurra-me sempre para a sua releitura. E ao lê-la novamente, é como se estivesse me debruçando nela pela primeira vez: surpreendo-me a cada virada de página com algo novo. Então passo a me indagar como aquilo me passou despercebido.
E quando pensei que já havia parado de me surpreender com a história de Diadorim e Riobaldo, eis que uma dupla pra lá de competente me surpreende novamente ao lançar a incomparável obra sertaneja em quadrinhos. O roteirista Guazzelli e o quadrinhista Rodrigo Rosa fizeram um trabalho primoroso ao eternizar na nona arte esta obra basilar da literatura brasileira. Sem fugir aos termos e às frases quase ininteligíveis da peãozada mineira, a dupla conseguiu produzir uma obra monumental e de fácil compreensão. Foi paixão a primeira vista. Como sou - os poucos que acompanham já sabem - um grande apreciador dos quadrinhos, foi algo avassalador mesmo.
            Fazer o que eles fizeram foi um ato de coragem. E mesmo correndo grandes riscos ao passar para a graphic novels uma obra prima da língua portuguesa, acredito que a dupla produziu um trabalho que beira à perfeição. Pena que a triste e bela história de Diadorim e Riobaldo não poderá ser vista por um contingente maior de leitores, uma vez que a sua tiragem é limitadíssima e o seu preço de capa muito alto. Para mim, valeu a pena o investimento.
            Comecei esta arenga – o termo é do mestre Cineas Santos – com o propósito de reafirmar o meu amor e o meu respeito por tudo o que diz respeito ao sertão e aos sertanejos, e terminei por propagandear a obra publicada pela Biblioteca Azul. Iniciei o texto para dizer que voltar ao meu sertão – termo que os meus concidadãos reinventaram e transportaram para a palavra Japão – revigora-me e me deixa com a alma em regozijo. Nonada? Não, grandes vivências, seo moço!  

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