sábado, 21 de janeiro de 2017

Os Ciganos no Curador




José Pedro Araújo

Situado em uma encruzilhada rodoviária, o Curador sempre foi corredor de passagem para quem transita para muitas partes do estado maranhense. Isso desde quando as rodovias eram somente longilíneos riscos na mata cerrada, caminhos para tropas de burro ou, no máximo, para carros-de-boi. E em meio às tropeadas, também passavam por aqui os ciganos. Geralmente, componentes daqueles grupos paupérrimos e esfarrapados vivam eles do que ganhavam as mulheres com a leitura da sorte dos nativos, mas, e principalmente, dos negócios que efetuavam com a troca de animais. Cláusula pétrea do escambo: só realizavam o negócio se houvesse uma torna em seu favor. Pois era dali que retiravam o sustento.

Quando menino fui testemunha dos muitos grupos de miseráveis e maltrapilhos ciganos que acampavam na entrada da cidade, ao relento, ao mais das vezes sob a copa de árvores. E vinham eles precedidos de má fama. Diziam-se que roubavam crianças, e aí as donas de casa ficavam alerta e apertavam o cerco aos filhos ainda pequenos. Depois, diziam-se que roubavam tudo que se achasse à altura das mãos e por onde passavam. Talvez haja grande excesso de preconceito nessas afirmações, mas, o certo é que eles formavam uma trupe amedrontadora, sobretudo quando cruzavam com outro grupo adversário. Aí a possibilidade de haver confronto era grande, pois sempre haviam rixas a serem resolvidas. E não foram poucas as vezes que do embate alguns cadáveres restaram caídos no pó das estradas.

Para nós, pré-adolescentes, havia outra fama a ser conferida. Dizia-se à boca pequena que as meninas ciganas faziam a sua iniciação sexual ainda bem jovens, e que se ofereciam a troco de qualquer presente. Bem, nunca constatei isso. Mas alguns colegas contavam - de ouvir dizer, é certo - que o fulano de tal havia espalhado que havia se envolvido com uma ciganinha simpática e oferecida nas margens de um riacho em Tuntum quando o seu grupo de viandantes passou por aquela cidade.

Mas não existem apenas bandos de ciganos maltrapilhos. Existem aqueles grupos mais ricos, que transitam em uma frota de veículos automotores, alguns deles em carros de última geração. Estes, acomodam-se também em tendas de grande estilo, lindas de se ver, algumas tão grandes que possuem até mesmo divisórias internas e alpendre.  Do mesmo modo, existem ciganos ricos e semissedentários, que desenvolvem atividades lucrativas e possuem endereços fixos. A história antiga já apontava que em bairros do Rio de Janeiro como o da Saúde, Gamboa e Santo Cristo, por exemplo, moravam muitas famílias ciganas. E ainda hoje existem muitos deles abastados e que residem na cidade, como de resto em muitas outras pelo Brasil afora.

Mas eu quero aqui me reportar a um grupo nômade que transitiva por esse Brasil imenso com conforto e a bordo de uma moderna frota de veículos. Isso se deu lá pelo fim dos anos sessenta, quando eu ainda residia permanentemente na cidade. Naquele tempo a parte de baixo da Praça do Mercado era um grande vazio e local em que os circos se estabeleciam. Foi lá também que a comitiva de ciganos bem postados na vida ergueu as suas tendas vistosas e coloridas. Logo viraram atração pública. Eu, que na época cursava o ginásio no Colégio Presidente Dutra, a poucos passos dali, também matava a minha curiosidade todos os dias em visitas àquele local. Mas havia outra razão para sempre passar por lá. E isso podia acontecer no horário de ir para o colégio, à noite, mas também em outras horas do dia. A razão da minha atração era um par de moças, das mais lindas que eu havia visto até então. Até parecia que a Gigliola Cinquetti, a Marilyn Monroe, ou mesmo a Audrey Hapburn haviam desembarcado na cidade.

A trupe era composta por ciganos legítimos, daqueles originários de países como a Hungria ou a Bulgária, a julgar pelo aspecto dos homens, dos trajes excêntricos e da fala com forte sotaque estrangeiro. E as duas princesas eram filhas do chefe daquele grupo que negociava com produtos à base de cobre, joias e semijoias finas. Era dali que eles tiravam o sustento. Mas as mulheres também faziam a leitura das mãos, praticavam a dadomancia ou jogavam runas e ganhavam o próprio dinheirinho, como já é praxe no meio em que vivem. E como se tratasse de mulheres finas, bem vestidas e perfumadas, não precisavam sair pela rua em busca de clientes. Permaneciam nas tendas e recebiam uma vasta clientela interessada em conhecer o seu futuro, mas também em matar a curiosidade de conhecer in loco a razão de tanta euforia na cidade.

As duas moças, como já falei, eram lindas de viver. E apesar de irmãs, uma era bem alva, olhos claros, e a outra possuía a pela amorenada, cabelos bem escuros e olhos amendoados. Não dava para saber qual era a mais bonita. Ou melhor, dava. E isso por uma razão simples: o galã da cidade, Remy Soares, fez a corte a mais alva. E dizem que chegou a namorar com ela. Remy era também um rapaz bonito, rico, e muito articulado, que veio depois a ser um dos maiores líderes políticos da terra, sobre quem já escrevi um longo texto e o publiquei aqui nesse espaço. E em sendo assim, a inveja que se abateu sobre todos nós transformou a sua escolhida na mais bonita das duas moças. A disputa foi resolvida simplesmente assim. A mais alva era a mais bonita. Pronto.

E então, as histórias mais criativas começaram a circular pela cidade. Algumas pessoas mais bem informadas afirmavam que as duas moças, juntamente com os pais, foram recebidos pelo casal Salomão Soares e dona Zilda Soares em um lauto jantar na sua bela e confortável residência. O casal de anfitriões era considerado o mais rico da cidade, e a casa de morada que habitavam a mais chique daquele tempo. Daí ter sido assunto mais que tratado nas rodas de conversa. Afirmam também que a eleita pelo jovem conterrâneo recebera de presente uma moderna vitrola (chamávamos radiola). Afirmavam, por fim, que o galã ficou muito triste quando as moças se foram, e que chegara até a propor uma relação mais firme com a sua eleita. Mas, fora alertado que quem se unia a um dos membros daquela família teria que seguir com o grupo, morar com eles e viver da mesma forma que eles. E isso fez com que o rapaz refluísse do seu propósito. Mesmo com grande tristeza instalada no coração.

Bem, deixando para lá essas divagações, posso afirmar mais uma vez que as moças eram de incomparável beleza, altas, esguias, e se apresentavam sempre belas e perfumadas, vestindo-se com aqueles característicos trajes que somente víamos nas telas de cinema: vestimentas com muitos adereços dourados e sapatos belos e encimados por fivelas também douradas. É tudo o que eu me lembro agora, decorridos tantos anos. Deixaram saudade quando foram-se embora. E para uma cidadezinha sem grandes novidades, deixaram um vazio no largo do mercado, até que o próximo circo ali veio se estabelecer e trouxe as suas artistas para alegrar o público saudoso.

Agora, contudo, estávamos mais exigentes quanto à beleza e a elegância das nossas musas. Não seria qualquer trapezista ou partner de palhaço que iria cair no nosso gosto. Não! Teria que ser bela, vestir-se elegantemente e despejar simpatia a mãos cheias como fizeram as duas ciganas mais belas que o sol do Curador já banhou com seus raios luminosos. Se existiam outras moças naquele grupo? Existiam, sim. Muitas outras, até certo ponto belas também, mas não me recordo de nenhuma delas.

2 comentários:

  1. Nobre José Pedro Araújo, gosto muito de suas produções, especialmente, quando trata de história local e regional. Sou professor de História em Tuntum e Santa Filomena e sempre que me deparo com textos que citam, façam a TUNTUM, fico com a curiosidade aguçada, pois tenho tentado fazer um trabalho de resgate de nossa história. A dificuldade é enorme e o Nobre Escritor sabe bem. Tua obra: Viajando do Curador a Presidente Dutra nos oferece importantes referências e subsídios para a nossa jornada. Deste modo, gostaria muito de dialogar contigo, pois como exalas cultura, terá muito para contribuir. Também alimento o blog Ecos de Tuntum: http://ecosdetuntum.blogspot.com.br/, no qual posto textos sobre TUNTUM. Gostaria também de ter a oportunidade de conhecer-te pessoalmente e solicitar que autografe o livro.

    Jean Carlos Gonçalves.

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