sábado, 31 de dezembro de 2016

DOMINGOS DE FUTEBOL NO CURADOR

Central dos anos 80 posando para fotografia no Estádio Adrian Berrospi


José Pedro Araújo

Trato aqui dos jogos disputados lá pelos idos anos sessenta quando as partidas eram disputadas no velho estádio Honorato Gomes (hoje Adrian Berrospi). Modesto campo de futebol que ostentava o nome de “estádio”, cercado de talos de babaçu, bem aparadinhos, juntinhos e em pé para não deixar brechas, em intermináveis cercas de faxina. Era o nosso alçapão no qual, aos domingos, sempre tínhamos time visitante para enfrentar o Central. Nos dias de hoje, fatalmente o chamaríamos de Arena, mesmo não havendo cadeiras para sentar, ou até mesmo arquibancadas, cobertura, essas coisas próprias dos bons estádios de futebol. Assistiam-se aos jogos de pé, disputando espaço na beira do gramado uns com os outros, a cotoveladas.

O campo em si já era uma peculiaridade nossa, pois situado de leste para oeste, possuía uma inclinação um pouco acentuada, ficando a trave ocidental em um ponto muito mais elevado do que  outra. E a grama não era a Esmeralda, plantada em estádios utilizados na Copa do Mundo de 2014, era o nosso resistente Capim-de-Burro, perfeitamente adaptado ao nosso meio. Tão adaptado que nem usávamos o artifício da irrigação para mantê-lo sempre verdinho. Também não possuíamos aquelas máquinas corta-grama para apará-lo. O trabalho era feito pelos jumentos vadios que circulavam aos montes pela região. E a demarcação das suas linhas era feita com cinza. Isso, antes que o estádio fosse cercado. Porque depois disso, o trabalho de aparar a grama era feito pelos desportistas que se utilizavam do instrumento mais conhecido na região: a roçadeira manual. E ficava tudo bem, apesar dos muitos claros que se formavam ao longo das chamadas quatro-linhas. A bola corria macia, e isso era o que importava. Um quique da bola aqui, outro lá; uma matada de canela, ou uma escapulida da gorduchinha, quem se importava!

Outra peculiaridade: não se tirava o par-ou-ímpar para a escolha do lado do campo e de quem sairia jogando. O Central sempre jogava o primeiro tempo na descida, deixando ao adversário a única opção de começar o jogo de baixo para cima, subindo a quase ladeira. E isso se mostrava uma tarefa cruciante. Antes que findasse o primeiro tempo do jogo os jogadores do time visitante já estavam com a língua de fora, estafados. E no segundo tempo, cansados ao extremo, nem mesmo o fato de jogarem na descida era suficiente para trazer de volta a vitalidade perdida. E ainda tinha outra particularidade. Devido à falta de costume de jogar em terreno inclinado, os chutes dados na bola sempre encobriam o travessão, tamanha era a inclinação do terreno.

Outra coisa que eu nunca entendi, era porque o nosso estádio ficava ao lado do cemitério da cidade. E isso me levou a perguntar ao meu pai, certo dia, se era para enterrar os jogadores que morriam em campo. Nem vou relatar a resposta aqui nesse espaço. Sempre fui uma pessoa boba. E aos bobos estão reservadas algumas respostas duras.

Pois bem, como nunca tinha dinheiro para pagar as entradas para assistir às partidas, muitas vezes subia nas árvores que existiam dentro do Cemitério para poder ver o espetáculo que se desenrolava logo ao lado. Mas achar um lugar ali também não era tarefa fácil. A disputa era tão acirrada que tínhamos que chegar cedo para encontrar um lugar bem posicionado. E assim, passávamos horas esperando a partida começar sem descer da árvore.

Certo domingo o adversário era a seleção de Barra do Corda. E esse jogo me chamou a atenção mais que os demais em razão da propaganda que se fez ao longo de várias semanas. Era o “Match of the Century”.  Bom, já que era isso, não deixei meus pais em paz até conseguir o dinheiro para a entrada. E acompanhei tudo antes do prélio começar. Desde a chegada do caminhão com os jogadores barra-cordenses, até o almoço havido na pensão da dona Maria Antônia, na esquina da Magalhães de Almeida com a travessa Nelson Sereno, não perdi um lance. Fiquei por ali ouvindo as conversas dos craques adversários até um pouco antes da saída deles para o estádio. E o que ouvi deles, suas fanfarronices, me deixou aflito: diziam ganhar a partida de goleada. Facilmente. E já no estádio, minhas preocupações somente aumentaram quando vi adentrar ao gramado o time adversário.

Os jogadores me pareceram muito mais vigorosos do que os nossos. Vestindo uma equipagem composta de camisas alvirrubras, listras vermelhas e brancas, alternadas e na vertical, com calções brancos, tudo novinho em folha, os craques adentraram ao gramado e começaram a brincar com a bola, a fazer firulas, matar no peito e rolar para o colega ao lado, tudo na maior intimidade com a pelota. Ai foi a gota d´água. Temi pela sorte do nosso humilde Central frente a adversários tão confiantes e fortes.

Olhava para os nossos craques com suas surradas camisas e calções encardidos, e já ficava com pena da lavada que iriam levar. Mas ai a partida teve início do jeito que sempre começava, com os visitantes “subindo a ladeira”. Vi também que a intimidade dos barra-cordenses com a bola não era tamanha assim. O lateral e o ponta direita, por exemplo, que corriam rente à torcida que ficava do lado da sombra, mostraram-se uns autênticos pernas-de-pau e logo caíram nas graças da torcida. No sentido pejorativo, é claro. E à medida que as brincadeiras se sucediam, seu pequeno futebol ficava menor ainda. Enquanto o isso, o Central ia marcando gol em cima de gol, enchendo a rede do nosso performático adversário.

Devo dizer que fui um tanto injusto com os nossos craques. Não confiei na sua competência tão largamente já demonstrada nos jogos realizados dentro e fora de casa. Afinal, o nosso craque maior, Chiquinho do Zé Pintor, era um centroavante de faro apuradíssimo para o gol. Com seus petardos indefensáveis, ia derrubando a meta adversária logo no primeiro tempo, e ampliando o placar ao lado do meia-atacante Bolfão. Os dois recebendo bolas açucaradas do meia-armador Albino. Por outro lado, o scratch barra-cordense via suas forças diminuírem a cada minuto que passava e já não conseguia mais atormentar o nosso goleiro como nos minutos iniciais da partida. O segundo tempo foi somente para confirmar a vitória e ampliar o placar conseguido na primeira metade do jogo. Caia no Honorato Gomes mais uma vítima do nosso inclinado campo de futebol de então. 

Lembro-me do resultado da partida como se ela tivesse acontecido hoje: 10 x 1. Os jogadores adversários que chegaram aqui contando tanta vantagem, voltaram para a sua terra mais humilhados que os brasileiros após sofrerem os 7 x 1 para a Alemanha. Outra lembrança que trago comigo daquelas tardes encantadoras de futebol era que as chuvas não nos davam trégua no inverno e caíam com intensidade logo na hora dos jogos. E nessas horas a maior parte da torcida procurava se abrigar nas casas humildes situadas na rua ao lado do campo de jogo. Casas humildes, mas, hospitaleiras, pois recebiam dezenas e dezenas de pessoas, a maioria desconhecidas para eles. E ainda nos serviam água quando pedíamos. Quem pratica atos tão bondosos nos dias de hoje? Somente no velho e bom Curador se podia ver tanta generosidade.

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