quinta-feira, 23 de julho de 2015

A Mercearia Mais Suja do Mundo

Fotografia ilustrativa


                                                         
O ambiente era um dos mais aprazíveis do Recife, o bairro de Dois Irmãos. Naquele ambiente interiorano, situa-se a Universidade Federal Rural de Pernambuco, um belíssimo projeto arquitetônico construído em meio a um complexo de árvores frutíferas para abrigar uma das mais conceituadas universidades do nordeste, bem próximo ao Zoobotânico do Recife. Juntinho ainda do belo Apipucos de Gilberto Freire. O período a que me refiro é a década de setenta, época em que estudava naquela unidade federal de ensino superior. Morador do campus, durante a semana me alimentava no próprio restaurante universitário. A comida era farta e de boa qualidade e o restaurante tinha como único senão o fato de fechar nos finais de semana e feriados. Assim, contrariando o que sempre se afirma, não gostávamos muito desses períodos sem aula, quando o velho restaurante cerrava as portas. Quando tínhamos algum dinheiro, ainda dava para quebrar o galho na Cantina do João, onde era possível saborear um belo prato de macarrão com um vistoso e saboroso ovo estrelado e encavalado sobre o monte de massa. Em contrapartida, se a grana estivesse curtíssima, como sempre acontecia, recorríamos a uma mercearia que ficava logo à entrada do campus.



Confesso que sou daqueles que acredita que o tempo tem o poder de agir como uma espécie de esponja que vai apagando as lembranças ruins da nossa mente e deixa somente a parte boa da nossa “aventura humana na terra”. Somente isso explica o fato de estar hoje considerando aquele ambiente funesto e nauseabundo como mercearia. Na verdade, era o que convencionamos chamar de bodega ou birosca, um autêntico mosqueiro, na acepção da palavra. A bodega ficava situada bem na beira da via pública, no começo de uma curva bem acentuada. Logo à primeira vista era possível se depreender o que encontraríamos no seu interior. A parede frontal do comércio estava sempre suja, e parecia está há muitos anos sem uma demão de tinta. Parte daquela sujeira era causada pelas rodas dos veículos que transitavam por ali e costumavam espirrar a água da sarjeta diretamente nela, enlameando-a e deixando-a como se fosse uma aquarela mal-acabada. Mas a impressão primeira era bastante piorada quando se entrava no local. A sujeira e a desarrumação no seu interior suplantavam em muito o que se via no lado de fora. 



Quem atendia à clientela era um homem moreno e de meia idade, barriga proeminente e estufada, à mostra pela abertura da camisa completamente escancarada, posto que nem um único botão se mantivesse abotoado. No ambiente completamente sob a penumbra, no que pese ainda estarmos com o sol alto, o que se via era um homem de aspecto muito sujo, o suor escorrendo em cascata pela testa e fronte e os cabelos encaracolados sempre em completo desalinho. No interior do comércio a situação era de completa desarrumação, como já informamos, com as mercadorias empilhadas pelo chão ou encostadas na parede. Algumas prateleiras toscas e mal-arranjadas serviam como depositário de uma infinidade de caixas e vários outros produtos arrumados sem nenhuma lógica, jogados ao léu como se fora algo imprestável. Sobre o tampo do extenso balcão já beirando à ruína, espalhavam-se um amontoado de papéis de embrulho, rolos de fumo-de-corda, latas de biscoito já completamente enferrujadas, alpercatas de couro, lamparinas amarradas em pencas, e poeira, muita poeira encobrindo tudo. E no centro de tudo aquilo, encostado ao velho balcão, o proprietário olhava para o cliente com aquele olhar de peixe morto, a preguiça e o péssimo humor avultando à tristeza do ambiente.



Atrás dele, empilhados em um caixote decrépito de madeira, estava o produto que costumeiramente vínhamos comprar: bandejas de pão-doce. Pão doce, porque era mais barato e mais palatável, estando ainda macio naquele instante, no que pese ter sido fabricado nos dias anteriores. Mas o pior era observar aquele enxame de moscas esvoaçando sobre eles, atraídas pelo doce que os encobria. Era algo repugnante, mas tínhamos a nossa forma de defesa também. Para desgosto do quitandeiro, pedíamos que ele retirasse os pães que estavam embaixo da pilha. E ele, mesmo a conta-gosto, metia a mão suja, unhas carregadas de escórias, na parte de baixo da pilha de pães e retirava de lá a quantidade que queríamos, embrulhava no papel sujo e riscado que ele mantinha sobre o balcão e nos entregava, após o devido pagamento realizado. Pronto. Saiamos correndo do local para apagar da mente aquela imagem repugnante que saltava aos olhos e assim poder comer o nosso frugal jantar.



Mas, tudo tem limite. Uma coisa que eu nunca consegui fazer foi tomar o refresco que o merceeiro vendia e que conservava na velha geladeira, de um dia para o outro, dentro de uma panela velha e amassada. Era preferível comprar os saquinhos de Ki-Suco e fazermos o refresco nós mesmos.



Quando me encontro à mesa da sala de jantar, rodeado pela filharada que reclama da qualidade da comida cheirosa e bem apetitosa feita pela nossa secretária, evoca à minha mente a imagem que nem o tempo conseguiu minimizar daquela mercearia imunda e mal-cheirosa lá no Recife. É certo que todos precisam passar por experiências como aquela para poder dar valor às coisas que conseguimos ganhar; ao pão de cada dia que nunca nos têm faltado. Agradeço a Deus todos os dias pela mesa farta, assim também pela experiência vivida. Somente as vicissitudes da vida e os maus momentos têm o dom de fortalecer o nosso ânimo e temperar a nossa força de vontade na busca de uma posição melhor. Salve, portanto, a mercearia mais suja do mundo. Eleita porque, nas minhas andanças Brasil afora, e um pouco pelo resto do mundo também, nunca mais me deparei com um lugar terrível como aquele. 


4 comentários:

  1. Caro JP, essa bodega tão suja me trouxe à mente estes versos de Osvald de Andrade:
    No baile da Corte
    Foi o Conde d'Eu quem disse
    Pra Dona Benvinda
    Que farinha de Suruí
    Pinga de Parati
    Fumo de Baependi
    É comê bebê pitá e caí

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    1. No caso presente, salvo algum desarranjo intestinal, escapamos milagrosamente. Se a memória tem um apagador para as coisas ruins, ainda não funcionou comigo.

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  2. Diante de sua ressalva figurando as antipatias de nossos filhos em n querer comida A e B. Meu pai sempre diz: Isso é pouca fome!!!!

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    1. Isso também, meu amigo! Pouca fome e muito dengo!

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